INSTINTO DO AMOR
THE MACGREGOR BRIDES
NORA ROBERTS

Nora Roberts - MacGregors 06


Aos noventa anos, no h nada que o poderoso patriarca do cl MacGregor deseje mais do que ver as trs netas mais velhas casadas e felizes. Para isso, escolheu a
dedo trs candidatos acima de qualquer suspeita para serem maridos perfeitos. Porm, Daniel ter de provar que sua habilidade para formar casais nunca passou de 
moda.
Afinal, Laura, Gwendolyn e Julia esto mais preocupadas com suas carreiras do que em dar continuidade ao cl... e casamento  a ltima coisa em que pensam! Ainda 
bem que Daniel possui alguns trunfos na manga... 
Nestas trs cativantes histrias. Nora Roberts, autora nmero um da lista de best sellers do The New York Times, nos apresenta  nova gerao dos MacGregors, uma 
das famlias americanas mais famosas e populares de todos os tempos, fundada por um patriarca com infalvel instinto para o amor e para o casamento.

Digitalizao: Rita C.
Reviso: Cris Paiva



Traduo Gracinda Vasconcelos

HARLEQUIN
B O O K S
2007

PUBLICADO SOB ACORDO COM HARLEQUIN ENTERPRISES II B.V./S..r.l.
Todos os direitos reservados. Proibidos a reproduo, o armazenamento ou a transmisso, no todo ou em parte, por quaisquer meios.

Todos os personagens desta obra so fictcios. Qualquer semelhana com pessoas vivas ou mortas  mera coincidncia.

Copyright (c) 1997 by Nora Roberts
Originalmente publicado em 1997 por Silhouette Single Title
Ttulo original: THE MACGREGOR BRIDES

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Das Memrias Secretas de Daniel Duncan MacGregor

Quando um homem chega aos 90 anos, fica tentado a olhar para trs, a avaliar, a considerar seus triunfos e seus erros. Com freqncia, pode pensar: "E se eu tivesse 
feito deste modo em vez daquele?" Ou "Se eu pudesse voltar no tempo."
Bem, eu no tenho tempo para esse tipo de bobagem.
Eu olho para frente. Sempre fiz isso. Sou um escocs que viveu a maior parte da vida fora da terra natal. A Amrica  meu lar. Constru minha famlia e criei meus 
filhos aqui. Vi meus netos crescerem. Pelos ltimos sessenta anos, amei apenas uma mulher, vivi com ela, admirei-a, trabalhei com ela. E trabalhei em volta dela, 
quando no havia outro jeito.
Minha Anna  o que tenho de mais precioso. Entre ns... bem, ns tivemos uma vida maravilhosa.
Sou um homem rico. Oh, no apenas em dlares e propriedades, mas em famlia. E a famlia vem em primeiro lugar. Isso  outra coisa que sempre foi e sempre ser parte 
de minha vida. Minha Anna e eu tivemos trs filhos. Dois rapazes e uma moa. Meu orgulho por eles  quase to grande quanto meu amor.
Tenho que admitir, no entanto, que foi necessrio, em certa ocasio, dar um empurrozinho nessas trs pessoas de personalidades fortes, para lembr-los de suas responsabilidades 
para com o nome dos MacGregors. Sinto dizer que meus filhos eram um pouco lerdos nesse aspecto, e sua me ficava preocupada.
Ento, com um pouco de ajuda, todos se casaram bem. Com isso, quero dizer que eles encontraram seus respectivos parceiros e essas unies deram a Anna e a mim mais 
duas filhas e outro filho. Boa linhagem, sangue forte  altura dos MacGregors.
Agora, tenho onze netos, trs deles MacGregors honorrios, apesar de levarem o nome Campbell, Campbell, Deus nos ajude, mas so timas crianas, apesar disso. Todos 
eles tm sido a alegria de nossas vidas nos ltimos anos, enquanto Anna e eu os observamos crescer e se transformarem de bebs em adultos.
Tal como os pais, eles tambm so lerdos em seus deveres, quanto a entender a importncia do casamento e da famlia. Isso preocupa a av deles dia e noite. E eu 
no sou homem de ficar quieto a ouvir as lamrias de minha mulher. No, definitivamente, no sou esse tipo de homem. Portanto, estudei o assunto com cuidado.
Minhas trs netas mais velhas esto na idade de se casar. So mulheres fortes, inteligentes e lindas. Esto abrindo seu caminho no mundo com os prprios esforos. 
Essas coisas - assim Anna me ensinou - so to importantes para a mulher quanto para o homem. Com Laura, Gwendolyn e Julia, tenho uma advogada, uma mdica e uma 
mulher de negcios em minhas mos. Brilhantes e amorosas so minhas netas! Portanto, os homens que escolherem para construir uma famlia tero que ser de fato extraordinrios. 
No vou permitir nada menos que isso.
Estou de olho nesse belo trio de rapazes. Todos descendem de sangue bom, linhagem forte. So homens bonitos tambm. Ah, eles no vo formar belos casais e dar-nos 
adorveis bebs?
Um de cada vez,  o plano.  melhor nesses casos dar a cada um minha ateno total. Portanto, vou comear com Laura. Afinal, ela  a mais velha.
Se no conseguir que a jovem Laura esteja cheirando flores de laranjeira pelo Natal, meu nome no ser mais Daniel MacGregor.
Uma vez que ela estiver arrumada, j tenho um rapaz em mente para minha querida Gwen. Julia talvez seja a mais difcil das trs, mas estou cuidando disso.
Apenas um empurrozinho  tudo que preciso dar a elas. No sou intrometido. Apenas um av preocupado no inverno da vida. E pretendo que esse seja um inverno bem 
duradouro. Verei meus bisnetos crescerem.
E como poderei fazer isso se aquelas moas no se casarem e produzirem belos bebs, pergunto-lhes eu? Ah... Bem, vamos providenciar para que isso acontea... Para 
que Anna no fique preocupada,  claro.


Um

O telefone tocou sete vezes antes de alcanar o recanto recndito de seu crebro adormecido. No oitavo toque, ela conseguiu deslizar a mo para fora das cobertas. 
Bateu no alarme do despertador e no rosto alegre de Kermit, seu sapo de pelcia, jogando-o ao cho. Era a terceira vez que o sapo morria naquele ano.
Seus dedos longos e sem adornos apalparam a superfcie polida do criado-mudo e finalmente seguraram o telefone, levando-o para debaixo das cobertas com ela,
- Al!
- O telefone tocou dez vezes.
Com a cabea coberta, Laura MacGregor sobressaltou-se ante a acusao retumbante. Em seguida, bocejou.
-  mesmo?
- Dez vezes! Mais um toque e eu j estava pronto para chamar a polcia. J a estava vendo na cama envolta em uma poa de sangue.
- Cama! - conseguiu dizer e espreguiou-se no travesseiro. - Dormindo... Boa noite...
- So quase 8h!
- Da noite?
- Da manh. - Agora Daniel MacGregor conseguira identificar a voz e sabia qual de suas netas estava enterrada embaixo dos lenis num horrio em que ele considerava 
a metade do dia. - J devia estar de p e se divertindo, menina, em vez de ficar dormindo.
- Por qu?
Ele se exasperou. A vida est passando por voc, Laura. Sua av est preocupada. Na noite passada ela estava comentando que no tinha um minuto de sossego de to 
preocupada que estava com a neta mais velha.
Anna no havia dito nada daquilo. No entanto, usar o nome da mulher para obrigar a famlia a fazer o que ele queria era um hbito antigo. Os MacGregors valorizavam 
as tradies.
- Est bem. Tudo. Vou voltar a dormir agora, v.
- Levante-se, menina. Voc no visita sua av h semanas. Ela est definhando. S porque acha que j  uma mulher adulta de 24 anos, no significa que deve esquecer 
sua velha av.
MacGregor estremeceu e voltou o olhar em direo  porta para se certificar de que estava bem fechada. Se Anna o ouvisse cham-la de velha, poderia considerar-se 
escalpelado.
- Venha passar o fim de semana conosco - pediu ele. - Traga suas primas.
- Tenho uma petio para ler - murmurou ela e sua mente comeou mais uma vez a flutuar. - Mas irei em breve.
- Que seja bem breve. Ns no vamos viver para sempre, sabia?
- Ah, voc vai!
- Ah. Eu te mandei um presente. Deve chegar esta manh. Portanto, saia da cama e se arrume. Ponha um vestido.
- Est bem. Obrigada, vov. At logo.
Laura jogou o telefone no cho, enterrou a cabea embaixo do travesseiro e entregou-se outra vez ao sono acolhedor.
Vinte minutos mais tarde, ela foi bruscamente despertada com um safano e um xingamento.
- Droga, Laura. Voc fez isso de novo!
- O qu? - Ela sentou-se na cama, os olhos negros arregalados e vidrados, o cabelo negro desgrenhado. - O qu?
- Deixou o telefone fora do gancho. - Julia MacGregor ps as mos na cintura. - Eu estava esperando uma ligao.
- Eu... ah... - A mente de Laura no conseguia se focar. Passou as mos pelos cabelos como para clarear os pensamentos. Manhs, definitivamente, no eram a melhor 
parte de seu dia. - Acho que o vov ligou. Talvez. No consigo me lembrar.
- Eu no ouvi o telefone. - Julia deu de ombros. - Acho que estava no chuveiro. Gwen j saiu para o hospital. O que o vov queria? - Como Laura continuava com o 
olhar perdido no tempo, Julia deu uma risada e sentou-se na beirada da cama. - Provavelmente o de sempre. "Sua av est preocupada com voc."
- Acho que me lembro de ele ter dito algo do gnero. - Sorrindo, Laura voltou para debaixo das cobertas. - Se voc tivesse sado rapidamente do chuveiro, teria atendido 
 chamada e ento a vov estaria preocupada com voc.
- Ela j se preocupou comigo na semana passada. - Julia fitou seu relgio antigo de marcassita. - Tenho que correr para dar uma olhada naquela propriedade em Brookline.
- Outra? Voc no acabou de comprar uma casa no ms passado?
- Foi h dois meses e est quase pronta para ser vendida. - Julia balanou a cabeleira cacheada cor de fogo. - J est em tempo de iniciar um novo projeto.
- O que for melhor para voc. Meu grande plano era dormir at o meio-dia e depois passar o resto da tarde lendo uma petio. - Laura virou de lado. - O que no  
nada fcil nesta casa.
- Ter o lugar todo para voc nas prximas horas. Gwen far planto duplo no hospital e no voltar antes das cinco.
- No  minha noite de cozinhar.
- Vou trazer qualquer coisa.
- Pizza - disse Laura de imediato. Quatro queijos e azeitonas pretas.
- Nunca  cedo demais para voc pensar no jantar - acusou Julia, alisando a jaqueta verde que vestia. - Vejo-a  noite - gritou j da porta. - E no deixe o telefone 
fora do gancho!
Laura estudou o teto, contemplando os reflexos da luz do sol e considerou a possibilidade de esconder mais uma vez a cabea embaixo das cobertas. Poderia dormir 
pelo menos mais uma hora. Voltar a dormir nunca foi um problema para ela e esse talento a ajudou bastante na faculdade de direito.
Mas a idia da pizza acirrou seu apetite. Quando havia uma opo entre dormir e comer, Laura encarava seu maior dilema. Assim sendo, jogou as cobertas de lado, pois 
a comida ganhou a batalha. Ela vestia uma camiseta branca e um short de seda azul.
Laura morava com as primas desde a poca da faculdade e h dois anos dividiam a casa de Back Bay, em Boston. A idia de pegar um robe nunca lhe ocorria A atraente 
casa  beira mar, uma das mais recentes reformas de Julia, e seu mais novo lar, era decorada com uma ecltica mistura de gostos das trs primas. O amor de Gwen por 
antigidades, o gosto de Julia por arte moderna e a atrao de Laura pelo kitsch.
Ela desceu a escada, deslizando os dedos pela superfcie macia do corrimo. Deu uma olhada rpida pela janela de vidro da porta da frente, para se certificar de 
que se tratava realmente de uma bela e ensolarada manh de outono e seguiu pelo corredor em direo  cozinha.
Apesar de cada uma das primas ter uma mente afiada, meticulosamente aplicada em sua rea especfica de atuao, nenhuma delas possua qualquer talento em especial 
para aquele cmodo em particular. Mesmo assim, conseguiram transform-lo em algo acolhedor, com as paredes de um amarelo suave contrastando com o azul profundo das 
bancadas e os armrios com portas de vidro,
Laura sempre se sentira grata pelo fato de as trs combinarem to bem. Gwen e Julia eram suas melhores amigas, alm de suas primas. Juntamente com o resto do cl 
MacGregor, conforme Laura os considerava, a extensa gama de descendentes de Daniel e Anna constitua uma famlia unida, apesar de contrastante.
Ela relanceou o olhar pelo relgio azul em forma de gato na parede. Os olhos brilhantes de diamante e a cauda balanando ao ritmo das badaladas. Laura pensou nos 
pais e imaginou se eles estariam se divertindo em suas bem merecidas frias nas ndias Ocidentais. Sem dvida deveriam estar. Caine e Diana MacGregor formavam uma 
unidade slida. Marido e mulher, pais e scios no trabalho. Aps vinte e cinco anos de casados, haviam criado dois filhos e construdo uma das mais respeitveis 
firmas de direito de Boston e tudo isso no diminura a devoo que nutriam um pelo outro.
Laura no conseguia conceber a quantidade de esforo que tudo isso requeria para dar certo. Para ela, pelo menos no momento, s existia o Direito. Correo, pensou, 
e riu para o refrigerador. No momento, s existia o desjejum.
Ela alcanou o walkman sobre a bancada e ajustou os fones de ouvido. Uma msica suave com a refeio matinal, pensou, e acionou a fita.
Royce Cameron estacionou seu Jeep atrs de um pequeno carro conversvel. O tipo de carro e cor, pensou ele, que gritava: "Polcia, ponha uma multa no meu pra-brisa, 
por favor!" Ele meneou a cabea e ento voltou o olhar para estudar a casa.
Era uma beleza! Mas j se esperava naquela rea de Back Bay e ainda mais com a linhagem de seus proprietrios. Boston era conhecida pelos Red Sox, Paul Revere e 
pelos MacGregors.
No entanto, ele no pensava no dinheiro ou em classe social, enquanto estudava a casa. Seus frios olhos azuis escrutinavam janelas e portas. Muito vidro havia sido 
utilizado, concluiu ele, enquanto a brisa revigorante de outono balanava seu espesso cabelo castanho. Muito vidro significava muito acesso. Ele comeou a descer 
o caminho de pedra circundado de flores e, em seguida, atravessou a relva impecvel para verificar as portas que se abriam para um pequeno ptio.
Ele as testou e percebeu que estavam fechadas. Apesar de notar que bastaria um bom chute ou um empurro e estaria l dentro. Seus olhos permaneciam frios, a boca 
formava uma linha dura em um rosto cheio de curvas e ngulos. Era o rosto que a mulher com quem um dia quase se casara chamara de criminoso. No havia questionado 
o que aquilo significava, pois, na ocasio, tudo estava na mais perfeita ordem entre eles e no se importara muito.
Poderia significar um rosto frio e agora, certamente, era, enquanto calculava o acesso quela casa maravilhosa, que naturalmente estaria repleta de antigidades 
e jias que as mulheres ricas de certas classes adoravam ostentar. Seus olhos eram de um azul plido e frio que podia se tornar profundo e intenso inesperadamente. 
A boca formava uma linha firme que poderia curvar-se em charme ou retesar-se como gelo. Uma pequena cicatriz marcava o queixo forte, resultado de um contato abrupto 
com um anel de diamantes em um punho fechado. Sua estatura no passava de um metro e oitenta e tinha o corpo de um boxeador ou de um brigo.
E ele havia sido os dois.
Agora, enquanto a brisa emaranhava a onda de cabelos revoltos, ele concluiu que poderia entrar naquela casa sem o mnimo esforo, mesmo sem possuir a chave da porta.
Ele caminhou em volta e, em seguida, tocou vrias vezes a campainha, enquanto olhava atravs da extravagante porta de vidro da entrada. Era bonita, pensou, com motivos 
florais em vidro fosco. E era to segura quanto uma casca de ovo.
Mais uma vez, tocou a campainha com insistncia, retirou a chave do bolso e entrou sem cerimnia.
O ambiente tinha um cheiro feminino. Aquele foi seu primeiro pensamento, enquanto caminhava pelo vestbulo at chegar ao salo. Ctrico, leos, flores e o odor sedutor 
de perfume no ar. A escada ficava  direita e a porta de uma acolhedora sala de visitas  esquerda.
Limpa como um berrio, pensou, com o aroma sensual de um bordel. Mulheres... Para Royce, elas eram uma caixa de surpresas.
O interior era de fato como imaginara. Uma bela moblia antiga, cores suaves, cortinas caras. E, ele pensou, ao notar o brilho dos brincos sobre uma mesa redonda, 
as bugigangas caras que alguma delas deixara de lado. 
Ele retirou um pequeno gravador do bolso da cala jeans e comeou a tomar algumas notas enquanto caminhava.
Uma tela enorme salpicada de cores extravagantes, que se destacava acima da cornija da lareira, chamou sua ateno. Aquele quadro parecia em dissonncia com p ambiente. 
Uma exploso selvagem de cores e formas em um aposento to calmo. Em vez de consider-lo distoante, ele o achou atraente. Uma celebrao  paixo e  vida.
Notou a assinatura no canto da obra, D.C. MacGregor, e deduziu que o artista talvez fosse um dos muitos primos. Naquele instante, ouviu algum cantando.
No. Com toda a honestidade, aquele som no poderia ser chamado de canto, pensou ele, colocando o gravador de volta no bolso e caminhando pelo corredor. Grito, berro, 
uivo, talvez ganido, fossem termos mais adequados para descrever tal massacre vocal de um dos sucessos romnticos de Whitney Houston.
Mas aquilo significava que, afinal, no estava sozinho na casa. Caminhou pelo corredor em direo ao barulho e, quando entrou na cozinha arejada, seu rosto iluminou-se 
com um sorriso de puro deleite.
Ela era alta, pensou, e a maior parte do corpo era constituda de pernas. Macias e douradas. Aquela viso compensava em muito a falta de talento vocal. E a forma 
como ela se movia, com a cabea enfiada na geladeira e os quadris balanando, circulando, proporcionava um show to sensual que nenhum homem, vivo ou morto, reclamaria 
de assistir.
O cabelo dela era negro como uma noite sem luar, liso como a chuva e caa at a cintura, que implorava para ser tocado pelas mos de um homem.
Ela estava vestindo o pijama mais sexy que ele j tivera o prazer de observar. Se o rosto fizesse jus quele corpo, iluminaria sua manh.
- Desculpe-me. - Ele levantou uma sobrancelha quando, em vez de virar-se como seria esperado, ela continuou a cantar e a fuar dentro da geladeira. - Olhe, moa, 
no  que eu no esteja gostando do show, mas voc pode querer cobrar cach e...
Os quadris redondos executaram dois movimentos bruscos que o fizeram soltar um assovio. E ento ela elevou a voz, alcanando uma nota que teria quebrado cristais 
e virou-se com uma coxa de galinha em uma das mos e um refrigerante na outra.
Ela soltou um berro e Royce levantou a mo, comeando a explicar-se.
Com a msica ainda martelando a mente, tudo o que Laura conseguiu ver foi um completo estranho com o cabelo desgrenhado pelo vento, cala jeans desbotada e um rosto 
que parecia capaz de fornecer combustvel para inflamar mil demnios.
Mirando a cabea do homem, ela lanou uma lata de refrigerante. Ele conseguiu agarr-la um segundo antes que se espatifasse entre seus olhos. Mas, em instantes, 
ela girou em direo  bancada. Quando se virou outra vez, segurava uma faca em uma das mos e exibia um olhar que o avisava que no pensaria duas vezes para enterr-la 
nele.
- Calma! - ele levantou ambas as mos e tentou manter o tom de voz brando.
- No se mova. Nem respire! - gritou ela, enquanto se esgueirava pela bancada em direo ao telefone. - D um passo  frente ou para trs e eu corto seu corao 
fora.
Royce concluiu que poderia desarm-la em menos de vinte segundos, mas um dos dois, provavelmente ele, precisaria levar alguns pontos em seguida.
- No estou me movendo. Olhe, voc no respondeu quando toquei a campainha. Eu estou aqui apenas para... -Foi nesse instante que ele notou os fones de ouvido. - 
Bem, isso explica tudo. - Muito lentamente, ele levou um dos dedos  orelha e deslizou-o pela cabea at o outro lado. - Tire os fones.
Laura tinha conscincia apenas da msica e do sangue que corria rpido em suas veias.
- Eu disse para no se mover. Vou chamar a polcia.
- Est bem. - Royce tentou um sorriso. - Mas vai fazer papel de tola, pois estou apenas fazendo meu servio. Cameron - Servios de Segurana. Voc no respondeu 
quando toquei a campainha. Acho que a Whitney estava cantando muito alto. - Ele a encarava bem dentro dos olhos. - Vou lhe mostrar minha identidade profissional.
- Use apenas dois dedos - ordenou ela. - E mova-se bem devagar.
Essa era exatamente sua inteno. Aqueles olhos negros exibiam mais beligerncia e violncia do que medo. Uma mulher que podia encarar um estranho sozinha, de faca 
em punho, sem tremer, no era para ser desafiada.
- Eu tinha uma reunio marcada s 9 horas para avaliar a casa e discutir os sistemas.
Ela abaixou o olhar para verificar a identificao que o estranho mostrava.
- Uma reunio com quem?
- Laura MacGregor.
Ela agarrou o telefone com a mo livre.
- Eu sou Laura MacGregor, cara, e no marquei nenhuma reunio com voc.
- O sr. MacGregor marcou. 
Ela hesitou.
- Qual sr. MacGregor?
Royce deu um sorriso.
- O sr. MacGregor. Daniel MacGregor. Eu teria que encontrar a neta dele, Laura, aqui, s 9 horas para projetar e instalar o melhor sistema de segurana jamais visto 
pelo homem para proteger suas meninas. - O sorriso tornou-se charmoso. - Sua av est preocupada.
Laura largou o telefone, mas no a faca. Aquilo era bem plausvel. O tipo de coisa que seu av faria e diria.
- Quando ele o contratou?
- Semana passada. Tive que ir at a fortaleza dele em Hyannis Port para que ele pudesse me avaliar cara a cara. Que lugar impressionante! E que homem impressionante! 
Tomamos um copo de usque e fumamos um charuto depois de fechar negcio.
- No diga! E o que disse minha av sobre isso?
- Sobre a negociao?
- No. Sobre o charuto.
- Ela no estava l quando conclumos o negcio. E como seu av fechou a porta do escritrio antes de retirar os charutos de dentro de uma cpia falsa de Guerra 
e Paz, posso concluir que ela no aprova charutos.
Laura libertou o ar que estava retido nos pulmes e colocou a faca outra vez no porta-talheres.
- Est bem, sr. Cameron, voc passou no teste.
- Ele disse que voc estaria me esperando, mas, ao que parece, no estava.
- No. No estava. Ele me ligou esta manh e disse algo sobre um presente que estava me enviando, acho eu. - Ela deu de ombros. O cabelo seguindo seu movimento. 
Pegou a coxa de galinha que havia derrubado e jogou-a na cesta de lixo. - Como conseguiu entrar?
- Ele me deu a chave. - Royce retirou-a do bolso e depositou-a na mo que Laura estendia. - Mas eu toquei a campainha antes de entrar. Vrias vezes.
- Hum-hum...
Royce baixou o olhar para a lata de refrigerante.
- Voc possui uma boa pontaria, srta. MacGregor. - Voltou a fit-la. Os ossos do rosto dela pareciam capazes de cortar vidro, pensou. Uma boca talhada para sexo 
selvagem e olhos da cor de um pecaminoso chocolate negro. - E talvez o rosto mais incrvel que j vi.
Ela no gostou da maneira como ele a encarava. Saboreando-a, pensou, com um olhar arrogante, rude e provocante.
- E voc possui bons reflexos, sr. Cameron. Caso contrrio, estaria desfalecido no cho da cozinha com uma concusso.
- Poderia ter valido a pena - disse ele, com um sorriso que tentava ser apaziguador, mas que surtia o efeito contrrio, e entregou-lhe a lata de refrigerante.
- Vou me vestir e ento poderemos discutir os sistemas de segurana.
- No precisa se dar a esse trabalho por minha causa. Laura inclinou a cabea e lanou-lhe um olhar que pretendia dizer "ponha-se no seu lugar".
- Preciso sim, pois, se continuar a olhar-me dessa maneira por mais dez segundos, voc vai ter uma concusso de verdade. No vou me demorar.
Assim dizendo, passou por ele como uma flecha. Royce virou-se enquanto ela passava, a fim de poder apreciar aquelas pernas fascinantes que a afastavam de seu ngulo 
de viso. E mais uma vez soltou um assovio.
De uma forma ou de outra, cogitou ele, com um longo suspiro de deleite, Laura MacGregor era um nocaute.


Dois

Nos escritrios de MacGregor & MacGregor, Laura encontrava-se sentada atrs da grande mesa de carvalho, cercada de livros. Ficara enterrada na biblioteca a manh 
inteira, determinada a encontrar algum precedente para os autos do processo que estava preparando.
Quando seus pais retornassem na semana seguinte, ela queria estar com o escritrio impecvel. Sua me se encarregara do caso Massachusetts vs. Holloway e Laura fazia 
a pesquisa para ela. Porm, havia desenvolvido uma ligao emocional com aquele caso em particular.
Se ela cuidasse da papelada, do trabalho burocrtico e juntasse as horas de pesquisa, talvez conseguisse uma cadeira ao lado da me no tribunal. E, quem sabe, apenas 
quem sabe, teria permisso para interrogar uma testemunha.
Laura almejava o clima intenso do tribunal, o teatro do juiz e do jri. Ela entendia o valor da pesquisa, a necessidade de planejar cada movimento e procurar prever 
cada eventualidade em um julgamento. Havia lido e estudado at seus olhos doerem, mas, por Deus, ganharia sua recompensa. E, talvez, seu primeiro caso.
Amanda Holloway matara o marido. No havia qualquer disputa quanto ao testamento. Mas ser considerada culpada, segundo a lei, era outra histria. A mulher havia 
sido massacrada fsica e emocionalmente por cinco anos. Cinco anos de suplcio e tormento, pensou Laura. Era fcil dizer que ela poderia ter tentado escapar. Que 
deveria ter corrido sem nunca olhar para trs. Na verdade, muitas vezes Laura se pegava pensando exatamente isso. Amanda Holloway, no entanto, no havia fugido. 
No fim das contas, ela sucumbira.
Certa noite, durante o calor escaldante do vero, aps outra surra, outro estupro, ela pegara o revlver do marido e descarregara a arma contra ele, enquanto ele 
dormia.
O lamentvel, pensou Laura com frieza, era que ela havia esperado mais de uma hora aps o estupro. E aquilo caracterizava premeditao. O fato de John Holloway ser 
policial, com uma ficha repleta de condecoraes, tambm no ajudava muito.
Alguns poderiam pensar que a justia havia sido feita naquela noite, mas a lei tinha uma viso mais fria. E Laura estava determinada a lanar mo da lei para manter 
Amanda Holloway fora da priso.
Royce, de fato, tinha adorado observ-la. Naquele momento, ela no parecia a mulher que danara de pijama, nem aquela que havia vestido um sbrio suter e discutido 
com ele os sistemas de alarme. Ela prendera o vasto cabelo negro em uma complicada trana que descia por suas costas. Usava brincos de contas douradas e um relgio 
simples de ouro no pulso, junto com um bracelete de diamantes em forma de raquete de tnis.
A blusa branca de seda que ela usava parecia ter sido talhada em seu corpo e um blazer azul estava pendurado sobre o espaldar da cadeira. A saa exalava um odor 
de couro, madeira polida e mulher.
Laura MacGregor tinha classe, exalava riqueza e era absolutamente inatingvel, pensou Royce. A menos que algum homem tivesse tido a sorte de v-la balanando os 
quadris usando um short de seda.
Ele inclinou-se sobre o batente da porta.
- Voc parece uma advogada.
Laura levantou a cabea. Ele no pde deixar de admirar a rapidez com que ela recuperava a compostura. A surpresa no transparecera em seus olhos cor de chocolate 
mais de alguns segundos antes que eles se tornassem frios.
- Passei na prova da Ordem no vero passado. Portanto, sou uma advogada. Voc precisa de uma?
- No momento no, mas se algum dia precisar pensarei em voc. - O fato era que havia pensado nela a maior parte daquela semana.
O cabelo despenteado pelo vento, a pequena cicatriz intrigante, aqueles olhos diablicos combinavam-se para torn-lo um homem difcil de no ser notado por uma mulher. 
Entretanto, como Laura no desejava pensar nele, queria-o longe dali.
- O escritrio est fechado at o final do ms.
- A recepcionista me disse. Mas no estou aqui para contrat-la, nem a seus pais. - Ele caminhou para dentro da sala e encostou o quadril na imensa mesa. Seus movimentos 
faziam-na lembrar-se de um felino pronto para o ataque.
- O que veio fazer aqui?
- Tinha um trabalho na vizinhana e ento pensei em vir dizer-lhe que vou instalar o sistema no sbado pela manh.
- timo. Tenho certeza de que meu av ficar satisfeito.
- Ele est certo em tentar proteger aquilo que lhe  caro. Ele tem muito orgulho de voc e de suas primas. Isso  perceptvel no brilho dos olhos dele quando fala 
de vocs.
O olhar de Laura se tornou menos agressivo e seu corpo perdeu a postura defensiva rgida.
- Ele  o melhor homem do mundo. E um dos mais exasperantes. Se pudesse, nos manteria todas cativas no castelo em Hyannis.
- Boston pode ser uma cidade perigosa para uma mulher jovem e bela - disse Royce, em um tom de voz que imitava Daniel e fez os lbios de Laura se torcerem em um 
sorriso.
- Nada mau. Mais um pouco de intensidade e poderia se fazer passar por ele.
- Ele est certo. Vocs so trs mulheres solteiras vivendo em uma casa enorme, repleta de objetos caros e mercadoria de fcil revenda. Uma de vocs  filha de um 
ex-presidente dos Estados Unidos e todas so netas de um dos homens mais ricos do pas. So bonitas. Tudo isso faz de vocs um alvo perfeito.
- Ns no somos tolas - replicou ela. - No costumamos caminhar por ruelas escuras, abrir a porta para estranhos, nem pegar homens nos bares.
- Bem... isso  louvvel.
Os ombros de Laura voltaram a ficar tensos.
- Meu av est exagerando, mas, se instalar um complicado sistema de segurana o deixa mais tranqilo, ento mos  obra.
- E voc no acha que precisa de segurana.
- Eu acho que minhas primas e eu estamos perfeitamente seguras em nossa casa.
- Voc acha que um homem entrar em sua cozinha enquanto voc dana apenas de lingerie  seguro?
- Voc tinha a chave e eu no estava de lingerie.
- Eu poderia ter entrado do mesmo jeito sem chave. E o que era aquilo, seno uma lingerie?
- Pijama.
- Oh... est bem. Isso  diferente. - Royce exibiu um sorriso sarcstico, divertindo-se com o mau humor dela.
- Olhe, voc pode instalar o maldito sistema e ns o usaremos. Agora, se me d licena - Laura recuou para trs quando ele se inclinou sobre ela. - O que est fazendo?
Royce deu um longo suspiro.
- Apenas causando o impacto certo. Gosto do seu perfume. - Os olhos dele brilhavam de divertimento. - Voc ficou muito sobressaltada de repente.
- No gosto de ser encurralada.
- Est bem. - Ele recuou. Apenas um leve movimento daquele corpo compacto no lhe deu espao suficiente para respirar. - Quanto tempo pretende ficar soterrada a? 
- Ele apontou para a pilha de livros.
- At ter terminado.
- Ento  melhor eu voltar l pelas 7 horas e poderemos jantar.
- No. - Laura disse aquilo com firmeza e ajeitou-se na cadeira, estudando o livro aberto  sua frente.
- Est envolvida?
- Claro!
- No me referi ao trabalho, magrinha. Quero dizer, com um homem.
- Isso no  de sua conta.
- Mas poderia ser. Gosto de sua aparncia, do seu cheiro. Da forma como voc fala e se move. Seria interessante descobrir se vou gostar da maneira que voc... pensa. 
- Ele concluiu a frase ao mesmo tempo em que dois olhos apertados levantaram e se fixaram nele.
- Voc quer saber o que estou pensando neste exato momento?
Royce sorriu. Em seguida, soltou uma gargalhada.
- No. Mas, se mudar de idia quanto ao jantar, tem meu telefone.
- Oh, claro, com certeza tenho seu telefone.
Royce comeou a virar-se, ainda rindo, quando seu olhar captou a etiqueta do dossi quase enterrado nos livros.
- Holloway - murmurou ele e em seguida voltou a olhar para Laura. - O homicdio?
- Sim.
- Eu conhecia John Holloway.
- Verdade? - Laura gostava da forma como ele ria. Quase charmoso o bastante para faz-la reconsiderar o convite do jantar. De repente seu tom de voz tornou-se duro. 
- Voc tem muitos amigos que abusam de mulheres?
- No disse que ramos amigos. Disse que o conhecia. Ele foi policial e eu tambm.
Dessa vez, quando ele fez meno de afastar-se, Laura ps a mo sobre a dele. Os olhos cor de chocolate estavam presos ao rosto msculo, perscrutadores e especulativos.
- Voc trabalhava com ele?
- No. Ns trabalhamos fora do distrito durante alguns meses. Eu fui transferido. Ele era um bom policial.
- Com certeza, ele era... - Laura fechou os olhos - Oh, isso  tpico. Batia na mulher durante anos a fio, mas era considerado um bom policial. Use uniforme e tudo 
lhe ser permitido.
- No sou mais policial. - informou Royce. - E no sabia muito sobre a vida particular dele, nem estava interessado. Sei que fazia bem seu trabalho.
- Pois eu estou muito interessada em sua vida particular
- disse ela, enquanto o observava com ateno. Ele no tinha revelado muito, porm Laura tinha alguns palpites. - Voc no gostava dele?
- No.
- Por qu?
- Apenas gosto pessoal. Ele me fazia lembrar uma arma carregada e desengatilhada. A qualquer momento, poderia explodir.
- Voc ainda possui contatos na polcia? Sabe de algum que o conhecia? Sei que policiais odeiam falar com advogados, mas...
- Talvez porque os advogados ponham os bandidos outra vez nas ruas antes que os policiais tenham tido tempo de limpar a sujeira.
Laura deu um suspiro.
- Amanda Holloway no era criminosa. Apenas teve a m sorte de se casar com um.
- Pode ser, mas no posso ajud-la. - Ele deu um passo atrs. - Estarei em sua casa entre 8h30 e 9 horas, no sbado.
- Deu mais um sorriso maroto. - Mesmo tendo vontade de v-lo mais uma vez, sugiro que no use pijama. Voc pode distrair minha equipe.
- E ento, como  a aparncia dele?
Do espelho sobre a pia do banheiro, o olhar de Laura afastou-se do reflexo dos clios que pintava com rimei para a face da prima.
- Quem?
- Esse ex-policial, perito em segurana, que o vov contratou para manter-nos afastadas dos criminosos nefastos de Boston. - Gwen inclinou-se sobre o ombro de Laura 
a fim de que suas cabeas ficassem bem juntas.
Ningum diria que eram primas. Muito menos primas duas vezes, pois descendiam tanto do ramo dos MacGregors quanto dos Blade. Os cabelos de Gwen eram de um dourado 
acobreado e ela os mantinha bem curtos, como um rapaz. Ao contrrio dos de Laura, que chegavam quase  cintura.
Gwen herdara da me a cor dos cabelos, louros com nuances ruivas, a pele sedosa e os olhos, que variavam de uma tonalidade clara de azul a violeta. Possua uma constituio 
mignon, quase delicada. Uma combinao que passava a idia errnea de fragilidade. Na verdade, ela podia, quando necessrio, dar dois plantes seguidos no hospital, 
fazer uma hora de ginstica e ainda lhe sobrava energia. Ela era, pensou Laura, bonita, brilhante e mandona.
- Vai me dizer que no se lembra da aparncia dele? - inquiriu Gwen.
- Humm? No. No lembro. Estava pensando em outra coisa. Acho que  atraente.
- Detalhes, Laura. A verdade reside nos detalhes. - Gwen arqueou uma sobrancelha. - Cameron, no  mesmo? Um bom nome escocs.
- Isso agradaria o vov.
- Sem dvida. - Gwen passou a lngua pelos dentes. - Ele  casado?
- Acho que no. - Laura continuou aplicando rimei nos clios. - Ao menos, no usava aliana quando tentou me passar uma cantada.
- E quantos anos tem? Uns trinta?
- Por a. - Laura encarou a prima atravs do espelho. - O que  isso? Um inqurito?
- No. Estou apenas colhendo dados. Ele  solteiro, atraente, dirige o prprio negcio, est na casa dos trinta e se chama Cameron. Minha avaliao  que vov o 
fisgou.
- Isso ns j sabemos. - Laura pousou o rimei e pegou o batom. - Vov o contratou para instalar o sistema de segurana, o que ele far hoje.
Gwen deu um longo suspiro e depois bateu de leve com os dedos na testa da prima.
- Al! Voc no costuma ser to lenta. Estou falando de casamento.
- Casa... - Com uma risada nervosa, Laura largou o batom sobre a pia. - No existe a mnima chance.
- Por que no? Vov anda fazendo alarido h mais de um ano sobre como nenhuma das netas tem um pingo de senso de responsabilidade, que no pensam em casar e constituir 
famlia.
- E tambm no pra de falar em bebs agarrados  barra da cala dele. - Laura concluiu com desdm. - E da? Volto a afirmar: no existe a menor possibilidade de 
o vov ter escolhido Royce Cameron como um neto em potencial. Ele no se enquadra no tipo de homem que um av super-protetor escolheria para a neta.
Gwen alisou a bancada de madeira.
- E por qu?
- Existe qualquer coisa de perigoso nele, que pode ser notada atravs dos olhos... Algo indomvel.
- Humm. Cada coisa que voc diz soa melhor que a outra.
- Para um amante, talvez. Imagino que ele deve ser fantstico na cama. - Laura comeou a escovar os cabelos com vigor. - Duvido que seja isso que MacGregor tem em 
mente.
Gwen pegou distrada o tubo de batom.
- Pelo contrrio. Acho que  justamente isso que ele tem em mente. O cara tem personalidade. - Ela continuou, num tom que imitava a voz do av. - Tem fogo no sangue. 
Ser capaz de gerar filhos e filhas fortes.
- Ridculo. - Laura, no entanto, sentiu uma nusea na altura do estmago. - Isso  absurdo. Ele no poderia... Ela no seria capaz...
- No seria? - Gwen discordou. - E, por enquanto, eu diria que o plano dele est funcionando.
- O que quer dizer com isso?
- Quero dizer que hoje  sbado. So 8 horas da manh c voc, no apenas est de p, como vestida, maquiada e...
Ela se inclinou em direo  prima e inspirou. - Usando seu melhor perfume!
- Eu estou... apenas...
- E tem uma blusa novinha sobre a cama - acrescentou Julia, entrando no banheiro. - Uma blusa vermelha de seda.
- Aha! Uma blusa vermelha de seda em um sbado de manh para ficar em casa! - Gwen bateu de leve no ombro de Laura. - Meu diagnstico, querida,  um caso grave de 
atrao fsica.
- Eu no estou atrada por ele... Estava pensando em sair para fazer compras, s isso. Compras de Natal. Por isso estou de p e arrumada.
- Voc nunca faz compras no sbado de manh - lembrou Julia. - Alis, detesta fazer compras, o que eu acho muito triste. Alm do mais, nunca comea a fazer as compras 
de Natal antes do meio de dezembro.
- Estou abrindo uma exceo. -Aborrecida, Laura afastou-se das duas e caminhou em direo ao quarto.
A blusa brilhava em cima da cama como um sinal de alerta vermelho. Laura fez uma careta. Em seguida, fechando a porta, decidiu vesti-la mesmo assim. Ela gostava 
de cores vibrantes, pensou, enquanto a retirava da cama. Gostava de seda. Por que no deveria usar a droga da blusa?
Praguejou baixinho enquanto a abotoava.  claro que no estava atrada por Royce Cameron. Ele estava longe de ser seu tipo. O homem era arrogante, rude e presunoso. 
Alm do mais, lembrou-se, ele a tinha flagrado em uma situao das mais ridculas.
E em quarto lugar, pensou enquanto vestia a cala cinza, no estava interessada em um relacionamento. No que um homem como Royce pudesse estar interessado em algo 
to civilizado quanto um relacionamento, mas ela prpria queria desfrutar mais alguns anos de absoluta liberdade.
Um homem em geral, e um parceiro em particular, podia esperar.
Naquele instante, Laura ouviu o som da campainha. Calou os sapatos com calma. Em seguida, para provar a si mesma que no estava interessada em se exibir para Royce 
ou para qualquer outro homem naquela manh, deliberada-mente, afastou-se do espelho, antes de voar escada abaixo.
Ele estava no vestbulo. Vestia uma jaqueta de couro e cala jeans surrada. O cabelo, para variar, estava desarrumado. Naquele instante, ele falava com Gwen e Julia 
e sorria de algo que Julia dissera. Laura j se encontrava no meio da escada, quando ele ergueu a cabea e aqueles olhos singulares de um azul intenso, sombreados 
por clios espessos, encontraram os dela. Logo em seguida, um sorriso perigoso curvou os lbios msculos.
O corao de Laura deu um salto, alertando-a que, no fim das contas, ela provavelmente estava encrencada.
- Bom dia, magrinha - cumprimentou ele, aps avali-la com ateno. - Bela blusa.


Trs

Royce no tinha o hbito de perseguir as mulheres. Principalmente, mulheres que davam sinais de no estar interessadas. Nem mesmo uma mulher que lanava sinais contraditrios. 
Quando conhecia algum que o atraa, tudo o que linha a fazer era deix-la ciente disso. Diretamente, sem rodeios, nem fingimentos. Ele achava que da em diante 
cabia a ela tocar a bola.
Como Laura MacGregor, no entanto, no estava tocando a bola, nem mesmo dera sinal de ter percebido que ele a lanara em direo a ela, o mais correto a fazer seria 
esquec-la e cuidar de seu trabalho.
O problema era que no estava conseguindo fazer isso.
J fazia trs semanas que a conhecera e quatro dias desde que a vira pela ltima vez. E ela no lhe saa da cabea. No apenas a sua figura naqueles trajes sexy 
danando na cozinha, apesar de aquela imagem voltar-lhe  mente com irritante freqncia. Era o rosto que o assombrava, pensou Royce, a coragem que exibia, quando 
pegara a faca e o enfrentara. A inteligncia e a determinao em seus olhos cor de chocolate quando falara de lei e justia. O sorriso atrevido curvando aquela boca 
incrvel e tentadora enquanto descia as escadas no dia em que ele iniciara a instalao do sistema de segurana.
Era, foi forado a admitir, o pacote completo.
Em seu minsculo e apinhado escritrio de Boylston, ele esfregava os olhos cansados e passava a mo pelos cabelos revoltos  procura de uma estratgia. Ela o estava 
mantendo acordado at tarde da noite e disperso no trabalho. O que precisava fazer era lanar mo de seu livro de endereos e encontrar uma mulher para passar uma 
noite. Algum que no fosse complicada nem fizesse exigncias.
Por que, diabos, ele no conseguia fazer isso, por que no queria achar algum sem complicaes e exigncias?
No se chamaria Royce Cameron se pegasse o telefone e ligasse para Laura. J a convidara para sair e ela recusara. Tinha deixado claro que estaria disponvel se 
ela mudasse de idia. Ela no o fizera. No bancava o bobo na frente de uma mulher desde os doze anos de idade, quando se apaixonou perdidamente pela irm mais velha 
de um amigo, que na poca tinha dezesseis anos e era uma deusa. Marsha Bartlett. Perseguira-a durante dois meses, seguindo-a como um cachorrinho e sofrer durante 
todo o ano da stima srie no Colgio Saint Anne.
Marsha Bartlett nunca prestou ateno nele e casara-se com um cirurgio. E desde ento, Royce nunca mais perseguiu qualquer outra mulher.
- Cresa, Cameron - ordenou a si mesmo, voltando a fitar a tela do computador para analisar um sistema de segurana que deveria ser instalado em um edifcio do sul 
de Boston.
Quando o telefone tocou, ele o ignorou at o quarto toque. Praguejando, atendeu-o. Era bvio que a secretria deveria estar fora da mesa outra vez, passando p no 
nariz.
- Segurana Cameron.
- E quem fala seria o sr. Cameron?
Royce reconheceu a voz de imediato. No havia como confundir aquele sotaque escocs.
- Seria, sr. MacGregor?
- timo. Justamente o homem que eu procurava. Voc tomou conta de minhas netas?
- O sistema est instalado e operante. - E a conta, pensou ele, est no correio. -  o melhor que o dinheiro pode comprar.
- Estou contando com isso, rapaz. Quero que minha esposa fique tranqila. Ela se preocupa.
- O senhor me contou.
- E voc testou o sistema pessoalmente?
- Do jeito que o senhor pediu. Qualquer tentativa de invaso ou de burlar o sistema envia um alarme diretamente  delegacia de polcia mais prxima e um sinal ao 
meu bip pessoal.
- timo. Muito bom. Mas aquelas moas precisam us-lo para ficarem protegidas. So jovens, voc sabe, e ocupadas com seus prprios interesses. Minha mulher se preocupa 
muito que elas possam esquecer de acionar o alarme.
- Sr. MacGregor, eu apenas posso garantir a eficcia do sistema quando ele estiver em uso.
- Exato. Exato. Foi isso mesmo que eu disse a Anna esta manh. Que voc j fez tudo que podia ser feito. Mas ela cismou e continua preocupada. Ento, pensei, s 
para descans-la, ns poderamos realizar um teste. Se voc passasse por l um dia desses. Ou melhor, hoje  noite seria uma tima ocasio. S para nos certificarmos 
de que no d para entrar na casa.
- Espere a. Deixe-me entender o que o senhor est pretendendo. Que eu tente arrombar a casa de suas netas?
- Bem, tente entender. Se conseguir entrar, ento saberemos que precisamos fazer um ajuste melhor. E se no conseguir... bem, ento minha mulher poder dormir descansada. 
Ela est velha - acrescentou Daniel, em voz baixa, sem retirar o olhar da porta. - Eu me preocupo com a sade dela. Alm do mais, naturalmente, ficaremos satisfeitos 
em pagar-lhe por seu tempo e trabalho.
- O senhor faz idia do tempo de priso que um arrombador de casas pode pegar, sr. MacGregor?
Daniel soltou uma risada. Ele escolhera um homem raro para sua neta Laura.
- Ora, Royce, como ex-policial, estou certo de que sabe melhor do que eu. E saber tambm como no se deixar prender. Na verdade, estou pretendendo tambm instalar 
um novo sistema de segurana aqui em casa.  uma casa enorme. Quero o melhor. Dinheiro no ser problema.
Royce inclinou-se no espaldar da cadeira, encarando o teto, pensativo.
- Est me subornando, sr. MacGregor?
- Na verdade, sim, sr. Cameron. Afinal, no  um jovem empreendedor?
- Na verdade, sim. E pode estar certo de que isso vai lhe custar bem caro.
- De que vale o dinheiro comparado  paz de esprito quanto a quem se ama?
Royce ficou um instante em silncio.
- Eu j encontrei um monte de demnios e pessoas astutas na vida, mas o senhor poderia dar aula a todos eles.
A gargalhada de Daniel ecoou pela sala.
- Gosto de voc, rapaz. Cameron, boa raa. Vamos combinar de voc vir aqui para modernizar meu sistema de segurana.
Aquele trabalho lhe renderia um bom dinheiro, calculou Royce, enquanto se esgueirava da luz do luar, embrenhando-se pelas sombras das rvores frondosas que circundavam 
a casa.
Ele ficou estudando as janelas no escuro. Era muito fcil para Royce pensar como um ladro. Afinal, lidara com incontveis assaltos durante seus anos na polcia. 
Por esse mesmo motivo foi que decidiu enveredar pelo ramo da segurana. A maioria das pessoas no fazia idia do quo vulnerveis se encontravam enquanto sonhavam 
em suas camas.
Royce se aproximou da casa como faria um ladro, utilizando rvores e cercas para se esconder. Os jardins bem estruturados haviam sido projetados para impedir qualquer 
incurso de vizinhos xeretas e do trfego da rua.
Se agisse como um ladro esperto, o que Royce estava decidido a fazer, j teria tido tempo de estudar a casa, os acessos e o sistema de segurana. Estaria usando 
um uniforme caqui de trabalhador, carregando uma maleta e viria A luz do dia. E, assim, ningum lhe dispensaria um segundo olhar.
Em vez disso, l estava ele, no meio da noite, atendendo ao "pedido" de um velho matreiro e superprotetor escocs.
O ladro deveria saber que o alarme era dos bons. Claro, se tivesse algum conhecimento de eletrnica. Royce decidiu entrar no esprito da coisa e assumir que ele, 
como ladro, tinha um certo grau de conhecimento de eletrnica. Empolgado, resolveu pr mos  obra e desfazer o trabalho que ele prprio fizera.
Quinze minutos mais tarde, deu um passo atrs, coando o queixo. Ele era bom demais, pensou. No to bom como ladro, quanto era como perito em segurana. O sistema 
era quase infalvel. Se ele mesmo no o tivesse projetado, jamais seria capaz de descobrir as armadilhas e duplos dispositivos de segurana para evitar sua desativao.
Mas como ele mesmo o projetara, poderia ter entrado na casa se quisesse, se trabalhasse mais uns dez minutos. Um ladro, porm, teria que ser muito determinado, 
muito bem treinado e muito sortudo para chegar quele estgio. O sr. MacGregor, pensou ele, poderia ficar sossegado.
Satisfeito, virou-se para sair, quando uma luz se acendeu. Laura MacGregor apareceu do outro lado da porta de vidro do vestbulo. O cabelo negro caindo at a cintura. 
Usava uma camiseta amarela que lhe chegava  altura das coxas e carregava uma raquete de basebol Louisville Slugger na mo.
Royce observou os lbios carnudos se abrirem quando ela o reconheceu e os olhos dela lanaram fagulhas.
- Que diabos est fazendo aqui?
A voz de Laura foi abafada pelo vidro da porta, mas ele conseguiu captar sua agitao.
- Inspeo de rotina - gritou ele. - A pedido do cliente.
- Eu no pedi nenhuma inspeo de rotina.
- Seu av pediu.
Ele observou aqueles olhos furiosos se estreitarem e notou suas mos apertarem o cabo da raquete com fora, como se a fosse lanar longe. Em seguida, ela girou nos 
calcanhares, dando-lhe a viso de suas pernas e pegou o telefone.
Royce cocou mais uma vez o queixo, seus dedos roando distraidamente a cicatriz. Se Laura estivesse chamando a polcia, ele teria uma longa noite de explicaes 
pela frente. Era verdade que tinha um monte de amigos na polcia para evitar o pior... mas sabia que esses mesmos amigos  seriam capazes de trancafi-lo em uma 
cela s pelo divertimento da situao.
O preo da inspeo de rotina acabou de dobrar, pensou.
Momentos mais tarde, Laura recolocou o fone no gancho. Caminhou at o alarme, digitou o cdigo e, depois, destrancou a porta.
- So dois idiotas. Voc e meu av.
- Voc ligou para o MacGregor.
- Claro. Ou acha que aceitaria a palavra de algum que se encontra do lado de fora da minha porta, carregando ferramentas de ladro? Eu deveria ter chamado a polcia 
- disse ela, batendo com a raquete na parede.
- Agradeo sua discrio - O sorriso dele se alargou. O bom humor brilhava em seus olhos como sol de vero. - Encare por este lado, sua av agora poder dormir sossegada.
- Minha av sempre dorme sossegada.  ele. - Exasperada, levantou os braos. O movimento fez a camiseta deslizar perigosamente para cima. - O homem passa a noite 
acordado elucubrando maneiras de complicar nossas vidas: Seu objetivo  levar a famlia  loucura. Meu nico consolo  que seus tmpanos vo ficar doendo pelo resto 
da noite.
- Passou-lhe um sermo, hein? - Sorrindo, Royce tirou vantagem da situao e aproximou-se. - Se estivesse na cama como deveria, jamais descobriria que eu estive 
aqui. Mais dois minutos e eu j estaria longe. - Ele esticou uma das mos para brincar com as pontas dos cabelos dela, que lhe caam at os cotovelos como uma cortina 
negra. - Por que no est na cama?
- Estava com fome - murmurou ela.
- Eu tambm. - Ele se aproximou um pouco mais, conjeturando que o destino pusera aquela cadeira exatamente ali para no permitir que ela lhe escapasse. - O que temos 
a? - disse, apontando para dentro.
O corao de Laura pulava no peito. Ela sentiu a cadeira pressionando suas costas. Ele parecia to perigoso naquele momento! Os olhos quentes e o sorriso malvolo 
o tornavam quase letal. Seu aspecto era... tentador...
- Olhe aqui, cara...
- Parece que minha sina  encontr-la de pijama. - Ele deixou o olhar percorrer lentamente o corpo esbelto, antes de colocar as mos, uma de cada lado da cadeira. 
- No acha um pouco demais esperar que eu simplesmente vire as costas e v embora?
Laura enrubesceu e a veia de seu pescoo comeou a palpitar.
- O que espero  que aceite um "no" como resposta.
- Verdade? - Assim dizendo, inclinou-se sobre ela. No o bastante para que seus corpos se tocassem, mas o suficiente para que sua respirao danasse como uma pluma 
sobre os lbios dela. - Pois eu juraria que voc esperava por isto.
Royce baixou a cabea at que suas bocas ficassem separadas apenas alguns milmetros e ento estacou. Viu os olhos dela escurecerem e notou o longo suspiro que ela 
deu.
Ento aguardou, enquanto o sangue pulsava nas veias, at ter certeza de que ambos sofriam com a expectativa.
- Beije-me, garota - ordenou e enterrou os lbios nos dela.
Laura no conseguiu se controlar. Naquele longo instante em que seus olhares se cruzaram e se prenderam, um desejo pungente invadiu-a como vinho quente. Quando suas 
bocas se encontraram, uma urgncia a atacou como uma garra de veludo. E quando o beijo se aprofundou, um prazer arrebatador a iluminou como a luz do luar.
Ela gemeu, envolveu com os braos o pescoo msculo e correspondeu ao beijo com igual intensidade.
No foi uma explorao gentil, nem uma carcia suave. Foi calor e fome. Paixo contra paixo, fora contra fora.
Ela possua sabor ardente e textura macia, odores provocantes que suscitavam suspiros suaves. Aquela boca carnuda era puro pecado e o estava levando rapidamente 
alm dos limites da razo. As mos msculas se embrenhavam nos cabelos macios de Laura, puxando-lhe a cabea para trs para que pudesse usufruir mais daquela boca 
ertica.
- Deixe-me possu-la. -Ele afastou os lbios dos dela para desliz-los pelo queixo macio at o pescoo pulsante.
- Eu... - A cabea de Laura estava girando. Sua respirao saa arquejante. - Espere... por favor... espere.
- Por qu?
- Preciso pensar. - Ela ps ambas as mos nos ombros de Royce, afastando-o. - Eu no estava conseguindo pensar.
Os olhos azuis fixaram-se nos olhos cor de chocolate. O cabelo negro caa revolto sobre ambos. Royce deslizou as mos pelas laterais do corpo feminino.
- Posso fazer com que nenhum de ns dois consiga pensar.
- Estou certa de que pode. - Laura tentou manter a distncia entre eles. Mas no era suficiente. - Volto em um minuto.
- No vai mudar nada. Eu continuarei a desej-la. E voc continuar a me desejar.
- De qualquer modo me largue.
Foi difcil atender quele pedido, mas ele retirou as mos do corpo feminino e afastou-se.
- Esta distncia  suficiente? Ou  melhor eu ir embora para que voc possa fingir que nada aconteceu?
- No preciso fingir coisa alguma. - Laura empertigou-se - Se eu no quisesse que isso acontecesse, no teria acontecido. Sou responsvel por meus prprios atos, 
Royce.
- Muito justo. Ento por que no estamos rolando neste lado gramado, terminando o que comeamos?
- Isso  grosseiro.
-  honesto.
- Est bem. No estamos rolando pela grama porque no fao sexo com homens que mal conheo.
Ele acatou com um gesto de cabea e colocou as mos nos bolsos. No gostava de admitir que elas estavam trmulas.
- Isso tambm  bastante justo. - Seus lbios se curvaram no notar a expresso de surpresa e, em seguida, de especulao no rosto de Laura. - No esperava que eu 
fosse razovel, no , magrinha?
- Na verdade, no. O que apenas vem a provar meu ponto. Eu no o conheo. - Ela cruzou os braos, mas no se afastou quando ele deu um passo  frente. Quando as 
mos msculas deslizaram por seus braos at os ombros e desceram outra vez at os punhos.
- Royce Cameron - disse ele calmamente. - Trinta e um anos, solteiro, ex-policial, hoje dono do prprio negcio. Sem antecedentes criminais. Fiz alguns anos de faculdade, 
mas no era o que queria. Gosto de cachorros grandes e estpidos, rock and roll alto, comida italiana e mulheres perigosas.
O divertimento perpassou pelos olhos de Laura.
- Isso  bastante informativo, mas no  suficiente.
- Acho que  um comeo. Voc quer saber mais?
Ela sabia que era impossvel que ele no notasse o pulsar violento de seus pulsos.
- Aparentemente, sim.
- Amanh  noite, s 7 horas. Vamos tentar comida italiana.
- Est bem. Vamos tentar comida italiana - Ela no se moveu. Manteve os olhos fixos nos dele quando Royce se inclinou e tomou-lhe o lbio inferior entre os dentes.
- De fato, gosto de sua boca. Poderia passar horas beijando-a.
Laura achou ter visto um lampejo de riso antes de ele se voltar e desaparecer na escurido.
- Tranque-se, magrinha, e reative o sistema.
- Est bem. - Ela respirou fundo duas vezes. De sbito, ocorreu-lhe o pensamento de que o sistema de segurana acabara de ser quebrado.
Quatro
Gwen surgiu no banheiro vestindo apenas lingerie e completamente maquiada.
- Acabo de rasgar meu ltimo par de meias finas pretas. Sou uma mulher desesperada.
- As minhas vo ficar sobrando em voc - gritou Laura do chuveiro. - Sou dez centmetros mais alta.
- Eu disse desesperada. Julia no tem meias pretas e eu no tenho tempo de sair para compr-las. Greg deve estar chegando em quinze minutos.
Laura espiou pela abertura da cortina.
- Tem um encontro com o dr. Smarm?
- No se trata exatamente de um encontro - respondeu Gwen num tom rspido, pegando um par de meias na gaveta do armrio. -  um compromisso do hospital e ele ser 
meu acompanhante.
- Ele  grotesco.
- Ele  o cirurgio-chefe dos residentes.
- Um chefe grotesco - corrigiu Laura, fechando o chuveiro. - E tudo o que ele quer fazer  dar mais um corte com seu bisturi.
- Ento ele vai ficar bastante decepcionado. - Gwen sentou-se na tampa do vaso sanitrio e comeou a calar as meias.
- Por que no vai com Jim, o proctologista? Ele  um bom rapaz.
- Est comprometido. Conheceu uma professora de jardim de infncia duas semanas atrs.
- Oh. - Segurando a toalha  altura dos seios, Laura saiu do box. -  melhor ir sozinha do que com Greg, o cirurgio.
- Coquetel e jantar na casa do dr. e da sra. Pritchet. Ela no gosta de mulheres desacompanhadas  mesa. - Gwen levantou-se, praguejando. - Droga! Esta meia parece 
um saco em mim.
- Eu avisei.
- Achei um par! - Julia entrou balanando um pacote de meias como se fosse uma bandeira. - Por isso minha gaveta no fechava. Elas estavam cadas atrs dela.
- Graas a Deus! - Gwen agarrou as meias e sentou-se mais uma vez para fazer a troca.
- Voc est toda arrumada - comentou Laura, notando o longo vestido de veludo que Julia usava.
- Vou ao Country Clube com Peter.
- Ah, o sempre disponvel Peter. - Laura saiu do banheiro para inspecionar o prprio closet.
- Peter  legal, apenas  circunspecto demais - ponderou Julia, enquanto observava Laura indecisa entre um vestido vermelho de seda e outro azul de algodo. - Voc 
parece ter um encontro excitante esta noite.
- Vamos apenas ouvir msica.
- Vo danar? Terceiro encontro em uma semana. - Julia arqueou uma sobrancelha. - Acho melhor escolher o vermelho.
- Ele  um pouco...
-  muito - corrigiu Julia. - Muito tudo. Os olhos dele vo pular das rbitas.
Com ar de teimosia, Laura escolheu o vestido azul.
- No estamos namorando. Estamos apenas saindo juntos. Naquele instante, Gwen saiu do banheiro.
- Bem, quando se cansar de sair com ele, pode pass-lo para mim?
- Ha, ha, ha.
- Este ser o terceiro encontro - continuou Julia. - O primeiro  um teste. O segundo uma reviso. Mas o terceiro, bem, esse  o mais importante.  quando voc passa 
de simples aventura para o namoro.
- Posso sair com ele? - insistiu Gwen, e caiu na gargalhada ante a expresso zangada de Laura. - Ora, priminha, o que tem demais em estar interessada em um lindo, 
disponvel e intrigante espcime masculino? Veja como voc tem
- Norte. - Em seguida, revirou os olhos, quando a campainha soou. - Deve ser o Greg. Julia, por favor, v fazer um pouco de sala para mim.
- Se ele me passar mais uma cantada, vou arrebentar a cara dele.
- Apenas cinco minutos - prometeu Gwen, apressando-se.
- No sei como algum ainda no deu uns bons socos nele - disse Julia. Depois, respirou fundo e plantou um sorriso no rosto. - Que tal isto? - perguntou  prima.
- Tente no deixar parecer uma careta - sugeriu Laura.
- No consigo. Use o vestido vermelho - falou antes de sair do quarto para cumprir sua misso.
Laura acabou seguindo a sugesto das primas. Disse a si mesma que escolhera o vestido vermelho por ser mais adequado a uma noite no clube e no porque era sexy. 
E calara os sapatos de saltos finos e altssimos apenas porque o vestido pedia.
Aquele terceiro encontro no significava nada para ela, pensou, enquanto colocava argolas de ouro nas orelhas. Quem estava contando, afinal? Eles estavam apenas 
se encontrando porque se divertiam na companhia um do outro c tinham muitos assuntos para conversar. Alm disso, um fazia o outro rir.
E quando ele a beijava, seu crebro quase explodia.
Laura ps a mo no o estmago. Est bem, foi forada a admitir, havia uma forte atrao fsica. Royce, porm, no a havia pressionado a ir alm daqueles beijos de 
tirar o flego.
Por que, diabos, ele no a estaria pressionando? A maneira como ele a deixava tremendo e lutando por ar quando se despediam a estava levando  loucura. E nem sequer 
uma vez ele tentara atra-la para sua cama. No, s naquela primeira vez.
Devia estar maluca, pensou Laura. Afinal, no fora ela quem dissera que precisava de tempo para conhec-lo? Era exatamente o que Royce estava fazendo. Dando-lhe 
tempo e espao. E, agora, ansiava que ele a agarrasse pelos cabelos e a levasse para uma caverna.
Ridcula.
Quando a campainha tocou, Laura balanou a cabeleira negra. Estamos apenas saindo juntos, repetiu pela milsima vez e disparou escada abaixo. Apenas nos conhecendo 
melhor. Apenas curtindo a companhia um do outro naquela noite. Colocou seu melhor sorriso no rosto e abriu a porta.
Ele estava incrvel vestido de preto. A cala jeans e a jaqueta pretas realavam seus olhos azuis.
- Chegou bem na hora. Vou apenas pegar minha...
- Espere... - Ele a puxou pelos punhos e a avaliou com um longo e lnguido olhar. Aquele vestido vermelho moldava o corpo esbelto como uma segunda pele, ressaltando 
os contornos das coxas, dos quadris e dos seios. Os lbios de Royce se curvaram lentamente. - ...s um minuto.
Com um puxo, ele a tomou nos braos e capturou-lhe a boca num beijo devorador. Laura soltou um gemido quando um calor intenso a envolveu. E, logo em seguida, ela 
estava livre, sem ar e tremendo.
- Para que foi isso?
- Para lhe agradecer pelo vestido que est quase usando. - O sorriso dele foi espontneo. Era impossvel no se sentir satisfeito com aquela viso esplendorosa. 
- Vai precisar de um casaco, magrinha. Est frio l fora.
O clube estava quente e a msica tambm. Laura j havia readquirido o equilbrio aps tomar um copo de vinho, sentada  pequena mesa de canto, com uma nica vela 
no centro. Ela jamais poderia imaginar que Royce fosse o tipo de homem que parasse para ouvir blues.
Mas ele a surpreendia constantemente.
- Por que deixou a polcia? - Laura no pensou nas implicaes da pergunta at que a fez. -  muito pessoal?
- No. Acho que eu no me enquadrei na equipe. No uni bom de poltica e perdi a paixo pelo trabalho que desempenhava nas ruas.
- E o que o fez perd-la?
Os olhos azuis contornados por clios pretos contemplando-a.
- Advogados.
Num gesto de autodefesa, Laura ergueu o queixo.
- Todo indivduo tem direito de ser representado segundo a lei.
- Tem razo. Essa  a lei. - Ele pegou o copo de club soda e mexeu o gelo com um dedo. - Mas isso no  justia. Voc Icm uma cliente, atualmente, que deve concordar 
comigo.
-  mesmo? E quem  essa cliente?
- Amanda Holloway.
- Pensei que no aprovava o que ela fez. .
- No cabe a mim aprovar ou no. Eu no estava dentro da cabea dela naquela noite. Mas, para mim, ela  mais um exemplo de um sistema falido.
- O julgamento dela comear em dez dias. Talvez voc possa ajudar.
- No h nada que eu possa lhe contar.
-  obvio que voc no gostava dele.
- Eu tambm no gosto do cara que mora no apartamento em frente ao meu. E no existe nada que eu possa lhe contar sobre ele. Sua me conhece o trabalho dela, Laura, 
ou no teria chegado onde chegou.
- No entendo como pode desistir de tudo em que deve acreditar. Voc no teria entrado para a polcia se a sua inteno no fosse ajudar os outros.
- E alguns anos l me mostraram que eu no estava fazendo a mnima diferena.
Laura detectou algo em seu tom de voz. Um discreto sinal de desapontamento, de desiluso.
- Mas era o que queria.
- Era. Agora estou ajudando do meu prprio jeito. Sem o envolvimento com a poltica e sem restries. E sou melhor em eletrnica do que era caando bandidos.
- Voc gosta de ser seu prprio patro.
- Est absolutamente certa.
- No posso culp-lo. - disse Laura com um suspiro. - Trabalhar para meus pais, bem,  um sonho. Eles so maravilhosos. No acredito que me sairia melhor em uma 
grande firma, com todas as agendas e polticas. A bem da verdade, tudo gira em torno de horas pagas e grandes clientes. MacGregor e MacGregor tenta fazer a diferena.
- Estou surpreso por eles ainda no terem sido banidos da Ordem por excesso de tica.
Os olhos de Laura estreitaram-se.
- E to fcil e to banal acusar os advogados.
- E verdade. - Ele sorriu. - Por que resistir? Eu deveria dizer-lhe algo mais.
- O qu?
- Voc  incrivelmente bonita.
Laura encostou-se no espaldar da cadeira.
- Est tentando mudar de assunto.
-  inteligente tambm. Se ficarmos aqui sentados falando sobre leis, vamos acabar discutindo, pois nossos ngulos de viso so diferentes. Por que perder tempo?
- Eu gosto de discutir.  por isso que sou advogada.
- E eu gosto de danar. - Royce pegou-a pela mo e levantou-a. -  por isso que estamos aqui.
Laura encarou-o espantada.
- Voc dana?
- Bem, nunca realizei o sonho de me juntar ao Bolshoi - disse ele, enquanto a guiava pelo salo. - Mas dou para o gasto.
- Voc faz mais o tipo boxeador do que... - As palavras morreram em sua garganta quando ele a rodopiou e, em seguida, a puxou para si at que seus corpos ficassem 
intimamente ligados. - Oh Deus!
- Vamos deixar o boxe para mais tarde.
Os saltos altos a faziam ficar cara a cara com ele, de forma que os olhos e as bocas ficassem nivelados. Ele a guiava com passos suaves e complicados. Laura no 
precisava pensar para acompanh-lo. Nem poderia pensar, com seu corao ameaando pular pela garganta, o sax gemendo c os olhos azuis fixos nos dela.
- Voc  muito bom - conseguiu dizer.
- Danar  a segunda melhor coisa que um homem pode fazer com uma bela mulher. Por que no faz-lo direito?
Laura umedeceu os lbios.
- Voc teve aulas de dana?
- Por insistncia de minha me. O que contribuiu para que eu conseguisse agentar cinco rounds de boxe. Na vizinhana onde cresci, se um homem fizesse aulas de dana, 
ou apanhava ou aprendia a usar os punhos.
- Essa  uma combinao singular. E que vizinhana foi essa?
- Sul de Boston.
- Oh! -A cabea de Laura rodava, seu pulso acelerava. Ento foi l que cresceu. Seu pai...
Royce inclinou-a para trs.
- Voc fala demais - murmurou e colou a boca  dela, puxando-a uma vez mais de encontro ao peito msculo. E continuou a beij-la enquanto se movia com ela ao som 
envolvente da msica. Ento a mo de Royce deslizou suavemente por seus ombros at enlaar-lhe o pescoo.
Laura sentiu o estmago apertar-se, os joelhos virarem gelia e murmurou o nome dele, duas vezes, contra a boca exigente.
- Voc sabe quem eu sou? - Ele aguardou at que Laura abrisse os olhos. - J me conhece agora, Laura?
Ela sabia exatamente as implicaes daquela pergunta e entendeu que cada momento que passaram juntos havia sido uma dana, cujos passos levaram quele desfecho.
- Acho que sim.
- Venha para casa comigo. - Ele a beijou mais uma vez, traando os contornos dos lbios femininos com a lngua at senti-los tremer. - Venha para a cama comigo.
Laura no se importava que a msica tivesse parado, nem que o clube estivesse lotado e mergulhou naquele beijo.
- Minha casa fica mais perto.
- Como sabe?
- Eu pesquisei seu endereo. - Ela sorria enquanto se afastavam. - S por via das dvidas. Minhas primas esto fora esta noite. - Laura tomou-lhe a mo e entrelaou 
os dedos nos dele. - Venha para casa comigo.
- Pensei que nunca fosse me pedir isso.
Royce beijou-a mais uma vez quando saram para a brisa fria daquela noite de outono. E, no instante em que entraram no carro, lanaram-se nos braos um do outro 
com um furor incontrolvel.
- Eu no tinha idia do quanto estava apressada. - Lutando por ar, Laura atacou a boca mscula mais uma vez. - Dirija rpido.
- Diga-me o que est usando embaixo desse vestido. Laura deu uma risada.
- Perfume.
- Vou dirigir o mais rpido que puder. - Royce bateu a porta do carro, ao mesmo tempo em que passava a primeira marcha. - Controle-se e mantenha as mos longe de 
mim. Quero viver para fazer amor com voc.
Laura lutou com o cinto de segurana, enquanto ele largava em disparada pela rua. Obediente, manteve as mos bem juntas no colo. Apesar de preferir utiliz-las para 
arrancar-lhe a camisa, toc-lo e lev-lo  loucura. No conhecia precedentes daquela luxria selvagem dentro dela.
- Conte-me mais alguma coisa - disse ela. - Sobre sua famlia. Irmos, irms.
No tenho. - Ele acelerou o carro, atravessando um sinal amarelo.
- Seus pais ainda vivem na velha vizinhana?
- Minha me se mudou para a Flrida com seu segundo marido. Meu pai faleceu.
- Sinto muito.
- Ossos do ofcio. Era assim que ele queria. Voc no acha que essas pessoas deveriam ter algo melhor para fazer do que ficar circulando pela rua esta noite?
Laura soltou uma risada e pressionou seu corao acelerado.
- Deus! Estou nervosa. Nunca fico nervosa. S falta eu comear a gaguejar.
- Eu poderia dizer-lhe o que vou fazer com voc no minuto em que retirar esse vestido.
- Royce, dirija mais rpido.
Ele virou a esquina e entrou na rua onde Laura morava. Naquele instante, seu bip comeou a tocar. Praguejando, Royce retirou-o do bolso.
- Leia o sinal para mim, por favor.
- Est bem. ...  meu.  da minha casa.
O olhar dele tornou-se duro. Eleja podia ouvir o alarme soando. Estacionou o carro duas casas antes da casa de Laura. 
- Fique aqui - ordenou ele. - E tranque as portas.
- Mas voc no pode... A polcia vai...
-  meu sistema. - Royce bateu a porta do carro atrs de si e, evitando as luzes dos postes, esgueirou-se pela escurido.
Levou apenas dez segundos para Laura decidir segui-lo. Xingou os malditos saltos finos dos sapatos enquanto seguia pela calada. Ao passar pelo flash de luz das 
janelas de sua casa, avistou dois vultos lutando.
Sem pensar duas vezes, correu em direo a eles, olhando em volta  procura de algo que pudesse ser usado como arma. Apavorada, respirou fundo e retirou do p um 
dos sapatos.
Naquele momento, viu o brilho do cabelo louro contra a luz. Ouviu um improprio e um resmungo quando o punho de Royce atingiu um rosto familiar.
- Ian! Oh, meu Deus! Ian, voc est bem? - Jogando o sapato ao cho, correu at onde o adversrio de Royce se encontrava esparramado no cho.
- Misericrdia! O que me atingiu? Uma pedra? - Ian balanou a cabea e cocou o queixo. - Que diabos est acontecendo aqui?
- Oh, querido, seu lbio est sangrando. Desculpe-me. Sinto muito. - Laura inclinou-se e beijou-o carinhosamente.
- Eu estou bem, obrigado - falou Royce atrs dela. O golpe do cime doa mais do que os ns de seus dedos. Ele franziu o cenho quando o casal no cho o encarou. 
- Pelo que pude observar, vocs se conhecem.
- Claro que nos conhecemos - disse Laura, acariciando o cabelo do rapaz. - Voc acaba de bater no meu irmo.
- E que soco! - Ian ergueu a mo, acariciou o queixo e concluiu que no estava quebrado. - Eu nem notei quando ele se aproximou.  claro que se eu o tivesse visto, 
no teria conseguido me acertar desse jeito.
- Venha, deixe-me lev-lo para dentro. Vamos colocar um gelo a.
- Pare de fazer drama, Laura. - Agora que seus ouvidos haviam parado de zunir, Ian deu uma olhada no homem que o atacara. Fez bem a seu ego notar a constituio 
compacta e os ombros largos do sujeito. Pelo menos, no tinha sido nocauteado por um janota qualquer, o que costumava ser o estilo dos namorados da irm. - Ian MacGregor 
- disse ele, estendendo a mo.
- Royce Cameron - Royce apertou-lhe a mo estendida e ajudou-o a levantar-se. - Voc recebeu outro aqui - apresentou-se, apontando para o canto do olho de Ian.
- Bem que eu senti. Eu estava desprevenido. Quer dizer, um cara est tentando entrar na casa da irm e de repente soam alarmes, luzes comeam a piscar...
-  o novo sistema de segurana - informou Royce. - Instalei-o h duas semanas.
- Bem... ele funciona. - Ian deu um sorriso em sinal de trgua. - Que tal uma cerveja?
Royce avaliou o homem e sorriu.
- Claro. Deixe-me desativar o alarme e dispensar os policiais.
- Voc tambm deve ter trocado as fechaduras - disse Ian, enquanto caminhavam lado a lado.
Laura permaneceu parada no mesmo lugar, desequilibrada por estar calando apenas um sapato. Sua boca comeou a abrir-se.
- Se isso no  tpico dos homens! - resmungou, procurando seu outro sapato. - Socam a cara um do outro e depois se tornam amigos para sempre.


Cinco

Suponho que no quer me contar o que estava fazendo tentando arrombar minha casa s 10h da noite de sbado.
Ian segurava uma garrafa de cerveja gelada contra a contuso do queixo e sorriu para a irm.
- Eu no a estaria arrombando se voc tivesse me dito que trocou a fechadura.
- Se contasse a algum seus planos...
- Eu no tinha plano algum. Apenas decidi aparecer para o final de semana. - Ele deu um sorrio para Royce. - Faculdade de Direito de Harvard. Primeiro ano. Um cara 
s vezes precisa de uma folga.
- Imagino que sim. - E como seus prprios planos para aquela noite tinham sofrido uma reviravolta, Royce decidiu que no teria escolha se no levar na esportiva. 
Mas desejava ardentemente que Laura trocasse aquele vestido provocante por algo mais sbrio.
- Onde esto as primas?
- Saram.
- Tem alguma coisa para comer aqui? - Fez uma careta para Laura e um brilho maroto no olhar do irmo denunciou que ele sabia exatamente o que havia interrompido. 
E que no estava nem um pouco arrependido - Estou faminto.
- Quer comer? Faa voc mesmo.
- Ela me adora - informou a Royce, enquanto se dirigia  geladeira. - Quer um sanduche?
Royce trocou um longo olhar com Laura.
- Por que no?
- Sabe de uma coisa, mana, eu estava indo tomar uma cerveja com o vov, mas senti uma vontade indescritvel de v-la - Lanou um sorriso sarcstico  irm, comeando 
a retirar alguns frios e pastas da geladeira.
- Oh, deixe-me cuidar disso. Voc est fazendo uma baguna. - Laura empurrou-o. Em seguida, suspirou, quando ele a agarrou pelos ombros e lhe deu um beijo na face
- V se sentar e tomar sua cerveja. Ele obedeceu e levantou ambas as pernas para escorar os ps na cadeira em frente. Aos 22 anos, cabelo louro, rosto marcante adornado 
com uma boca de poeta e olhos quase violeta, j estava a caminho de igualar e at mesmo ultrapassar a reputao que o pai deixara na Faculdade de Direito de Harvard. 
Nos estudos e com as mulheres.
- E a, Royce, conte-me, como vo as coisas no ramo da segurana?
No era propriamente uma pergunta, pensou Royce, era uma declarao. Ian MacGregor estava deixando bem claro que no tinha a mnima inteno de deix-lo pr as mos 
na irm at que estivesse satisfeito.
Muito justo, pensou Royce.
Notando que eles se entendiam, levantou sua garrafa de cerveja em direo ao irmo de Laura.
- D para ir vivendo.
Na semana seguinte, Laura enterrou sua frustrao sexual no trabalho. Ian praticamente se mudou para a casa das primas, passando cada tarde e cada noite em Back 
Bay com ela e, na manh seguinte, dirigindo para Cambridge para assistir s aulas.
Era um co de guarda firme e inabalvel.
- Ele precisa de uma surra - murmurou ela.
- Quem, querida?
Laura ergueu os olhos dos arquivos. Sua me estava parada  soleira da porta, com uma sobrancelha arqueada. O cabelo de Diana Blade MacGregor era to negro quanto 
o da filha e estava penteado em um coque, como uma concesso  aparncia para ir ao tribunal, onde passara a manh, Seus olhos eram escuros e gentis. A pele, dourada, 
graas  descendncia Comanche. Seu bronzeado combinava com o terninho bem talhado que realava a figura esbelta.
Perfeita era a palavra que sempre vinha  mente de Laura quando pensava na me. Absolutamente perfeita. Mas, naquele momento, no estava disposta a pensamentos familiares.
- Seu filho. Ele est me deixando louca. 
- Ian? - Diana entrou na sala e lutou para tirar a expresso de espanto do rosto. Ian tinha lhe contado que Laura estava mais do que interessada em um homem. - O 
que ele est fazendo?
- Est me rodeando e me sufocando. Ele tem a estranha idia de que est me protegendo. Mas eu no quero ser protegida.
- Entendo. - Diana encostou-se  mesa de Laura e acariciou os cabelos da filha. - Ser que isso teria algo a ver com Royce Cameron? ;
- Tem a ver comigo, que no preciso de um irmo mais novo interferindo em minha vida social. - Laura soltou um suspiro exasperado. - E sim, tem algo a ver com Royce.
- Eu gostaria de conhec-lo Seu av o tem em grande conta.
- Vov? - Confusa, Laura jogou os cabelos para trs e franziu o cenho. - Ele mal o conhece. Ele contratou a empresa de Royce. Isso  s. 
- Acho que voc deveria conhecer melhor os MacGregors. - Com uma risada, Diana balanou a cabea. - Querida, Daniel MacGregor no teria posto ningum em seu caminho, 
especialmente um homem atraente, a menos que soubesse tudo o que h para saber a respeito dele e mais alguma coisa. Em sua opinio, Royce Cameron vem de uma raa 
forte.
-  por causa da sua descendncia escocesa.
- E voc  sua neta mais velha. - Diana sorriu - Eu e seu pai a colocamos em uma situao delicada.
- No vejo por que... Oh! - Ela estacou quando percebeu o movimento da porta. - Royce!
- Desculpe-me, a recepcionista disse que voc no estava ocupada e que eu podia entrar.
- No tem problema, eu... - Ela detestava enrubescer. E eslava chegando  concluso que ele a fazia enrubescer pelo simples fato de existir. - Me, este  Royce 
Cameron.
- Muito prazer em conhec-lo. - Diana estendeu-lhe a mo e se sentiu sendo avaliada por frios olhos azuis.
- Desculpe-me - Royce sorriu para ela. - Estava apenas imaginando qual ser a aparncia de Laura quando desabrochar. Ela deu muita sorte com sua descendncia.
Lisonjeada, Diana murmurou:
- Obrigada. Meu marido costuma dizer que os Comanches usam bem os ossos. Estou certa de que voc quer conversar com Laura. Espero encontr-lo outra vez, sr. Cameron. 
Laura, vou ter uma palavrinha com Ian sobre a questo que estvamos discutindo.
- Obrigada.
- Sua me ... impressionante - murmurou Royce, quando Diana saiu, fechando a porta atrs de si. Depois voltou-se para Laura. - Comanche?
- Sim. Minha me  metade Comanche. - Levantou-se lentamente, quase em desafio. - E eu tambm.
- Devo concordar com seu pai. Voc usa bem os ossos. Ele aproximou-se, contornando a mesa at ficar cara a cara com Laura. - Seu irmo est escondido no arquivo? 
Ela deu uma risada.
- No neste momento.
- Bem... ento. - Sem retirar os olhos dos dela, Royce deslizou os braos por sua cintura e puxou-a para si. Observou os clios negros vibrando, enquanto sua boca 
tocava a de Laura. - Preciso v-la, Laura, sozinha.
- Eu sei. Eu quero...  que tudo est to complicado agora, e... Beije-me outra vez. Beije-me.
No to paciente dessa vez. No to gentil. Laura pode sentir a impacincia, o desejo frustrado que encontrava eco dentro dela e a promessa de calor e a pressa.
- Eu devia t-lo acertado com mais fora. - As mos de Royce deslizaram pelos quadris bem torneados para traz-la para mais perto. - Vou procur-lo e bater nele 
outra vez.
- No. - Laura entrelaou os dedos nos cabelos dele. - Deixe que eu fao isso.
- Diga  sua secretria que vai sair para almoar.
- So 10 horas da manh!
- Um almoo antecipado. - Royce beliscou-lhe o queixo. Depois, voltou a beij-la. - Que vai durar o dia inteiro.
- No posso. - Os lbios dele desceram pelo pescoo macio, fazendo sua pele vibrar. - Eu no deveria. - Em seguida, fizeram o caminho de volta at os lbios carnudos 
de Laura, fazendo-lhe o corao pular. - Est bem... deixe-me apenas...
- Laura, voc tem o arquivo do... - Caine MacGregor estacou, ainda segurando a maaneta da porta. E encarou, de testa franzida, o homem que devorava sua filhinha.
- Desculpe-me - disse ele. Frio o bastante para que ningum deixasse de notar seu aborrecimento.
- Pai! - Laura clareou a garganta, libertando-se de Royce e praguejando contra o rubor de sua face. - Eu estava... ns estvamos...
- Estavam o qu, Laura? - Ignorando a filha, Caine mediu o estranho de cima a baixo. - E voc seria...
- Royce Cameron. - Um lobo refinado, foi a impresso que teve daquele homem. No acreditava que os cabelos grisalhos de suas tmporas afetassem o poder dos caninos. 
- E estava beijando sua filha.
- Tenho olhos na cara, Cameron - disse Caine, em um tom que teria feito at mesmo seu pai vibrar de orgulho. - Segurana, estou certo? No deveria estar tornando 
a casa de algum segura, em vez de ficar beijando minha filha no meio da manh.
Royce ps ambas as mos nos bolsos. Ele ainda no havia se barbeado. No pretendia ver Laura naquela manh. Mas sara para fazer algumas compras e se descobriu parado 
em frente ao prdio onde ela trabalhava. No tinha certeza de como fora parar ali. Estava vestindo uma jaqueta de couro surrada e cala jeans desgastada em alguns 
pontos.
Fazia uma boa idia da imagem que passava a um pai devotado naquele momento. Um rico e devotado pai, que usava Savile Row como seja nascesse com ele.
- Acabo de chegar de Hyannis Port. Passei os dois ltimos dias l projetando e discutindo a melhoria do sistema de segurana da casa de seu pai.
Os olhos de Caine estreitaram-se e soltaram fascas.
- No me diga! O velho tirano intrometido! - resmungou, indo direto ao mago da questo. - Nesse caso, imagino que tenha interrompido seu trabalho l. No queremos 
prend-lo.
- Pai! - Exasperada, Laura censurou-o. - No h motivo para ser rude.
- H sim - disse Royce. - Voc se parece demais com sua me. Ele sabe que existem todos os motivos para ser rude.
- Disse bem, rapaz - concordou Caine.
- Eu voltarei - despediu-se Royce, caminhando em direo  porta e parando quando estava cara a cara com o pai de Laura. - E vou beijar sua filha outra vez, sr. 
MacGregor. O senhor ter que se acostumar com isso.
- Se vocs dois pensam que vo ficar a parados discutindo sobre mim como se eu fosse alguma espcie de trofu,...
- J terminamos a discusso - interrompeu Royce, olhando-a por sobre o ombro, antes de sair porta afora. - Por ora.
- Arrogante filho-da-me. - Caine enterrou ambas as mos nos bolsos da cala e sentiu um sorriso curvar-lhe os lbios. - Gostei dele.
- Oh, no diga? - A todo vapor, Laura saiu de trs da mesa e, quando estava perto o bastante, cutucou o peito do pai com os dedos. - Voc o humilhou.
- Eu no fiz nada disso.
- Fez sim. Ficando a parado com ares de... de...
- De pai - terminou ele e segurou o queixo da filha com uma das mos. - Voc acha que eu no sei o que ele tem em mente? As mos dele estavam...
- Eu sei exatamente onde as mos dele estavam - disparou Laura. - Estavam onde eu queria que estivessem. No sou mais uma criana e no vou permitir que os homens 
de minha famlia me ponham em uma redoma para proteger; minha virtude. Esse assunto s diz respeito a mim e eu farei: o que achar melhor, com quem eu quiser.
- No, se eu lhe der uma surra e a trancar em casa.
- Voc nunca encostou a mo em mim! - protestou Laura.
- O que por certo foi um grande erro, que ainda pode ser corrigido, mocinha.
- Parem com isso. - Diana adentrou o escritrio, fechando a porta com firmeza atrs de si. - Parem com essa gritaria. Suas vozes podem ser ouvidas no prdio inteiro.
- Pois que ouam! gritaram Laura e Caine ao mesmo tempo.
- Reduzam o tom de voz ou vou mult-los por desacato ao tribunal. Sentem-se os dois.
- Foi ele o culpado dessa discusso - ela meneou a cabea, jogando-se na cadeira. - Ele me envergonhou na frente de Royce e foi rude. Foi entrando aqui como um...
- Pai - concluiu Caine, sentando-se tambm.
- Pai das cavernas! - vociferou Laura, e voltando-se para Diana. - Me, eu tenho 24 anos. Ser que ele acha que nunca fui beijada antes?
- Pois acho bom que nunca tenha sido beijada desse jeito antes - resmungou Caine. - Diana, o homem estava com as mos na...
- Chega! - Diana levantou as mos e fechou os olhos, at ter certeza de que seu prprio gnio estava sob controle. - Laura, mesmo que tivesse 104 anos, no teria 
o direito de falar assim com seu pai. E Caine - continuou ela, assim que o semblante do marido comeou a iluminar-se. - Laura  uma mulher adulta, responsvel e 
pode beijar quem melhor lhe aprouver.
- Ora essa! - comeou Caine. 
- No se atreva a gritar comigo - avisou-o Diana. - Se foi rude com Royce, vai pedir desculpas.
- Nem que a vaca...
- Eu cuidarei disso - disse Diana entre dentes, lanando um olhar custico ao marido. - Por ora,  mais importante que vocs dois se comportem. Afinal, aqui  um 
local de trabalho.
- Diga isso a ela - resmungou Caine, apontando para a filha. - Ela  que estava tratando de assuntos pessoais praticamente em cima da mesa.
- Ns no estvamos em cima da mesa - vociferou Laura. Apesar de que poderiam estar, pensou ela, e talvez estivessem se o pai tivesse entrado um minuto mais tarde.
- Royce apenas passou por aqui para ver se eu estava livre para almoar com ele.
- Ah... - foi a resposta do pai. Latira bateu no brao da cadeira.
- Voc parece o vov falando.
- Oh, s faltava essa. - Ofendido, Caine levantou-se. -Sou atacado aos gritos por ter uma reao perfeitamente normal ao ver a filha ser engolida inteira por um 
estranho. Por outro lado, no faz objeo alguma ao fato de seu av escolher o que ele considera um candidato adequado para continuar a linhagem MacGregor.
- Caine! - Foi a vez de Diana afundar-se em uma cadeira. O qu? O que quer dizer com isso? Sobre o que est falando?
- Est claro como gua - disse Caine. - Voc  a neta mais velha. Est na idade de se casar. Est na hora de comear a cumprir sua obrigao - continuou ele, imitando 
a voz do pai - e achar um marido adequado, constituir uma famlia, ter filhos...
Os lbios de Laura moveram-se por alguns segundos, antes que conseguisse falar. E ento o nico som que conseguiu proferir foi um grito agudo.
- Viu? - Satisfeito de ter se feito entender, Caine torne a sentar-se.
- Ele o escolheu. - A irritao de Laura prendia-lhe, respirao na garganta. - Ele o mandou at mim. Ele o selecionou para que eu pudesse... pudesse procriar.
- Bem... - Caine fingiu examinar a bainha da cala. - Isso soa um pouco mais grosseiro do que ele pretendia. 
- Vou mat-lo. Com minhas prprias mos. - Caine refestelou-se na cadeira, satisfeito consigo mesmo.
- Qual deles? 
- Meu av.  melhor comear a tratar dos trmites do funeral. - Laura pegou seu casaco e a maleta. - Vou tirar; resto do dia de folga. Tenho que ir at Hyannis.
- Laura...!
- Deixe-a ir. - Caine agarrou a mo de Diana, enquanto a filha zarpava porta fora. - Ele merece.
- Deus do cu! Como fui me meter com essa famlia?
- Voc queria meu corpo - lembrou-a Caine. - No conseguia manter as mos afastadas de mim. - Ele beijou-lhe os dedos. - Ainda no consegue. 
- Vou tentar com mais afinco. 
- Diana - ele virou-lhe a mo para cima, roando os lbios na palma da mo de uma forma que, ambos sabiam, a desarmava. - Eu s estava tomando conta de nossa menininha.
- Ela j est mais alta do que ns, Caine. Aconteceu to depressa. - Diana baixou a cabea  altura da dele. -  to difcil encarar isso. 
- Eu s no quero que ela se apresse a envolver-se com algum... que foi escolhido para ela. 
- Laura faz suas prprias escolhas - disse Diana calmamente. - Sempre fez. O que achou dele?
- No sei. - Ele roou os dedos da esposa no prprio rosto. -  difcil dizer. Eu estava com uma faixa vermelha nos olhos. - Ele deu um suspiro. - Gostei dele.
- Eu tambm. 
- Isso no significa que ele pode... aqui no escritrio, Diana. Pelo amor de Deus!
- Ah, voc quer dizer que eles no podem fazer o mesmo que nos fizemos? - Ela revirou os olhos. - Vergonhoso.
- Aquilo foi diferente. - Caine franziu o cenho, enquanto Diana continuava com um sorriso maroto. - Est bem. Talvez mio tenha sido to diferente. - Ele deslizou 
uma das mos pelas pernas bem torneadas da mulher. - E ento, voc gostaria de experimentar a mesa? Ver se ela ainda funciona?
- Acho que j demos ao pessoal do escritrio motivos de sobra para fofocar por hoje. - Ela aproximou-se at que seus lbios roaram os do marido. - Vamos esperar 
at que Iodos tenham sado.
- Eu te amo, Diana. - Ele ps uma das mos na nuca da esposa, a fim de aprofundar o beijo. - Mil vezes mais do que a amava no dia em que entrou em minha vida.
- Temos sorte. Tudo o que desejo  que nossos filhos tenham tanta sorte quanto ns. - Ela passou a mo pelos cabelos do marido, adorando a forma como a prata comeava 
a encobrir o ouro. - Caine, ela vai esfolar Daniel vivo.
- Eu sei. - Seu riso foi rpido e malvolo. - Sinto muito perder essa cena.


Seis

No havia nada, pensou Daniel MacGregor, enquanto si refestelava em sua cadeira de couro macio em seu escritrio na torre de sua fortaleza particular, como um bom 
charuto.
E como sua mulher havia sado por algumas horas, ele podia fumar  vontade sem se preocupar em ser pego.
Ah, ela era a dona de seu corao. Isso era certo. Mas as mulheres no entendiam que os homens precisavam de uri bom charuto na mo, de rol-lo entre os dedos, para 
ajud-lo a pensar, a planejar.
O que o fazia lembrar-se de que tinha que subornar uma das crianas para contrabandear mais uma caixa. Seus charutos j estavam quase no fim.
Satisfeito, sentindo-se o dono do castelo, reclinou-se para trs na cadeira de couro desgastado, sua favorita, e lanou uma baforada de fumaa ao teto. Sua vida 
estava do jeito que deveria ser, pensou, e ele j estava velho o suficiente para relaxar e aproveit-la. Assim que seus netos estivessem; acomodados, felizes e cumprindo 
suas obrigaes de perpetuar o sangue dos MacGregors, ficaria tranqilo e poderia passar o resto de seus dias conforme estava fazendo naquela manh.
Com pensamentos felizes e um bom charuto cubano.
Seus planos para Laura estavam de vento em popa. Se os retalhos de informao que conseguiu obter das primas dela fossem corretos. E havia conseguido tambm mais 
alguns detalhes do prprio Royce Cameron.
- O rapaz se acha astuto - disse Daniel a si mesmo passou algum tempo soprando anis de fumaa. - Mas no pode ser mais sagaz do que um MacGregor.
A bem da verdade, Royce no dissera muita coisa. Sim, ele havia encontrado Laura e suas primas. De fato, ela era uma moa atraente. Tinha concordado que era de admirar 
que algum homem esperto ainda no a tivesse conquistado.
Enfim, no dissera nada comprometedor, mas Daniel conseguira ler nas entrelinhas. Ele observara os olhos do rapaz.
Apaixonado, era assim que ele estava, pensou Daniel, com um riso maroto. Preso na flecha do cupido.
Ele decidiu que um casamento na primavera seria adequado, a menos que pudesse apress-los para um casamento no inverno. Mas nada de perder tempo. Sentia falta de 
bebs andando pela casa.
Laura seria uma noiva maravilhosa, conjeturou ele. Ela se parecia com a me e Daniel exultara quando Caine finalmente conseguira levar Diana at o altar. Era verdade 
que o rapaz demorara duas vezes mais do que o necessrio para faz-lo, mas, no final, tudo deu certo.
Agora, a prxima gerao precisava de um empurro. Ele linha dado aos netos um pouco mais de tempo para se divertirem, mas j era hora de cutucar as netas mais velhas. 
Daniel se considerava bom nisso.
A viso de Laura, com o vu de casamento dos MacGregors e caminhando de brao dado com Caine, deixou os olhos do ancio marejados de lgrimas. Uma moa to linda. 
To amorosa... um anjo de candura... MacGregor!
A voz ecoou pelo recinto e quase fez Daniel engolir o charuto. Ele tossiu para expelir a fumaa que inalou e agitava a mo no ar freneticamente. Com grande pesar, 
jogou o resto do charuto fora, enquanto o eco de seu nome reverberava pela casa.
- Eu sei que est aqui. Vim para mat-lo. Fazendo uma careta e movendo-se com surpreendente destreza para um homem que j passara dos noventa anos,
Daniel jogou as cinzas na cesta de lixo e guardou o cinzeiro na ltima gaveta da mesa, trancando-a. Em seguida, abriu a janela para dissipar a fumaa.
- Voc! - Gloriosa em sua fria, Laura se encontrava na soleira da porta, com o dedo indicador em riste. - Como si atreveu? 
- Laurie, querida, que bela surpresa! - Daniel estava de p em frente  janela aberta, que deixava a brisa gelada inundar o aposento. Um touro de homem, cujos cabelos 
ruivos j haviam se transformado em branco neve, cuja barba era espessa e lustrosa e cujo brilho do olhar jamais se apagou. E que, naquele momento, tremia em suas 
botas. 
- No me venha com essa histria de Laurie, querida - Ela bateu com as duas mos na mesa do av. - Escolheu a dedo um garanho para mim? O que acha que sou, uma 
gua reprodutora? 
- No sei do que est falando. Voc veio dirigindo desde Boston - despistou, enquanto a mente fazia clculos  velocidade da luz. - Vamos descer e tomar um ch.
- Voc no ser capaz de engolir o ch quando eu o estrangular. Realmente imaginou que eu cairia em seu joguinho? 
- Que joguinho? Eu estava aqui sentado. - Ele apontou para a mesa e teve o cuidado de mant-la entre ambos. - Mexendo em alguns papis.
- Sou perfeitamente capaz de arranjar um homem quando quiser um.
- Claro que , querida. Ora, com essa sua aparncia devo ter que enxot-los a pauladas. Quando voc ainda no tinha nem dez minutos de vida e eu a segurei em minhas 
mos, disse a seu pai: "Este  o beb mais lindo que j nasceu em todo mundo." Foi h bastante tempo. - Ele deu um longo suspiro e passou o brao em volta da cadeira, 
como se necessitasse de apoio. - Isso me faz sentir velho. Sou um homem velho, Laura.
- No me venha com chantagem emocional. Voc s  velho quando quer. Trapaceiro, manipulador.
Daniel piscou vrias vezes e tentou com afinco empalidecer enquanto batia com uma das mos no peito.
- Meu corao. Meu corao est palpitando!
Laura apenas franziu a testa.
Eu posso dar um jeito nisso e faz-lo parar de vez.
- Talvez ele esteja se partindo. - Ele pendeu a cabea para o lado. - Partindo-se porque a neta favorita est falando assim com o av. Desrespeito - concluiu ele 
num tom de voz muito fraco. - Nada magoa mais um velho do que a lngua afiada de sua neta favorita.
- Voc tem sorte de eu ainda estar falando com voc. E nem pense que vai se safar dessa bancando o bom velhinho. Voc tem mais sade que um cavalo e na atual conjuntura 
acho que tem menos bom senso do que o pobre animal.
Daniel levantou a cabea e seus olhos brilhavam de irritao.
- Mea suas palavras, garota! No vou aceitar isso. Nem mesmo de voc.
- Nem eu vou aceitar o que est tentando fazer. Nem mesmo de voc. Como pde me envergonhar dessa maneira? Pelo amor de Deus, vov, voc o contratou para mim?
- Voc precisava de segurana. - Sua voz no denotava fraqueza agora. Ela ecoava como um trovo. - Voc e minhas outras meninas, vivendo sozinhas naquela cidade. 
Eu protejo aqueles que amo e no ia deixar sua av morrendo de preocupao por causa disso. Isso  tudo - concluiu ele batendo com a mo na mesa.
- Se isso  tudo, ento a questo seria outra. - Laura resolveu aplicar outra ttica. Caminhou em volta da mesa e ps as mos na cintura. - Daniel Duncan MacGregor, 
voc est sob juramento. Jura que tudo que diz  verdade, nada mais do que a verdade?
- Eu no minto, menina. Agora, se me der...
- Ainda no acabei com o meu interrogatrio ao ru.
- Ru! Ru! - rugiu ele. - No faz nem um ano que passou na prova da Ordem e j pensa que pode me interrogar?
- Sim. Sente-se, por favor. E responda s minhas perguntas. Voc contratou ou no Royce Cameron?
- J disse que sim. A empresa dele tem uma boa reputao.
- E por esse servio voc lhe pagou uma remunerao.
- Mas  claro. Eu no esperaria que um bom homem de negcios realizasse seus servios de graa.
- E voc o incentivou ou no a... digamos assim... socializar com sua neta mais velha?
- Ora, isso no tem cabimento. Eu jamais...
- Devo lembr-lo de que est sob juramento.
- Eu jamais disse algo parecido com socializar. Talvez tenha mencionado que minha neta mais velha era uma beldade solteira. - Com a fisionomia aborrecida, ele se 
sentou - Isso no  crime.
- Pois eu digo que o senhor me jogou para cima dele.
- Claro que no. - Daniel deu um sorriso maroto. - Eu o joguei em cima de voc. E se no tivesse gostado dele estava livre para mand-lo pastar, no  verdade?
- Bem... isso ...
- Mas voc no o rejeitou, no foi, Laurie? 
Ela franziu o cenho e rangeu os dentes.
- Uma coisa no tem nada a ver com a outra.
- Oh, tem sim, do contrrio no estaria aqui cuspindo fogo em cima de mim. Teria apenas dado uma boa risada e mandado o homem s favas. - Ele pegou-lhe a mo antes 
que ela a retirasse. - Ele est caidinho por voc.
- Est nada.
- Claro que sim. Um homem pode perceber isso de outro homem. E ele esteve aqui dois dias inteiros.
Laura retirou a mo. 
- Voc o subornou.
Chegara a vez dele de tambm brincar de fazer interrogatrio, pensou Daniel.
- Ele fez ou no fez um trabalho satisfatrio em sua casa? 
- Como posso saber? Eu no...
- Ele fez um excelente trabalho. Sua av e eu agora podemos dormir descansados. Ento, se eu tinha inteno de aprimorar o sistema de segurana de minha prpria 
casa, por que no chamar algum cuja reputao era positiva?
Como aquela discusso tomara aquele rumo?, imaginou Laura, enquanto passava os dedos nas tmporas. No incio, tivera o controle da situao. E em algum ponto o perdera.
- Voc sabe muito bem que tudo isso no passa de um estratagema.
- Mas claro que sim. A vida  um estratagema. - Daniel ofereceu um sorriso radiante  neta. - Royce Cameron  um homem atraente. Descende de uma boa linhagem. Montou
o prprio negcio. O av dele era um bom homem.
Aquela afirmao contribuiu para distra-la.
- Voc conhecia o av dele?
- De passagem apenas. Era um policial, com um forte senso de justia e um bom estmago para o usque. E sua av era uma Fitzwilliam, linhagem forte. Ela, eu conheci 
um pouco melhor. - Suas sobrancelhas se ergueram. - Mas isso foi antes de eu conhecer sua av. Ento, quando eu estava procurando algumas empresas confiveis da 
rea de Boston, nas Pginas Amarelas, e vi o nome Royce Cameron, que por sinal era o mesmo nome do av, e o nome me remeteu  lembrana de fatos ocorridos alguns 
anos atrs, pensei, ento, seria ele neto de Millie Fitzwilliam?
Desarmada, Laura fechou com fora a janela antes que os dois congelassem ali dentro.
- E ento resolveu descobrir.
- Para satisfazer minha curiosidade. Para conhecer o neto de velhos amigos. E se, quando descobri que ele era um homem forte e decente com uma boa cabea para os 
negcios, resolvi dar-lhe uns servios para fazer...
- Junto com sua neta mais velha.
- Como eu disse, eu o coloquei em seu caminho. Ningum colocou um revlver em sua cabea para faz-la ir danar com ele.
Laura arregalou os olhos.
- Como sabe disso? 
O sorriso de Daniel iluminou-se.
- Eu tenho minhas fontes, menina. 
- Tenho vontade de estrangul-lo.
- D-me um beijo, em vez disso. - Mais uma vez, pegou a mo da neta. - Senti tanto sua falta, Laurie.
- Hah.. hah... - disse ela e encheu o corao do av de orgulho. - Voc nunca sente falta de nada, seu velho intrometido. - Mas ela atendeu ao pedido e beijou-o 
e, em seguida, viu-se sentada no colo do av - Ele sabe que voc o jogou no meu caminho? 
- Ora essa, menina. Quem pensa que sou? Sou mais esperto do que isso. Mas, diga-me o que vai fazer com ele?
- Vou ter um trrido caso de amor com ele.
- Laura!
O choque e o horror no tom de voz do ancio foram a paga pela vergonha que a fez passar.
- Cada um colhe aquilo que planta, vov. E como voc colocou um belo espcime de homem  minha disposio, vou us-lo da forma que melhor me aprouver at me cansar 
dele.
Daniel a sacudiu com fora.
- Ah, voc est brincando comigo.
- Pode ser que sim. - Laura deu um sorriso enigmtico. - E pode ser que no. Portanto, pense bem na prxima vez que tiver vontade de bancar o cupido para cima de 
mim, MacGregor.
- Ora, ora, Laurie... - Ele parou de falar bruscamente ao ouvir o a voz da mulher.
- Laura? Daniel, aquele carro l fora  da Laura?
- Aqui em cima, vov.
- Psiu... - Ele sacudiu-a. - No a chame aqui em cima. Aquela mulher tem um nariz de co farejador. Eu s dei uns traguinhos, droga!
- Eu vou descer, vov. - Laura encarou o av. - Fica me devendo uma, MacGregor. E se no se comportar, eu posso deixar escapar que vi alguns charutos cubanos escondidos 
na ltima gaveta de sua escrivaninha. O ancio empalideceu.
- Voc no faria uma coisa dessas.
Laura manteve um sorriso enigmtico no rosto enquanto caminhava at a porta.
- No aposte nisso.
Mas como adorava o av, apressou-se escada abaixo antes que a av subisse. As duas mulheres selaram o encontro no meio da escada com um forte abrao.
- Oh, querida, por que no nos avisou que viria? Eu no teria sado.
Laura observou a montanha de sacolas de compras.
- Pelo que vejo, teve uma manh bastante ocupada.
- Decidi que terei todas as compras de Natal feitas antes do feriado de Ao de Graas este ano. - Anna passou o brao pela cintura da neta e guiou-a at a sala 
de estar. - Venha, vamos tomar um ch.
- Eu adoraria um ch, - Laura sentou-se, enquanto observava a av chamar a criada e dar-lhe as ordens.
To adorvel, pensou Laura. To resoluta! Ela sempre pensava na av como uma fortaleza. Uma mulher que perseguira o sonho de praticar a medicina quando era inconcebvel 
essa profisso para uma mulher.
Anna no s tinha transformado seu sonho em realidade, como tambm triunfara. Transformara-se em uma conceituadssima cirurgia torcica da Costa Leste, enquanto 
criava sua famlia e construa sua casa.
- O que tem feito, vov?
- Feito? Em que sentido? - perguntou Anna, acomodando os ps em uma almofada.
- Em todos os sentidos.
- Bem... Uma coisa de cada vez. Oh, eu juro que houve um tempo em que uma manh de compras no me deixava to fatigada. - Ela sorriu. - Estou to satisfeita por 
voc estar aqui. - Agora posso sentar-me e descansar um pouquinho.
Preocupada, Laura correu em direo  av. 
- Talvez deva se deitar um pouco. No deveria ter se cansado tanto.
- Laura - Sua voz era serena e quente como sol de vero: - Meus ps esto doendo, s isso. Agora, sente-se e me conte, voc dirigiu at aqui s para brigar com seu 
av? 
- Eu... - Laura respirou fundo. - Voc sabe de tudo?
- Sei que ele anda metendo o nariz onde no  chamai do e esperava que voc aparecesse por aqui semana passada. Royce Cameron deve ter causado um grande efeito para 
demorar tanto tempo para perceber o que estava acontecendo.
- Ele  incrivelmente lindo. 
- J tive oportunidade de constatar isso com meus prprios olhos.
- Acabei de dizer ao vov que pretendo ter um trrido caso de amor com ele.
- Oh! - Anna suspirou e moveu os dedos dos ps. - Acho que ele mereceu isso.
- Mas eu vou mesmo. - Laura imaginou quantas mulheres poderiam dizer a mesma coisa s suas avs. - Vou ter um caso com ele.
Anna no disse nada, grata pela criada ter entrado com a bandeja de ch. Aguardou at que ela as servisse e se retirasse.
- No precisaria dizer-lhe para tomar cuidado. Voc  uma moa inteligente e astuta. Mas, mesmo assim, lhe direi. Tenha cuidado.
- Eu terei. Por favor, no se preocupe. Eu estou... tremendamente atrada por ele. Nunca me senti assim em relao a; outro homem. E gosto dele. Eu no achava que 
gostaria. Na: verdade, achava que isso jamais aconteceria, mas aconteceu.
- E, obviamente, ele sente o mesmo em relao a voc.
- Acho que sim. - Laura bebericou um pouco de ch e colocou a xcara de lado. - Voc sabe que homens no estavam em minha agenda... Existem tantas coisas que eu 
quero fazer e que no tenho tempo para esse tipo de complicao. A, o vov o contrata. Pelo amor de Deus, vov, pare de rir.
- Desculpe, querida. Eu no devia...
- Poder ser engraado daqui a dez ou vinte anos - resmungou Laura. - Mas, neste momento,  humilhante. E ento Ian decide que precisa bancar a bab e no me d 
nem cinco minutos de paz. E qualquer um acharia que Royce se tornou seu melhor amigo desde que ele o acertou.
- Ian bateu em Royce?
- Foi o contrrio, mas devido a um mal-entendido.
- Naturalmente - disse Anna, tranqila, enquanto degustava seu ch.
- E a papai irrompe em meu escritrio esta manh e cria um pandemnio s porque Royce estava me beijando.
- Oh, pobre Caine! - exclamou Anna. - Sua pequena criana.
- Eu no sou...
- Voc sempre ser seu beb - interrompeu gentilmente a av. - Suponho que tenham discutido.
- Gritamos um com o outro durante um tempo. Ento, mame ps panos quentes. Mas quando ele mencionou que o vov... Bem, ele disse como o negcio todo havia comeado. 
No me restou outra alternativa se no vir aqui brigar com o vov.
- Naturalmente. - Os MacGregors nunca falhavam em expor seus pontos de vista a todo volume, pensou Anna. - Mas suponho que acabaram fazendo as pazes.
- Ningum consegue ficar zangada com o vov por muito tempo. Ele no deixa.
- Ningum sabe mais disso do que eu. E ningum ama mais do que Daniel.
- Eu sei. - Laura mordeu o lbio. Ela quase dissera o que no se permitia dizer nem a si mesma. - Vov... acho que eu poderia me apaixonar por Royce. Se eu permitisse 
a mim mesma.
- Laura - Anna estendeu o brao e pegou a mo da neta.
- O interessante de se apaixonar  que voc no tem o mnimo controle sobre isso. Apenas acontece. A vem Daniel
- Ela apertou a mo de Laura, quando ouviu os passos do marido na escada. - Eu no contaria a ltima parte de nossa conversa a ele. No ainda.
-Eu no lhe daria esse gostinho - disse ela a av e pegou a xcara de ch na hora em que o av entrou na sala.
- Bem, bem. - Ele deu um largo sorriso. - Duas beldades e ambas so minhas.


Sete

Laura no foi para casa. Dirigiu de volta a Boston e, no caminho, parou para jantar sozinha e dar a si mesma tempo pura pensar. Da forma como encarava a situao, 
tinha duas opes. Poderia ser teimosa, tentar dar uma lio ao av e nunca mais ver Royce Cameron.
Essa idia no fazia o sundae de chocolate que ela estava tomando deslizar agradavelmente pela garganta.
Por outro lado, poderia simplesmente permitir que seu relacionamento - isso se existisse de fato um relacionamento com Royce progredisse de forma natural, com o 
passar do tempo. Poderia considerar que essa interrupo no desenrolar das coisas havia sido um sinal de alerta para diminuir a marcha e avaliar aquela situao 
com maior cuidado, ou seja, olhar antes de pular.
Mas os MacGregors eram puladores e no observadores.
E essa era a razo pela qual,  lhl5 da manh, ela se encontrava do lado de fora do apartamento de Royce, batendo com o punho na porta. s
A porta do apartamento em frente se abriu o suficiente para que Laura divisasse um par de olhos vermelhos e arregalados e tornou a fechar-se com estrondo.
Ela bateu outra vez, com mais fora e xingando. E ento viu uma estreita faixa de luz brilhando sob a porta. Inclinou a cabea e deu um sorriso, certa de que Royce 
a estava observando pelo olho mgico. Um instante depois, as fechaduras foram destrancadas.
- O que aconteceu? - perguntou ele.
- Por que teria que acontecer alguma coisa? - Laura entrou. Feche a porta, Royce, voc tem um vizinho curioso.
Ele obedeceu, encostou-se  porta e lutou para orientar-se. Laura parecia to fresca e linda como estava s 10h da manh em seu terninho e sapatos altos. Enquanto 
ele se sentia pior do que um mendigo na cala jeans rasgada que conseguira encontrar no cho e vestir s pressas. 
Ele passou uma das mos na face e sentiu a barba arranhando-lhe a palma. Em seguida, deslizou-a pelo cabelo emaranhado.
-  lh da manh, ou eu dormi demais e nem senti? Laura consultou o relgio de pulso. 
- So precisamente lhl7, para ser exata. 
- Est bem. Vamos ser exatos. O que voc est fazendo aqui?
Divertida, ela caminhou ao longo da sala de estar. 
- Nunca vim ao seu apartamento. - Ela notou uma semana de poeira em cima dos mveis. Jornais empilhados no cho ao lado de um sof desgastado. Uma excelente aquarela 
do porto de Boston na parede, um aparelho de som na estante e um tapete que desesperadamente pedia um aspirador de p. - Agora sei por qu. - Laura levantou uma 
das sobrancelhas. - Voc  um porco. 
- Eu estava esperando... - Royce interrompeu o que ia dizer. Era lh da manh, lembrou-se. - Sim, e da? 
- Apenas uma observao. Voc tem algum vinho por aqui? Eu no bebi durante o jantar porque estava dirigindo. 
- Sim... acho que tenho... - Ele estava tentando raciocinar, mas seu crebro parecia um mingau. Quase nunca conseguia despertar totalmente alerta no meio do sono. 
- Voc veio aqui para tomar um drinque?
- Tem algum problema? - Ela manteve o tom casual, o sorriso agradvel no rosto e, julgando que a cozinha devia ficar  esquerda, caminhou naquela direo. - Voc 
quer um pouco de vinho?
- No. - Ele ficou parado a observ-la e passou a mo nos cabelos outra vez. - No. Sirva-se  vontade. 
- Vou me servir.
Ele obviamente costumava manter-se longe daquele aposento tanto quanto possvel, pensou Laura. Estava limpo o bastante para evidenciar o pouco uso. Entretanto, encontrou 
uma garrafa de chardonnay na geladeira e, aps uma rpida busca nos armrios, encontrou um copo.
- Com certeza, aqui no h suprfluos.
- Eu no passo muito tempo aqui. - Ele encaminhou-se at a cozinha, observando-a verter o vinho.
- E imagino que todos os seus lucros so gastos em seu prprio negcio. O que seria sbio e frugal. Por acaso,  um homem sbio e frugal, Royce Cameron?
- Na verdade, no. Apenas no preciso de muitas coisas.
- Pois eu adoro muitas coisas. - Ela ergueu o copo em um brinde e bebeu. - Suponho que sou uma mulher cara. - Laura estudou-o por cima da borda do copo. Seus olhos 
estavam injetados. Parecia sonolento e sexy. A boca curvava-se em um mimo. A cala jeans estava desabotoada e abaixada  altura dos quadris estreitos. O peito estava 
desnudo e era bem definido, com uma pequena cicatriz logo abaixo do ombro.
- Voc conseguiu isso em seu servio?
- Consegui o qu?
= A cicatriz. Ele olhou para baixo e deu de ombros.
- Sim. O que est acontecendo aqui, magrinha?
- Tenho uma pergunta a fazer-lhe.
- Est bem. Falso, verdadeiro ou mltipla escolha? Apenas sim ou no. - Laura fez um esforo para manter os olhos fixos nos dele. Aquele corpo compacto tinha o poder 
de distra-la. - Voc sabia que meu av o contratou para garantir a continuidade da linhagem dos MacGregors? Hum?
- Apenas sim ou no, Royce. No  to complicado assim. Vou perguntar de outra forma. Voc estava ciente quando aceitou o emprego de instalar o sistema de segurana 
em minha casa de que meu av o escolheu porque voc se enquadra nas exigncias dele como um potencial parceiro para mim?
- Parceiro? O que quer dizer com isso? - O crebro de Royce comeava a clarear. - Voc quer dizer... voc s pode estar brincando.
- Acho que isso responde  minha pergunta. - Laura comeou a caminhar, mas a mo se fechou em seu brao como uma cobra.
- Voc est dizendo que ele me comprou para voc?
- Isso na melhor das hipteses.
- Isso no tem cabimento.
- Assim  Daniel MacGregor. - Laura bateu de leve mo dele. - Alguns homens se sentiriam lisonjeados.
- E mesmo? - Os olhos azuis de Royce estavam apertados e flamejavam. - No me diga!
Por entender e gostar de sua reao, Laura mais uma vez bateu de leve na mo dele...
- Voc no fazia a mnima idia das intenes dele? M av no  exatamente um homem sutil. Ele acha que , mas est longe de ser.
Royce retirou a mo, irritado.
- Eu tive a impresso, logo no incio, de que ele esta tramando alguma coisa. Mas achei que voc deveria ser terrivelmente feia.
Uma gargalhada ecoou no aposento.
- Oh, muito obrigada.
- No. Espere. - Ele pressionou os olhos. Talvez estivesse sonhando. De qualquer forma, precisava clarear a mente - Ele mencionou o nome da neta mais velha vrias 
vezes. Os adjetivos eram brilhante, esperta, linda, solteira. Eu achei que talvez voc estivesse desesperada para... Bem desesperada. Ento, quando a vi julguei 
t-lo interpretado mal.
- Suponho que deva me sentir lisonjeada.
- O que est tentando me dizer  que ele armou tudo isso... !
- Meu av quer me ver casada. E criando um monte de filhos. Ele acha que voc seria um bom reprodutor.
- Que eu seria... - Royce levantou uma das mos e deu um passo atrs. - Espere a. No estou no mercado para... procriar.
- Nem eu.
- O velho bastardo!
- Exatamente. Mas tenha cuidado. Ns, da famlia, podemos cham-lo assim, mas no gostamos quando outros o fazem. - Laura pousou o copo. - Bem, achei que seria melhor 
esclarecer as coisas. Boa noite.
- S um minuto. - Ele quase tropeou para bloquear-lhe a passagem. - Veio aqui no meio da noite, jogou uma bom-ba em cima de mim e vai embora? No senhora.
- Achei que gostaria de saber disso e tambm que eu fui falar com meu av e acertar as coisas.
- Esta bem. Isso  um assunto de famlia. - Royce estendeu o brao e descansou a mo na maaneta, como para mant-la l dentro. - E voc deve saber que eu no dou 
a mnima para o que seu av tem em mente. - Com a mo livre, ele agarrou-lhe os cabelos, inclinando-lhe a cabea para trs. - Ele no est aqui agora. Seu pai tambm 
no, nem seu irmo ou suas primas. Laura sentiu o corao acelerar.
- No. Ningum est aqui, exceto voc e eu.
- Ento, por que no me conta o que tem em mente, Laura?
- Se eu tenho que lhe contar, voc no tem nem um tero da inteligncia que julguei que tivesse.
- Quero que voc me diga, com todas as letras. Apenas um passo os separava. E Laura foi a primeira a d-lo, fechando a distncia entre eles.
- Quero que me leve para a cama. Quero que faa amor inimigo pelo resto da noite. Ficou bem claro? 
- Claro como gua. Royce passou um dos braos por baixo dos joelhos dela. 
A respirao de Laura ficou suspensa nos pulmes enquanto era alada do cho. Antes que ela conseguisse enla-lo pelo pescoo, sua boca foi capturada pela dele 
num beijo faminto. Com um suave murmrio de prazer, ela aprofundou o beijo e chutou os sapatos para longe, enquanto era carregada em direo ao quarto de dormir.
O aposento estava envolto em sombras. Os lenis emaranhados, e a cama rangeu sob o peso de ambos. Erguendo os braos, Laura puxou-o para mais perto  deixou o calor 
do beijo espalhar-se glorioso por todo o seu corpo.
Royce despiu a jaqueta que ela usava, enquanto mordiscava a pele exposta do pescoo. Ela era linda e estava ansiosa sob ele, arqueando o corpo a cada toque, sussurando 
a cada carcia. Ele queria sabore-la, polegada por polegada, instante por instante. O desejo que sentia era to violento que parecia no saciado h dcadas.
Enquanto a boca carnuda e macia de Laura deslizava e misturava-se  dele, ele acariciava cada centmetro do corpo esbelto, torturando e ao mesmo tempo deleitando 
a ambos. Ele a ouviu gemer e sentiu-lhe o corao pulsar sob a palma de sua mo. Ento, incapaz de suportar aquela doce tortura por mais tempo, arrancou-lhe a blusa. 
O suti deixava a mostra grande parte dos seios. Cetim contra seda. Com a boca, Royce explorou aquela maciez, regozijando-se com a mistura de texturas. 
Laura quase gritou com a sensao dos lbios e da lngua de Royce em sua carne. Mas ela queria mais, queria tudo ento arqueou o corpo para oferecer-se por inteiro, 
enquanto deslizava as unhas pelas costas musculosas.
Tudo o que ele fazia, cada local que tocava, levava-sentir um anseio latejante. Laura no sabia que podia desejar tanto, que seu desejo poderia ser to profundo, 
to forte to imediato. E quando sua boca foi mais uma vez capturada, no conseguiu evitar que lgrimas lhe rolassem pela face tamanha a intensidade da sensao.
Laura rolou junto com ele. Sentia o corpo fluido, energizado. A respirao saa entrecortada  medida que Royce lhe arrancava a saia. A boca to faminta quanto a 
dele.
A pele de Laura era macia, quente, irresistvel. Seu cabelo, aquela cascata negra e gloriosamente brilhante, os envolvia enquanto travavam uma luta alucinada sobre 
a cama, tentando livrar-se das ltimas barreiras. Macio aqui, firme ali, entregando-se, exigindo. Royce preenchia-se nela, to inebriado que no notou o fato de 
que jamais desejou algo ou algum com tamanha intensidade.
Quando ele a abraou, ouviu um gemido baixo, longo e entrecortado. No lusco-fusco, observou os olhos de Laura, a princpio abertos e brilhantes se tornarem enevoados 
e semicerrados  medida que ele a transportava s alturas. Ela gritou seu nome e agarrou-lhe os cabelos. E, ento, perdeu completamente o controle.
Laura no notou que, em algum momento, haviam rolado para o cho, arrastando as cobertas junto com eles. O ar estava denso e pesado, pressionando-lhe os pulmes. 
As mos de Royce eram speras e rpidas atritando contra a pele macia. Ela estendeu um dos braos como que para manter o equilbrio. Foi quando sentiu algo se romper.
E ento ele estava dentro dela, forando-a mais uma vez a ultrapassar limites. Levando-a a um precipcio onde no havia nada em que se agarrar exceto ele. Desvairada, 
enroscou as pernas em volta do corpo msculo, correspondendo a sua intensa velocidade e ansiando por mais, enquanto uma violenta tempestade a assolava.
Laura no conseguia ouvir mais nada, exceto o rudo do prprio sangue jorrando nas veias, no sentia nada alm do prazer inigualvel do corpo msculo golpeando o 
seu, no viu nada a no ser aqueles olhos azuis como as guas profundas de um lago a observ-la.
E, naquele instante, como se pressentisse que ela precisava de uma ltima excitao, a boca mscula esmagou a dela, e juntos explodiram de prazer.
Royce conseguiu reunir fora suficiente para girar para o lado, ficando deitado de costas no cho, com Laura colada a seu corpo ainda superaquecido. Ento, julgou 
que morreria feliz se pudesse ficar naquela posio pelos prximos vinte anos.
- Ns estamos no cho? - A voz dela soou arrastada, abafada como se tivesse bebido uma garrafa inteira de vi em vez de um nico copo.
-  verdade. Estou certo de que estamos no cho.
- Como viemos parar aqui?
- No fao a mnima idia. - Ele virou-se e estremeceu ao sentir uma pontada de dor. Quando conseguiu energia p levantar uma das mos e pass-la pelo ombro notou 
uma pequena mancha de sangue. - Tem vidro quebrado no cho.
-Uh-huh.
- E agora tem caco de vidro em minhas costas.
- Oh. - Laura suspirou, esfregou o rosto contra o peito musculoso e em seguida sentou-se - Oh, ser que alguma coisa se quebrou? Estamos nus. Vamos ficar todos cortado
- Seja o que for que acontea, ainda vou achar que vai a pena. - Com uma fora que a fez piscar vrias vezes, e a beliscou na cintura e ento ergueu-a, fazendo-a 
sentar-se na cama. - Fique a at que eu limpe esta baguna.
- Acho que no devia... droga! - Laura cobriu os olhos com as mos quando ele acendeu a luz. - Isso  vidro? Cuidado para no pisar em cima.
- J pisei. - Ele soltou um palavro que a fez rir.
- Desculpe-me - disse Laura imediatamente. - Nunca ouvi essas duas palavras juntas. Ela abriu um dos olhos ficou logo sria. - Royce voc est sangrando.
- Em alguns lugares. Foi s um copo que se quebro Vou pegar uma vassoura.
- Vou cuidar de seus ferimentos - falou ela, com u sorriso sonhador enquanto o via sair pela porta. - Nossa, que corpo voc tem!
Desconcertado, Royce parou, olhou para trs por sobre um dos ombros. Ela estava sentada em sua cama, bela, esguia e com o cabelo revolto.
- Digo o mesmo de voc, magrinha - murmurou antes de sair.
Laura inclinou-se na cama e sacudia os cacos de vidro, quando ele voltou com uma vassoura e uma p.
- Voc vai ter que botar isto para lavar, pode ter vidro ainda.
- Jogue l no canto que depois eu cuido disso. Laura levantou uma sobrancelha enquanto olhava em volta do quarto. Tinha uma cama, um guarda-roupa e uma cadeira. 
Ou pelo menos julgou que havia uma cadeira sob a pilha de roupa. Havia tambm um espelho que precisava ser substitudo e uma mesa de canto com um computador e uma 
impressora.
- Todo o conforto de um lar! exclamou ela.
- Eu j lhe disse que no passo muito tempo aqui. - Ele jogou o copo quebrado na cesta de lixo. Em seguida deixou a vassoura e a p encostadas  parede.
- Voc costuma botar as roupas para lavar? - perguntou Laura.
- No at que no tenha outra opo. Ela riu e bateu com a mo na cama a seu lado.
- Sente-se aqui. Deixe-me ver esse corte. - Quando ele obedeceu, Laura tocou-lhe o ombro com os lbios. - E s um arranho.
- Se tivesse cado da cama do outro lado, agora voc estaria beijando minha bunda.
Rindo, Laura repousou a cabea nas costas dele.
- Seu p est doendo?
- Foi um cortezinho de nada. J tive piores. Laura virou-se e passou um dedo sobre a cicatriz no ombro dele.
- Como este aqui?
- No esperei cobertura. Erro de clculo. No voltei a fazer isso.
E este aqui? - Ela tocou-lhe a cicatriz no queixo.
- Briga de bar. Eu estava bbado demais para senti-lo e fui estpido o bastante para provoc-lo. Tambm parei de cometer esse tipo de erro.
- Isso quer dizer que est aposentado, Royce? - Laura inclinou-se para frente para roar os lbios no queixo quadrado.
- Mais ou menos.
- Ainda bem que  s mais ou menos. - Encorajada pelo brilho de excitao nos olhos dele, Laura enlaou-o pelo pescoo. - Detestaria que voc fosse um cidado totalmente 
correto.
- No  isso que voc ?
Laura riu e mordeu-lhe o lbio inferior.
- Mais ou menos.
- Eu diria que  mais do que menos, Laura MacGregor, descendente dos MacGregors de Boston. - Sua mo deslizou pela cintura delgada para acariciar-lhe um dos seios. 
- O que est fazendo na minha cama?
- Pode-se dizer que, neste exato momento, estou onde queria estar. - Ela estremeceu com a carcia. - Tenho o hbito de perseguir aquilo que quero. Trata-se de uma 
peculiaridade da famlia. - Seus lbios viajaram pelo queixo dele. - E eu quero voc. Quero voc. Possua-me, Royce. - Laura roou os lbios nos dele, destruindo 
qualquer esperana que ele pudesse ter de raciocinar com clareza. - Leve-me ao mesmo lugar para onde me levou agora h pouco.
Ele a abraou com fora contra o peito e atendeu ao pedido.


Oito

A neve assolava a Costa Leste e fazia as crianas brincarem com alegria. Ventos fortes vinham do Canad trazendo um frio cortante. Motores estouravam, carros atolavam 
e as ruas viravam rinques de patinao.
Os mais corajosos e determinados lotavam os shoppings procurando presentes de Natal. Cartes natalinos chegavam pelo correio e cozinhas exalavam odores apetitosos.
Boston crepitava enquanto observava mais uma nevada.
Toda enrolada em camadas de roupa para defender-se do frio e munida com uma p, Laura saiu para limpar o caminho que levava  garagem. O sol refletia-se no branco 
do solo fazendo os olhos piscarem, por isso, ela colocou tambm culos escuros. A brisa fria fustigava-lhe as faces e queimava-lhe o pescoo. E ela no poderia sentir-se 
mais feliz.
Por baixo do capuz da capa, usava headfones e a msica inundava seus ouvidos. Canes natalinas, to alegres quanto seu humor Sua vida, pensou, enquanto retirava 
as primeiras ps de neve, no poderia estar mais perfeita. 
Ganhara seu primeiro caso na semana anterior. Uma pequena ao de danos  propriedade, de pequenas conseqncias para o mundo jurdico, pensou. No entanto, ela enfrentara 
o juiz e apresentara seus argumentos. E ganhara. E tinha mais dois clientes novos que queriam fazer seus testamentos.
Estava apenas comeando.
O Natal j estava a caminho e no se lembrava de estar mais animada com sua chegada. Adorava as luzes coloridas brilhando nas casas e as renas nos jardins. As rvores 
decoradas por trs das janelas.
Encontrava-se at disposta a acotovelar-se com as multides para fazer as compras de Natal. No importava que Julia e Gwen revirassem os olhos quando ela comeava 
a cantarolar com os olhos sonhadores perdidos na janela. At conseguia rir dos comentrios das primas acusando-a de estar apaixonada.
No estava apaixonada. Apenas se divertia com o gostinho de aventura de um romance com um homem excitante. Isso era inteiramente diferente. Se estivesse apaixonada, 
estaria preocupada. Sentaria perto do telefone, roendo as unhas e esperando que ele ligasse. Pensaria nele em todos os minutos do dia e planejaria todas as noites 
ao lado dele. Perderia o apetite, rolaria na cama e sofreria com alteraes de humor.
Nada disso era verdade, decidiu, voltando ao trabalho. Bem... talvez pensasse bastante nele nas ocasies mais inusitadas. Quase o tempo inteiro. Mas, definitivamente, 
no ficava sentada ao lado do telefone, no perdera o apetite e seu humor no poderia estar melhor.
Ser que estava chateada por ele ter recusado o convite para passar o jantar de Ao de Graas em Hyannis Port? Claro que no. Sentiria a falta dele, mas no o pressionara 
nem criara um caso.
Portanto, Laura concluiu, enquanto jogava ps de neve por cima do ombro, no estava apaixonada.
Quando sentiu as mos fortes em seus quadris, a p saiu voando. Foi virada antes que pudesse soltar um gritinho estrangulado e, ento, encontrou-se fitando um par 
de olhos azuis gelados. Notou que a cabea e os ombros de Royce estavam cobertos de neve. E que sua boca se movia.
- O qu?
Ele meneou a cabea e deu um longo suspiro. Em seguida, retirou-lhe um dos fones do ouvido.
- Eu falei. "Que diabo est fazendo"?
- Retirando a neve do caminho.
Ele passou uma das mos pelos cabelos para sacudir a neve.
- Isso eu notei.
- Eu o atingi com a ltima p de neve? - Laura mordeu o lbio inferior com fora e lutou para manter a voz firme.
- Sinto muito - Deu uma risada disfarada de tosse quando o viu franzir a testa. - Eu no sabia que estava atrs de mim.
Ela desistiu. Envolveu o peito com os braos e caiu na gargalhada. - Sinto muito mesmo, mas voc vive me espreitando.
- Se no estivesse com essa msica to alta nos ouvidos, seria capaz de ouvir o resto do mundo. E por que diabos est aqui fora limpando neve?
- Porque a neve est aqui e meu carro est dentro da garagem e tenho que ir para o escritrio.
Ele retirou-lhe os culos do nariz e colocou-os dentro do bolso do casaco dela.
- E acredito que no exista nas redondezas nenhum rapaz disposto a limpar a neve por uns trocados.
- Sou perfeitamente capaz de fazer isso. - Laura ps as mos nos quadris. - Se est sequer pensando em dizer algo insultuoso como "isso  trabalho para homem"...
Ela deixou escapar um som exasperado e abaixou-se para pegar a p. Mas Royce pegou-a primeiro.
- V para dentro - ordenou ele. - E esquente-se. Eu cuidarei disso. 
- Eu fao isso - Laura pegou a ala da p, mas ele no a soltou. -  meu carro e este  o caminho de minha garagem.
- No vou ficar aqui vendo-a limpar neve.
- Oh, e suponho que eu deveria ir para a cozinha e fazer-lhe um chocolate quente.
- Boa idia. - Royce sabia exatamente o que estava fazendo. O que estava arriscando quando enterrou a p na neve. - Pode acrescentar marshmallows. - Ele nem chegou 
a terminar a frase quando a primeira bola de neve explodiu atrs de sua cabea. - Deixe a brincadeira para mais tarde, logo que eu terminar aqui.
- No vou fazer chocolate nenhum!
- Caf serve.
- Voc no tem nada para fazer? No trabalha?
- So apenas 7h30. Tenho tempo de sobra.
E precisava v-la. Era simples assim. Tinha dito a si mesmo que era cedo demais para ir para o escritrio. E, ento, seu carro acabou em frente  casa dela. Permanecera 
alguns minutos sentado atrs do volante a observ-la. Parecia uma coluna de fogo contra a neve naquela capa vermelha com capuz.
Ento, ficou algum tempo a olh-la, a desej-la. E aquilo o deixava preocupado.
O prximo mssil atingiu-o no pescoo. Royce ignorou-o e continuou trabalhando.
Das janelas do segundo andar, Julia e Gwen estudavam a cena com os narizes pressionados contra o vidro.
- Quanto tempo acha que vai demorar at que ele a agarre e a jogue no cho? - Gwen cogitou.
- Mais umas trs bolas de neve.
- Concordo. Dez segundos at que ela seja jogada ao cho e receba um beijo de tirar o flego.
- Cinco segundos, no mximo - declarou Julia. - Ele trabalha rpido.
- E quanto tempo vai demorar at que ela descubra que est apaixonada?
- Oh, timo tiro, Laura! Essa deve ter dodo e ele deve estar congelando com a neve escorrendo para dentro do colarinho. Eu diria que ela talvez descubra antes do 
Natal.
- Pois eu acho que ela j sabe. - Gwen deu um sorriso sbio. - Apenas  teimosa demais para admitir.
- E quanto a ele?
- Oh, ele est caidinho. No v o modo como a olha? Como est sempre com os olhos nela?
- Como se fosse continuar a olh-la mesmo que Boston afundasse na baa? Sim.
Gwen deu um suspiro.
- E. Oh, l vamos ns.
As duas primas saram da janela quando Royce se virou c Laura deu um passo atrs.
- Vai ser um beijo e tanto - previu Julia.
L fora, Laura parou de jogar bolas quando o viu caminhar em sua direo.
- Quero essa p.
- Quer a p? Esta p? - Ele a jogou para longe. Em seguida, derrubou Laura no cho, certificando-se de deixar o prprio corpo embaixo dela para amortecer-lhe a queda.
- Idiota! - Ela estendeu um brao e pegou mais uma bola de neve. Mas antes que pudesse esfreg-la no rosto dele, Royce agarrou-lhe o brao. Laura perdeu o flego 
e estremeceu quando a neve deslizou, fria e molhada, por seu pescoo. E ento sua boca ficou ocupada demais para proferir insultos.
Ele a estava beijando e substituindo o frio de seu corpo por um calor intenso, que derretia seus pensamentos e tirava a fora de seus membros. Tentou um protesto 
abafado e, depois, enlaou-lhe o pescoo com os braos.
Espantou-se com o fato de que a neve embaixo deles no havia derretido em conseqncia do calor que seus corpos geravam.
- Se pensa que pode vencer-me dessa forma... - comeou ela quando recuperou o flego.
- J consegui. - Royce riu e beijou-a. Agora de leve. -Seu nariz est ficando vermelho.
- Que gentil de sua parte mencionar isso! - Dessa vez ela realmente esfregou neve no rosto dele. E ento rindo, tentou desvencilhar-se dos braos dele, enquanto 
o ouvia praguejar. - Agora seu rosto todo est vermelho. E muito atraente.
Royce rolou pela neve com ela, enterrando-lhe o rosto na neve. E aps trs minutos de luta, ambos estavam encharcados, cobertos de neve e sem ar.
- Solte-me, seu bruto. - A voz de Laura saa entrecortada pelo riso.
- Primeiro idiota e agora bruto. - Ele pegou um punhado de neve e moldou-o em uma das mos.
Os olhos de Laura focaram-se na bola e em seguida fitaram-no.
- Atreva-se e pagar caro por isso. Ele acariciou a bola.
- Ora, agora estou tremendo de medo! - Com ar brincalho, ele esfregou-a pelo queixo dela, subindo pelas faces rosadas. Ela ficou inerte, com o queixo erguido esperando 
pelo pior.
O riso de Royce secou lentamente. A veia do pescoo de Laura comeou a pulsar de maneira selvagem, enquanto o olhar msculo percorria-lhe a face e os dedos seguiam 
o mesmo caminho.
- Royce?
- Fique quieta por um momento - disse ele distraidamente, ainda deslizando o dedo pelo rosto dela. Ento, baixou a cabea e capturou-lhe mais uma vez os lbios carnudos. 
Laura no conseguiria falar, mesmo que sua vida dependesse disso.
Ele precisava acreditar que o que estava sentindo era porque Laura era linda. Porque tinha um rosto extico e um corpo tentador. Mas de alguma forma sabia que no 
era apenas desejo. Entendia bastante de paixo, necessidade, fome. Mas aquilo era muito mais. Era tudo.
Seus lbios roaram os dela de leve, como para testar seu sabor. E, ento, demoraram-se a explor-la.
Ele nunca a beijara daquela maneira. Ningum jamais o fizera. Acostumara-se a notar o desejo dos homens por ela. Mas aquela ternura era algo novo e destruiu suas 
defesas. 
A mo de Laura deslizou para o cho. Tudo o que ela era, tudo o que tinha convergia para ele, para eles, para o que criaram juntos.
Quando Royce a sentiu tremer, afastou-se imediatamente. Com mos trmulas, comeou a sacudir a neve do cabelo dela.
- Voc est gelada - proferiu com voz rouca. - Branca de neve.
- Royce...
-  melhor entrar e secar-se. - E ele precisava sair dali bem depressa, pensou, quase em pnico. Tinha que recuperar o equilbrio. Ergueu-se de sbito, ajudando-a 
a levantar-se. - Voc tem cabelos para cobrir o quarteiro inteiro e esto todos molhados. Vou terminar de limpar a neve.
O estmago de Laura estava dando ns e sua cabea no conseguia parar de rodar.
- Est bem. - Ela queria entrar e ficar sentada at que pudesse sentir suas pernas outra vez. - Vou... ah... fazer um chocolate quente.
- Preciso fazer uma inspeo de rotina. - Royce passou por ela para pegar a p. - O caminho est quase limpo, de qualquer forma. Tenho muitas coisas a fazer.
No discutiriam sobre o que acabara de acontecer entre eles, pensou Laura. Em seguida, deu um longo suspiro. Melhor no falar sobre isso enquanto no entendesse 
exatamente o que acontecera.
- Est bem. Mas pode entrar um pouco para secar-se.
- Estou bem. Vejo-a mais tarde.
- Mais tarde. - Laura entrou na garagem e jogou-se dentro do carro.
Estava sem flego quando entrou em casa e ocupou-se em tirar o casaco e desenrolar o cachecol. Colocou a capa e os fones de lado.
Estava muito calor, pensou, e retirou tambm o suter. Depois, sentou-se para tirar as botas e as meias.
Ainda continuava sentindo calor. Seu corpo estava superaquecido. Sentia-se febril. Talvez estivesse ficando resfriada. Naquela poca do ano, era comum. Por certo 
pegara algum vrus. Isso explicava o fato de seus msculos doerem e os membros tremerem.
Precisava tomar um remdio para espantar a gripe.
Ento, levantou uma das mos e, com os dedos, tocou os lbios que ainda pulsavam pelo impacto do beijo de Royce e ainda sentiam o gosto dele.
Fechando os olhos, descansou a cabea nos joelhos e admitiu o pior. Havia se apaixonado sem detectar os sintomas
Estava irremediavelmente apaixonada por Royce Cameron. 




Nove

- Voc se saiu muito bem no tribunal hoje. - Diana sorriu para a filha enquanto trabalhavam juntas na biblioteca.
- Obrigada. - Laura franziu a testa sem retirar os olhos da petio. Em seguida, fez uma anotao na margem do documento. - Adorei voc ter me deixado conduzir o 
interrogatrio.
-  um testemunho bsico, mas ainda assim capcioso. E voc o conduziu muito bem. O jri prestou ateno aos seus argumentos e, o que  mais importante, nossa cliente 
confia em voc.
Laura sorriu.
- Amanda  sua cliente.
- Voc tem ajudado muito neste caso. - Diana consultou a pilha de livros sobre a mesa. - Mas ainda temos um longo caminho pela frente.
- Est preocupada, mame?
- Um pouco - admitiu Diana. - No gostaria que ela passasse um nico dia na priso, pois acredito que ela estava defendendo a prpria vida. E, por falar nisso, tambm 
estou um pouco preocupada com voc.
- Por qu? Estou tima.
-  mesmo?
- No poderia estar melhor. Estou fazendo exatamente o que sempre quis. Minha vida est rica e excitante. Faltam duas semanas para o Natal e pela primeira vez na 
vida j fiz a maioria das compras. O que poderia estar errado?
- No mencionou Royce.
- Ele tambm est timo. - Laura baixou o olhar em direo aos papis em cima da mesa. Estive com ele na noite passada. Samos para jantar.
- E?
- E... foi timo. Adorei sair com ele. Na verdade, acho que devemos desacelerar um pouco as coisas. Nosso relacionamento estava muito apressado. E com os feriados 
caminho, todos estamos muito ocupados.  uma boa poca para nos acalmar um pouco e avaliar a situao.
Laura deu um sorriso forado.
- Voc se parece tanto comigo!  quase assustador.
- O que quer dizer com isso?
- Querida, voc no disse uma s palavra sobre seus sentimentos para com ele.
- Claro que disse. Disse que adoro v-lo. Que gostamos da companhia um do outro. Royce  um homem muito interessante e complexo e eu... - Ela interrompeu a frase 
mediante o olhar inquisitivo da me. - E eu estou completamente apaixonada por ele. Isso no deveria acontecer Entrei nesse relacionamento de olhos bem abertos. 
Sou responsvel por minhas reaes, minhas emoes. Nosso caso deveria ter permanecido no mbito fsico. Uma relao entre duas pessoas que se gostam e se respeitam. 
- Laura esfregou os olhos. - Eu poderia matar o vov por ter colocado nessa enrascada.
Diana cobriu a mo da filha com a sua.
-  to terrvel apaixonar-se por um homem excitante complexo de quem voc gosta, a quem respeita e que curte? 
- Sim. Quando se estabelece algumas regras no incio.
- Foi o que voc fez?
- No em palavras. Foi um acordo tcito. Nenhum de ns est procurando amor, casamento ou famlia. Royce ficou to chateado quanto eu quando soube do esquema do 
vov. - Laura inspirou fundo. - Eu estou bem. Verdade. Apenas um pouco irritada comigo mesma. Mas posso lida com isso.  apenas uma questo de esfriar um pouco as 
coisas para que entrem em perspectiva.
-  uma questo de ser teimosa ou medrosa demais para arriscar seus sentimentos.
- Talvez. - Laura aceitou a possibilidade com um aceno de cabea. - Mas no quero perd-lo e era isso que aconteceria caso eu comeasse a complicar as coisas. Prefiro 
manter o que tenho a v-lo ir embora.
- Tem certeza de que ele faria isso? No tenho certeza de nada. Mas decidi manter as coisas do jeito que esto, talvez com um pouco de distncia. Quando tiver uma 
melhor perspectiva, comearemos do ponto de partida. Manter distncia no ser problema, com a quantidade de trabalho que tenho e os feriados... - Ela fez um esforo 
para alegrar a fisionomia. - Portanto, respondendo  pergunta inicial, estou perfeitamente bem.
De bom humor e com uma sacola embaixo do brao, Caine caminhava em direo ao escritrio. Ele dera uma escapulida para pegar um colar que mandara fazer e que ele 
prprio havia desenhado para a mulher. Podia at visualiz-la abrindo o presente de Natal e ele mesmo retirando o colar de ouro e pedras preciosas da caixa e colocando-o 
em seu pescoo.
Ela ficaria feliz, pensou.
Quando avistou o homem observando a escada que levava ao escritrio MacGregor e MacGregor, o humor de Caine obscureceu de pronto. Royce Cameron, o homem que estava 
brincando com sua filha.
- Cameron! Royce olhou ao redor e seu prprio humor, que j no era dos melhores, piorou. A droga dos MacGregors estava por toda parte.
- Sr. MacGregor!
- O escritrio s abre s 9 horas - disse Caine friamente. - Laura est ajudando em um caso bastante complicado. Se pretende v-la,  melhor esperar at o fim do 
dia.
- No vim para ver Laura. Vim para ver sua mulher. Os olhos de Caine se tornaram duros e ameaadores.
- No me diga. E por acaso marcou horrio?
- No, mas acho que ela vai querer ver-me. Trata-se um assunto jurdico, sr. MacGregor, e no de uma questo pessoal.
- A agenda de Diana j est lotada. Mas eu tenho alguns minutos sobrando.
Pela primeira vez, Royce sorriu.
- Sr. MacGregor, se eu tivesse um problema legal, senhor seria o ltimo advogado em Boston a quem procuraria. O senhor no iria querer nada alm de ver-me trancafiado 
numa cela por no mnimo uns vinte anos, de preferncia numa solitria.
- Nada disso, rapaz. Eu estava pensando em algo com trabalhos forados em uma priso de segurana mxima. - Mas como Caine gostava de homens com personalidade abriu 
a porta.
Seguiram juntos at a recepo, com suas antigidades em madeira polida.
- Arquive isto na pasta "Natal", Mollie - disse Caine recepcionista.
- Oh, sr. MacGregor,  um colar, no ? Posso espiar? 
- S tome cuidado para que minha mulher no o veja. Depois, v ver se ela tem um minuto para o sr. Cameron.
- E para j - Enquanto falava, a moa ia retirando caixa de veludo de dentro da sacola e abrindo a tampa. - Oh - Ela levou uma das mos ao peito. -  o colar mais 
lindo que j vi. Ela vai adorar.
Distrado, Caine encostou o quadril na mesa e deu mais uma olhada no presente.
- Voc acha?
- Qualquer mulher que achasse isto embaixo da rvore de Natal saberia que  adorada. Repare no brilho do sol sobre as pedras. 
Frustrado, Royce observou o ex-Procurador Geral dos Estados Unidos rindo diante de uma jia do modo como um menino riria em frente a um pote cheio de balas. E o 
que mais o chocava era tratar-se de um homem completamente apaixonado por uma mulher com a qual estivera casado durante um quarto de sculo.
Como aquilo poderia acontecer?, ponderou Royce. Qual a frmula para aquele amor durar tanto? Como duas pessoas conseguiriam viver juntas durante uma vida inteira 
e ainda se amar?
- Sem comentrios, Cameron?
Royce sobressaltou-se e olhou para o colar. Era uma pea extica, com pedras bastante coloridas brilhando contra o ouro macio. Julgou que ficaria perfeito em Diana 
MacGregor. E, sem dvida, em sua filha tambm.
Royce sentiu-se bastante ridculo.
-  magnfico. Mas eu no entendo muito de jias.
- Mas as mulheres entendem - afirmou Caine, piscando para Mollie - Certo?
- Pode apostar que sim. - A moa colocou a bolsa na ltima gaveta do arquivo e girou a chave. - Vou interfonar para a sra. MacGregor, sr. Cameron. Sente-se, por 
favor.
- Ele pode vir comigo. Ligue para a minha sala se e quando Diana ficar livre, Mollie. - O sorriso tolo de Caine aumentou enquanto se voltava para Royce. - Est bem 
assim? .
- Claro. - Com deliberada arrogncia, ele ps ambas as mos nos bolsos da cala jeans e seguiu Caine pela escada com um corrimo que brilhava mais do que a luz do 
sol.
O lugar cheirava a riqueza, foi tudo em que pensou. Odores sutis, tapetes felpudos, couro, polimento. Os lambris no hall pelo qual seguiam s podiam ser de mogno. 
Mas, acima de tudo, aquele local se parecia com um lar, mais do que um local de trabalho. Ficou impressionado como algum poderia conseguir aquele efeito.
Caine entrou em sua sala e sentou-se atrs da mesa.
- Sente-se, por favor, Cameron. Bebe alguma coisa? Um caf?
Royce escolheu uma cadeira de couro azul-marinho.
- J deixei de ser policial h bastante tempo, mas ainda me lembro de como comea um interrogatrio. E talvez e seja to bom nisso quanto o senhor.
- Eu trabalhei com isso muito mais do que voc. Vamos direto ao mago da questo, se no se importa. Quais so a suas intenes com a minha filha?
- No tenho nenhuma. No tenho intenes, nem planos nem projetos.
- Voc est saindo com ela h quase trs meses.
- Isso  verdade. Imagino que ela j tenha namorado muitos outros homens.
Porm, aquele era o nico homem com o qual Caine j se preocupara.
- A vida social de Laura no comeou com voc. Afinal, ela  uma beldade. Uma jovem linda e rica - acrescentou ele mantendo o olhar fixo nos olhos de Royce. O trao 
de insulto que viu neles o agradou bastante.
- No acredito que queira seguir por esse caminho.
- Esse  um fato inegvel.
- O senhor acha mesmo que me importo com a fortuna, dela? - O temperamento de Royce o fez levantar-se da cadeira. -Acha que um homem poderia ficar com ela mais do 
que cinco minutos e pensar em outra coisa que no fosse ela prpria? No me interessa o que pensa de mim, mas acho que deveria pensar melhor sobre sua filha.
- Eu penso. - Mais relaxado, Caine refestelou-se na cadeira. - E agora acho que voc tambm.
- Seu filho da me!
- Como bem disse, o que achamos um do outro no interessa. Eu amo minha filha e confio no julgamento dela na maioria das vezes. Sempre a considerei uma boa avaliadora 
de carter. Ela v algo em voc e vou tentar aceitar isso. Mas no a machuque... - Ele inclinou-se para frente com os olhos faiscando. - Cause-lhe um instante de 
infelicidade e eu vou para cima de voc com a fria de Deus.
Quando o telefone tocou, Caine atendeu sem tirar os olhos de Royce.
- Sim, Mollie. Obrigado. - Ele pousou o fone no gancho c inclinou a cabea. - Minha mulher espera para v-lo. A sala dela fica logo em frente.
Como no confiava na prpria lngua, pois sabia que tudo o que sasse de sua boca naquele momento seria insultuoso e vil, Royce virou-se nos calcanhares e saiu.
- Autocontrole... - disse Caine e sentiu o primeiro trao de solidariedade pelo homem. -  uma qualidade admirvel.
- Royce! - Diana abriu a porta ela mesma e seu sorriso contrastou com o do marido. - Que bom v-lo! Entre e sente-se, por favor. Quer uma xcara de caf?
- No, no quero nada. - Ele repetiu entre dentes. -No quero nada.
Furioso, pensou Diana. Relanceou o olhar para a sala em frente e controlou um suspiro.
- Est bem. Ento, o que posso fazer por voc?
- Nada. No quero nada da senhora, tampouco, e nunca quis. Eu tenho informaes que talvez a senhora pudesse utilizar no caso Holloway.
- Oh, por favor, sente-se.
- No quero me sentar. Quero apenas acabar logo com isso e sair deste lugar. - Royce parou e forou-se a inspirar fundo para se acalmar. - Desculpe-me.
- No tem importncia. Imagino que o pai de Laura tenha sido difcil.
- No acho que devemos discutir sobre o pai de Laura ou sobre Laura, ou sobre qualquer pessoa que tenha o sobrenome MacGregor neste momento.
- Ento, por que no falamos sobre Amanda Holloway?
- Eu no a conheo. Nunca a encontrei. Conheci o marido dela superficialmente quando trabalhvamos no mesmo distrito policial.
- Voc trabalhou diretamente com ele?
- Apenas uma vez. Atendemos a uma ocorrncia juntos. Eu odeio isso - disse ele, sentando-se por fim. - Veja bem, policiais cobrem uns aos outros, porque, quando 
voc sai por aquela porta, tem que saber que quem saiu com voc est com voc. Em qualquer situao.
Royce fez uma pausa e continuou.
- Recebemos uma denncia. Briga domstica. A pior de todas. O cara havia batido na mulher, as crianas estavam gritando. Eu prendi o cara. Holloway pegou a mulher. 
O rosto dela estava inchado e sangrava e ela gritava que no, iria agentar mais aquilo do marido. Lembro-me de que ela gritava quando Holloway a segurou.
- Ele a machucou - continuou Royce aps alguns segundos. - Eu mantinha o homem no cho, algemado, e ouvi a mulher soltar um grito. Vi quando Holloway virou-lhe um 
brao para trs. Foi uma sorte no ter quebrado o osso. E jogou-a de costas contra a parede. Eu lhe disse para ir com calma e ele respondeu algo como "A cadela est 
pedindo por isto". Que o marido tinha o direito de ensinar-lhe uma lio. E ele a esbofeteou, enquanto mantinha ambos os braos dela presos. Eu tive que deixar o 
marido no cho e retirar Holloway de perto da mulher.
Royce fez mais uma pausa, tentando concatenar os pensamentos.
- Ele tinha reputao de um bom policial. Os homens gostavam dele. Holloway fazia um bom trabalho. Eu disse a mim mesmo que ele talvez no estivesse em seus melhores 
dias e que talvez tivesse perdido a calma por um momento. Mas no pude deixar de notar a maneira como ele encarava a mulher enquanto a esbofeteava. E no fundo sabia 
que, se, eu no estivesse l, talvez tivesse feito coisa pior. Ento, relatei o incidente ao tenente.
- Por acaso teria sido o tenente Masterson?
- Sim.
- No existe meno ao incidente que acaba de descrever no relatrio de Holloway.
- Porque o tenente me mandou esquecer o ocorrido. Holloway estava se defendendo de uma mulher histrica e violenta. Ele descartou o assunto e, algumas semanas mais 
adiante, eu fui transferido. Foi ento que resolvi fazer umas investigaes por conta prpria. Nos seis meses que antecederam minha transferncia, trs chamadas 
para a emergncia foram feitas da casa de Holloway. Briga domstica. Os policiais atenderam s chamadas. Mas no foram feitas queixas e os relatrios foram arquivados.
- Eles cobrem as fileiras de corporao - respondeu Diana.
- Exatamente. E Holloway continuou a ser promovido e a bater na mulher sempre que sentia vontade.
- Voc est disposto a testemunhar sobre o incidente que presenciou?
- Se for preciso. Isso no muda o fato de que ela o matou. Voc vai pedir diminuio de pena e o que tenho a dizer no acrescenta muito aos relatrios mdicos que 
dizem que ela sofreu constantes abusos ao longo dos anos.
- Mas comprova o carter do homem, o desespero da mulher e a cumplicidade da polcia. Ela pediu ajuda vrias vezes e ningum a ajudou. Ela fez o que pde para sobreviver. 
No existia ningum para defend-la.
- Existe voc e a Laura.
- Sim. E, agora, voc tambm. Por qu?
- Porque talvez isso possa fazer diferena e eu iria parar de pensar que podia ter feito alguma coisa. E porque  importante para Laura.
- E ela  importante para voc.
- Eu... me importo com ela - disse Royce aps um instante. - Se precisar de mim, estou disponvel. Agora, se me d licena, tenho algumas coisas a fazer.
- Fiquei muito satisfeita que tenha vindo. - Diana estendeu-lhe a mo. - De verdade.
Ela o observou partir e percebeu no mesmo instante a porta do outro lado do corredor se abrir.
- E ento? - perguntou Caine.
- Ele apenas me deu alguma munio para a defesa do caso Holloway. - Diana encarou o marido. - E ele est apaixonado por nossa filha. Assim como Laura est por ele.
- Diana, ela apenas... ela ainda  uma... - Ele inclinou-se contra a porta.
Entendendo perfeitamente, Diana atravessou o corredor e pegou o rosto do marido com as mos.
- Ela sempre ser nossa. Nada poder mudar isso.
- Eu sei. Eu sei. - Caine suspirou fundo. - Mas ela precisava escolher um rapaz que gostaria de chutar meu rabo daqui at o Canad?
Diana riu e beijou o marido.
- E essa  uma das razes pelas quais gosta dele.


Dez

Dois dias antes do Natal, Laura subiu apressada a escada que levava ao escritrio da Segurana Cameron. Como de costume, a secretria de Royce estava fora da mesa. 
Laura encaminhou-se  sala dele e bateu de leve na porta. Como no obteve resposta, abriu-a e enfiou a cabea para observar o interior.
- Tem um minuto para mim, sr. Cameron? - Laura viu que ele estava ao telefone, mas fez um sinal com a mo para que ela entrasse.
- Se tem certeza quanto a isso, posso comear logo no primeiro dia do ano. No. - E depois, com uma expresso exasperada, prosseguiu. - No, sr. MacGregor, no posso 
fazer isso. Obrigado, mas no - disse ele, esfregando a testa. - Eu entendo, obrigado. Sim. Feliz Natal.
- Tinha que ser meu av! - falou Laura quando Royce colocou o fone no gancho. - De todos os MacGregors, ele  o mais provvel de causar tal reao.
- Ele finalmente escolheu o sistema de segurana que vai querer instalar. Pelo menos decidiu, por enquanto. Acho que o homem quer me deixar na corda bamba pelo resto 
da vida. - Royce olhou para ela e viu seu largo sorriso. - Por que est to contente?
- Oh, por muitas coisas. Ns realmente demos um passo  frente no julgamento hoje. Seu testemunho de ontem fez uma enorme diferena.
- timo.
- Eu sei que no foi um de seus melhores dias, mas ajudou bastante. E ouvi rumores de que o gabinete do procurador do estado vai comear a investigar Masterson. 
Amanda Holloway ter justia. - Laura inclinou-se sobre a mesa e beijou-o. - Obrigada.
- No fiz nada demais. Achei que a esta hora voc j estaria a caminho de Hyannis.
- Estou indo para casa pegar as malas. Gostaria que voc tivesse mudado de idia e viesse comigo. Sabe que  bem-vindo. - Ela arqueou uma sobrancelha. - E eu sei 
que meu av vem insistindo h semanas para que voc passe os feriados l.
- Gostei do convite, mas no posso ir. Alm disso, no sou do tipo que freqenta reunies familiares. Natal  para as crianas e as famlias.
Laura meneou a cabea.
- Voc nem armou uma rvore.
- Voc me deu aquela rvore feiosa de cermica.
- No  feiosa, talvez um pouco brega.  totalmente diferente. - Ela queria muito pedir-lhe mais uma vez. Achar as palavras certas para persuadi-lo a passar o Natal 
com ela, a fazer parte da vida dela. Porm, resolveu aceitar os termos dele. - Vou sentir sua falta.
- Vai estar cercada de pessoas. - Royce sorriu e levantou-se. - Hordas de MacGregors. O simples pensamento me deixa nervoso. No ter tempo de sentir minha falta.
- Mas vou sentir assim mesmo. - Laura beijou-o de leve nos lbios, enquanto retirava uma caixa embrulhada com papel de presente do bolso e a entregou a ele.
- O que  isto?
- Um presente. A tradio manda. Quero que abra somente na manh do dia de Natal.
- Olhe, eu no tenho...
- Royce, diga obrigado.
Apesar de se sentir o ltimo dos homens, fez um esforo e sorriu.
- Obrigado.
- Agora diga: "Feliz Natal".
- Feliz Natal, magrinha.
- Vejo-o em alguns dias. - Laura saiu apressada, dizendo a si mesma que era o sentimento de Natal que lhe deixava os olhos midos.
Royce sentou-se e continuou na mesma posio enquanto o sol entrava por sua janela e at que a escurido da noite chegasse.
No podia mais evitar, pensou. No podia continuar negando o que havia acontecido com ele. O que ele se tornara. Talvez aquilo tivesse acontecido no primeiro instante 
cm que a viu. Quando ela estava seminua preparada para jog-lo para fora de sua casa com uma faca de cozinha.
Como um homem podia deixar de amar uma mulher daquelas?
Mas no importava o que sentisse por ela. J no havia discutido consigo mesmo dias e dias sobre aquele assunto? Ela no tinha apenas vindo de um mundo diferente 
do dele, ela vivia nele. Era sobrinha de um presidente, neta de uma lenda financeira. Uma herdeira, como o pai que, alis, o odiava, havia dito.
E, se aquilo tudo ainda no fosse suficiente, bastava notar que ela usava brincos de diamante, vivia em uma casa em Back Bay cheia de obras de arte e antigidades 
e dirigia um carro esporte que deveria ter custado tanto quanto ele ganhava em um ano.
Fora aluna de Harvard, enquanto ele estudara em colgio pblico e nem ao menos havia concludo a graduao. Aquilo no poderia dar certo. Ele estava se iludindo, 
at pelo simples fato de imaginar uma coisa dessas.
Mas descobrira algo nas ltimas semanas. Entendia agora o que punha aquele olhar de tolo no rosto de Caine todas as vezes que falava da mulher dele. Sabia agora 
o que fazia um homem sentir um amor que jamais teria fim.
Era tudo uma questo de achar a nica mulher que poderia fazer um estrago em seu corao.
Esquea, ordenou a si mesmo. Esquea-a e siga adiante.
Royce resolveu fechar tudo e ir para casa. O escritrio parecia to vazio e seu apartamento estaria mais vazio ainda. Por que esse fato nunca o tinha aborrecido 
antes? Sempre gostara do estilo lobo solitrio. Gostava de entrar e sair quando bem quisesse. Agora o simples pensamento de dormir sozinho o deixava deprimido.
Esfregou as mos nos olhos e imaginou quando se tornara um covarde. Com tanto medo de correr riscos. Afinal, ele correra atrs dela. Fora ele que tomara a iniciativa. 
E agora a estava perdendo porque tinha medo de que ela no; o quisesse tanto quanto ele a queria.
Aquilo era ridculo. Royce deixou as mos tombarem ao: longo do corpo. No ficaria sentado, entupindo-se de cerveja e sentindo pena de si mesmo. Ainda tinha algumas 
coisas a fazer.
Pegou o casaco que estava sobre a cadeira e saiu.
Royce estava certo em um aspecto. A casa de Hyannis estava apinhada de MacGregors. E os MacGregors faziam muito barulho. A msica tocava na sala de visitas. Na sala 
de estar, a prima mais nova de Laura, Amlia Blade, tocava canes de Natal ao piano e juntava sua voz possante  voz de bartono de Daniel.
De algum lugar no segundo andar, vozes masculinas discutiam. No importava o assunto, pensou Laura, qualquer que fosse seria dissecado at o fim. Em seguida, encontrariam 
outro assunto para discutir.
Ela caminhou at o aposento que a famlia apelidara carinhosamente de sala do trono, em homenagem  enorme cadeira na qual Daniel se sentava durante as reunies 
de famlia. L, em frente  janela que se descortinava para as colinas, fora armada a rvore de Natal. Enorme e com todos os galhos repletos de ornamentos natalinos 
e luzes que piscavam. Ficaria acesa, dia e noite, at o dia de Reis. Embaixo dela, havia montanhas de presentes.  meia-noite, seguindo a tradio familiar, aconteceria 
um ritual de rasgos de papel, gargalhadas e amor. Acima de tudo, amor, pensou ela. No importava o quanto brigassem, nem quanto barulho ou confuso fizessem, aquela 
casa sempre estaria repleta de amor.
E como odiava pensar em Royce sozinho durante o Natal.
- No sei como eles fazem isso - disse Caine atrs dela. Ele colocou ambas as mos nos ombros da filha. - Todos anos conseguem achar a rvore perfeita. Desde que 
eu era garoto, sempre houve uma rvore de Natal bem ali. E sempre foi a rvore perfeita.
- Quando ns ramos pequenos e no podamos ficar acordados at a meia-noite, costumvamos nos esconder na escadas e ficar esperando a chegada de Papai Noel da chamin. 
- Laura recostou o corpo no do pai. - No tenho nem uma lembrana triste desta casa e estava agora mesmo pensando em quanta sorte eu tenho. Eu o amo tanto! - Laura 
virou-se e colocou os braos em volta do pescoo do pai descansando a cabea em seu ombro largo.
Foi o tom de sua voz que o fez levantar-lhe o queixo o acariciar seus cabelos quando viu as lgrimas aparecendo nos olhos da filha.
- O que  isso, menina? O que est errado?
- Nada. Apenas estou me sentindo tola e sentimental para a poca. No costumo ser tola e sentimental com freqncia. Voc foi o primeiro homem na minha vida. E eu 
quero lhe dizer que nunca me decepcionou.
- Agora  voc quem vai me fazer ficar tolo e sentimental - resmungou Caine e apertou-a com mais fora.
Ouviu-se um trovo de passos atrs deles, enquanto uma horda de pessoas descia a escada. Gritos, ameaas, insultos e risos.
- Ian e Julia comearam uma guerra de neve. - Laura deu um forte abrao no pai. - Outra boa tradio dos MacGregors.
- Quer participar?
- Claro. - Laura ergueu a cabea e sorriu. - Ns somos capazes de abat-los. Por que no vai na frente? Estarei Li em um minuto.
- Combinado. - Caine beijou a ponta do nariz da filhei Voc tambm nunca me decepcionou, Laura. Tenho minto orgulho de voc.
- Sangue bom - disse ela com um sorriso. - Linhagem forte!
Ela sorria vendo o pai sair, pronto para desafiar o ex-presidente dos Estados Unidos para uma guerra de neve. Em seguida, sentou-se no brao da cadeira do av. Em 
um minuto, iria juntar-se a eles, mas primeiro precisava de um momento a ss.
Faria um pedido diante da rvore de Natal, como sempre fizera quando era criana. No entanto, agora seria um desejo de mulher. A esperana de que algum dia, durante 
algum Natal coberto de neve, o homem que amava estivesse ali naquela sala com ela.
- Laura?
Sua cabea virou de repente e por um instante julgou que estava sonhando. Depois, um sorriso radiante surgiu em seus lbios.
- Royce! Voc mudou de idia? Isso  maravilhoso! - Correu at a porta e pegou-lhe uma das mos. - Nossa! Suas mos esto congelando. Onde esto as luvas? Venha 
c, deixe-me tirar esse casaco e poder esquentar-se perto da lareira.
- Preciso falar com voc.
- Claro. - Ela continuou sorrindo, mas seus olhos se tornaram tristes. A casa no estava menos lotada de gente quanto estivera minutos atrs, mas agora reinava um 
silncio absoluto. - Minha famlia... - comeou ela.
- No quero ser apresentado a meio milho de MacGregors, pelo menos no antes de falar com voc.
- Muito justo. - Laura ergueu a cabea e viu vrios rostos interessados. - Todos para fora - disse ela, fechando a porta e levando-o consigo para a sala do trono. 
- No se preocupe, voc j conhece grande parte deles, e conhecer o restante nos prximos dias.
- No sei se vou ficar.
- Oh, mas...
- Talvez voc no queira que eu fique quando tiver terminado de falar.
Alguma coisa lhe apertou o estmago, porm Laura ignorou o fato.
- Bem, pelo menos tire o casaco e deixe-me servir-lhe alguma bebida. Brandy est bom?
- Claro. Est timo. Qualquer coisa. - Royce retirou o casaco enquanto a observava encaminhar-se at o bar. - Isso  que eu chamo de rvore de Natal!
- Bem, no  uma rvore de cermica para ficar em cima de uma mesa. - Laura caminhou at ele e entregou-lhe a bebida. - Estou feliz que tenha vindo. Isso  o que 
vamos ver. Laura julgou que seria melhor sentar-se e, sem pensar, escolheu a cadeira de Daniel.
Aquela cadeira deveria faz-la parecer uma an, pensou Royce. No entanto, ela parecia uma rainha preparada para dar uma sentena. Mas ele no se chamaria Royce Cameron 
se deixasse sua cabea numa bandeja sem, pelo menos, uma boa briga.
- Se alguma coisa o aflige - disse ela com cuidado - fale.
- Sim.  fcil para voc dizer isso. - Ele comeou a caminhar pela sala e colocou o clice de brandy sobre a cornija da lareira. - Fui eu quem teve que dirigir at 
aqui e entrar em territrio inimigo.
Laura teve que rir.
- Territrio inimigo? Seu pai me odeia.
- Oh, Royce, no  verdade. Ele apenas...
- No tem importncia. - Ele continuou caminhando. - E por que no deveria me odiar? No estudei em Harvard, no tenho uma casa na cidade, sou um ex-policial tentando 
iniciar um negcio prprio e estou dormindo com a filha dele. Em seu lugar, j teria providenciado algum para me matar.
- Meu pai no  um esnobe.
- No precisa ser. Os fatos esto a  vista de todos.  essa a realidade. E, mesmo que voc deixe tudo isso de lado, no foi esse o trato.
- Que trato?
Royce balanou a cabea, sem parar de caminhar. Em seguida, parou e encarou-a.
- Eu quero... eu tenho que... eu preciso de um minuto - Caminhou at uma das janelas. L fora, pelo menos uma dzia de pessoas jogava bolas de neve umas nas outras. 
- no entendo nada sobre este tipo de famlia - murmurou ele quase para si mesmo. - O meu negcio est comeando.  o que estou fazendo. - Royce virou-se, mas decidiu 
que seria mais fcil se continuasse caminhando. -No ligo mnima para o seu dinheiro. No me interessa se voc tem cinco dlares ou cinco milhes.
Laura estava perplexa. As palavras em si mesmas era bastante enigmticas. Mas ele parecia infeliz, zangado e, p incrvel que pudesse parecer, nervoso.
- Eu nunca pensei que estivesse interessado em me dinheiro.
- Ento voc sabe - resmungou ele, meneando a cabea.
- Posso me sustentar. Fiz isso a vida toda. Voc est acostumada a ter mais e isso no  problema para mim. Voc deve continuar tendo o que sempre teve.
- timo. Fico contente que pense dessa forma, pois certamente pretendo que seja assim. - Laura levantou-se. - Royce, gostaria que fosse direto ao ponto.
- Estou tentando. - Os olhos dele soltavam fascas perigosas. - Estou tentando. Acha que  fcil para mim? Nunca planejei isso. Nunca quis isso. - Royce caminhou 
at ela. A fria saltando-lhe dos olhos. - Quero que entenda bem o que estou dizendo, magrinha. Eu nunca quis isso.
- Quis o qu?
- No ser capaz de passar um nico dia sem voc em minha cabea. Estender a mo para alcan-la  noite, quando voc nem mesmo est l. Precisar ouvir sua voz, apenas 
para ouvi-la. Apaixonar-me por voc.
- Apaixonar-se por mim? - repetiu ela, e afundou mais uma vez na cadeira. - Voc est apaixonado por mim?
- Agora me escutou. Estou completamente apaixonado por voc. Eu sei que sente alguma coisa por mim ou no me teria deixado toc-la. Talvez tenha comeado apenas 
como uma qumica, mas  muito mais... e se me der uma chance...
- Royce...
 -Droga, Laura, vai me ouvir ou no? - Ele teve que se afastar para retomar o controle. Sentia-se como se estivesse uns dez metros acima do solo e caminhando em 
uma corda bamba. - Ns damos certo juntos e sei que posso faz-la feliz. - Ele fez uma pausa. - Seu av est do meu lado. 
O calor que aquecia o corao de Laura esfriou num instante.
- Esse no  um bom argumento.
- Mas vou us-lo assim mesmo. Ele acha que sou bom o suficiente para voc e que no sou trapaceiro. E eu amo voc. Amo tudo o que lhe diz respeito. E estou at disposto 
a tentar viver com sua famlia. Isso deveria bastar para qualquer um. Royce colocou a mo no bolso da cala e retirou de l uma caixa pequena. - Tome - disse ele 
e entregou-a a Laura.
Ela pegou-a, sacudiu-a e ento, retendo o ar nos pulmes, abriu-a. Seu corao acelerou ao ver o lindo rubi brilhando contra o anel de ouro. 
- Achei que um diamante seria muito previsvel para voc - murmurou ele. - Para ns.
- Isto  um pedido de casamento, Royce? - Estava feliz por sua voz ter sado sem gaguejar enquanto o corao estava em algum lugar da estratosfera.
-  um anel, no ?
- Sim. Isso mesmo. E um lindo anel. - Ela ergueu o olhar da jia e encarou-o bem dentro dos olhos.
- O qu? No  suficiente?
- Tolinho. Estou esperando.
- Voc est esperando? Eu  que estou esperando. Laura suspirou.
- Est bem. Vamos tentar desta maneira. Eu no planejei isto. Eu no queria isto. No foi esse o trato. Mas estou apaixonada por voc.
Royce havia aberto a boca, pronto para argumentar. -Hum?
- Escute o que estou dizendo. - Satisfeita, inclinou-se para trs na cadeira e estendeu uma das mos. - Voc  um homem extraordinariamente atraente. Tem seu prprio 
negcio e, apesar de, s vezes, no dar valor a si mesmo, possui um ego exacerbado e um timo crebro. - Fez uma pausa e continuou. - E descende de uma linhagem 
forte. Acredito... se formos usar essa sua frase idiota, que voc  bom o bastante para mim.
- Voc est apaixonada por mim? - foi tudo que Royce conseguiu proferir.
Laura imaginou se alguma vez, na longa vida que estava planejando para ambos, ela o teria em tamanha desvantagem.
- Sim. Estou desesperadamente apaixonada por voc, Royce. E fui bastante corajosa e estica aceitando o fato de voc no me amar. Mas desde que voc me ama, agora 
 diferente. E, se tivesse o bom senso de me pedir para casar com voc em vez de jogar uma caixa com um anel em minha mo, eu teria dito sim.
Royce continuava a encar-la, mas seu crebro era uma folha em branco. E seu corao... seu corao estava perdido.
- Eu tinha preparado timos argumentos para convenc-la...
- Quer que eu os oua agora?
- No. - Ele inspirou profundamente. - No vou me ajoelhar a seus ps.
- Espero que no. - Laura levantou-se e entregou-lhe a caixa. - Tente outra vez.
No foi difcil dizer, pensou Royce, quando o corao se encontra cheio de palavras.
- Eu a amo, Laura - Ele tocou-lhe os cabelos na altura da tmpora, mantendo os olhos fixos nos dela. -Amo voc. Quero uma vida inteira com voc. Quero construir 
uma famlia com voc. Quero passar as prximas sessenta manhs de Natal com voc. Quer se casar comigo?
- Oh, isso foi muito bom! - Pela primeira vez, sua viso ficou turva. - Quero meu anel e quero que voc me beije. Ento tudo ficar perfeito.
- Diga sim primeiro.
- Sim. Mil vezes sim. - Jogou-se nos braos fortes de Royce e prendeu sua boca  dele. Foi mais do que perfeito.
- Estou to feliz de t-lo encontrado quando nem o estava procurando! - Deixou a primeira lgrima rolar pela face, enquanto ele colocava o anel em seu dedo. - Tinha 
feito um desejo um minuto antes de voc chegar e aqui est voc.
- Aqui estamos ns - murmurou ele. A porta da frente bateu. Algum gritou enquanto se ouvia um estrondo de passos no corredor. - Cercados!
- Eles tambm vo amar voc. - Laura deu uma risada e passou-lhe a mo pela face. - Eu o amo e Daniel MacGregor est do seu lado. - Seus olhos brilhavam enquanto 
se inclinava sobre ele. - Vamos contar a ele. Normalmente eu iria querer v-lo sofrer um pouco, mas  Natal. Ele vai adorar o presente de saber que estava certo.

Das Memrias Secretas de Daniel Duncan MacGregor

A famlia de um homem  seu bem mais precioso.  tambm sua mais solene responsabilidade. Nunca me eximo de minhas responsabilidades e cuido muito bem do que  meu.
Assisti ao casamento de minha neta mais velha. Que noiva linda! Ardente, luminosa em seu vestido longo, usando o vu que pertenceu  bisav sobre os brilhantes cabelos 
negros.
Nossa Laura formava uma imagem to linda, que tive de segurar minha Anna bem perto de mim e confort-la. s vezes ela se torna sentimental.
Foi, para mim, um momento de grande jbilo e satisfao pessoal. Oh, eu observei o olhar de meu filho Caine brilhar - o pai orgulhoso - enquanto levava Laura at 
o altar e a entregava ao homem que se tomaria seu marido. O homem que eu escolhi pessoalmente. Mas vamos manter segredo sobre isso.
Os jovens tendem a ficar aborrecidos com o que julgam, de modo errado, ser intromisso.
E, nesse perfeito dia de primavera, eu pude observar o sorriso de Caine e ri comigo mesmo, enquanto ele trocava tapinhas nas costas de seu novo genro. At sequei 
uma lgrima de meus olhos quando Ian, como irmo da noiva, fez um brinde aos noivos.
Oh, foi um dia feliz para o cl MacGregor!
Meu trabalho estava concludo. Laura e Royce sero felizes e espero que estejam providenciando uns belos bebs para a av deles embalar sobre os joelhos. Anna est 
ansiosa por um bisneto.
Agora posso voltar minha ateno  doce Gwen.
Linda como uma princesa a minha Gwen, orgulhosa e de natureza sria e corao romntico. E que crebro! Deus a abenoe, a criana  mais brilhante que o sol. Mas, 
ela se parece com a av e no v que precisa de um homem a seu lado e filhos para lhe dar alegria.
Portanto,  meu dever providenciar para que ela encontre o homem certo. Um homem de substncia. J o escolhi para cia. Linhagem boa e slida. Ele possui um bom crebro 
e um bom corao. Eu no iria querer nada menos que isso para Gwen e no me chamaria Daniel MacGregor se a deixasse escolher algum que no a merecesse.
Isso vai levar um pouco de tempo, mas eu ainda tenho tempo. Um homem que j viveu tanto quanto eu sabe tudo sobre escolher os momentos oportunos. Posso ser paciente. 
Vai demorar alguns meses para que eu funde as estruturas. Sou um homem que aprecia a importncia de uma fundao boa e slida, quando se pretende construir algo 
que vai durar.
Aposto que minha Gwen estar planejando seu casamento pela poca do Natal. E no vou querer agradecimentos por isso. No, agradecimentos no so necessrios. Eu 
cuido do que  meu.
Mas no precisaria cuidar deles se eles cuidassem de si mesmos. 


Onze

- No trs. Um, dois trs! - Gwen e a equipe da sala de emergncia removeram o homem de 90 quilos da maa para a mesa. Bem treinados, agiam em sincronia, com movimentos 
precisos e discretos  medida em que ela proferia as ordens.
- Entube-o, srta. Clipper - Gwen sabia que a quartanista de medicina era esperta e possua mos geis. Ainda assim, observava atentamente elas trabalharem, enquanto 
a enfermeira especializada em traumatismos cranianos estancava o sangue e rasgava o jeans do homem inconsciente.
Gwen avaliava o paciente, armazenando na mente os sinais vitais que observava e emitia ordens aos demais, enquanto as prprias mos trabalhavam velozes.
- Motocicletas - murmurou ela. - Ol, morte.
- Pelo menos ele estava usando um capacete - observou Audrey Clipper, deixando escapar um suspiro quando o tubo deslizou pela traquia. - Entubado.
- Seria melhor se tivesse usando uma armadura no corpo inteiro. Vamos fazer gasometria e toxicologia. Pelo cheiro, parece que ele estava festejando. Gwen ajustou 
os culos protetores e continuou trabalhando na perna.
Tinha de ser rpida, mas as mos e a mente se mantinham frias e firmes. A ferida funda na perna se estendia do tornozelo ao joelho, expondo o osso partido. Era seu 
trabalho estabilizar o paciente, deixando-o apto para o procedimento cirrgico com rapidez e eficincia. E vivo.
Da sala contgua, uma mulher continuava a gritar e soluar, chamando indefinidamente por Johnny num tom de voz capaz de perfurar os tmpanos.
- Este  o Johnny? - indagou Gwen, lanando um olhar de soslaio ao vidro que separava as duas salas de emergncia.
- John Petreski, 22 anos - informou uma das mais antigas da equipe.
- Muito bem, vamos fazer com que ele seja capaz de danar no seu prximo aniversrio. Lynn, ligue para o Centro Cirrgico e comunique o que estamos enviando para 
eles. Fyne, assuma aqui enquanto verifico a histrica da sala dois.
Gwen disparou pela porta que conectava as duas salas, retirando o avental e as luvas.
- O que temos aqui? - indagou rispidamente, enquanto pegava um novo paramento protetor.
- Contuses e laceraes. Estamos aguardando o raio X. Deslocamento da omoplata. - O residente tinha de elevar a voz para suplantar os gritos histricos.
- Qual o nome dela?
- Tina Bell.
- Tina - repetiu Gwen, inclinando-se sobre a paciente, de modo que sua face dominasse a viso da mulher. - Tem de se acalmar. Deixe-nos ajud-la.
- Johnny. Johnny est morto.
- No, no est. - Gwen no retraiu a mo, quando a paciente a tomou na suas, apertando-a at lhe doer os ossos, mas desejou faz-lo. - Vai ser submetido a uma cirurgia, 
listamos cuidando dele.
- Ele est ferido. Muito ferido.
- Sim, e ns vamos cuidar dele. Tem de me ajudar agora. Quanto ele bebeu?
- Apenas algumas cervejas. -As lgrimas turvavam os olhos de Tina e misturavam-se  fuligem da rua e ao suor da face afogueada. - Johnny!
- Algumas? Temos de saber ao certo para podermos trat-lo.
- No sei. Talvez seis ou sete. Quem estava contando?
- Drogas? Vamos, Tina.
- Dividimos alguns cigarros de maconha. Poucos. Johnny!
Atravs do painel de vidro, Branson Maguire observava o que lhe parecia um bale. Movimentos, trabalho em equipe trajes e luzes. E a mais cintilante, pensou, era 
a loura delicada no hediondo uniforme verde-ervilha e jaleco descartvel.
No conseguia visualizar os olhos. Os largos culos protetores os encobriam, bem como metade da face delicada. Ainda assim, sabia qual era a aparncia da gil mulher. 
A dra. Gwendolyn Blade, prdiga herdeira, filha de um jogador de origem comanche e de outra prdiga herdeira. Uma MacGregor.
Vira a foto de Gwen nos jornais, tablides e televiso, durante os anos de campanha presidencial do tio e durante os oito anos em que ele ocupara a mais importante 
casa do pas. Tambm vira  face delicada estampada numa fotografia, junto com outras fisionomias na compacta mesa do av, Daniel MacGregor, o construtor de imprios.
Embora Branson se considerasse um observador perspicaz, no esperava que ela fosse to... magra, concluiu. Deveria estar trajando fios de seda e concedendo desejos 
como uma fada e no aprisionada num uniforme manchado de sangue, lutando para salvar vidas.
Ela se movia como uma bailarina, refletiu. Os gestos, repletos de uma graciosidade mpar, denotavam eficincia. Os cabelos, de um tom entre o ruivo e o louro sob 
as luzes fortes, eram curtos como os de um rapaz e a franja pontuda se espalhava pela testa. Por estilo, imaginou, ou praticidade? Aquela seria uma interessante 
descoberta. Permaneceu onde estava, com as mos enfiadas confortavelmente nos bolsos da cala de algodo, observando-a como tudo mais  sua volta. Aquela era de 
suas maiores habilidades. Observar atentamente. No se importava em esperar pelo que viesse a seguir.
Gwen percebeu a presena dele. A face por trs do vidro. Cabelos negros que chegavam na altura do colarinho do suter azul-marinho. Olhos frios e acinzentados, que 
raramente pareciam piscar e lbios que quase nunca se curvavam em um sorriso.
Um homem que se bastava por si s, mas ela no tinha tempo para devaneios, ou para lhe devotar mais do que um pensamento passageiro.
Mas, quando Gwen estabilizou ambos os pacientes e os viu passar pela porta a caminho do tratamento adequado, ele ainda estava l. Teve de se deter quando Brason 
bloqueou-lhe a passagem.
- Dra. Blade? Gwendolyn Blade.
A sombra de um sorriso perpassou a expresso impassvel. Apenas um curvar dos cantos dos lbios a fez concluir que estava errada. Aqueles olhos no eram frios, mas 
sombrios e clidos, como o tom de voz.
- Sim. Posso ajud-lo?
- Essa  a inteno. Sou Branson Maguire.
Gwen aceitou a mo que lhe foi estendida num gesto automtico, mas ele no a soltou. 
- Sim?
- Ai! - O sorriso era ao mesmo tempo charmoso e auto-depreciativo. - Feriu meu ego. Acho que no tem muito tempo para ler.
Ela estava cansada e ansiava por cinco minutos para descansar e repor as energias com uma xcara de caf. E acima de tudo, queria sua mo de volta.
- Desculpe-me, sr. Maguire. Eu no... - Mas enquanto desvencilhava a mo conseguiu se lembrar do nome. - Oh, sim. Detetive Matt Scully, de Boston P.D. Li seus livros. 
Criou um personagem interessante.
- Scully est fazendo um bom trabalho para mim.
- Estou certa disso. Porm, no momento no disponho de tempo para discutir personagens populares. Portanto se me...
- Eles so cor de lavanda.
- Como?
- Seus olhos. - Ele fixava o olhar em seu rosto de uma forma que em outro homem pareceria rude. Mas nele aparentava um gesto natural. - Estava imaginando se no 
seria apenas um truque do reflexo da luz. Mas eles no so azuis. So cor de lavanda.
Um arrepio de irritao perpassou-lhe a nuca.
- Esto descritos como azuis na minha carteira de motorista. Agora, como disse, estou um tanto atarefada.
- Seu planto no termina s 2 horas? So quase 3 horas. 
Num gesto instintivo, Gwen retraiu-se. Uma defesa automtica de quem, por histria familiar, vivera a maio parte da vida sob os holofotes.
- Como pode saber sobre meu horrio?
No apenas gelo, pensou Branson, impressionado. Mas uma geleira imensa. Aquela fada parecia ter garras afiadas.
- Ah, devo deduzir que no estava me esperando?
- No. Deveria? - Volveu o olhar quando a maca de Tina passou.
- Doutora! Doutora! Quero ver Johnny. Tenho de v-lo.
- Com licena - dizendo isso, Gwen virou as costas e se afastou.
Branson no pde deixar de perceber a voz fria tornar-se clida e macia de imediato. A jovem que estava sendo removida na maca, anua e soluava ao mesmo tempo.
- Comportamento delicado, doutora - elogiou Branson quando ela se aproximou outra vez.
- Estava dizendo que eu o deveria estar esperando esta manh?
- Seu av disse-me que acertaria tudo.
- Acertaria tudo? - Gwen sentia-se cansada. Fechou os olhos por instantes. - Preciso de um caf - murmurou. - Acompanhe-me.
Com um giro no jaleco que trajava, virou-se e marchou ao longo do corredor. Dobrou  esquerda, disparou por uma porta e entrou em um saguo. Branson deslizou o olhar 
ao redor, observando o ambiente. Registrando na mente as cores melanclicas, as cadeiras baratas, as fechaduras grosseiras, o barulhento e antigo refrigerador, o 
aroma de caf envelhecido que no conseguia mascarar o cheiro latente do hospital.
- Aconchegante.
- Quer caf? Claro. Preto.
Gwen retirou o bule do aquecedor e encheu duas xcaras. E, por conhecer o sabor do caf de baixa qualidade de que dispunham, adicionou um torro de acar ao dela.
Branson aceitou a xcara que ela lhe oferecia e fez uma careta.
-  bom que eu esteja em um hospital. Fazem lavagem estomacal, no?
-  uma de minhas maiores especialidades. Preciso sentar um pouco. - E assim o fez, cruzando as pernas e tentando mover os ps dentro dos sapatos baixos e prticos.
- Bem, sr. Maguire. Bran.
Desculpe-me pelo inconveniente. Meu av ... bem, de  o que .
-  o homem mais incrvel que jamais conheci. 
Gwen no pde deixar de sorrir ante tal afirmao e aquilo lhe aqueceu o olhar, enquanto ele tomava assento no sof pudo ao lado dela.
- Sim. Meu av  um homem incrvel. Mas  tambm centrado em seus meios, mtodos e objetivos. Estou certa de que  agradvel, e como disse, admiro seu trabalho, 
mas no estou interessada.
- Hum-hum - fez Branson, arriscando outro gole no caf. - Em qu, exatamente?
- Em encontros - disparou ela, deslizando os dedos longos pelos cabelos. - Vov acha que no dou a devida ateno  minha vida social, mas est enganado. Dou a importncia 
que acho que merece. Encontros no constam nela atualmente.
- Oh? - Intrigado, Branson ergueu a sobrancelha e recostou-se no brao do sof. As sombras escuras sob os olhos quase combinavam com a fascinante cor da ris, e 
a fazia parecer to delicada e atraente quanto uma fibra de vidro. - Por qu? 
- Porque estou no meu segundo ano de residncia de cirurgia e tenho outras prioridades. Alm disso - acrescentou com um estalido de lngua. - No namoro homens que 
meu av tenha selecionado para mim. E voc no me parece o tipo que precisa que um senhor de noventa e um anos escolha suas namoradas.
- Talvez deva tomar isso como um elogio - declarou Branson passados alguns instantes. - Portanto, obrigado. -Em seguida, sorriu. Um reflexo de humor que lhe provocava 
covinhas nos cantos da boca. - No estava planejando convid-la para sair, mas agora terei de faz-lo. Apenas para confortar meu ego.
- Voc no... - Gwen suspirou, tentando manter a calma. O crebro parecia estar cedendo ao cansao, concluiu. O planto dobrado a esgotara. - Ento o que faz aqui?
- Pesquisa. - O homem atraente exibiu um sorriso charmoso. - Ao menos este  o objetivo. Estou comeando a escrever um livro... e necessito de informaes mdicas 
e hospitalares. Algo como os bastidores e a atmosfera da rea de sade. Cores, termos tcnicos, ritmo de trabalho, esse tipo de coisa. Daniel disse-me que poderia 
me ajudar, deixando-me circular pelo ambiente hospitalar por algumas semanas, observ-la trabalhar e incomod-la com perguntas.
- Compreendo - falou Gwen, deixando a cabea repousar sobre o encosto do sof e fechando os olhos. - Isso  embaraoso.
- Acho timo. Ento, que tal? Quando sair comigo para saborear um caf decente, fazer sexo, casar, ter trs filhos, comprar uma casa imensa e um cachorro grande?
Gwen descerrou as plpebras e esboou um sorriso.
- No, obrigada.
- Muito bem, no quer tomar caf. Sou flexvel. Mas fuo questo do sexo antes do casamento.
O sorriso da mdica se alargou e ela deixou escapar um suspiro cansado.
- Est tentando fazer com que me sinta melhor ou ainda mais ridcula?
- Os dois. - Branson pousou a xcara. No valia a pena destruir a mucosa do estmago com aquele tipo de cafena,  uma mulher muito bonita, Gwendolyn. Estou lhe 
dizendo isso, pois se eu vier a assedi-la, no quero que pense que estou tentando ganhar pontos com seu av.
Gwen continuou a sorrir, mas to afiada quanto um bisturi.
- Os homens que tentam me assediar acabam precisando do tratamento mdico. Estou lhe dizendo isso, caso precise renovar seu plano de sade.
- Ok. E quanto  ajuda para minha pesquisa? Minha proposta  observar a sala de emergncia durante algumas semanas, mantendo-me,  claro fora da linha de ao dos 
profissionais. Farei perguntas quando for conveniente para voc e a equipe. Pesquisarei com voc alguns ngulos que espero utilizar. Estar livre para rejeit-los 
ou sugerir ajustes para que soe mais real. 
Tudo o que Gwen desejava era um travesseiro, um cobertor e uma sala escura e silenciosa.
- Est livre para observar. Mesmo que eu objete, pode ir a instncias maiores, o que alis, j fez. Meus avs tm grande influncia neste hospital.
- Se no quiser cooperar, posso recorrer a outro hospital. H muitos em Boston.
- Estou sendo rude. Sinto-me cansada. - Ergueu as mos-e massageou as tmporas, tentando melhorar o humor Aquele homem no tinha culpa de t-la procurado no final 
de um planto particularmente infernal. - No terei problemas em ajud-lo com a pesquisa... conquanto que no atrapalhe meu trabalho ou o de ningum na sala de emergncia.
- Responderei s suas perguntas quando tiver tempo e instruirei os demais da equipe para colaborarem tambm... quando estiverem disponveis.
- Fico grato. E se, depois que tiver concludo, convid-la para jantar ou lhe comprar uma pequena lembrana para mostrar minha gratido, precisarei de cuidados mdicos?
- Tentarei me controlar. Estarei no turno da noite pela prximas trs semanas.
- Sem problemas. Gosto da noite. Est exausta - murmurou, assaltado pela vontade de pux-la para si, para que ela descansasse a cabea em seu colo e dormisse.
- Quer uma carona para casa?
- Estou de carro. 
Branson inclinou a cabea.
- A quantas pessoas j atendeu na emergncia por terem dormido atrs do volante?
- Bem pensado. Dormirei aqui.
- Fique  vontade. - Ele se ergueu, baixando o olhar para fit-la. Os olhos cor de lavanda estavam pesados, quase se fechando. As sombras delicadas sob eles pareciam 
ter se aprofundado. 
- Tente dormir por pelo menos oito horas, doutora. Voltarei amanh - dizendo isso, encaminhou-se  porta, mas logo estacou, voltando-se para encar-la. - Mais uma 
coisa... Tenho cobertura total no meu plano de sade. 
Branson adentrou o hall, percebendo que, pelo menos naquela noite, a saa de emergncia estava calma s 3 horas, da manh. Continuou caminhando, arquivando na mente 
ai posio da mesa da recepo, o nmero de computadores e o som do prprio solado contra os ladrilhos do piso.
O vento de novembro fustigou-lhe o rosto quando saiu para a rua. Os cabelos lhe resvalavam os olhos, enquanto retirava a chave do carro do bolso.
Mais um ponto, dra. Dish, refletiu. Um homem seria um idiota se no a assediasse. E o filho de Meg Maguire no era um tolo.
Sentou no banco j ajustado para acomodar as pernas compridas em seu Triumph conversvel clssico. Girou a chave na ignio e sorriu com o roncar do carro. Era o 
tipo de homem que amava um motor potente.
E, a despeito da aparncia de fada, percebeu que Gwendolyn Blade era um motor potente.
Deslizou um CD no compartimento apropriado, e a melodia de Verdi ecoou no interior do veculo. Durante o percurso, comeou a conspirar de uma forma que faria Daniel 
MacGregor ficar orgulhoso.


Doze

J passava das 10 horas da manh quando Gwen destrancou a porta da casa em Back Bay. Uma chuva fina e gelada fazendo-a correr para o interior da residncia para 
se aquecer.
No se importou em chamar algum. Sabia que a prima Julia estaria fora, negociando algum imvel. E a terceira moradora da casa, Laura MacGregor, mudara-se meses 
antes quando casara com Royce Cameron.
Ainda sentia falta da prima. As trs moravam juntas anos, alm de terem crescido sempre unidas. A trade mudara-se do campus da faculdade para uma das primei casas 
que Julia adquiriu, quando comeou seu negcio. 
Saber que Laura se encontrava plenamente feliz e realizada lhe bastava, mas ainda se surpreendia lanando olhar para a escada curva, alm do vestbulo, na esperana 
de Ia descendo apressada.
Dobrou a capa sobre o pilar do corrimo. Tinha a tarde inteira livre, concluiu, e havia dzias de coisas s quais poderia se dedicar. Incluindo um banho quente e 
demorado com direito  espuma, decidiu. Mas antes comeria alguma coisa. Encaminhou-se  cozinha, esfregando a nuca dolorida, resultado das quatro horas que dormira 
no sof do sagi em vez de descansar nas camas portteis da sala de descanso mdico.
Pediria a um dos fisioterapeutas que lhe fizesse uma massagem completa nos ombros e pescoo antes de inicio do prximo planto.
Sentiu o cheiro das rosas antes de visualiz-las. Parecia haver trs dzias delas, plidas como a neve. Os talos longos comprimidos num maravilhoso vaso de cristal.
Deveria ser de um dos pretendentes de Julia, presumi permitindo-se inspirar a fragrncia suave e suspirando em seguida sobre os botes de rosas. O corao romntico 
linha uma queda por aquele tipo de flor e por gestos extravagantes.
Encaminhou-se ao refrigerador sem esperana de encontrar algo apetitoso. Desde que Laura se mudara, as sobras eram invariavelmente escassas. Costumavam dizer que 
Julia nunca comia, Laura sempre comia e Gwen comia apenas o que colocavam  sua frente.
Sem muito entusiasmo, retirou um iogurte do refrigerador e examinou a data de validade. Bem, o que era uma semana quando se tratava de leite coalhado?, pensou, retirando 
o invlucro de alumnio. Fechou a porta da geladeira e pegou o bilhete que estava pregado nela para ler enquanto comia.
Gwen, quantas flores! Que outros segredos est escondendo de mim? Interrogo voc mais tarde. H duas mensagens para voc na secretria eletrnica. Vov. No me pergunte. 
E um homem de voz sexy chamado Bran. O homem das flores? Humm! Estarei de volta s 6 horas da tarde. Talvez. Jules.
Franzindo a testa, Gwen releu o bilhete e, em seguida, voltou o olhar s flores. Observou o pequeno envelope que se encontrava entre os talos. Retirou o plstico 
que o prendia, deu de ombros e abriu o envelope.
Parecem fazer o seu estilo.
Com meus agradecimentos antecipados pela ajuda.
Bran
- Oh! - No pde suprimir a vertiginosa vibrao, enquanto observava as rosas. - Minhas - murmurou, e inclinando-se sobre o buqu, inspirou profundamente. Em seguida, 
retraiu-se dando um passo atrs. Trs dzias de rosas brancas de talo longo em novembro era, sem dvida, um exagero. Um magnfico exagero, entretanto...
Teria de ser mais direta em desencoraj-lo. Vov, refletiu, o que est pretendendo e o que fez?
Girou para acionar a secretria eletrnica que piscava com os recados e no pde deixar de conter o riso quando voz de trovo de Daniel encheu o ambiente. 
- Detesto essas parafernlias eletrnicas. Ningum fala com ningum, apenas tagarela com uma mquina. Por que nunca esto em casa? Gwen, tenho um jovem amigo que 
est precisando de ajuda. E um escritor, e dos bons. Mas  um irlands, portanto, o que se podia esperar? Sabe bem matar pessoas a torto e a direito e depois perseguir 
assassinos malucos. Pode dar uma pequena ajuda, no, querida? Apenas um favor para seu av.  um bom rapaz. A me dele cursou a faculdade com a sua, portanto no 
 um completo estranho. Julia conversei com seu pai. Ele me disse que est comprando outra casa. Essa  a minha garota!  muito sacrifcio telefonar para sua av 
de vez em quando? Ela fica preocupada. 
Gwen soltou uma gargalhada, passando os dedos pelos cabelos. Uma mensagem tpica de Daniel MacGregor, pensou, bradava a pleno pulmo. Mas parecia bastante inocente. 
O filho de uma amiga de sua me. Muito bem. Parecia no haver conluio ou armao de nenhum tipo por trs daquilo. Apenas um favor e fcil de ser concedido.
Satisfeita, pegou o pote do iogurte outra vez, retirou uma colher do armrio e apertou o boto da secretria eletrnica, para ouvir a mensagem de Branson.
- Gwendolyn. - Ela estacou com a colher prxima aos lbios. Havia algo no jeito como aquele homem pronunciava seu nome, pensou. Utilizando de forma romntica toda 
a extenso dele em vez do rpido e prtico, Gwen. -  Branson Maguire. Espero que tenha conseguido dormir. E que goste de rosas brancas. Estive pensando, se estivesse 
disponvel, gostaria que me reservasse uma hora durante o dia de hoje. Poderia convid-la para almoar ou jantar, mas no quero provoc-la outra vez. Gostaria apenas 
de conversar algumas coisas com voc. Se for possvel, telefone-me. Estou planejando passar o dia em casa. Seno, nos encontramos  noite.
Gwen no se deu ao trabalho de anotar o nmero. Tinha certeza de que se recordaria. Pensativa, levou uma colherada do iogurte  boca. Era um pedido razovel, sups. 
No havia nada de galanteador no contedo ou no tom de voz. Rindo de si mesma, ingeriu outra colherada. Que papel tolo, analisando cada nuance. Fora exatamente aquela 
atitude que lhe causara o embarao da noite anterior.
O homem era um profissional, assim como ela. Por certo podia lhe conceder uma hora... se no por outra razo, ao menos como uma forma de se desculpar com ele e com 
o av por ser to desconfiada.
Pegou o fone e discou o nmero. Ele respondeu ao terceiro toque.
- Maguire.
- Oi, aqui  Gwen Blade. Obrigada pelas rosas. So lindas.
- timo. Serviram?
- Como?
- Para acalm-la a ponto de me conceder uma hora?
- No, mas a mensagem que recebi de meu av, sim. No sabia que nossas mes foram amigas de faculdade.
- Apenas por alguns semestres, que eu saiba. A minha escolheu ser designer de interiores e a sua, ao que parece, uma variedade de coisas. Mame me disse que Serena 
MacGregor se mostrava interessada em tudo.
- E permanece assim. Posso encontr-lo s 2 horas da tarde. Acho melhor que seja no centro da cidade. Tenho algumas compras a fazer.
Duas horas, repetiu Branson para si mesmo. Depois do almoo e antes do jantar. Uma mulher esperta.
- Para mim est timo. Que tal me encontrar no Boston Harbor Hotel? Costumam servir um excelente ch.
- Eu sei - disse Gwen, volvendo o olhar ao iogurte e pensando nas iguarias maravilhosas s quais ele se referia. o estmago negligenciado roncou.
- Est bem. s 2 horas no saguo principal.
Gwen foi pontual. Um hbito que a prima Julia considerava irritante. Tomara um banho de espuma demorado, que fez maravilhas  tenso muscular da nuca. Depois se 
dedicara a folhear uma cpia de Die a Fine Death de Branson Maguire. J o havia lido antes, mas queria se familiarizar com o estilo do escritor antes de ir a seu 
encontro.
Teria se inteirado com o mesmo interesse do histrico de um paciente antes de trat-lo ou mesmo na personalidade de um amigo antes de presente-lo. Era uma mulher 
complexa e meticulosa, que se graduara em medicina anos antes da idade padro e, no momento, era a mais nova residente de cirurgia a servir  equipe do Boston Memorial.
Trabalhara duro para chegar aonde estava e sabia que merecera o posto por esforo prprio. No menosprezava as vantagens com que crescera. Sua famlia era amorosa, 
incentivadora e generosa. Apoiaram-na em todas as decises que tomara ao longo do caminho. Sabia tambm que a riqueza, do tipo que os MacGregors possuam, amortecia 
os impactos da estrada.
Mas fora o amor pela medicina, o mistrio, a arte e a cincia que lhe selaram o destino.
Vagueou pelo saguo do hotel, apreciando a magnificncia do lugar, a graciosidade do teto ornamentado, os imensos vasos repletos com grandes flores exticas, o mrmore 
e o dourado.
Ela aparentava, pensou Branson, quando saiu do elevador e a avistou, a filha universitria de um homem abastado em passeio no centro da cidade. Trajava jaqueta e 
cala cinza e um sobretudo preto dobrado sobre o brao. Usava poucas e clssicas jias, observou o escritor. Um broche na lapela que por certo herdara e pequenas 
argolas de ouro nas orelhas. O relgio fino possua correia de couro preta.
Parecia vivaz, revigorada e sem nenhum trao da fragilidade que aparentava na noite anterior.
- E pontual - afirmou ele, caminhando em direo a Gwen.
- Sim. Um hbito irritante.
- Gosto de mulheres pontuais - dizendo isso, Branson a tomou pelo brao e a guiou em direo ao hall dos elevadores.
- A perda de tempo deveria ser reservada apenas para o divertimento. - Ele utilizou uma chave pequena para acessar o andar e voltou-se sorrindo, quando a porta se 
fechou. - Est com uma aparncia tima. Eu diria que conseguiu descansar.
Branson trajava um pulver macio azul-marinho com as mangas arregaadas at os cotovelos por sobre uma cala jeans. Os tnis de boa qualidade pareciam no ter percorrido 
sequer uma milha.
- Obrigada. Sim, consegui. Aonde estamos indo?
- Para minha sute.
Os olhos cor de lavanda escureceram e os clios baixaram.
- Oh?
Branson no pde conter o riso.
- Gwendolyn, no deveria ser to confiante e ingnua. As pessoas podem querer tirar vantagem disso. Relaxe - acrescentou antes que ela pudesse responder. - Pedi 
ch. Ser servido na sala de estar.  bastante convencional e mais conveniente para que eu possa tomar notas sem interrupes cios solcitos garons. Nenhuma inteno 
escusa.
- Est bem. Estou mesmo faminta. Pensei que morasse em Boston.
- E moro. - Branson lhe tomou o brao outra vez para ajud-la a sair do elevador. - Aqui. A imprensa considera uma excentricidade um escritor viver em um hotel. 
Mas, na realidade, trata-se de um apartamento de alta classe, com servio de quarto e com um rpido rodzio de inquilinos. Tem um lindo sorriso. Por que o est oferecendo 
a mim?
- Meus pais tambm moravam em um hotel at pouco depois de Mac, meu irmo mais velho, nascer. E de vez em quando ainda o fazem. Meus dois irmos moram em hotis 
durante o ano todo e minha irm mais nova, Amlia, tambm moraria se pudesse arcar com as despesas. Portanto, no acho nem um pouco excntrico.
- Certo. Havia esquecido dos cassinos em Vegas, Atlantic City, New Orleans e Europa. Sua famlia me custou algum dinheiro... indiretamente.
- No h nada que nos divirta mais. - Gwen esperou at que ele destrancasse a porta dupla para adentrar na espaosa e ricamente mobiliada sala de estar. Notou o 
pequeno laptop no qual estava acoplado um amplo monitor que se encontrava no canto oposto da extensa mesa de nogueira. Ao lado jaziam pilhas de livros, jornais e 
algumas xcaras de caf.
- Eu diria que este  um lugar calmo e conveniente para trabalhar.
- Serve por enquanto. Por vezes tenho mpetos de comprar uma casa, cortar grama, pintar venezianas. Mas depois passa. Acho que um dia esse desejo vir para ficar.
- Se acontecer, deveria consultar minha prima Julia.  uma perita em imveis.
- Ah, a primeira filha, Jules. 
Gwen inclinou a cabea para o lado.
- Sim, a imprensa a rotulou assim, quando meu tio era presidente. Ela achava divertido. Mesmo aos sete anos Julia possua um senso apurado de ridculo.
- Deve ter sido difcil crescer na Casa Branca. Vejamos, o irmo dela, D.C.,  artista. E ainda tem as primas advogadas. Uma delas teve um casamento esplndido na 
ltima primavera.
- Isso mesmo. Estamos aqui para discutir minha famlia ou seu livro?
- Estava apenas conversando um pouco. - Arisca, pensou ele. - Daniel gosta de jactar-se. Ouvi-o falar tanto sobre filhos e netos que sinto como se os conhecesse. 
Seu av tem muito orgulho de vocs.
- Eu sei. - Os olhos cor de lavanda se suavizaram outra vez. - Tenho tendncia a ser defensiva quando se trata de minha famlia. Outro hbito.
- Um tanto atraente. Deve ser o ch - declarou Branson quando ouviu o som da campainha. - Fique  vontade.
Gwen decidiu que o mais eficiente local para se acomodar seria a mesa da sala de jantar, do lado oposto do laptop.
Sorriu para o garom do servio de quarto, ouviu Branson brincar com ele a respeito de um jogo de futebol e, em seguida, observou uma nota dobrada passar de maneira 
discreta da mo do hspede para a do criado.
- Como um homem pode viver nesta cidade grande e ser f do Dallas Cowboys est alm de minha compreenso - afirmou Branson, erguendo uma garrafa do balde de gelo.
- Champanhe?
- No.
- Perguntei apenas para me certificar. - Recolocou o recipiente no lugar. - Deixaremos o champanhe para outra ocasio. - Fez um gesto em direo aos pratos com sanduches, 
bolinhos e doces. - Disse que estava faminta.
- E voc que queria discutir seu livro comigo - disparou Gwen, pegando o bule de ch e servindo duas xcaras.
- Sim. O que planejei - comeou ele, dispondo em um prato uma de cada iguaria. - Foi uma mdica psicopata.
- Que amvel!
- Ela . Uma beldade. Uma mulher?
Sim. Acho que no  comum boas mdicas psicopatas hoje em dia. O que pretendo  algo na linha Jekyll e Hyde, com um misto de viva negra e Lizzie Borden. - Mordeu 
um dos sanduches. - Voc  perfeita.
- Sou?
- Sim. Tem a aparncia... no apenas a beleza, quero dizer o ar de fragilidade, os ossos delicados, a graa e a eficincia. Havia pensado em construir a personagem 
alta, luxuriosa e mortal - continuou, fitando-a com um brilho intenso no olhar. - Mas agora percebi que o contraste  melhor. No podia obter prottipo melhor.
Gwen decidiu por se mostrar divertida em vez de insultada.
- Para uma psicopata?
- Sim - afirmou Branson, votando-lhe um sorriso luminoso. - Importa-se?
- Acho que me sinto lisonjeada por mais estranho que possa parecer. Ento sua vil  uma mdica, que cura com uma das mos e mata com a outra.
- Isso mesmo. Voc  rpida. - Branson escorregou um pouco para frente. Os dedos batendo ociosos na borda do prato. - Ela tem o controle absoluto. Sabe exatamente 
o que est fazendo. E gosta disso. O poder de curar e a excitao de destruir.  bvio que se trata de uma insana, mas em um nvel diferente. Portanto, se a fizesse 
uma cirurgia, como seria sua vida? Seria mais velha que voc. No quero complicar a situao, mostrando-a como um gnio acima de todos.
- No sou um gnio. Apenas uma estudante aplicada.
- Gwendolyn, cursou a escola de medicina de Harvard anos antes de ter idade suficiente para ingerir bebida alcolica na maioria dos estados.  um gnio. Viva com 
isso. - Ele pegou outro sanduche, enquanto Gwen piscava vrias vezes, sem saber o que dizer. - Ento, quanta presso ter de suportar para se firmar como uma cirurgia? 
Ainda  um territrio essencialmente masculino, certo? Alm disso, h o complexo de Deus, a arrogncia e o ego exacerbado que vem do fato de ter as mos dentro do 
corpo humano.
- Arrogncia e ego exacerbado? - repetiu Gwen.
- Voc os tem. Percebi enquanto a observava trabalhar com aqueles jovens ontem. Dava ordens com a certeza de que seria obedecida... de imediato. - A cena passou 
como um filme pela mente de Branson outra vez. - Se deslocava de uma sala a outra, monopolizando a ateno dos presentes. No percebe, porque est acostumada a isso. 
Espera que seja dessa forma. Quero que seja assim com minha personagem. A expectativa do absoluto respeito e obedincia. A autoconfiana. Enquanto por outro lado, 
ela ferve de raiva e frustrao. Voc tambm tem esses sentimentos, Gwendolyn?
Santo Deus, aquele homem era um trator.
- Neste momento ou em geral?
Ele lhe voltou um sorriso.
- Gosto muito de sua voz. Tem classe e  naturalmente sexy. De qualquer modo, o que estou procurando  mostrar do ponto de vista feminino o que se tem de fazer para 
se firmar no campo de trabalho. Como lidar com o sutil ou evidente assdio sexual e progredir na profisso. Veja, acho que ela se dedica a mutilar homens porque 
os acha inferiores, irritantes, obstrutivos e odiosos.
E l estava o sorriso divertido de Gwen outra vez.
- Estou comeando a gostar dela.
- timo, esse  o objetivo. Quero que o leitor tambm se afeioe, mesmo enquanto a despreza. - Enquanto falava, Branson enchia o prato de Gwen mais uma vez. - Ela 
 brilhante, ambiciosa e no apologtica. Alguns homens com os quais a personagem sai no incio so vis, o que a faz mais simptica. Depois ela toma gosto por aquilo. 
 quando a personagem ultrapassa o limite. E as exigncias, a presso, o estresse constante dos assuntos de vida ou morte... acho que isso tudo  que por fim quebra 
a conexo que ela possui com a prpria humanidade.
Gwen resolveu que era mais produtivo ficar entretida e intrigada do que irritada. Selecionou um sanduche de agrio da pilha que Branson pusera em seu prato. 
- Bem, a presso  ultrajante. Um nmero considervel de bons mdicos desiste por no conseguir suportar o trabalho no hospital, as horas desgastantes e burocracia 
miservel, Emergncias, cortes no oramento, interrupo da vida pessoal. Sua personagem no ter muito tempo para diverso a no ser que seja muito flexvel. Suponho 
que ela faa parte da equipe de um hospital de grande porte de Boston.
- Exatamente. - Ele pegou um caderno e comeou a lazer anotaes. - Quantas horas ela ter de trabalhar na semana?
- Oh, de quarenta a um milho.
Branson sorriu e colocou uma bomba de chocolate no prato dela, onde antes estivera o sanduche.
- Continue.
A hora combinada se transformou em noventa minutos at que Gwen se lembrasse de consultar o relgio.
- Estou atrasada. Tenho de ir se quiser terminar minha compras de Natal antes de me apresentar no planto.
- Terminar? Estamos em novembro.
- Sou uma antecipada obsessiva - afirmou ela, erguendo se e pegando a capa.
- Vou com voc.
- Fazer compras? 
Branson j havia se levantado e a ajudou a colocar a capa antes que tivesse tempo de faz-lo sozinha. Daquela forma, se ele roasse a mo nos cabelos louros e revirasse 
os olhos de prazer por sobre a cabea de Gwen, ela nunca tomaria conhecimento. - Tenho bom gosto para escolher presentes. E assim podemos trocar idias por mais 
algum tempo e depois irei para o hospital com voc.
- Outro antecipado obsessivo.
- Acertou. Amo meu trabalho. - Branson pegou a prpria capa e a puxou pelo brao. - Estive pensando em faz-la se apaixonar por Scully. Juntos podiam fazer excelente 
sexo, complicar suas vidas e destruir o corao um do outro. - Estacou, detendo-se a observar a face delicada por alguns instantes para se divertir com o momento. 
- Acha que ele faz o tipo dela? 
Gwen ergueu a cabea. Percebera o sentido duplo da observao de Branson, embora colocada de maneira inteligente. .
- Tosco, valento e cnico com uma queda por poesia? Talvez a agrade... e ela indubitavelmente se divertir tentando mat-lo.
- Foi isso que pensei. - Sem lhe dar tempo para reao, deslizou a mo pelo brao delgado at a mo, entrelaou os dedos nos dela e a guiou pela porta de sada.


Treze

- Ento, quando vou conhec-lo? Gwen cortava o papel de embrulho com a preciso de uma cirurgia e sequer se deu ao trabalho de erguer o olhar.
- Quem?
Julia pegou uma fita prateada das pilhas separadas por cores que a prima dispusera sobre a mesa da sala.
- O homem que  bom para voc. - Por instantes, considerou a possibilidade de embrulhar os prprios presentes, mas estavam apenas no domingo aps o dia de Ao de 
Graas e sentia-se bastante preguiosa.
- Bom para mim - repetiu Gwen, enquanto depositava a caixa com a blusa sobre o papel e com habilidade dobrava as bordas e as puxava para cima para sobrep-las de 
forma milimtrica.
- O homem das flores. - Julia bocejou e tomou um gole do caf.
- Branson? - Aps colocar a fita, Gwen comeou a dobrar a primeira extremidade do papel. - Quer conhec-lo?
- Bem, tem se encontrado com ele por quase trs semanas e sequer consegui pousar os olhos nele.
- No tenho me encontrado com ele - retrucou a prima, virando a caixa para dobrar a outra extremidade. - Estou apenas ajudando-o em uma pesquisa.
Julia se recostou no assento da cadeira. Adorava Gwen. A inata meticulosidade de hbitos e mente, a generosidade que possua, o humor tranqilo, a inabalvel lealdade... 
e a divertida falta de conscincia de si mesma.
- Ele  muito atraente.
- Humm.
- No foi uma pergunta. Vi a foto dele na quarta capa de um de seus livros e assisti a algumas entrevistas que ele concedeu para programas matutinos.  muito atraente.
- No vou discordar. - Depois de alguma indeciso, Gwen optou pelo lao vermelho e comeou a calcular o comprimento da fita.
- Quer dizer que no tem interesse pessoal nele, do tipo homem-mulher?
- No pensei sobre isso.
- Gwen.
Com um suspiro de impacincia, a mdica pousou a fita na mesa.
- No estou interessada em me interessar. E voc est soando como o MacGregor.
Julia sorriu. Os olhos negros brilhando de satisfao.
-  um elogio ou um insulto?
- Sabe muito bem que o maior desejo do vov  ver-nos todas casadas e gerando dzias de filhos. Ele pensou que foi astuto no jantar de Ao de Graas, fazendo todas 
aquelas perguntas sobre os rapazes com quem estaramos saindo. Rapazes! - Revirou os olhos e irrompeu em uma gargalhada. - Ele nunca vai mudar.
- Quem desejaria que mudasse? Mas vov foi um pouco mais especfico com voc. "Ah, Gwennie querida, como vo as coisas com o nosso jovem amigo escritor? Um bom rapaz 
aquele Branson. Crebro brilhante. E os irlandeses sabem valorizar a famlia". - Julia repetiu a fala de Daniel.
Gwen meneou a cabea e, com esmero, prendeu o lao sobre a caixa.
-  obviamente f de Branson.
- Vov armou isso para voc.
- No. A princpio tambm pensei assim, mas depois percebi que julguei mal a situao.  inofensiva.
Julia entreabriu os lbios para falar, mas em seguida os selou com um estalido de lngua.
- Est bem, se  por esse ngulo que quer ver. Ele iria esprem-la contra a parede se Laura e Royce no fizessem o anncio da gravidez. A partir daquele momento, 
vov se manteve ocupado tentando conter as lgrimas, fazendo brindes, batendo nas costas de Royce e comemorando minto para se preocupar com outros arranjos.
Gwen pegou uma fita vermelha grossa e deixou escapai um profundo suspiro.
- Vamos ser tias. Laura parece to feliz, no?
- Sim. - Um tanto emocionada, Julia fungou. - E pensai que um ano atrs estava tentando convencer a si mesma, e a ns, que no estava nem um pouco interessada em 
relacionamentos. Assim como voc est fazendo agora.
- Pelo amor de Deus...
- Campainha - Julia se ergueu num salto. - Termine de trabalhar nesse paciente, doutora. Eu atenderei.
A prima no tinha a menor noo do que estava acontecendo, pensou Julia enquanto caminhava em direo A porta. Aquela mulher podia cortar, abrir, examinar pessoa 
de manh  noite, diagnosticar uma infinidade de doenas, condies e traumas, porm no sabia quando estava envolvida em um relacionamento.
Abriu a porta e avistou a outra metade do relacionamento segurando uma caixa de doces branca e lustrosa.
- Rosquinhas ou tarteletes?
- Ambas.
- Muito bem, pode entrar. Branson adentrou a casa, estudando com interesse a moa curvilnea de cabelos ruivos revoltos, olhos castanhos e pele macia e alva como 
uma cobertura de chantilly. Ela trajava um robe atoalhado com listras grossas e chinelos felpudos.
- Branson Maguire, prazer em conhec-la.
Julia sorriu e estendeu a mo que brilhava com vrios anis.
- Eu o reconheci. Julia MacGregor, prazer em conhec-lo O escritor segurou a mo fina.
- Eu a reconheci.
- No  engraado? J estou gostando de voc. Qualquer homem que bata  porta s 11 horas de um domingo com uma caixa de doces no mesmo instante se toma meu amigo.
- O que acha de creme bvaro com cobertura de chocolate?
- Meu melhor amigo - dizendo isso, tomou-lhe a caixa das mos. - Tire sua capa e fique  vontade. Acho que posso providenciar um caf para acompanhar estas delicias.
- Esse era o plano. Pensei se a dra. Dish no estava... - Estacou e sorriu. - Ops! Um lapso.
- Dra. Dish? - Os olhos de Julia brilharam divertidos. - Gostei. E j que me trouxe um milho de calorias, este ser nosso segredo.
- Agradeo-lhe. - Branson pousou a capa no pilar do corrimo. - Ela est ou teremos de comer tudo sozinhos?
- Est operando na sala de jantar. Por aqui.
- Bela casa - comentou ele enquanto cruzavam o corredor.
- E minha favorita, por isso vivemos aqui.
- Isso mesmo. Gosta de comprar casas.
- Comprar, vender, restaurar e reconstruir. E voc gosta de contar histrias.
- Sim. - Passaram por uma sala na qual haviam sofs aconchegantes e uma pequena lareira. Um grande vaso pregueado nas beiradas em cores azul e verde fortes chamou-lhe 
ateno, fazendo-o parar para ver mais de perto.
- Uma pea de minha me.
- Fabulosa. Por certo ela ter um lugar interessante na histria, no acha? Brilhante como artista e dinmica como primeira dama.
- Gosto mesmo de voc.
- Fiz uma resenha sobre seu pai quando estava no ensino mdio. - Branson lhe voltou um sorriso luminoso. - Tirei a nota mxima.
- O ex-presidente Alan MacGregor sempre foi um defensor da educao. Ficar muito contente. - E por se sentir da mesma forma, Julia tomou-lhe a mo e o guiou em 
direo  sala de jantar.
- Veja quem chegou carregado de presentes - anunciou, animada.
Gwen ergueu a cabea. A tesoura que segurava em uma das mos se fechou com um estalido.
- Oh. - O frio que sentiu no estmago a surpreendeu, bem como a urgncia em ajeitar os cabelos. - Ol, Branson.
- Branson trouxe doces, ento decidi que estou apaixonada por ele. Vou preparar um caf, e colocar isso em um prato. No o deixe ir embora, Gwen. Acho que vou quer-lo 
por perto - dizendo isso, piscou para o escritor e saiu, carregando a caixa de doces para a cozinha.
- Na verdade, acho que talvez me apaixone por ela tambm. - Sem esperar por convite, puxou uma cadeira e sentou-se ao lado de Gwen.
- Bem, vocs so rpidos.
Teria percebido um trao tnue de irritao em sua voz?, imaginou Branson. Assim esperava.
- No acredita em amor  primeira vista, doutora?
- No - mentiu Gwen. Acreditava em toda a sorte de coisas tolas quando se tratava de assuntos do corao. - Por que trouxe doces?
- No os como se algum no me der. - Distrado, pegou uma fita azul e se ps a estud-la. -  uma forma humilde de agradecimento pelo tempo que est me dispensando.
- Muito gentil. - Quando Branson pousou a fita na pilha de cor dourada, ela automaticamente a removeu e colocou no lugar certo. - Mas  desnecessrio. No tem sido 
sacrifcio algum.
Branson torceu os lbios. Num gesto deliberado, pegou uma fita vermelha.
- Sacrifcio ou no, trata-se de seu tempo, e tem sido de grande ajuda. - Colocou a fita na pilha de cor verde.
- O livro est caminhando bem? - inquiriu ela, mudando a fita de lugar.
- Sim. - Branson sorriu quando Julia adentrou a saiu com uma bandeja contendo um bule de caf, xcaras c um prato repleto de doces. - Ele sinalizou para a prima 
de Gwen com um erguer de sobrancelhas e moveu a fita prata par pilha de cor vermelha. - Parece-me delicioso.
Julia conteve o riso quando a prima num gesto meticuloso devolveu a fita  pilha certa.
-  voc que est dizendo. Espero que no se importe, mas separei minha parte para comer l em cima. Tenho alguns telefonemas a dar. Venha quando sentir vontade, 
Bran. E traga chocolate da prxima vez.
Fez um gesto afirmativo com o polegar por trs de Gwen e disparou pela escada.
- Posso ajud-la com os embrulhos?
- No. Tenho toda uma logstica para faz-los.
-  mesmo? - Branson serviu-se do caf e disps um rosquinha no prato. - Tem acar?
- Vou pegar. Espere um segundo. - A ateno de Gwen estava focada na dobradura exata das extremidades do papel,
- Como foi seu dia de Ao de Graas?
- Barulhento, confuso e voraz, porm maravilhoso. E seu?
- A mesma coisa. - Ele observou o polegar delgado deslizar sobre o papel, formando uma dobra com tanta per feio quanto uma navalha e se descobriu achando adorvel 
a exacerbada ateno da mdica aos detalhes. - Desculpe-me, Gwendolyn, mas tenho de fazer isso.
Em seguida, Branson envolveu-lhe a nuca com uma d mos e tomou-lhe os lbios num beijo impetuoso. Gwen no tentou se esquivar, tampouco tensionou o corpo, mas ele 
percebeu a surpresa. Decidindo usar aquilo em vantagem prpria, envolveu com a outra mo o queixo delicado e deslizou-a pela orelha at se enterrar na massa de cabelos 
dourados.
Os lbios macios tinham sabor refrescante, pensou Branson, como as primeiras brisas da primavera. Havia imaginado, durante trs semanas, como seria beij-la, e naquele 
momento perguntava a si mesmo por que esperara tanto quando ela era to... perfeita.
Inebriado, induziu os lbios tentadores a se abrirem ainda mais, aprofundando o beijo. O som que lhe emergiu da garganta era de puro xtase.
Tinha de impedir que aquilo continuasse, pensou Gwen. Imediatamente. Oh, Deus! Sentia-se tonta, quente e indefesa. Sua presso sangnea por certo estaria... A pulsao 
devia... E ento sentiu os dentes alvos mordiscarem-lhe o lbio inferior e esqueceu o mundo a seu redor.
- Doce - murmurou Branson, perdendo-se no contato c-lido e macio. - Doce e maravilhosa Gwendolyn. - A mo firme deslizou um pouco para baixo de modo a acariciar-lhe 
o pescoo. O toque suave a fez estremecer. - O que temos aqui?
- Espere. - Gwen colocou a mo sobre o peito musculoso, surpreendendo-se com o fato de o corao de Branson bater to forte quanto o dela. - Espere um pouco.
- No quero - dizendo isso, ele aprofundou o beijo sem lhe deixar espao para reao.
Ansiava por sent-la em seu colo e mover os lbios atravs do pescoo esguio e assim por diante at chegar aos os ps delicados.
- Eu disse para esperar - Gwen conseguiu desvencilhar-se, lutando por ar, compostura e racionalidade. - Temos um acordo.
- Est envolvida com algum?
- No. Essa no  a questo. Branson apenas ergueu o sobrolho.
- Tem algum problema com escritores de livros de mistrio de origem irlandesa?
Gwen passou as mos pelos cabelos, deixando-os espigados como um girassol.
- No seja ridculo.
- Considera o beijo um hbito pouco saudvel? Ela lhe lanou um olhar desconfiado.
- Est caoando de mim?
- Talvez de ns dois. E como considerarei sua resposta um no, devo confessar que beijar voc pode se tornar um hbito.
- Traou o contorno dos lbios macios com a ponta do de enquanto os impassveis olhos cinza deslizavam pela face delicada. - Estou comeando a sentir algo por voc.
- Algo?
- No sei como definir ainda, mas estou trabalhando p isso. Ou talvez devesse chamar de condio. A qual e relacionada. - Os dedos longos traaram o contorno queixo 
de Gwen. - Talvez pudesse me ajudar a explorar isso.
- Os olhos de Branson encontraram os dela, repletos curiosidade. - Est nervosa. -A concluso lhe veio com misto de surpresa e prazer. - Podia jurar que no possua 
u nervo em seu corpo pelas situaes que a vi enfrentar n ltimas semanas. Nunca vacila, hesita ou fraqueja. Mas est nervosa neste exato momento porque eu a estou 
tocando, isso, Gwendolyn,  extremamente excitante.
- Chega! - Ela se ergueu num impulso, arrastando cadeira para trs. - Pare com isso. No estou nervosa. Ap nas no quero prosseguir com isso.
- Agora est mentindo. - Branson riu quando percebeu os olhos cor de lavanda escurecerem de indignao. - O beijo mexeu com voc, e no posso culp-la. Mas a questo 
 uma mulher se derreter em meus braos como voc fez alegar indiferena, no soa verdadeiro.
- No disse que sou indiferente - corrigiu Gwen em um tom frio que o fez sorrir.
- Est certa, no o disse. O erro foi meu. - Ele lhe tomou a mo, ignorando-lhe as tentativas de se desvencilhar. A boca que h pouco a seduzira, naquele momento 
sorria, arrogante - No se preocupe, no vou beij-la de novo at... bem, at...
- Branson, estou ocupada.
- Gwendolyn, sou persistente. E quero voc. No pode ser a primeira vez que ouve isso.
Era a primeira vez que ouvia a frase ser pronunciada com um sorriso presunoso e exacerbada autoconfiana. Detestava o fato de aquela combinao a excitar tanto.
- Se quer que eu continue a ajud-lo, ter de entender as condies e restries.
- No. No gosto de condies e restries.
- Voc  arrogante e insuportvel...
- Est temerosa de que eu a seduza - declarou Branson. Porque agora sabemos que posso. Vamos apenas refrear isso por um tempo.
A frieza do tom de voz de Gwen se transformou em geleira.
- Se est pensando que sou uma mulher fcil, no pode estar mais enganado.
- No estou pensando nada disso. Acho-a uma mulher Incrvel, forte e destemida. A cada dia a admiro mais. Est se rebaixando se pensa que a nica razo pela qual 
a quero e porque tem olhos lindos e um corpo magnfico.
- Eu... - Ela ergueu as mos e tornou a abaix-las. - Conseguiu me confundir.
-  um comeo. Por que no pensa sobre isso por algum tempo, j que  exatamente o que voc vai fazer de qualquer forma? Vejo-a no hospital mais tarde.
Permitindo-se relaxar outra vez, Gwen anuiu.
- Est bem. Branson tomou a face delicada nas mos e lhe deu um beijo rpido nos lbios.
- Acho que terei de me contentar com isso at l - afirmou ele, antes de desaparecer pela porta da sala.


Catorze

Gwen voltou a trabalhar no planto diurno na primeira semana de dezembro. Ao longo dos anos, aprendera a ajustar o relgio biolgico s exigncias do trabalho. Quando 
era hora de dormir, dormia profundamente. E quando precisava despertar, despertava com rapidez.
Desde que decidira seguir os passos profissionais da rea cirurgia, no permitia que nada a distrasse. Sendo assim a famlia e o trabalho eram o foco de sua vida. 
Tudo o mais era secundrio.
Incluindo os homens.
At mesmo, disse a si mesma, Branson Maguire.
Ele se ausentou por trs dias. Gwen presumiu que, por certo, o escritor j havia coletado informaes suficientes de que sua ajuda no seria mais necessria. E conclura 
que se desinteresse por um relacionamento por fim penetrara naquela cabea dura.
Estava determinada a no se sentir desapontada.
Com extremo cuidado, continuou a suturar um corte de oito centmetros na panturrilha de um paciente que tivera um desagradvel encontro com uma rvore. 
- Eu estava descendo a colina - relatava ele, procurando manter o olhar longe do local esterilizado e da agulha, - Pensei em levar o tren para um teste de corrida 
antes que meus filhos o vissem. - Fez uma careta de dor pela espetada na pele. -Acho que estou um pouco velho para andar de tren.
- Tem apenas de prestar ateno no caminho. 
Quando a porta se abriu e Branson adentrou, o corao de Gwen pareceu dar uma volta de trezentos e sessenta graus. Porm, ela conseguiu completar o prximo ponto 
da sutura sem tremer.
- No tem permisso para entrar aqui - informou em tom calmo.
- No ficarei em seu caminho. - Aproximou-se para ver a ferida mais de perto. - Oh! - disse com um sorriso amigvel.
- Sangra feito uma veia aberta - afirmou o paciente.
- Fique parado, sr. Renekke. Estamos quase acabando.
- Desculpe. - E dirigindo-se a Branson. - Parece-me familiar.
- Sempre me dizem isso - retrucou o escritor, puxando uma cadeira de metal e sentando-se. - Conte-me como acabou sendo atendido pela mais bela cirurgi de Boston?
- Ah... - Renekee fitou a mdica de soslaio, percebendo que ela continuava focada em seu trabalho. - Era um embate entre mim, um tren e uma rvore. Eu perdi.
- Est um dia propcio para andar de tren. E se perdeu para a rvore no podia estar em melhores mos dos que as da dra. Blade. Diga-me, como j a conhece h alguns 
minutos, o que acha que devo fazer para convenc-la a jantar comigo esta noite?
- Bem, eu...
- Branson, saia. - Gwen no corou, mas sentia o embarao na boca do estmago.
- Apenas um jantar agradvel e sossegado - continuou ele ignorando o pedido da mdica. - Ela costuma esquecer de comer, portanto estou apenas cuidando de sua sade.
- Isso poderia funcionar - concordou Renekee, divertindo-se com a situao.
- Exatamente. Vinho... com moderao, claro. Luz de velas... serenidade para os olhos. Uma refeio relaxante depois de um dia cansativo de trabalho.  apenas uma 
forma de cuidar de voc.
- No me faa chamar o segurana, Branson. Sr. Renekee, vou cobrir o ferimento agora. Ter de mant-lo seco. Vou lhe passar uma receita e ter de voltar dentro de 
sete a dez dias para retirar os pontos.
- Ela tem timas mos, no? - comentou o escritor. - Vou lhe dizer uma coisa, se precisasse tomar pontos, no deixaria que mais ningum alm da dra. Blade o fizesse. 
Estava pensando naquele restaurante francs... Eles tm umas sobremesas flambadas divinas. Acha que ela gostaria de l?
- Minha esposa por certo adoraria.
- Tenho certeza de que  uma mulher bastante refinada. Que tal doutora?
- Acabou, sr. Renekee - anunciou Gwen, sentando-se na cadeira giratria e a rolando at a mesa. De l, retirou um papel impresso com instrues de como cuidar de 
uma sutura. - Se fosse o senhor, ficaria longe de trens por um tempo.
- Sim, obrigado - agradeceu o paciente, pegando o papel e sorrindo. - Acho que deve lhe dar uma chance - declarou enquanto se retirava.
- No vou permitir que me distraia ou a meus pacientes enquanto trabalho. - Furiosa, Gwen retirou as luvas e o jaleco quando ficaram a ss. - No tem permisso para 
entrar em salas de exame ou procedimento a no ser que seja o paciente No admito que me assedie enquanto estou trabalhando.
Branson no conseguia conter o riso. A voz soava corri o sotaque gelado da Nova Inglaterra.
- Tenho culpa se no consigo tir-la da cabea? 
Gwen emitiu um som estrangulado da garganta e atirou as luvas na lata de lixo.
- Est precisando de tratamento ou de exames?
- Querida, se quer bancar a doutora... - Estacou antes de lanar mo das mais variadas respostas que lhe vieram  mente. - Est bem, vou lhe dizer a verdade. Estive 
absorto no trabalho nos dois ltimos dias, mas quando fazia uma pausa para tomar ar, voc era a primeira coisa em que eu pensava. Acho que h uma razo para isso 
e gostaria de lev-la para jantar.
- Tenho planos para esta noite.
- Flexveis ou inflexveis?
- Um inflexvel evento de levantamento de fundos para o hospital.
- Vou com voc.
- Tenho companhia.
- Companhia - repetiu Branson, em dvida entre rir do termo ou rosnar contra a idia de ela sair com outro homem.
- Soa tedioso.
- Greg  um amigo, companheiro e muito charmoso. -  a definio perfeita do termo "tedioso", admitiu para si mesma. - Agora, se me der licena, tenho de trabalhar.
- Que tal tomarmos o caf-da-manh juntos? 
Gwen teve de fechar os olhos.
- Branson...
- Acha mesmo que vou desistir porque um cara chamado Greg vai acompanh-la a um evento para levantar fundos para o hospital?
Ela decidiu por outra estratgia, lanando-lhe um sorriso desafiador.
- Talvez eu queira tomar o caf-da-manh com Greg.
Algo o atingiu direto ao corao. Agora est tentando me enlouquecer. Tudo bem, esquea o caf-da-manh. A que horas  o seu descanso?
- Por que quer saber?
- Podemos ir para o meu hotel e fazermos sexo para que eu possa tir-la de meu sistema. Est me deixando louco.
Gwen surpreendeu a ambos, gargalhando.
- Tome dois Prozac e me chame pela manh. Agora v embora - dizendo isso, ela se encaminhou  porta.
- Quer dizer acord-la pela manh?
Gwen lhe lanou um olhar fulminante por sobre o ombro e deixou a porta de vaivm resvalar-lhe o rosto.
Muito bem, Gwendolyn, pensou ele, enquanto girava nos calcanhares para partir. Teria de jogar sujo e utilizar armas pesadas para conquist-la. E sabia por onde comear.
Uma neve fraca e mida caa em Hyannis Port, cobrindo as rvores altas e centenrias que embelezavam o gramado molhado do castelo que MacGregor havia construdo.
Branson amava aquela casa, com suas pedras lustrosas, janelas elegantes e torres fantsticas. Sempre imaginara como poderia descrev-la em um livro. Que tipo de 
assassinato ou esquartejamento traria o desiludido Scully para, aquele lugar?, refletiu. Ou, assim como seu criador, teria sido uma mulher que o atrara at ali?
Uma mulher, admitiu Branson, que se encontrava impregnada em sua pele, mente e comeando a se insinuar em; seu corao.
Sempre julgara que, se um dia se apaixonasse por uma; mulher, teria de ser numa exploso de afinidade, convico, paixo, luxria e loucura. Mas aquele sentimento 
era como um vo suave da simples atrao a um territrio desconhecido. 
Um mistrio, pensou enquanto subia os degraus da escada larga que levava  ampla porta de entrada, onde estava incrustada a imponente juba do leo MacGregor. No 
conseguia resistir a um mistrio. Ansiava por desvend-lo, camada por camada, at chegar ao mago.
Se estivesse de fato se apaixonando por Gwen, tinha de se certificar, analisar bem os fatos tanto como as emoes. E, para tanto, precisava de uma pequena colaborao. 
No o surpreendeu o fato de Anna vir atender  porta, ou, de parecer amvel e bem humorada. Os olhos acolhedoras, e as mos finas esticadas em sua direo.
- Branson, que maravilha! Daniel ficar feliz em v-lo.
- Esperava que ele no estivesse aqui, para que eu a .-convencesse a deix-lo e fugir comigo para Barcelona.
Ela soltou uma gargalhada divertida e o beijou na face.
- Tire as mos de minha esposa, seu co irlands! - Exibindo um sorriso luminoso, Daniel MacGregor, corpulento e espalhafatoso, descia a escada. - Barcelona, no 
? Acha que sou surdo e cego? Vir at aqui para flertar com minha mulher nas minhas barbas?
- Voc me pegou. Bem,  um homem melhor do que eu, MacGregor, para segurar essa mulher extraordinria do seu lado durante tanto tempo.
- Ah! - Orgulhoso, Daniel o envolveu num abrao caloroso, com uma energia, pensou Branson, enquanto o ar lhe fugia dos pulmes, que o mantinha vivaz por mais de 
noventa anos. - Essa sua lbia o salvou outra vez. Entre e sente-se, vou providenciar algo para bebermos.
- Ch - aparteou Anna com firmeza, fitando o marido diretamente nos olhos.
Daniel revirou os olhos azuis brilhantes.
- Anna, o rapaz veio dirigindo de Boston at aqui num dia glido e nevado. Por certo preferir usque.
- Mas se contentar com ch, assim como voc. Leve-o pura a sala de visitas. Estarei l em um minuto.
- Vou lhe dizer uma coisa, um homem no pode tomar uma dose de usque em sua prpria casa antes do sol se pr e deve se considerar com sorte se conseguir mais que 
dois dedos com essa mulher por perto. - Caminhava com o brao sobre os ombros de Branson, guiando-o em direo  sala de visitas, onde o fogo crepitava na lareira 
e antigidades e artes preenchiam as paredes.
- Ch est timo - acalmou-o o escritor. - Quero que estejamos ambos com a mente clara para o assunto que vim discutir.
- O dia em que um copo de usque embotar minha mente, ou a de um bom irlands, ser o fim dos tempos - dizendo isso, Daniel acomodou-se em uma poltrona, esticando 
as pernas longas e cocando a barba branca.
- Disse que pretende discutir um assunto?
Foi o brilho nos faiscantes olhos azuis que o delatou.
- Levei algum tempo para perceber que Gwendolyn estava certa em sua intuio inicial.
- Gwen? - Todo inocente, Daniel cruzou as mos fortes. Ah, isso mesmo, ela o est ajudando com seu livro. E como est se saindo?
- A histria ou a ajuda?
- Ambos.
- A histria est indo muito bem, e ela tem sido de grande ajuda.
- timo. Uma menina inteligente, minha Gwennie, diamante reluzente. Puxou  av... uma mulher pela qual parece sentir mais do que afeio.
- Seu velho intrometido - murmurou Branson. - Passei no hospital, meu caro. Gwen  a pessoa de que est precisando - repetiu as palavras que MacGregor lhe dissera.
Daniel exibiu um sorriso largo. Nunca considerara Branson Maguire um homem vagaroso. Se o fosse, no o teria escolhido para a neta.
- E no estava certo? Branson recostou-se ao respaldar da cadeira.
- O que pensa que ela acharia de seu plano? Supe que sua neta ficaria agradecida por me jogar a seus ps?
- Diria que depende de voc.
- O que voc fez, Daniel? - Anna adentrou, segurando a bandeja de ch e lanando um olhar exasperado ao marido.
- Absolutamente nada.
- Empurrou-me para sua neta - informou Branson, erguendo-se para ajud-la com a bandeja. - Gwendolyn.
- Daniel! - A esposa ergueu o queixo. - J no discutimos exaustivamente esse assunto? No concordamos que seria melhor que no interferisse na vida das meninas? 
- Garantir que minha neta conhea um rapaz fino como, nosso Branson aqui no  interferir.  interesse, ...
- Intrometer-se - completou o escritor, enquanto servia Anna de uma xcara de ch. - E eu gosto disso.
- No  intromisso... - Daniel deteve-se. Os olhos se dilataram sagazes. - Viu? Ele aprova o que fiz. E por que no deveria? Uma linda jovem como nossa Gwen. Inteligente, 
elegante, amvel e de boa linhagem.
- No precisa descrever as virtudes de sua neta - esclareceu Branson em tom seco, servindo uma xcara para Daniel. - E espero que resista  tentao de listar para 
ela as que considera minhas e acabe estragando tudo antes que tenha comeado.
- Tenha comeado - repetiu MacGregor, batendo com o pulso no brao da cadeira. - J disps de quase um ms. Est se arrastando!
- Daniel! - admoestou-o Anna em tom sereno. Aps passar uma vida toda ao lado daquele homem, havia acumulado uma montanha de pacincia. - Deixe-o em paz.
- Se o fizer, ele a conquistar no prximo sculo.
-  por isso que estou aqui.
- Viu? - Daniel bateu com o punho outra vez, desta vez em sinal de triunfo. - O que quis dizer?
- Sua neta no est cooperando.
- Cooperando - repetiu Daniel, revirando os olhos. - E por que no a envolve com seu charme em um clima romntico? Quer que eu descreva o que um homem tem de fazer 
para cortejar uma mulher?
Branson se mexeu no assento.
- Cortejar talvez seja o termo errado.
- Oh, sim? - Os olhos azuis se tornaram afiados e mortais. E que termo tem em mente em relao  minha neta?
-Nenhum exatamente - replicou o escritor, erguendo uma das mos num gesto de paz. - Sinto-me muito atrado por ela. - Que diabos!, pensou ele, afinal estava entre 
amigos. Estou meio que apaixonado por sua neta.
- E por que meio? 
Desta vez, Anna limitou-se a sorrir.
- Oh, ele nunca est satisfeito!
- E de que serve meio?
-  o suficiente para mim at me certificar de que sou correspondido. Nunca parti meu corao antes - afirmou Branson. - E espero permanecer assim. Acho que voc 
no chegaria onde est se no fosse um perito na arte da negociao, ou capaz de entender as pessoas, julgar-lhes as fraquezas e as foras. Sei que ama sua famlia. 
Portanto, tem de considerar os prs e contras antes de decidir se sou adequado para Gwendolyn.
- Aqui est um homem esperto, Anna.  de admirar que eu o estime tanto?i
- No se anime muito - preveniu-o Branson. -Eu ainda no decidi se sou o homem certo para ela. Mas - acrescentou antes que Daniel explodisse. - Estou muito interessado 
em explorar as possibilidades. E j que conhece muito bem Gwendolyn...
- Ele a chama de Gwendolyn - observou Daniel, um tanto emocionado. - Viu, Anna, que romantismo?
- Cale-se, Daniel - murmurou a esposa.
- Voc a conhece desde que nasceu - continuou o escritor. - E eu apenas h algumas semanas. Portanto, que tal fornecer-me algumas informaes e sugestes?
- Ela gosta de honestidade - informou Anna, alternando um olhar significativo entre os dois.
- No estou planejando ser desonesto. - Uma covinha se formou nos cantos dos lbios de Branson quando ele sorriu. - Apenas tirar vantagem de uma situao j estabelecida.
- Aquela menina tem de ser arrebatada - opinou Daniel. - Sempre foi afeita a contos de fada.
- O que ela precisa  ser auto-suficiente - corrigiu Anna. - Gwen sempre se orgulhou de sua fora e independncia.
- O que minha neta necessita  luz do luar, rosas e de ser cortejada.
- Precisa de integridade, companheirismo e respeito. Branson deixou escapar um suspiro exasperado.
- Bem, no esto sendo de grande ajuda - declarou, meneando a cabea, confuso, enquanto o casal irrompia em uma gargalhada unssona. - Perdi alguma piada?
- Voc no  to ladino quanto seu pai, nem seu pai tanto quanto seu av - afirmou Daniel, tomando a mo da esposa.
- Portanto, perdeu mesmo. Eu lhe disse que Gwen puxou a av e  verdade. As coisas que afirmei que minha neta necessita so verdadeiras. Da mesma forma que a amvel 
Anna Whitfield precisava delas h sessenta anos vindas de um desajeitado escocs que se apaixonou loucamente no instante em que a viu trajando um vestido rosa no 
baile de vero do Donahues.
- E eu que pensei que precisasse me esforar - murmurou a esposa. - Que havia conseguido extrair o que precisava dele. E muito mais. Seja voc mesmo, Branson e deixe 
que minha neta seja o que .  assim que tudo comea.

Gwen, profundamente agradecida por ter insistido em dirigir seu prprio carro, estacionou  meia-noite na vaga que lhe era reservada. Se, em toda sua vida, tivesse 
passado noite mais entediante, teria entrado em coma.
No reclamava do baile para levantar fundos para o hospital, tampouco de Greg, mas a combinao dos dois numa noite interminvel equivaleria a uma ps-graduao 
em tdio.
E, se o cirurgio tivesse deslizado a mo por sua perna sob a mesa mais uma vez, teria acabado a noite precisando ele mesmo de uma cirurgia.
Por certo Branson teria sussurrado comentrios debochados sobre os pomposos discursos, fazendo-a lutar para no gargalhar ou perder a compostura.
O escritor teria muito a dizer sobre o frango  Kiev frio e emborrachado que ela fingira comer. 
Provavelmente teriam danado em vez de discutir cirurgia a laser durante uma hora e meia antes de ela ter inventado uma desculpa e partido.
Por que estaria pensando em Branson? Meneou a cabea e desceu do carro. No queria estar com ele tambm. Tudo o que desejava era ter ficado em casa, aninhada em 
frente  lareira, sorvendo um bom conhaque e lendo um livro. J que era muito tarde para isso, iria se contentar com uma cama quente e uma boa noite de sono.
Havia quase alcanado a porta, quando avistou a pequena rvore plantada em um vaso postada sob a luz da sacada. Perplexa, agachou-se e observou a pequena ave presa 
a um dos galhos do qual pendiam fios de seda dourados.
Como o carto que se encontrava atado  rvore estava endereado a ela, abriu-o de pronto.
Considere esse o primeiro dia de Natal. Bran.
Ele lhe enviara um perdiz pousado em uma pereira, pensou Gwen, pressionando o carto contra os seios e suspirando profundamente. Que gentil e amvel! Deslizou um 
dedo por sobre uma das pras lustrosas e deixou-a balanar, sorrindo encantada com a ave rolia e colorida.
E percebeu, com uma rapidez que a fez afundar na escada ao lado da pequena rvore, que estava em srios apuros.


Quinze

Gwen saiu da sala de cirurgia trs, esfregando os dedos dormentes. O procedimento cirrgico fora longo e complicado, mas ficara satisfeita por lhe terem permitido 
entrar como assistente do primeiro cirurgio. Passara as ltimas dez horas de p e, se tivesse sorte, poderia fechar o planto dentro em pouco e partir do hospital 
em grande estilo.
Avistou Branson aguardando no corredor e decidiu que as chances de sair em grande estilo haviam aumentado.
- Disseram-me que a encontraria aqui, juntando os pedaos de um paciente.
- Assistindo  cirurgia - corrigiu ela. Mas, em resumo, foi isso mesmo. Um homem de 36 anos que havia sido muito negligente com uma serra eltrica.
- Oh!
- Acho que ele ficar com o brao - declarou Gwen girando o pescoo, enquanto acionava o boto do elevador.
- Dr. Merit  o melhor do estado. No conheo ningum que faria o que ele fez l dentro. A perda macia de sangue e o trauma, os danos aos msculos e nervos, tudo 
controlado com maestria. E o paciente no era o melhor candidato a uma cirurgia to extensa... Obesidade mrbida. Mas por certo ser capaz de manejar outra serra 
eltrica para cortar a rvore de Natal em dezembro do ano que vem.
- J tem a sua?
- Nossa rvore? - indagou Gwen, adentrando a sala de emergncia, aliviada por o local se encontrar calmo. - Este fim de semana. - Lanou um olhar rpido  prancheta 
e constatou que seu nome no constava na escala. - Vou ver se arranjo um caf.
- Seu planto terminou, no?
- Em dez minutos. - Ela irrompeu na sala de estar, encaminhando-se direto  cafeteira. - No esperava encontra-lo aqui hoje.
- Tive de resolver algumas coisas - informou Branson retirando uma caixa do bolso. - Esta  uma delas. 
Ainda segurando o bule de caf em uma das mos, Gwen observou a caixa prateada e redonda.
- Branson, tem de parar com isso.
- Por qu?
- No pode continuar me dando presentes.
- Por qu? - indagou ele outra vez, voltando-lhe sorriso charmoso. - Gostou dos outros. Alm do mais, faze parte de uma coleo.
A pereira, pensou ela, o gracioso broche com duas tartarugas marinhas, o trio de aves de porcelana e os quatro pssaros de plstico que gorjeiam quando bate o vento. 
Amara todos eles.
- Quando a coleo atingir nove danarinas, ficar em apuros.
- Tenho planos para isso. Vamos, abra.
Branson lhe tomou o bule das mos, e ofereceu-lhe caixa, em seguida, serviu duas xcaras de caf. Ela estava encantada e ambos sabiam disso. Ouviu-a deixar escapar 
um suspiro extasiado quando abriu a caixa e deparou com corrente com cinco anis entrelaados.
- Como conseguiu isso?
- Pacincia, determinao e persistncia. - Branson pousou as xcaras. - Deixe-me coloc-lo. - Tomou-lhe colar das mos e o deslizou por sobre a cabea de Gwen observando-o 
refletir sobre o jaleco verde que ela trajava, - Perfeito.
Ela deslizou os dedos pela corrente.
- No devia aceit-lo.
- Claro que deve. Voc o quer.
- E lgico que sim - concordou Gwen em tom exasperado. -  gracioso e charmoso.
Aquilo no fazia sentido. Quase no se conheciam. No o havia encorajado. Branson no era o prximo passo que planejara em sua vida.
- Por que est fazendo isso?
- Porque ainda sinto aquela coisa em relao a voc. - Ele se inclinou, roando os lbios aos dela e adorando o misto de confuso e aborrecimento nos olhos cor de 
lavanda. - E parece que est aumentando. Por que no veste algo menos intimidador e samos? - inquiriu, deslizando os braos em volta da cintura delgada. - Por que 
no tentamos aquele juntar  luz de velas?
- No estou vestida de maneira adequada.
- Est linda, graciosa e perfeita. - Podia sentir a tnue hesitao dando lugar  capitulao. - Quero estar com voc, Gwendolyn. Fazer amor com voc. No me lembro 
de ter desejado algo to veementemente e j desejei muitas coisas.
Ela se sentiu escorregar para o beijo, de encontro quele homem envolvente, antes que pudesse reagir.
- Sequer tive tempo de raciocinar desde que entrou em minha vida.
- Pois no o faa - retrucou Branson com ferocidade e impacincia. - Relaxe e venha comigo. - Os lbios quentes e sensuais arrebataram os dela, de forma possessiva 
e exigente, no deixando margem a protestos. A excitao a engolfou  medida que ele a puxava de encontro ao corpo. - Pelo amor de Deus, Gwendolyn, deixe-me toc-la.
- Eu quero... - As mos delicadas seguravam o rosto msculo. Os dedos enfiados nos cabelos louro-escuros. -Voc. No estou bancando a recatada nem fazendo tipo. 
- Ela se afastou o suficiente para fit-lo nos olhos. Era vital ser honesta e lgica. - Nunca desejei algum a ponto de deixar que me tocasse.
Levou algum tempo para que Branson separasse a mente do turbilho de sensaes que lhe agitava o corpo. Um momento para esfriar a cabea e discernir o que acabei 
ouvir.
Intocada. Inocente. Era uma princesa de conto de fadas afinal.
Num gesto instintivo, abrandou a fora com que a segurava.
- No sabe o quanto isso significa para mim. No quero machuc-la.
- No estou com medo disso. - Gwen deu um passo atrs deslizando as mos pelos cabelos. - Sou uma mdica, - Os olhos cor de lavanda se estreitaram quando ele deu 
um sorriso maroto. - Est rindo de qu?
- Alguns ngulos da questo tm a ver com anatomia dra. Dish, mas nada a ver com medicina.
- Doutora o qu?
- Voc me ouviu. - Deus! Como sentia prazer em choc-la. - E, acredite, no pensar como uma mdica quando estivermos fazendo amor.
- Ainda no disse que o faria - disparou Gwen. O sorriso presunoso e o ego extremamente masculino a irritavam o suficiente para faz-la recobrar o equilbrio. - 
E se continuar achando minha inexperincia nesse campo to divertida...
- No acho engraado e sim ertico. Extremamente sensual. O que me faz querer trocar o jantar por uma ceia bem mais tarde. Quero passar um bom tempo lhe fornecendo... 
- Branson esticou a mo, fechou-a sobre a corrente com a qual acabara de presentear Gwen e puxou-a para si. - A experincia necessria nessa rea.
- No me decidi ainda - comeou ela, sentindo-se aliviada quando o bip em sua cintura soou. - Com licena - disse, dando um passo atrs e pegando o bip para ler 
o cdigo Girando nos calcanhares, disparou pela porta  procura do chefe dos residentes de planto.
- Que bom, Blade, vejo que ainda no saiu! Temos uma emergncia. Um menino de doze anos baleado no peito e abdome. Hora prevista para a chegada: dois minutos.
Branson a observou se transformar ante seus olhos. De uma excitada e irritada mulher em uma fria e determinada profissional. Ela se movia com rapidez em direo 
s pesadas portas duplas, enquanto o som da sirene ecoou no silncio.
Os paramdicos adentraram com o menino em uma maca, com Gwen correndo ao lado deles, ouvindo as informaes gritadas sobre os sinais vitais e tratamento que lhe 
fora dispensado. Vestiu as luvas e o jaleco enquanto uma enfermeira colocava-lhe os culos de proteo. Em segundos as mos delicadas encontravam-se cobertas de 
sangue.
O garoto trajava uma jaqueta com o logotipo dos Bruins e tnis pretos, notou Branson. Um casal irrompeu na sala, por trs da maa, ambos chorando, gritando splicas 
e fazendo perguntas.
- No podem ficar aqui - disparou Gwen, enquanto entubava a criana. - Temos de ajud-lo agora, Wallace ordenou, referindo-se a um assistente. - D-me seis unidades 
de sangue O negativo. Ele precisa de transfuso sangnea urgente.
- Ele ficar bem, no ? - A mulher lutava para se desvencilhar do assistente que a encaminhava para a porta. - Ele estava voltando da visita de um amigo, estava 
a caminho de casa. Meu beb. Scotty...
O odor de pesar e terror impregnava o ar, sobrepujando e do sangue.
- Scotty est em boas mos agora - acalmava-a Wallace, guiando os pais para fora da sala de emergncia. - A dra. Blade  a melhor que temos. Deixem-na fazer seu 
trabalho. As mos delicadas se movimentavam com rapidez, enquanto a mente se mantinha centrada. Um jato de sangue saltou a atingindo nos seios.
- Temos um foco hemorrgico. Pina. - Presso sangnea caindo. Estou perdendo o pulso. Gwen ordenou drogas intravenosas, testes, tipo e cruza-mento sangneo da 
vtima. As palavras proferidas com preciso cruzavam o ar, enquanto as mos geis aplicava os primeiros socorros. Mas, em seu ntimo,  luz da lgica sabia que seria 
intil.
- Irrigue isso, no consigo enxergar que diabos... Achei o foco hemorrgico. Algum v buscar as radiografias. Quero saber quantas balas h dentro dele. Vamos, Scotty, 
fique comigo.
Gwen lutou o quanto pde pela vida do menino. Gotas de suor escorriam-lhe pela nuca. Os olhos determinados brilhavam como os de um guerreiro. Sabia que, algumas 
vezes, a morte podia ser derrotada, ou ao menos burlada.
Tanto estrago em um corpo to pequeno! Mas no permitiria pensar naquilo. Tinha de se manter focada em cada etapa, necessidade e resposta.
O tempo passava apressado  medida que a equipe paramentada entrava e sada da sala.
Quando o menino teve a primeira parada cardaca, ela no alterou o ritmo.
- Vamos desfibrilar, agora! - Agarrou o desfibrilador peditrico e esperou pelo som, aplicando-o ao peito do garoto. O corpo estremeceu, mas o corao no respondeu 
- Outra vez. Vamos, droga, vamos! - Com o segundo choque o monitor registrou a freqncia cardaca.
- Ritmo sinoatrial lento.
- Aplique uma dose de epinefrina. - Era apenas ela e o paciente na mente de Gwen, desafiando o inevitvel. - Agente um pouco mais. A sala de cirurgia j est prepara 
da para ele?
- De sobreaviso.
- Presso sangnea caindo. Sem pulso. 
Gwen praguejou e se adiantou, inclinando-se sobre o paciente.
- Rpido, coloquem o reanimador! - ordenou, enquanto iniciava a ressuscitao cardiopulmonar. - Ns o estamos perdendo.
Os cabelos do menino eram negros e cacheados. A face se assemelhava a de um anjo adormecido. Gwen forou-se a no notar, no pensar, apenas agir.
- Preciso de mais duas unidades de sangue. Vamos, movam-se, vamos lev-lo l para cima.
Eles empurraram a maa atravs da porta com Gwen ainda encarapitada nela, trabalhando no peito do menino. Mesmo quando os pais se aproximaram, tentando alcanar 
a maca, ela no desviou os olhos do paciente.
A ltima viso de Branson foi a firme determinao nos olhos de Gwen antes de as portas do elevador se fecharem.
E, quando voltaram a abrir, duas horas mais tarde, avistou os olhos daquela mulher extraordinria de novo. Traziam a morte do menino estampada neles.
- Gwendolyn...
Ela apenas meneou a cabea em negativa. Passou por ele em direo  mesa do saguo. De maneira deliberada, pegou o pronturio, completou as anotaes e deixou o 
planto. Sem dizer nada, entrou na sala de descanso e dirigiu-se a sou armrio.
- Sinto muito - disse Branson atrs dela.
- Isso acontece. J estava morto quando o trouxeram. Quando a bala transpassou-lhe o corao. - Retirou o jaleco e retirou do armrio um blazer de l. - No devia 
ter esperado. Estou muito cansada para socializar esta noite. Vou para casa.
- Eu a levo.
- Estou com meu carro - retrucou, pegando a capa e a bolsa.
- No a deixarei sozinha quando sei que est transtornada.
- No estou transtornada. No  o primeiro paciente que perco e no ser o ltimo. - Vestiu a capa e retirou do bolso um par de luvas. - Fizemos tudo o que estava 
a nosso alcance. - Os dedos delicados estavam tensos ao abrir a porta.
Branson esperou at que sassem do hospital.
- Vou lev-la para casa.
- Deixe-me sozinha. - Retirou a mo de Branson de ser brao. A presso que sentia no peito era quase insuportvel - Sou perfeitamente capaz de dirigir. No o quero, 
tampouco preciso de voc. Eu no... - Assustada com a prpria reao, pressionou os dedos contra os olhos. - Desculpe-me. No, por favor. - Meneou a cabea em negativa 
antes que ele a tocasse. - Preciso caminhar.
Branson enfiou as mos nos bolsos.
- Ento, caminhemos.




Dezesseis

A brisa era fresca. A neve, um redemoinho de flocos brancos, em silncio, caminharam em direo ao rio com o rudo constante do trfego a acompanh-los. As luzes 
das ruas brilhavam assim como os adornos natalinos. Em uma das esquinas, um Papai Noel de rua brandia seu sino emitindo um som montono  medida que os pedestres 
passavam.
Natal, pensou Gwen, era um tempo em que as crianas sorriam para a famlia, para os mistrios e alegrias da data. Mas para o destino, se algum acreditava nele, 
um dia ou uma estao era exatamente igual a outro.
- No podemos guardar isso dentro de ns - manifestou-se Gwen afinal. Sentia as mos frias e tensas. Porm, optou por enfi-las nos bolsos da capa em vez de vestir 
as luvas.
- Se o fizermos, perdemos o ponto de referncia, e comeamos a duvidar de ns mesmos, nossos instintos e habilidades. E, da prxima vez, com o prximo paciente, 
no conseguiramos permanecer focados. No podemos deixar que nos afete tanto. Sei disso.
- Mas, se no deixar que isso a aflija sequer um pouco, perder sua humanidade, aquilo que a far se importar o suficiente para lutar da prxima vez, com o prximo 
paciente.
-  uma linha tnue entre um limite e outro - murmurou Gwen. - No importa o quanto queira se manter nela. Em algum momento, pender para um lado ou para o outro. 
- Estacou, observando a gua.
Amava aquele lugar, aquela cidade, com o trfego intenso, as encantadoras e antigas construes e o gracioso curso das guas. Gostava da histria e da dignidade 
da metrpole. Mas, naquele momento, no conseguia encontrar consolo nela. Ela fazia parte de um mundo que podia ser muito frio e cruel com os indefesos.
- No queria perd-lo. Em meu ntimo, sabia que iria, no minuto em que constatei o estrago. Mas algumas vezes voc consegue um milagre. E outras no.
Fechou os olhos, agradecida por Branson permanecer em silncio. Pelo fato de ele entender que precisava apenas desabafar. 
- Posso agentar isso. Fui treinada para faz-lo. As horas estressantes de trabalho, a presso, a burocracia, a papelada, os pacientes rudes, os viciados e os pervertidos. 
Posso suportar as vidas desperdiadas. No nosso cotidiano vemos tantas que quase no as notamos. E ento, de repente... - A voz lhe falhou, enquanto esfregava os 
olhos. - Ele tinha apenas doze anos.
E ento Branson se manifestou, dizendo a nica coisa cabvel.
- Fez tudo o que pde por aquele garoto.
- No parece importante quando no  suficiente.
- Sabe que  - retrucou ele, girando-a para que o encarasse. No podia pensar em nada que no fosse aquela mulher quando percebeu uma lgrima rolar dos olhos cor 
de lavanda. - Quantas vidas salvou hoje, ou esta semana, ou ainda este ano?
- Sinto, quando vejo uma pessoa com dor ou em perigo de morte, que posso salv-la na maioria das vezes... ou ao menos ajud-la a melhorar.
- E voc o faz - afirmou Branson em tom suave. - A qualquer preo,  exatamente o que faz.
-  o que preciso fazer. E sei que algumas vezes, no importa o que faamos, ou o quanto a equipe se empenhe, perdemos. Isso  o lgico, o real, mas ainda assim 
uma parte de mim no aceita essa realidade. Tudo em que consigo pensar  que, nesta manh, aquele menino acordou, tomou o desjejum. Talvez tenha corrido para pegar 
o nibus da escola e devaneado na sala de aula. E, em seguida, porque estava na rua errada, no momento errado, teve a vida ceifada. Tudo o que aquela criana iria 
fazer ficar incompleto.
Gwen girou nos calcanhares e voltou a andar. 
- Ele era meu paciente, tive de dar a notcia. Temos de aceitar o momento em que no h mais nada a fazer. Olhamos para o relgio e anotamos a hora. E ento est 
tudo acabado. Tive de chamar os pais e comunicar-lhes o falecimento.
- Gwendolyn, o que voc faz requer coragem.  milagrosa! - declarou Branson, tomando-lhe as mos nas suas e esfregando-as para aquec-las. - O que sente  bravio 
e miraculoso. - Levou as mos delicadas aos lbios. - E tira meu flego.
Com um suspiro profundo, Gwen deixou-se ser abraada e pousou a cabea no peito firme.
- Desculpe-me pelo modo como o tratei no hospital.
- Psiu! - fez Branson, roando os lbios nos cabelos macios.
Ali, pensou Gwen, havia consolo. Um homem em quem se apoiar. Necessitando daquele conforto, ergueu a cabea e encontrou os lbios quentes e macios. O calor que ele 
lhe proporcionava abrandava a dor, e aparava as speras arestas do sofrimento.
- Branson. - Tentou sorrir, enquanto ele lhe enxugava as lgrimas com os polegares. - Se me quiser, estou pronta para ir com voc.
Ele sentiu os msculos do estmago se contrarem. A mo que mantinha no queixo delicado no se encontrava parada, e, com esforo, escorregou-a at alcanar-lhe o 
ombro.
- Claro que a quero. Mas no posso pedir que fique comigo agora.
- Mas... - Gwen fechou os olhos quando ele pressionou os lbios contra sua testa.
- Voc me inspira a seguir certas regras. Est trmula e vulnervel. Seria fcil convencer-me de que a estaria confortando, desviando sua mente dos problemas.
- E seria verdade?
- Mas estaria tambm tirando vantagem do momento. No faria isso com voc. - No se sentia capaz de agir daquela maneira com ela, refletiu, pois queria mais do que 
um simples momento com Gwen.
- No consigo entend-lo. Pensei que iria preferir levar vantagem.
- No dessa forma. Nossa primeira vez juntos no acontecer porque est infeliz, ou sentindo-se agradecida pelo fato de eu a ter escutado. Quando a tocar, se me 
permitir ter a ver com um momento s nosso. 
- Est sendo cuidadoso porque eu nunca estive com outro homem antes...
- Estou sendo cauteloso por se tratar de voc.  importante para mim, Gwendolyn. - Roou os lbios nos dela outra vez. - Muito.  por isso que me certificarei de 
que jantar, depois a levarei para casa e, se necessrio, irei coloc-la na cama para ter certeza de que dormir.
Gwen exibiu um sorriso genuno.
- No preciso de bab, Branson.
- Eu sei.  isso que faz o fato de cuidar de voc to atraente. Esta noite no ter escolha. Est gelada - acrescentou ele, deslizando o brao por sobre os ombros 
delgados e a guiando de volta ao hospital.
- Aprecio sua preocupao, mas estou bem agora. Alm disso, meu carro...
- Precisa comer.
- No estou com fome.
- Mas ir se alimentar - afirmou Branson em tom calmo, avistando o pequeno restaurante que ficava localizado no quarteiro do hospital. - Aqui mesmo temos o que 
precisamos. Comida americana simples e substancial.
- O servio  deficiente e a qualidade da comida duvidosa.
- timo. Isso adicionar uma pitada de aventura  nossa refeio. - Gwen notou que os cabelos louros tinham um brilho dourado em contraste com a noite, enquanto 
ele a guiava atravs da porta. - Dra. Blade, acho que estamos prestes a ter nosso primeiro encontro.
Gwen ergueu o olhar para fit-lo, enquanto ele segurava a pesada porta de vidro para que passasse. O calor do local e os aromas impregnados no ar a atingiram de 
pronto. Bales natalinos espalhafatosos pendiam do teto e o ambiente a agradou.
- Sim, por que no?
O burburinho de vozes no bar quase a impedia de ouvir o que Branson dizia ao maitre, mas percebeu uma nota deslizar das mos do escritor para as do empregado. E 
dentro de instantes estavam sentados no salo de jantar.
- Este no  o tipo do lugar em que se deva subornar o maitre - afirmou Gwen, enquanto deslizava a cadeira de couro envelhecido para trs.
- Funcionou, no? - As covinhas se pronunciaram com o sorriso. - Voc estava precisando sentar. E o mais distante possvel do barulho.
-  um popular bar de solteiros - informou ela, recostando a cabea ao espaldar da cadeira. - Muitos dos funcionrios do hospital vm aqui para paquerar ou procurar 
um pouco de ao. - Gwen riu quando ele arqueou as sobrancelhas. - Eu no. No costumo vir aqui, pois no tenho tempo nem energia para isso.
- No iria ferir meus sentimentos caso se dispusesse a isso esta noite. - Tomou-lhe a mo nas suas com firmeza e ergueu o olhar para a garonete que se aproximava. 
- Pediremos a bebida e a comida agora - informou Branson, ordenando o vinho de sua preferncia e os pratos, enquanto a funcionria anotava apressada. - Um fil ao 
ponto - repetiu ele. - E traga por favor uma garrafa de gua mineral para a mesa. Desculpe, como se chama mesmo?
- Crystal - murmurou a garonete, com a testa franzida enquanto anotava o pedido.
- Crystal, gostaramos que se trouxesse uma cesta de pezinhos quando trouxer as bebidas. A dama teve um dia difcil e est cansada. Deve saber como  enfrentar 
esses dias.
O sorriso que Branson lhe voltou aliviou as rugas da lesta da garonete, suavizando-lhe a expresso.
- Sem dvida. Pode deixar comigo.
Gwen esperou at que a garonete se afastasse, e deixou escapar um longo suspiro.
- Branson, voc fez o pedido sem me consultar?
- No farei disso um hbito - garantiu ele, com suavidade. - Seu crebro est cansado para tomar decises hoje. Precisa relaxar, comer um bom fil e de tempo para 
repor as energias. Estou apenas providenciando isso. E, para provar que no sou um ditador, na prxima vez que jantarmos juntos ser voc a fazer o pedido.
- E mesmo? - Gwen exibiu um sorriso meigo. - O que-acha de pncreas de vitela?
Branson fez uma careta.
- Podia passar a vida toda sem comer vsceras.
- Lembre-se disso da prxima vez que decidir o cardpio por mim.
- Est bem. Quando vai ser sua prxima folga?
- Terei meio sbado livre e todo o domingo.
- Sair comigo sbado  noite? Pode escolher a hora e oi lugar.
Gwen arqueou as sobrancelhas.
- As bodas de Fgaro est em cartaz no Conservatrio. O que acha de pera?
- Adoro. 
- Verdade?
-  gratificante surpreend-la de vez em quando. - Branson sorriu para a garonete. - Obrigado, Crystal. - Pego; um po da cesta, partiu-o em dois e passou manteiga. 
Em seguida, entregou uma das metades a Gwen. - Aprecio Mozart em particular. Irei busc-la s 19 horas. Jantaremos mais tarde, se lhe agradar.
- Suponho que sim.
- timo. E dessa vez ficar comigo. Faremos amor, dormir comigo e tomaremos o desjejum no fim da manh de domingo, se lhe aprouver.
Gwen engoliu o po com dificuldade, ajudando com um gole da gua mineral que Branson lhe servira.
- Sim - conseguiu falar por fim. - Suponho que sim.
- Deixe-me ver - ordenou Julia no momento em que Gwen ps os ps dentro de casa. - Oh, gostaria de ter ido fazer compras com voc. Laura! Nossa prima voltou cheia 
de bolsas.
- Laura est aqui?
- Atacando a geladeira, claro. - Julia pegou uma das bolsas e correu em direo  sala de visitas. - Alega que Royce arrastou-a para um shopping para comprar enxoval 
para o beb e est exausta.
- O que eles compraram?
- Nada ainda. Apenas visitaram as lojas. Adoraria ver Royce babando sobre os beros.
- Ficamos em dvida entre trs - informou Laura, entrando na sala com uma tigela de espaguete nas mos. - Mas estamos discordando quanto aos carrinhos.
Gwen deixou-se afundar em uma cadeira em frente  ampla e decorada rvore de Natal, encolhendo as pernas.
- No me parece nem um pouco exausta - afirmou em tom acusatrio. Ao contrrio, pensou, a prima parecia mais disposta e saudvel do que nunca. Os olhos negros brilhavam 
e a pele dourada reluzia.
- No estou, mas Royce estava aventando a possibilidade de procurarmos eletrodomsticos e, alegando cansao, escapei.
- Bem, eu estou de fato exausta - afirmou Gwen, esfregando o peito de um dos ps. Inspirando profundamente, sentiu o aroma de pinho, canela e de toros de macieira 
queimados. A fragrncia de sua casa. - Foi demais correr quase todo o shopping  procura de um vestido novo. No precisava de um.
- Como lhe disse, precisava sim - insistiu Julia, vasculhando a sacola que trazia nas mos. - Um encontro especial requer um vestido especial.
- No est nessa sacola.
- Oh? - Julia estalou a lngua quando afastou o papel fino e tirou de l uma cinta liga de renda rosa. - Depende do ponto de vista.
- Minhas meias-calas vivem escorregando - explicou Gwen. - Achei que seria mais prtico se... - E, ento, irrompeu em uma gargalhada. - Est bem. Minha inteno 
foi deix-lo nocauteado.
- Acredite, quando ele tiver uma viso de voc nisso, j estar nocauteado. - Em seguida, Julia tirou da saca o suti que compunha o conjunto. Um minsculo boto 
de rosa formava o fecho frontal. - Oh, querida, voc vai destru-lo.
Laura pousou a tigela de macarro e pousou um brao sobre o espaldar da cadeira de Gwen.
-  o homem de sua vida?
- Espero que sim.
- E difcil resistir a um homem que lhe presenteia com sete cisnes de cristal.
- Ele estar aqui em algumas horas - comeou Julia. - Por que no fica e d uma boa olhada nele?
- Gostaria, mas tenho um encontro quente e eletrizante com meu marido. Vamos, Gwen, mostre-nos o vestido.
- Est bem, mas lembrem-se, passei horas procurando. Portanto, sejam gentis nas crticas. - Em seguida, retirou a caixa da sacola, ergueu-a e a abriu para revelar 
o traje longo de veludo rosa.
- E lindo - murmurou Julia.
- No acha que  demais, quando combinado com as jias que estarei usando no pescoo e punhos? - indagou Gwen, indecisa.
- Acho que ficar perfeito em voc - opinou Laura, deslizando a ponta dos dedos pelo tecido macio. - Clssico e elegante.
- No  extremamente sexy. Tentei achar algo mais... menos, acho... mas sempre voltava a este.
-  muito sexy - discordou Julia. - Gola rul, mangas compridas e justas, a saia plissada envolvendo seu corpo at o tornozelo. Aguar a imaginao de Branson para 
saber o quem tem por baixo. E quando descobrir... Bem, sabe como fazer uma ressuscitao cardiorrespiratria. Portanto, ele sobreviver.
- Est nervosa? - inquiriu Laura.
- No - Gwen sorriu, dobrando o vestido com cuidado e o envolvendo no papel outra vez. -  o momento certo com o homem certo... parece muito adequado. Agora vou 
subir e me permitir um banho de espuma demorado e depois me dedicar  maquiagem e ao cabelo. - Juntou as sacolas e saiu apressada da sala.
- Esse homem  confivel? - indagou Laura quando se viu a ss com Julia.
- Estou lhe dizendo, o olhar dele pega fogo quando a v. E Branson foi o nico homem a colocar essa expresso sonhadora no rosto de nossa prima.
- Sim,  bom v-la assim sonhadora. - Sentindo-se in-dolente e feliz, Laura se espreguiou. - Onde vov o encontrou?
- Relaes familiares antigas. Mas Gwen sequer desconfia que Daniel manipulou esse encontro.
Com uma risada divertida, Laura pegou a tigela de macarro outra vez.
- Boba. Ele sempre faz isso. Sabe de uma coisa, se Gwen acabar tendo um compromisso srio com esse homem que vov arranjou para ela, o sr. MacGregor dirigir as 
baterias a voc.
- Estou  frente dele. - Julia sorriu, presunosa, e divertida pegou um Papai Noel de corda que se parecia com o verdadeiro MacGregor. Torceu-lhe o punho e o boneco 
emitiu o ho-ho-ho caracterstico. - Aquele que se prepara no  pego desprevenido, meu camarada - disse ela ao boneco.
Laura resfolegou ante a presuno da prima.
- Vai acreditando nisso.
Precisamente s 19h, Gwen desceu a escada. Sentia-se serena e relaxada. Os diamantes que os pais lhe haviam dado. quando se graduou em Medicina reluziam nas orelhas 
e lhe davam segurana. A roupa ntima que usava a fazia sentir-se feminina, misteriosa e maravilhada.
Pousou o agasalho sobre o pilar do corrimo no momento exato em que a campainha tocou.
E o estado de calma em que se encontrava sofreu um: solavanco, quando abriu a porta para encontrar Branson em um smoking, com um buqu de rosas nos braos.
- Oh, que gentil!
- Espere. - Continuou parado onde estava a observ-la.
- Est perfeita, Gwen, deixou-me sem ar.
- Ento no vou lhe dizer o quanto me empenhei para isso.
- Ela sorriu e pegou o buqu de rosas. - Quero coloc-las em um vaso antes de sairmos. No se importa de esperar?
- No. - Tomou-lhe a mo, e sem despregar os olhos dela, levou-a aos lbios. - No me importo.


Dezessete

A sala de estar da sute de hotel de Branson se encontrava repleta de botes de rosas brancas comeando a desabrochar e velas brancas suavizando o ambiente com suas 
luzes bruxuleantes e essncia. Uma pequena mesa fora colocada sob a janela, onde as cortinas estavam escancaradas, permitindo que a cidade se insinuasse por trs 
do vidro. Prataria e cristais reluziam contra o linho branco.
O corao de Gwen pareceu saltar no peito.
- Voc tem duendes aqui? - murmurou.
- Apenas os eficientes funcionrios do hotel - informou Branson, retirando-lhe o agasalho. - Telefonei logo que deixamos o teatro para que eles tivessem tempo de 
arrumar tudo.
- Teve muito trabalho para planejar isso tudo?
- No. Montar cenrios  algo que me d prazer. - Colocou o agasalho de lado e tomou-lhe a mo, levando os lbios  palma. - Fiz isso pensando em ns. Claro que 
escolhi o cardpio sem consult-la.
- Acho que posso perdo-lo desta vez.
- Pratos frios. Portanto, no teremos com que nos preocupar. Est com fome, ou prefere que tomemos o champanhe por enquanto?
- Champanhe me parece perfeito.
- Perfeio  tudo o que quero para esta noite - dizendo isso, retirou um nico boto de rosa da mesa e lhe entregou antes de erguer a garrafa de champanhe do balde 
de gelo de prata. - A primeira vez que a vi, pensei em um bal, eficientemente coreografado.
Gwen inclinou a cabea para o lado, sorrindo quando a rolha estourou.
- Bailarinos so mais vigorosos do que muitos pensam.
- Os melhores so fortes, delicados e incansveis. Voc tambm me faz lembrar de fadas e histrias de princesas. - Entregou-lhe a taa de champanhe. - Que tambm 
so mais fortes e resilientes do que se pensa. Ainda assim,  difcil no desejar resgatar e acarinhar a princesa.
- Para que me resgataria, Branson?
- Para uma noite fora da realidade. - Ele tocou a taa na dela, fazendo um brinde. - Aos contos de fada e finais felizes!
- Est bem. - Gwen sorveu um gole da bebida, permitindo que as bolhas brincassem em sua lngua. - Mas isso  a realidade, e no preciso nem quero ser resgatada dela. 
No precisa me seduzir, Branson. Estou aqui porque quero. Desejo voc.
- Seduzi-la, Gwendolyn,  o meu maior prazer. - Ele tocou o queixo delicado e tomou-lhe os lbios num beijo suave.
Gwen no se sentia nervosa. Ainda. Mas ele queria que ficasse. Ansiava por observar aqueles olhos extraordinrios se tornarem escuros de nervoso e desejo. Iria destruir-lhe 
a praticidade, camada por camada at atingir o romantismo que se ocultava em seu interior.
Era a Gwen romntica a quem queria despertar e dar prazer. E acarinhar.
Quando a encontrasse, iria lhe dar tudo o que era e possua.
- Tome. - Bran retirou um morango de uma tigela e passou-o no chocolate branco. - Prove.
Gwen entreabriu os lbios e recebeu o fruto com a cobertura, deixando que a mistura das texturas e sabores permanecessem em sua lngua.
- Maravilhoso.
- Coma mais.
Branson repetiu o gesto vrias vezes, dando-lhe beijos suaves nos lbios entre um oferecimento e outro. E percebeu o primeiro tremor perpassar o corpo feminino.
- Tudo o que tem a fazer  me dizer do que gosta. Quando quiser mais, ou desejar menos. - Ainda lhe tocando apenas a face, ele aprofundou o beijo, de modo lento 
e provocativo. - Quando estiver pronta para receber tudo.
- No sou frgil - afirmou ela. Porm, a voz soou tremida. Aquele homem a estava guiando para onde nunca estivera e os primeiros passos eram vertiginosos. - No 
precisa se preocupar.
- No frgil, talvez, mas preciosa por certo. - Tomou a taa dos dedos firmes de Gwen e pousou-a de lado. Os olhos azuis a fitavam escuros e intensos. - E minha 
esta noite.
O corao de Gwen deu um salto dentro do peito quando ele a ergueu nos braos. Talvez fosse tolo, mas a imagem que lhe plasmou na mente foi a de um cavaleiro, com 
armadura prateada brilhando sob os raios do sol, a ajudando a montar em seu cavalo. Curvou os lbios em um sorriso, enquanto os pressionava contra o pescoo largo.
- Est me dominando - murmurou Gwen.
-  o que quero e preciso. - A cama estava desfeita. As ptalas de rosas espalhadas sobre ela fizeram o corao de Gwen derreter-se. Velas queimavam, emitindo uma 
luz suave. - O tempo no existe agora - declarou Branson, colocando-a de p ao lado da cama. - Tampouco o mundo, a no ser o nosso. Ningum alm de ns dois. Apenas 
voc, Gwendolyn, e eu.
Gwen acreditava naquele homem. O universo que criara para ela era a nica realidade de que precisava e desejava naquela noite. Ergueu os braos, deslizando-os em 
torno do pescoo largo e deixando-se engolfar por aquela sensao. Por ele.
A boca macia e sensual era impaciente, persuasiva e possessiva em um momento e provocadora em outro. Gwen oscilou, tonta pelo assalto impetuoso e o aroma das velas 
e rosas.
Toque-me, pensou ela.
Como se lhe lesse os pensamentos, as mos msculas deslizaram pelos contornos do corpo feminino, escorregando pelo veludo e traando as curvas sinuosas.
Mais, pediu Gwen mentalmente. Muito mais.
A boca firme e experiente desceu pelo pescoo delicado, aninhando-se com suavidade no ponto onde o colar o circundava. E de maneira vagarosa, centmetro por centmetro. 
Branson desceu o zper do vestido, expondo a primeira amostra de pele.
Seda sob o veludo, pensou ele. E j aquecida. No lhe custava nenhum esforo demorar-se naquela tarefa. O desejo que sentia por aquela mulher era proporcional  
necessidade. de satisfaz-la. Girou-a at que a boca pudesse saborear a linha graciosa do dorso do pescoo sedutor e o declive dos ombros delicados. Quando o brao 
esguio se ergueu, envolvendo-o, Branson sentiu o sangue pulsar apressado nas veias. Porm, os lbios permaneceram pacientes e as mos, gentis,
Gwen estremeceu, arqueando o corpo para frente, quando as mos masculinas lhe envolveram os seios. O polegar firme lhes traando os contornos generosos. Os gemidos 
de ambos se mesclaram ao mesmo tempo em que Branson deslizava o vestido pelos ombros delgados e o deixava cair at repousar sobre os ps de Gwen.
- Oh, Deus! - Ele no espera descobrir to inebriante fantasia por baixo da veste elegante. Havia se preparado para o corpo magnfico que tanto desejava, para o 
impacto do desejo. Mas a seda rosa rendada com lao frontal fez os dedos firmes tensionarem quando a girou para que o encarasse outra vez.
O repentino mpeto de luxria brilhando nos olhos escurecidos de desejo fez o corao de Gwen dar um giro de 360 graus no peito. Observou o olhar predador viajar 
por seu corpo, o que parecia lhe atear fogo  pele e lhe fazer a cabea girar.
- Quis... surpreend-lo - conseguiu balbuciar para, em seguida, dar um passo instintivo atrs quando os olhos intensos pousaram nos dela. Havia algo de selvagem 
neles. 
Ela era um misto de branco e rosa, como algo deliciosamente proibido por detrs de uma fina camada de vidro.
Branson ansiava por destruir aquela barreira e arrebatar, saquear e devorar o que havia do outro lado. Recorrendo a toda a fora de vontade que possua, ele sufocou 
a onda avassaladora de desejo primitivo e deslizou apenas as pontas dos dedos sobre a protuberncia logo acima da renda tosa.
- Voc me deixa zonza. - Como aquele homem podia loc-la de maneira to gentil e fit-la com fria selvagem? As mos delicadas tremiam enquanto tentavam afrouxar 
o n da gravata e, desajeitadas, tentavam desatar as abotoaduras. - Quero v-lo.
Branson podia perceber o nervosismo expresso em pequenos reflexos de medo nos olhos cor de lavanda. Perceb-lo, bem como o tremor das mos delicadas, o fez sucumbir 
de vez  paixo.
- Olhe para mim - murmurou ele, quando Gwen retirou-lhe a camisa. - Quero ver seus olhos enquanto a toco. Perceber o que est sentindo quando minhas mos esto em 
voc. Assim. - Deslizou-as sobre a pele exposta por baixo das meias difanas. Os olhos de Gwen se dilataram e o ar ficou preso em sua garganta quando ele desabotoou 
o fecho frontal de seu suti.
- Est trmula. Eu a desejo tanto - murmurou Branson, enquanto libertava o outro fecho. - E acima de tudo, quero que se entregue.
Branson a deitou na cama, cobrindo o corpo feminino de curvas perfeitas com o dele. Os lbios quentes e macios comprimiram os de Gwen, fazendo com que se erguesse 
dentro dela uma onda de desejos perigosos e urgentes. Em seguida, o beijo impetuoso se abrandou, deixando-a tonta. Se os primeiros passos no mundo que Branson criara 
para ela foram vertiginosos, aquilo era puro entorpecimento.
A boca experiente traou um caminho de fogo, descendo aO longo do corpo feminino arquejante, enquanto as mos firmes subiam, acariciando a pele que a lngua deixara 
mida. Labaredas de fogo pareciam consumi-la. O prazer sobrepondo-se  dor, quando Branson se apossou dos seios firmes, desvencilhando-a do suti.
E ento as labaredas se transformaram em fogo brando.
Nunca ningum a havia tocado daquela forma. Tampouco lhe incitado sensaes to conflitantes e subjugadoras. As ptalas de rosas se aderiam  pele de Gwen. Beijos 
doces e romnticos a inebriavam. A luz das velas tremulava contrai suas plpebras, suave e idlica. Branson lhe murmurava palavras doces e promessas romnticas com 
a voz rouca do desejo. Mas, ainda assim, as mos gentis conseguiam elevar sua pulsao a um nvel quase insuportvel e o suave roar dos lbios clidos contra os 
dela lhe roubava o ar.
Branson queria lhe dar tudo o que possua. E tomar o que ela tivesse a lhe oferecer. Rolou as meias finas ao longo das pernas esguias, extasiando-se quando a respirao 
de Gwen se tornou pesada e os movimentos impacientes.
Quando ela o tocou, com as mos elegantes e competentes, os dedos delicados flexionando-se contra a pele em brasa, Branson teve de beij-la outra vez ou corria o 
risco de fenecer de desejo.
Gwen gemeu ao contato com o corpo msculo. Era aquilo que desejava. A intimidade dos corpos colados e as mentes em sintonia. Abandonando o nervosismo inicial, sorriu 
contraindo os lbios macios, tomando o rosto masculino nas mos. 
O prazer era inebriante e suave e Gwen deixou-se agasalhar por ele.
Branson a percebeu flutuar. Os gemidos lnguidos que emitia eram mais uma fonte de excitao para ele. Com movimentos deliberadamente lentos, a guiou s alturas, 
at que, os gemidos se transformassem em arquejos e os olhos cor de lavanda se dilatassem em xtase. Sob o dele, o corpo feminino se contorcia guiado pelo instinto 
e ansiando por mais.
Uma sensao levando  outra. Gwen sacudiu a cabea; vigorosamente como a negar o que lhe ia no ntimo. Os olhos predadores mantinham-se fixados em sua face. Intensos 
e concentrados em cada centelha de emoo que a perpassava. E as mos... oh, aquelas mos eram impiedosas!
Um calor intenso a engolfou como uma bola de fogo. A respirao presa na garganta. O prazer de repente se tornara afiado, feroz e infinitamente excitante. Ouviu 
o som do prprio gemido, crescendo dentro dela e tornando mais espesso o ar pesado.
Foi catapultada a um cume e arremessada de volta ao solo.
- Branson...
- Outra vez. - Ele no queria que Gwen recobrasse o flego, tampouco clareasse a mente. Observando-a, inebriado por aquela mulher, impeliu-a de encontro  prxima 
onda. E, quando percebeu que ela estava pronta, que haveria mais prazer do que dor, possuiu-a.
Ele se encontrava dentro dela, preenchendo-a. Mover-se com ele parecia to natural quanto respirar. Gwen entregou-se sem reservas. Rendeu-se ao xtase. Quando a 
boca quente e macia arrebatou a sua outra vez, correspondeu com avidez. Quando as mos msculas fecharam-se sobre as dela, apertou-as com fora para selar a unio.
Lentamente, com suavidade, prolongando ao mximo, saboreando ambos se encontravam acasalados e unidos. Nos olhos de Branson, via refletido o prprio xtase e seu 
corao encheu-se de satisfao no momento em que ambos atingiram o prazer juntos.
Branson pressionou os lbios contra o pescoo delicado e concluiu que nunca havia feito amor antes. Descobrira-se to inocente quanto ela, pois at ento desconhecia 
o que era estar apaixonado pela parceira.
Aquilo era tudo.
- Gwendolyn. Linda, poderosa e ultrajantemente sexy Gwendolyn.
Ela sentiu a felicidade borbulhar dentro de si.
- Branson - retrucou no mesmo tom sonolento. - Lindo, poderoso e ultrajantemente sexy Branson.
Ele ergueu a cabea. Os olhos cor de lavanda se encontravam pesados e escuros, a pele alva e macia brilhava e os lbios sensuais discretamente curvados.
- Vou ter muito trabalho para convenc-la a levantar dessa cama.
- Iremos a algum lugar?
- No muito longe. - Branson traou com a ponta dos dedos o contorno da face delicada. - H uma jacuzzi no cmodo ao lado.
-  mesmo?
- Estava pensando em lev-la at l. O que acha de um banho quente de espuma, uma taa de champanhe gelado e um homem que est pronto para fazer amor com voc outra 
vez?
- Excelente, mas espere! - Tomou a face masculina nas mos, e uniu os lbios aos dele. O beijo era clido e profundo. - Sempre imaginei como seria a primeira vez. 
Como me sentiria depois de me entregar a um homem. Mas nada do que esperei, ou qualquer expectativa tola que constru era to maravilhosa quanto a realidade.
Arrebatado pela emoo, Branson enrugou a testa.
- No sei o que dizer agora.
- Diga-me que a noite no acabou.
- Devo preveni-la de que est apenas comeando. - Diria a ela, quando chegasse a hora, que desejava uma eternidade de noites com ela. Mas se o fizesse naquele momento, 
pensou, a Gwen romntica se esforaria em acreditar, mas a prtica, duvidaria.
Quando revelasse que a amava, no queria deixar margem para dvidas.
Se confessasse enquanto ela se encontrava ainda complacente e relaxada pelo ato de amor, a Gwen romntica talvez lhe desse a resposta que desejava ouvir. Mas, em 
seguida, a mulher prtica retrocederia, analisaria e decidiria que fora arrebatada pelo af do momento.
Quando Gwen declarasse que o amava, no queria ter dvidas.
- No que est pensando? - inquiriu ela.
Branson esforou-se a voltar para aquele momento e sorriu.
- Em que teria de fazer para persuadi-la a colocar essa... surpresa que estava usando.
- Agora?
- No. - Ele roou um dedo sobre os lbios macios. - Depois do banho. Podia vestir apenas isso enquanto comemos os pratos frios.
Gwen riu suavemente.
- Quer que eu use uma cinta liga enquanto janto? Branson se inclinou para lhe mordiscar o lbio.
- Oh, sim.
Ela considerou por instantes, recordando o modo como Branson a fitara quando descobriu o que trajava por baixo do vestido.
- Bem, vou lhe dar a chance de me convencer a usar a lingerie, durante o banho.
- Devo avis-la de que sou bom em esportes na gua. Gwen soltou uma gargalhada.
- Estou contando com isso.


Dezoito

Gwen acordou sentindo-se sensual, como se deslizando sobre camadas de seda reluzente. O suspiro que deixou escapar era baixo e indulgente  medida que se revirava 
na cama e, em seguida, amuado quando se descobriu sozinha.
Queria que ele estivesse ali, a seu lado, para que pudesse tocar seu corpo firme e quente e fazer amor outra vez, se  que podiam sobreviver a mais uma sesso de 
sexo ardente e delirante.
Ainda no havia aberto os olhos. Era to inebriante apenas flutuar e sonhar! Sentir seu organismo voltar  vida outra vez!
No tinha noo do quanto o corpo podia ser to miraculoso. Nenhum dos estudos, treino ou prtica da medicina haviam lhe ensinado as reaes maravilhosas que o organismo 
humano possua aos estmulos sensoriais. Nada a preparara para o que era capaz... ser provido dos apropriados... incentivos.
Esfregou a mo pela superfcie dos lenis, encontrando-os frios e imaginou h quanto tempo Branson teria se levantado. E quando retornaria.
Ele lhe havia prometido trazer o caf-da-manh na cama, lembrou. E pretendia cobrar tal promessa. Relutante, descerrou as plpebras e piscou vrias vezes para focar 
o relgio. Bem, talvez fosse um tanto tarde para o desjejum, pensou. Mas era a hora perfeita para um caf-da-manh reforado.
Erguendo-se, encontrou um robe do hotel, de tecido atoalhado macio, pendurado na porta do toalete. Vestiu-o e partiu em busca de Branson.
Encontrou-o trabalhando em frente ao laptop postado sobre a mesa da sala de estar. A testa enrugada pela concentrao. Os olhos pareciam um tanto irritados. Estranho, 
pensou Gwen. Sempre o imaginara escrevendo sem um mnimo de esforo. As palavras simplesmente fluindo-lhe  mente. Tudo o que aquele homem fazia parecia to natural. 
Mas, naquele momento, tinha a aparncia de uma pessoa que lutava contra algo e no estava satisfeito com os resultados.
Passou as mos pelos cabelos para arrum-los, sentindo os primeiros tremores de excitamento perpassar-lhe o corpo, lira excitante, refletiu, observ-lo trabalhar 
e pensar sem saber que estava sendo apreciado. Parte daquele sentimento se devia ao fato de ele estar usando apenas uma cala de moletom preta. E para sua surpresa, 
flagrou-se imaginando como seria fcil se ver livre dela.
De repente, Branson ergueu a cabea. E a fitou com olhar penetrante. Em seguida os olhos cinza clarearam e aqueceram enquanto ele exibia um sorriso luminoso.
- Bom dia. No quis acord-la.
- Estou atrapalhando seu trabalho.
- No est como eu queria mesmo. Esteve, por um tempo. Quando Branson lhe estendeu a mo, ela atravessou a sala, entrelaando os dedos nos dele. - Acordei cedo - 
informou o escritor, beijando-lhe os dedos um por um. - Achei que seria melhor que descansasse mais um pouco.
- Acho que nunca me senti to relaxada em minha vida. - Gwen soltou uma risada quando ele a puxou, fazendo-a deitar-se em seu colo. - Ou mais descansada - acrescentou, 
inclinando os lbios para beij-lo.
- No a deixei dormir muito.
- E eu adorei.
Branson encontrou o ponto suave logo abaixo da curva tio pescoo delicado e o mordiscou.
- Podemos voltar para a cama e pedir o caf-da-manh.
- Hummrn...  o suficiente para o momento. - Ela estremeceu quando as mos msculas deslizaram por dentro do robe e encontraram a pele macia. - E isso  ainda melhor.

Era quase meio-dia quando Gwen pde raciocinar outra vez. Estavam esparramados no cho da sala de estar e sua cabea encontrava-se apoiada no peito musculoso. Branson 
sorriu quando ela lhe tomou o pulso. 
- Medindo minha pulsao, doutora? Rindo de si mesma, Gwen retirou a mo.
- Acho que sim. Ainda est acelerada.
Branson pressionou os dedos contra a pulsao do pescoo macio.
- E a sua tambm. - Ele se sentou, levando-a consigo.
- Se no se alimentar, no seremos capazes sequer de nos aninharmos na cama.
- Gosto do cho. - Gwen pegou o robe que atirara para o lado, estudando-o enquanto ele se erguia. - Como mdica, devo admitir que est em excelente forma. Como mulher 
- continuou, enquanto Branson a puxava para cima. - Sou obrigada a dizer que tem um belo bumbum.
- Obrigado pelos dois pontos de vista.
- Eu o estava observando enquanto trabalhava pela manh quando acordei e notei que estava com expresso sria e preocupada. 
- Algumas partes da histria no passam de amolao. 
- Quais partes? - Virou-se, tentando visualizar a tela do computador que Branson deixara ligado, quando ela lhe; desviara a ateno. - Posso l-las?
- No. - Com um gesto brusco, o escritor se inclinou acionando alguns botes, desligou o computador.
- Foi bem claro - afirmou Gwen, franzindo a testa. - E rude.
- Sim. Gostaria que eu me esgueirasse por sobre se ombro, emitindo opinies quando remover a prxima vescula biliar?
Ela se encontrava muito prxima de discutir, o que a fazia corar.
- Quem disse que eu iria dar opinies?
- Claro que iria. No conseguiria resistir. O problema querida,  que, enquanto poucos se acham capazes de executar uma cirurgia cerebral, muitos se julgam aptos 
a escrever. Apenas uma questo de tempo e oportunidade. - Deu um beijo suave nos lbios macios. - Ningum l meus livros antes de estarem escritos, com exceo de 
meu editor. Consigo conservar mais amigos dessa forma.
- Bem, se isso o faz sentir melindrado por...
- Sim. O que vai querer para o caf-da-manh? 
Gwen deu de ombros.
- Qualquer coisa. J me contou de que se trata a histria - relembrou-o Gwen.
- No. Eu lhe expliquei o conflito bsico e lhe dei uma viso geral do personagem principal. - Sabia que no deveria rir, mas no pde evitar. - Vai amuar? Fica 
muito atraente.
- No estou amuada. - Os olhos cor de lavanda se tornaram escuros e taciturnos. - Nunca o fao.
- Ningum me preveniu sobre isso - murmurou Branson. Gwendolyn no gosta de ser contrariada. Faz beicinho.
- No fao! Vai pedir o caf-da-manh ou devo faz-lo?
- Ficaria feliz se o fizesse. - Encontrara uma nova face-la para apreciar naquela mulher. Satisfeito, ordenou o dobro da comida que seriam capazes de comer. - Ir 
se sentir melhor quando tomar o desjejum.
- Estou muito bem - retrucou ela entre dentes.
- E acho que tenho algo que pode suavizar sua ira. 
- No estou irada - afirmou Gwen. - Portanto, no preciso de nada disso.
- Mesmo assim. - Branson desapareceu pela porta e retornou com uma caixa dourada atada com um lao de fita vermelho.
Ela deixou escapar um suspiro.
- No sou uma criana que precisa ter a raiva aplacada com prendas. E, se estivesse irritada, um presente no modificaria meu humor.
- Este talvez sim. - O escritor exibiu um sorriso charmoso. - E no descobrir at que o abra.
No queria ser apaziguada, mas no conseguiu resistir  curiosidade. Aquele seria o oitavo dia, pelos estranhos e imprevisveis clculos de Branson. A caixa era 
mais pesada do que esperava, portanto, sentou-se  mesa e ps-se a brincar com a fita.
-  muito pequeno para oito vacas leiteiras - comentou Gwen.
- Talvez eu tenha mudado o tema. - A vaga angstia estampada nos olhos cor de lavanda o inebriavam. - Abra e descubra.
Gwen puxou a fita e abriu a tampa.
O pote era deslumbrante. O interior de um azul intenso e brilhante. Em volta, pelo lado de fora, oito graciosas donzelas sentadas em caambas, ordenhando felizes 
vacas malhadas. No precisou ler a assinatura no fundo para saber quem era o artista.
- Tia Shelby - murmurou ela. - Como conseguiu isso?
- Implorei. Na verdade, roguei a Julia e ela usou sua influncia junto  me. Sua prima me disse que a ex-primeira dama achou o pedido divertido.
- Sem dvida. Amei - afirmou em tom suave, enquanto sentia o corao se enlevar. O que aquele homem estava fazendo com ela?, imaginou. Como conseguia fazer com que 
sentisse tantas emoes diferentes em to curto espao de tempo? - Acho que no conseguir superar este. 
- Ainda tenho um ou dois ases na manga. 
- Ainda falta uma semana para o Natal - lembrou Gwen, para, em seguida, num impulso, atirar-se nos braos dele. - No sei o que est se passando comigo. Tudo est 
acontecendo to rpido! No consigo acompanhar. 
- Ento agarre-se em mim. Para onde quer que estejamos indo, chegaremos juntos. 
- Preciso achar meu equilbrio. Est sempre me tirando do prumo. - Grudou-se ao peito msculo. -  como se sempre soubesse o que estou pensando ou sentindo, mesmo 
antes de eu agir.  enervante. - Deixou escapar um suspiro! exasperado e descansou a cabea sobre o ombro largo. 
No sabia por que as palavras que Branson dissera h pouco brincavam em sua mente naquele momento. O motivo pelo qual soavam em seus ouvidos como um alarme. Mas 
os olhos que mantivera fechados at ento, se abriram.
- O que quis dizer com ningum o preveniu?
- O qu?
Gwen afastou a cabea devagar, at que no estivessem mais se tocando e estudou a expresso do rosto masculino.
- Com quem andou conversando sobre mim?
- No estou entendendo. Deve ser o desjejum. -Agradecido pela interrupo, Branson se encaminhou  porta.
Ela se manteve serena, enquanto o garom punha a mesa. Aproveitou a pausa para pensar, retroceder nos fatos e tirar algumas concluses lgicas.
- Voc me estudou, no Branson? - perguntou no momento em que ficaram a ss outra vez. - Um prottipo, como disse uma vez.
- Claro que sim. - Ele serviu o caf com cuidado. - No nvel profissional. Concordamos com isso desde o incio.
- No estamos em um nvel profissional aqui.
- Uma coisa nada tem a ver com a outra. - Um flash de irritao perpassou-lhe o olhar. - Acha que estou me utilizando do que aconteceu entre ns para compor meu 
livro?  disso que est me acusando?
- No o estou acusando, apenas perguntando.
- Pois a resposta  no. - Os olhos cinza se estreitaram. Mas ao que parece no est acreditando.
- E que parece estranho que me conhea to bem. Como se tivesse traado meu perfil como faz com uma personagem.
- Fiz isso em relao  sua profisso, seu foco e seu tipo. Misturei em Audrey, a estudante de medicina loura, sua ambio e competitividade e a linguagem corporal 
da enfermeira-chefe da sala de emergncia. Foi isso que fiz. No estava tomando notas para o livro quando Daniel e Anna me falaram de voc.
A onda de vergonha que comeara a assolar Gwen retrocedeu.
- Falaram o qu de mim?
Branson desejou ter cortado a lngua antes de ter dito aquilo. A irritao sempre sobrepujava o controle, lembrou a si mesmo.
- Coisas corriqueiras. A comida est esfriando.
- Fez-lhes perguntas sobre mim?
- E o que h de errado nisso? - indagou ele. O tom frio na voz de Gwen o deixou irritado. Sabia que estava encurralado. - Estava interessado em voc e curioso a 
seu respeito.
- Quando?
- Logo depois que nos conhecemos. Pelo amor de Deus! Seus avs no revelaram nenhum segredo de Estado - afirmou Branson, impaciente. - Voc poderia ter feito o mesmo. 
Daniel ficaria exultante em lhe informar de todos os detalhes. Acho que ele sabe tudo sobre mim ou eu no conseguiria chegar sequer a uma milha de voc.
Gwen ergueu uma das mos, suspirando profundamente.
- Meu av planejou isso tudo, no foi? Ele sempre o faz. E voc sabia de tudo.
- No. At pouco depois de conhec-la, no tinha noo do que Daniel estava tramando. At que fui visit-lo. Mas que diferena isso faz?
- No me agrada ser manipulada, manobrada e enganada.
- No a enganei, Gwendolyn. 
Ela meneou a cabea em negativa.
- E quanto a manipulada e manobrada?
- No. A situao pode ter sido, mas voc no. A frustrao escurecia os olhos cinza e afiava-lhe o tom de voz. - Sentia-me atrado por voc. Acha que deveria me 
afastar porque Daniel MacGregor decidiu que eu era o homem certo para a neta?
Um misto de humilhao e raiva travava uma guerra no ntimo de Gwen.
- Ele no deveria ter interferido e voc tinha a obrigao de me contar tudo quando descobriu.
- Tudo o que seu av fez foi planejar nosso encontro. Se no tivesse existido nada, teria pesquisado para meu livro, dedicado um agradecimento  dra. Blade nas pginas 
iniciais e terminaria por a.
Gwen continuava a menear a cabea, enquanto se encaminhava  mesa de caf. Teria de pensar sobre o assunto quando estivesse mais calma, decidiu.
- No sei como ainda consegue defend-lo. Ele o manipulou tanto quanto a mim.
- Sou agradecido a seu av. Se no tivesse planejado esse encontro, jamais a conheceria. E no teria me apaixonado por voc.
Gwen pareceu paralisar, limitando-se a fit-lo nos olhos quando Branson pousou as mos sobre seus ombros.
- Eu a amo, Gwendolyn. Como isso veio a acontecer no importa. Voc  tudo o que sempre esperei sem ter noo de que esperava.
- Est indo muito rpido - balbuciou Gwen, sentindo um frio no estmago, enquanto dava um passo atrs. - Fomos guiados para dentro desse relacionamento e no tivemos 
tempo de pensar.
- Tenho certeza de meus sentimentos.
- Mas eu no - replicou Gwen em tom de desespero. Acabei de descobrir o que estava se passando nos bastidores. Preciso de tempo para pensar. Isso precisa acalmar. 
Precisamos ir mais de vagar.
- No acredita em mim. - Perceber a dvida nos olhos cor de lavanda o feria de morte. - Tem noo de como me ofende v-la parada na minha frente, duvidando de meus 
sentimentos? Embrulh-los e ofert-los a voc como mais um presente e v-la devolv-los?
- No  o que estou fazendo. - Apavorada, Gwen esfregou a mo sobre o peito, sentindo o corao bater como um tambor. - Estou apenas dizendo que precisamos de tempo. 
Ambos.
- Nenhuma quantidade de tempo ir mudar o fato de eu a amar. E como ainda est impactada pela revelao, devo acrescentar que quero me casar e formar uma famlia 
com voc.
A voz mscula no soava amvel. No foi o tom irado que a fez empalidecer, mas sim as prprias palavras.
- Casar. Deus do cu, Branson! No podemos simplesmente...
- Por que seu av comeou tudo isso?
- Claro que no. Por que sequer tivemos tempo...
- Por que dormiu comigo?
- Eu... - Gwen sentia a cabea girar. Ergueu a mo para toc-la, surpresa por encontr-la ainda sobre os ombros. - Por que desejamos um ao outro.
- S isso? Apenas desejo e sexo?
- Sabe que foi muito mais que isso.
- Como, se no me diz?
Gwen deu outro passo atrs, lutando para se manter calma.
-  mais hbil com as palavras do que eu. Sabe como us-las e est me pressionando com elas, quando preciso de tempo para pensar.
Sem argumentos ante a veracidade da afirmao, Branson limitou-se a anuir com um gesto de cabea.
- Est bem. Mas no posso voltar atrs no que disse ou mudar o que sinto. Uma hora, um ano ou a vida toda. Sempre a amarei. Ter de se acostumar a escutar isso.
Gwen no estava certa se poderia. No quando seu corao pulsava na garganta cada vez que Branson se declarava.
- Se pudssemos dar um passo de cada vez...
Numa abrupta mudana de humor, ele exibiu um sorriso luminoso.
- Est bem, mas j est muitos passos atrs. - Inclinou-se e lhe deu um beijo suave nos lbios, embora sentisse o estmago contrado e o corao sangrando. - Tente 
me alcanar.


Dezenove

Gwen entrou vacilante em casa. Perdera a hora do jantar e trabalhara quase trs horas alm de seu turno. Queria acreditar que seu mau humor se devia ao excesso de 
trabalho, e no ao fato de Branson no ter aparecido no hospital nos dois ltimos dias.
Se estivesse aborrecido com ela, no havia nada que pudesse fazer. Havia repetido aquilo um milho de vezes a si mesma, desde que deixara o hotel no domingo. Estava 
certa de que tomara a atitude correta. A nica coerente. Ser consciente, ir mais devagar e analisar as coisas.
Resistira  vontade de telefonar para o av para repreend-lo por suas maquinaes. O que lhe custara muita fora de vontade.
Alm disso, estaria em Hyannis Port na noite de Natal. Seria mais gratificante enfrent-lo cara a cara.
Aliviada por estar protegida do frio penetrante, retirou as luvas, o cachecol e o agasalho de l.
- Julia? Jules? Est em casa? - Suspirou exasperada quando ningum respondeu. Ela e a prima quase no s encontravam devido aos compromissos de ambas.
Precisava conversar com algum, admitiu, enquanto se agachava para retirar as botas. Necessitava de um ouvido para escutar seu desabafo, algum que lhe dissesse 
que sua raiva tinha justificativa, que tinha razo em ser cautelosa, retroceder e analisar a situao para a qual fora ardilosamente conduzida.
- Um homem de noventa e um anos bancando a casamenteiro - murmurou, enquanto se encaminhava  cozinha. - E um de trinta anos caindo como um pato. Isso  calculista, 
insultante e inaceitvel. Algum tem de faz-los entender que a vida no  um jogo!
Sentindo-se justificada em sua conduta, escancarou a porta da cozinha para encontrar uma grande caixa branca pousada sobre a mesa. Sentiu o corao saltar pela boca.
- Oh, Branson! - Deteve-se a tempo de suspirar, sonhadora. No se deixaria suavizar por um presente tolo.
Dando as costas  caixa, encaminhou-se ao refrigerador. O recado de Julia estava rabiscado em vermelho.
Acho que posso adivinhar quem lhe mandou a caixa. Pelos meus clculos, trata-se das danarinas. Deve me agradecer pelo fato de no t-la aberto para dar uma olhada. 
Estou morta de curiosidade, mas vou chegar em casa muito tarde. Graas a Deus, dentro de dois dias estaremos partindo ao encontro do tumulto que  nossa famlia 
no Natal. Jules. 
Ps: Bran  um em um milho. 
Gwen leu o ps-escrito e enfiou as mos nos bolsos da cala. 
- Droga, Jules! Tinha de estar do meu lado. Bem, no vou abrir a caixa. Isso tem que ter um fim. Depois do Natal, ambos teremos mais tempo para pensar.
Decidiu que precisava mais de vinho do que de comida e retirou uma taa do armrio. Porm, deteve-se ali, com a pea de cristal na mo, a fitar a caixa.
- No vou abrir - repetiu. - Se vamos colocar as coisas em um nvel racional e sensato, ento eu... tenho de parar de falar sozinha! - concluiu, esfregando a mo 
no rosto. - Ou vou acabar num hospcio!
Retirou uma garrafa de vinho do armrio e se serviu de uma taa. Podia jurar que a caixa s suas costas chamava seu nome. Depois do primeiro gole do vinho, percebeu 
que no precisava de outro. Tudo o que tinha a fazer era subir e vestir algo confortvel... 
- Est bem, est bem, vou abrir. - Girou nos calcanhares, praguejando contra a caixa, enquanto puxava a fita verde e vermelha. - No far diferena, afinal - murmurou. 
- No ficarei encantada ou vacilarei. - Abriu a tampa e colocou-a de lado. - No ficarei... Oh!
Pousadas sobre o papel de tecido encontravam-se caixas de msica. Uma bailarina, uma danarina no gelo, uma beldade sulista, uma danarina de charleston, uma jovem 
irlandesa, uma mocinha escocesa, uma cigana tocando um pandeiro, uma dama com vestido ornamentado em posio de minueto e uma espanhola de olhar ardente.
Nove danarinas esperando que ela lhes desse corda. No pde evitar retir-las da caixa uma por uma, admirar cada uma delas e disp-las sobre a mesa. Desistindo, 
Gwen lhes deu corda e afastou-se para observ-las, rindo como uma criana.
Valsas, charlestons e dana escocesa se misturavam num burburinho irreconhecvel, enquanto as nove danarinas rodopiavam em parafuso.
No percebeu as lgrimas at que as mos lhe cobrissem a face.
- Oh, isso tem de parar. Como posso pensar quando ele continua confundindo minha mente? - A medida que os tons musicais feneciam, secou a face mida. - Isso tem 
de ter um lira - repetiu, desta vez com mais firmeza, disparando em seguida pela porta da cozinha.
Branson permitiu que a cena flusse da mente para os dedos e deles para a tela do computador. O inflexvel detetive Scully estava prestes a ser devorado pelas chamas 
do desejo que ardia entre ele e a dra. Miranda Kates. A objetividade costumeira seria esquecida por um tempo, a carreira comprometida e o corao abatido antes que 
terminasse a misso.
Seria bom para ele, pensou Branson. Aquilo iria humaniz-lo. Scully sempre estivera no controle nas trs histrias anteriores. Daquela vez se apaixonaria, e profundamente. 
E, para seu azar, por uma fria assassina.
Sofreria, refletiu Branson, divertido. E iria se tornar um homem melhor depois disso.
Parou de digitar e pressionou os dedos contra os olhos cansados. Quem quer que tivesse dito que sofrer construir o carter devia ser fuzilado em um paredo, concluiu.
Quem precisava de carter?, imaginou. O que necessitava era de Gwendolyn.
Agira mal, no havia dvida. Sentindo necessidade de se movimentar, levantou-se da mesa e vagueou pela sute de hotel que transformara em seu lar. Deveria ter lhe 
contado sobre o plano do av no minuto em que tomara conhecimento dele. Naquela poca, teriam rido daquilo e esquecido.
Mas no lhe parecera importante ou necessrio. Tampou com uma boa estratgia, admitiu. No quisera arriscar perde-la antes de ter tempo de conquist-la.
Em seguida, mergulhara de cabea naquele relaciona mento e quase esquecera de como tudo havia comeado.
E, por fim, acabara por destruir tudo, concluiu desgostoso. Sabia que Gwen no estava preparada para ouvi-la dizer que a amava. Mas, danao, ele estava! Aquilo 
no contava? Seria aquela mulher to teimosa e cabeuda a ponto de permitir que um fato pequeno e insignificante como aquele a impedisse de corresponder a seu amor?
Enfiando as mos nos bolsos, caminhou em direo da janela. Afinal, o que pretendia com uma mulher daquelas?
Observou a cidade que se descortinava  sua frente, brilho das luzes refletindo na neve e nas ruas. O reluzir da gua escura do porto. Boston estava imersa no esprito 
do natal, pensou. Familiares e amigos confraternizavam, em meio ao frio e ao vento.
E ele se encontrava sozinho porque a mulher que amava no admitia que o desejava tambm.
Poderia ter comprado uma terceira passagem e acompanhado os pais no cruzeiro que lhes dera de presente de Natal. Seria possvel trabalhar no navio e aproveitar a 
excelente viagem martima pelas ilhas gregas.
Aquilo possibilitaria a Gwen o tempo e a distncia de que precisava.
Praguejou ao ouvir a batida  porta. Ainda no pedira o jantar e o ltimo bule de caf que lhe haviam mandado no estava precisando de reposio. Quem quer que fosse 
poderia ir para o inferno, pensou dirigindo-se  entrada da sute. Observou pelo olho mgico, avistou Gwen e fechou os olhos.
timo, pensou. Perfeito. No se barbeava h dois dias e estava com a aparncia de um urso que estivera hibernado. A mdica poderia escolher uma melhor para hora 
para fazer uma visita. Levou alguns instantes para se compor, deslizando os dedos pelos cabelos desgrenhados e abriu a porta.
- Atendimento em domiclio, doutora? - disse, sem sequer conseguir sorrir.
- Parece estar precisando. Est com uma aparncia exausta. Eu o acordei? Cheguei em m hora?
- No me acordou - replicou Branson, dando um passo atrs, inclinando a cabea para o lado quando ela hesitou.
- No vai entrar?
- Claro. - Os olhos cor de lavanda se dilataram ante a desordem na elegante sala de estar. Xcaras, copos e bules se encontravam espalhados por todos os lados. A 
mesa de jantar estava repleta de livros, papis e mais xcaras.
- Dispensei a arrumadeira por alguns dias - informou ele, reparando na baguna pela primeira vez. - Acho que  melhor permitir que ela volte. Tenho caf, podemos 
lavar uma xcara.
- No, obrigada. - A expresso de Gwen tornou-se preocupada. - Parece exaurido.
- No tenho dormido - declarou ele, gesticulando em direo ao computador. - Nem feito qualquer outra coisa.
- Quer dizer exerccios, alimentao e ar fresco. - A mdica dentro dela se manifestou. - Branson, assim vai adoecer. Sinto muito se o livro no vai indo bem, mas...
- No est indo bem. Est indo maravilhosamente bem. Estou apenas deslizando na onda.
- Oh, ento  o que acontece quando no tem problemas com a histria!
- Se no estivesse fluindo bem, teria tentado convencer a mim mesmo de que preciso caminhar, cortar os cabelos ou mesmo aprender a falar japons. Tem certeza de 
que no quer caf? - indagou, enquanto se encaminhava para o bule.
- Sim. E voc deveria pedir o jantar.
- Eu o farei, doutora. - Seu organismo j estava mesmo intoxicado, refletiu. Que mal faria mais um pouco de cafena? - Parece um tanto cansada tambm.
- Tivemos de atender  maioria das vtimas do acidente com o nibus esta tarde.
- Que acidente?
Gwen piscou vrias vezes.
- O de Longfellow Bridge. Estradas cobertas de neve, trinta e cinco pessoas feridas. Esteve em todos os meios de comunicao hoje.
- As notcias no foram parte de meu pequeno mundo hoje. - Ele a estudou por sobre a borda da xcara. Gwen parecia algo plida, notou, porm, segura de si, como 
sempre. E sequer tirara a capa. Por que no se senta? Vou pedir algo para comermos.
- No para mim. No posso demorar. Dobrarei o planto amanh para compensar os trs dias de folga que tirarei no feriado.
- A sempre conscienciosa dra. Blade. Percebendo o sorriso divertido de Branson, ela relaxou.
- Quero lhe agradecer pelas caixas de msica. So graciosas e inesperadas. Pensei que estivesse aborrecido comigo.
-  mesmo?
- Sei que estava e fico feliz que no esteja mais. Agora que os nimos se acalmaram, espero que possamos conversar sobre isso... depois do feriado, quando tudo parece 
voltar ao normal.
- Queremos ser calmos - afirmou Branson em tom suave. - E racionais.
- Sim - concordou Gwen, sentindo uma onda de alvio enquanto caminhava em direo a ele, tomando-lhe a mo em seguida. - Estarei de volta no dia vinte e sete. Se 
estiver livre...
- Oh, estarei. Colocarei meus pais num avio para Atenas amanh.
- Sua famlia est deixando a cidade?
- Sempre quiseram visitar a Grcia. Por isso, os estou enviando em um cruzeiro.
- Que amvel! Mas no deve ficar sozinho no Natal. Sabe que seria bem vindo a Hyannis. Meus avs adorariam receb-lo.
Ele a fitou por um longo tempo, fazendo o corao de Gwen disparar.
- Parece no ter noo das coisas, no ? - murmurou Branson. - Acha que tudo pode voltar ao normal em um piscar de olhos.
- No. Apenas pensei que j que no est aborrecido...
- Estou aborrecido. - Ele no elevou o tom de voz ou sequer se alterou. Tampouco a ameaou de alguma injuria. O que s servia para confundi-la ainda mais. Crescera 
em uma famlia que expressava cada emoo a todos os pulmes.
- As coisas tm de ser soletradas para voc? Se eu gritasse, revirasse a mesa, quebrasse algum objeto, ento poderia concluir que estou zangado. Pois muito bem, 
no funciono dessa maneira. Minhas aes e sentimentos no so sempre to transparentes. Tampouco lgicos.
- Est bem. - Gwen estava mais amedrontada e estupefata com o frio controle do que estaria ante um ato de violncia. - Ainda est aborrecido, ento,  bvio que 
precisamos conversar.
- Voc me magoou.
A afirmao clara e direta fez com que os olhos de Gwen se enchessem de lgrimas e o corao se partisse ao meio.
- Oh, Branson, desculpe-me. No tive a inteno. Queria...
- Isso a deixa chocada. - Ele fechou os olhos e virou de costas para ela, furioso consigo mesmo por ter admitido aquilo. - No preciso de compaixo, simpatia ou 
complexo de culpa. - Girou para encar-la e a violncia contida nos olhos cinza contrastava completamente com a absoluta calma na voz. - Queria que dissesse que 
me amava, porque  verdade. Se eu no tivesse conscincia disso, se no conseguisse perceber em seus olhos, quando a toquei, teria me afastado. Acha que aprecio 
humilhar-me dessa maneira?
- No. Por favor, vamos sentar e conversar com calma.
- No acha que eu j disse tudo? Eu a amo. Quero que se case comigo, e que juntos construamos uma famlia. Que parte no entendeu?
- Entender e aceitar nem sempre so a mesma coisa. -Ser que Branson no percebia que ela precisava decidir com lucidez o que era certo, sensato e necessrio para 
ambos? - Talvez acredite que me ama, e talvez eu... - Meneou a cabea, e girou nos calcanhares. - Vim aqui esta noite para lhe dizer que no quero ser pressionada.
Com um movimento rpido, Branson a tomou nos braos e arrebatou-lhe os lbios num beijo profundo. As palavras racionais lhe morreram na garganta e corao pareceu 
se liqefazer.
- Diga-me o que sente agora - ordenou ele contra seus lbios.
- Neste instante.
- Est pedindo demais, no consigo pensar desse jeito. Por favor, no faa isso.
Branson sabia que poderia t-la, que ela cederia. E que aquilo no o levaria a nada. Pensando assim, afastou-se.
-  melhor ir embora. No estou me sentindo inclinado  racionalidade.
Gwen anuiu, ordenando s pernas trmulas que a levassem at a porta. E l, com a mo na maaneta, sentiu-se envergonhada por no ter sido honesta, por ter lhe dado 
menos do que ele havia pedido.
- Voc me fez perder o prumo, Branson - afirmou ela em tom calmo. - Sinto que perdi o controle. No sei por que agi desse jeito e preciso decidir o que isso significa 
para mim. - Abriu a porta, mas se voltou para encar-lo. Os olhos de ambos se encontraram. - Preciso decidir o que farei a respeito do fato de amar voc.
Em seguida, desapareceu pela porta. Branson j estava a meio caminho da sada, quando se deteve. Ela no o escutaria naquele momento, disse a si mesmo, lutando para 
acalmar a prpria pulsao. Certamente lutaria com todas as foras se ele tentasse explorar a vantagem que Gwen acabara de lhe dar.
J cometera muitos erros. No precisava de mais um.
Com um movimento lento, levou a mo ao corao. A dor havia passado. O pulsar doloroso e melanclico. A mdica o havia curado, pensou com um meio sorriso. Teria 
de pensar rpido num modo de recompens-la.
Pediria o jantar, uma lauta refeio, um banquete. Deus, estava faminto! Precisava de um banho, barbear-se e dar uma longa caminhada.
E depois voltar ao trabalho. Faltavam apenas alguns dias para o Natal.
- Ela me ama! - declarou para, em seguida, soltar uma gargalhada.
Disse que perdeu o prumo, doutora?, pensou ele. Acredite. Ainda no viu nada!


Vinte

Daniel MacGregor fez uma carranca zangada e deixou escapar um suspiro exasperado.
- Muito bem, o que h de errado com o rapaz? - Quis saber.
- Nada - retrucou Gwen, tentando se controlar. A mdica procurou chegar a Hyannis cedo e confrontar o intrometido av antes que o resto da famlia pudesse distra-la. 
- Essa no  a questo.
- E qual ? Gostaria de saber. Vou lhe dizer onde est o problema - continuou ele, erguendo um dedo antes que a neta pudesse responder. - Conheceu um bom rapaz e 
de boa famlia. Com uma mente brilhante, fino e que possuiu um corao forte e generoso. Se ele a cortejou, o que tem contra isso?
- Se me cortejou - repetiu Gwen, em tom calmo. - E porque voc nos atirou um ao outro sob falsos pretextos.
- Falsos pretextos. - Foi a vez de MacGregor repetir, revirando os olhos. -No  verdade que ele queria pesquisar para o livro que est escrevendo?
- Sim, mas...
- E voc no  uma mdica com algum conhecimento nesse campo?
-Vov...
- E se so jovens, saudveis e solteiros, que mal h em terem se conhecido? Se o rapaz no lhe agradou, livre-se dele.
- Ele no  um trapo - sibilou Gwen entre dentes.
- Ento gosta dele, no, Gwennie? 
Ela teve de fechar os olhos, imaginando como fora capaz de achar que chegaria a algum lugar com MacGregor.
- Meus sentimentos em relao a Branson no tm nada a ver com o que est em pauta aqui.
- Tm tudo a ver - vociferou o av. - Ele a pediu em casamento?
- No vou discutir isso.
- Ele o fez - concluiu Daniel, triunfante, batendo com o punho no brao da cadeira. - Sabia que o jovem Branson Maguire era um camarada esperto. Um homem de gosto 
e carter.
- E por isso o escolheu para mim?
- Exatamente. Eu... - Daniel deteve-se, assoviando entre os dentes. A neta acabara de peg-lo em contradio. - Veja bem, Gwennie, sua av sempre se preocupou que 
vivesse sozinha naquela cidade.
- No vivo sozinha.
- E que encontrasse o tipo de homem errado. Aquele dr. Gilbert, por exemplo.
- O nome dele  Greg - corrigiu Gwen, enfadada. - E  um homem muito bom.
- Mas no  Bran Maguire, ? Admita.
Os lbios de Gwen se contorceram, forando-a a pression-los em uma linha tnue.
- Talvez eu prefira tipos sensatos e srios.
- R! Nem por um decreto, uma neta minha iria preferir um cachorro vira-latas a um com pedigree. George seria enfadonho em menos de um ano.
- Greg. E no vou deixar que mude de assunto. Interferiu tanto em minha vida como na de Branson. Se pensa que qualquer um de ns ir agradec-lo...
Gwen girou nos calcanhares quando ouviu a porta da frente bater e vozes ecoarem no corredor.
-  minha Rena. - Agradecido pela interrupo, Daniel ergueu o corpanzil da cadeira. - Rena! - gritou. - Sua filha est aqui.
- Gwen? - Ainda sacudindo a neve das mechas de cabelos macios e dourados, Serena MacGregor Blade entrou na sala. Os olhos, brilhantes. A face, amvel como sempre, 
exultava de prazer. - Chegou cedo! -Rindo, abriu os braos para receber a filha. - Oh, que saudade!
Gwen atirou-se nos braos da me com tanto desespero que fez Serena franzir a testa e estreitar o olhar para o pai.
- O que voc est aprontando? - perguntou a Daniel.
- Apenas tendo uma agradvel conversa com minha neta. - Ningum do conhecimento de MacGregor era capaz de lhe cortar os rompantes to hbil e rapidamente quanto 
a filha. Admirava-a por aquilo e se sentiu aliviado quando Justin Blade entrou no aposento.
- Pai! - Gwen girou para abra-lo apertado. Ele era alto e extraordinariamente belo. Os cabelos negros e espessos estavam mareados de branco e os olhos verdes afiados 
como gemas preciosas. Eles fitaram a esposa por sobre a cabea da filha e ento, ambos voltaram o olhar a Daniel.
- O que estamos precisando  de boa comida e bebida. -Pensando rpido, o av optou por retroceder. - Vou providenciar. O resto da famlia chegar a qualquer momento. 
No sei o que sua me est tramando, Rena - disse, enquanto se encaminhava para a porta. - Sempre agitada e preocupada.
- Ele no muda nunca - comentou Justin, rindo. - Graas a Deus. - Em seguida, ergueu o queixo da filha. - Ol, belezinha - murmurou. Aquelas foram as exatas palavras, 
que ele dissera quando a tomou nos braos pela primeira vez na maternidade.
- Estou to feliz por v-los. Onde esto Mac, Duncan e Mell?
- Mac est vindo de avio de Las Vegas. Chegar dentro1 de algumas horas. Duncan e Mell esto vindo de carro de Atlantic City. Estavam provavelmente uma hora atrs 
de ns.
- Quer que os ajude a levar a bagagem l para cima?
- Temos tempo para isso - Serena guiou a filha at o sof e forou-a a se sentar. - Voc e Branson Maguire esto muito zangados com seu av?
Gwen deixou escapar um longo suspiro, enquanto o pai sentava a seu lado.
- Deveria saber que a notcia j havia se espalhado pela famlia.
-  sempre assim. A rota foi de Julia para Shelby e dela para seu pai. Que problema Daniel MacGregor lhe criou?
- Tomou a situao desconfortvel - murmurou Gwen. Justin passou as mos pelos cabelos.
- Se no est interessada nesse Maguire, no h problema.
- Estou interessada.
As mos do pai paralisaram na nuca.
- Entendo. Interessada em que sentido?
- Justin! - Com uma gargalhada, Serena meneou a cabea. - Como ele ? - perguntou  filha. - Conte-nos sobre esse homem.
-  um escritor. Suponho que j saibam disso.
- E dos bons - admitiu Justin.
- No o vejo desde que era beb! - Suspirou Serena, meditando sobre a passagem do tempo. - Eu e a me dele perdemos contato.  uma pena. Vou telefonar para ela qualquer 
dia desses.
- Eleja esteve no cassino de Vegas. - Justin pegou um cigarro fino. - Mac o conhece vagamente.
-  mesmo? Bem,  interessante como as coisas funcionam. Serena sorriu para a filha. - Mas no nos disse como ele .
-  charmoso e gentil. Muito intenso em relao ao trabalho dele. Gosta de comida francesa e peras italianas. Tem um lindo sorriso e penetrantes olhos cinza.
- Est apaixonada por esse homem - afirmou Serena com olhar excitado, enquanto buscava a mo do marido. -Ela o ama.
- Talvez. - Por demais agitada para permanecer sentada, Gwen ergueu-se. - Como posso saber? Nunca me senti assim antes. Como posso ter certeza? Ele quer casar comigo. 
Insiste nisso, como se fosse algo que est predestinado a acontecer mais cedo ou mais tarde. Portanto, por que no imediatamente? E o vov tramou tudo isso.
Prevendo que teria de lidar com as mesmas emoes conflitantes que um dia enfrentara, Justin pousou a mo da esposa no colo.
- Ele fez isso antes, com excelentes resultados.
- Ento devo entrar no esquema?
- Claro que no. - O pai levantou, colocando as mos nos ombros de Gwen. - Tem sua prpria mente e corao. Siga-os.
- Eles me dizem coisas contraditrias. Tudo est acontecendo muito rpido. Ser arrancada do prprio prumo  muito bonito em romances, mas na vida real  assustador. 
Como posso casar com ele? - indagou, voltando-se para a me. - Como saberei se dar certo? Que serei capaz de lidar com todas as exigncias e responsabilidades advindas 
do casamento? Minha carreira, um marido, filhos... Como posso saber se me sairei bem como voc e vov?
- No saber. Ter de decidir se est disposta a enfrent-lo todos os dias pelo resto de sua vida. Querida, sempre alcanou com xito tudo que se disps a tentar. 
Talvez isso seja um problema para voc agora. - Serena indicou o lugar a seu lado no sof. - Sempre foi uma criana sria. No por falta de senso de humor, mas por 
ser responsvel e objetiva.
- Eu o magoei - murmurou Gwen. - E temo que se no for cautelosa, acabarei por feri-lo outra vez.
- Casando com ele.
- Sim, e fracassando no casamento.
- Ento deve pensar o tempo que for preciso. Mas deixe-me sugerir uma situao hipottica... falando em termos de medicina. Tem uma mente fria de mdica. Se tivesse 
uma paciente, forte e sadia, e existissem duas escolhas para ela. Em uma, poderia continuar exatamente como sempre foi. Alegre, bem sucedida e feliz. Nada teria 
de mudar para sua paciente. Mas a outra escolha, envolveria um certo risco, um ajuste no estilo de vida. Se ela optasse por essa escolha, aceitasse o desafio, poderia 
ganhar muito com isso. No uma vida mais longa, porm mais rica. No um corpo mais saudvel, mas um corao mais pleno. Qual dos dois prognsticos desejaria para 
ela?
- E muito esperta - murmurou Gwen.
- Os MacGregors o so. - Serena se inclinou para beijar a filha. - No posso lhe dizer que escolha fazer. Ter de optar sozinha. Tampouco lhe direi se deve seguir 
o corao ou a mente, pois, no fim, se for a coisa certa, seguir os dois.
- Est certa. Tenho de decidir. E assim o farei. - Gwen ergueu-se outra vez. -Amo vocs dois. Vou dar uma caminhada e pensar um pouco antes que a horda de descendentes 
MacGregor no permita que eu escute minhas prprias reflexes.
Justin esperou at que estivesse a ss com a esposa e caminhou em sua direo. Tomando-lhe as mos, ele a ergueu.
- H duas coisas que preciso fazer.
- Quais so?
- Contrabandear os cigarros de minha mala para o quarto de Daniel e agradecer-lhe pela filha dele, que  a mulher mais incrvel que jamais conheci. E depois... - 
Inclinou a cabea para roar os lbios nos da esposa. - Tenho que levar a filha dele, minha mulher e me de meus filhos, l para cima e fazer amor com ela.
Serena envolveu-lhe o pescoo com os braos.
- Por que a filha dele, sua mulher e me de seus filhos, no sobe e espera por voc?
Justin a beijou outra vez, demorando-se o mais que pde.
- Sim, por que no?
Gwen mal conseguiu conciliar o sono. Eram quase 3 horas da manh quando todos se recolheram. Permanecera deitada l, fitando o teto e esperando que a resposta certa 
lhe viesse  mente. Mas tudo que conseguira foi visualizar o rosto de Branson.
E ansiar por ele.
Logo que o dia amanheceu, conseguiu cochilar, mas at o sono leve estava repleto de sonhos. Viu-o no corredor do hospital, os olhos cinza focados nela, enquanto 
lhe revelava quem era e o que queria. Depois, sorrindo, aquele charmoso e efmero sorriso quando a acompanhou ao shopping para as compras de Natal. Confortando-a 
quando perdera o paciente. Tirando-lhe o ar num beijo arrebatador na porta da frente da sute de hotel. Carregando-a para cama repleta de ptalas de rosas.
E aquele sombrio e desesperado olhar quando confessou que a amava.
E, ento, o sonho tornou-se menos recordao e mais desejo. Viu a si mesma retribuindo o sorriso de Branson e estendendo as mos. Aceitando, doando, abraando.
Gaitas de fole tocavam quando ele a ergueu e a montou em um cavalo branco e brilhante. No se sentia desamparada e sim poderosa. O riso misturado ao dele, enquanto 
cavalgavam ao som estrondoso das gaitas.
Ela se espreguiou, sorrindo com o sonho, o romance e retido dele. Estava murmurando o nome de Branson quando acordou.
Ainda podia escutar as gaitas de fole.
Levantou-se, esfregando os olhos. Gaitas de fole, pensou confusa. Bocejou, sorriu e jogou as pernas para fora da cama. Vov, pensou, por certo preparara algo especial 
para a manh de Natal. Primeiras horas da manh de Natal, corrigiu, consultando o relgio.
Eram quase 8h.
Cambaleou em direo ao robe, no momento em que a porta de seu quarto se escancarou.
Os cabelos de Julia se encontravam em total desalinho, os ps descalos e o olhos dilatados.
- Olhe pela janela. No acreditar se no vir com os prprios olhos.
- Eu ouvi - afirmou Gwen, escutando vozes no corredor. Portas se abriam e fechavam, e passos se ouviam por todos os lugares. - E acho que todo mundo tambm. O que 
vov fez?
- No foi o vov. - Decidindo-se a apressar a prima, Julia segurou o brao de Gwen e a puxou at  janela. -  Bran.
Atordoada, Gwendolyn olhou para fora. L, postados na ampla rampa, estavam dez homens corpulentos em saiotes escoceses, saltitando uma dana escocesa.
- Dez lordes saltitantes - conseguiu dizer.
- E ainda melhor - disse Julia, sorrindo como uma criana. - H onze flautistas tocando, e doze percussionistas. Eu diria que isso fecha com chave de ouro. Seu verdadeiro 
amor no esqueceu de nada.
- Ele... - Baixou o olhar e visualizou Branson. O escritor se encontrava parado em meio  agitao. Os cabelos esvoaavam ao vento. - Fez tudo isso para mim.
 -  louco - declarou Julia. - Apaixonado e surpreendente.
- Sim, ele . - Rindo, Gwen pressionou uma das mos contra a boca. Seu verdadeiro amor, pensou, no conhecia limites. E aquilo no era maravilhoso? - Branson me 
ama. De verdade. No  um engano, nem cedo demais para isso. Tampouco uma paixo efmera.  perfeito. E ele  maravilhoso.
- Ento o que ainda faz aqui, quando ele est l embaixo?
- Estou indo. - Gwen calou um par de botas, e, com o robe esvoaando, desceu correndo a escada. A famlia j havia se adiantado, vestindo botas e casacos ou aparecendo 
 porta trajando apenas seus robes. Avistou os avs prximos  entrada da casa. Anna abotoava devagar o casaco de Daniel.
- No preciso disso.
- Precisa sim, o vento est frio. No quero que pegue um resinado. Os flautistas no vo a lugar algum.
- E que msicos de qualidade so! - exclamou o av, vendo a neta correr pela escada. De pronto lhe dirigiu um sorriso presunoso. - Bem, esse  um homem de verdade.
- Sim - replicou Gwen, tomando-lhe a face barbuda nas mos e depositando nela um beijo longo e terno. - Mas no vou lhe agradecer at daqui a uma semana. - Dizendo 
isso, disparou pela porta para o frio do inverno e dirigiu-se  famlia. De l, obteve uma viso melhor.
- Faam silncio - ordenou. - No consigo ouvir. - Mas foi como se estivesse falando com o vento.
Porm, aquilo no importava. Podiam falar e gritar o quanto quisessem. No os ouvia. Escutava apenas as flautas e os tambores, enquanto Branson caminhava em sua 
direo.
No notou que todos ficaram em silncio. Tampouco as lgrimas que lhe rolavam pela face. Tudo o que conseguia avistar era o rosto de Branson, que trazia o corao 
refletido nos olhos.
- Feliz Natal, Gwendolyn.
- Branson...
- Eu a amo - declarou ele, erguendo a mo para limpar as lgrimas que inundavam a face delicada. -  tudo o que desejo. Admiro sua fora, honestidade, compaixo 
e lgica. Preciso de voc em minha vida. Prometo a voc, neste momento, diante das pessoas mais importantes de sua vida, que nunca a farei sofrer.
- Isso  que  um homem! - vociferou Daniel, com a voz embargada. - Eu lhe disse, esse  um verdadeiro homem!
Quando Branson sorriu, Gwen sentiu a me tomar-lhe a mo e apert-la. Em apoio, aprovao e amor. E, em seguida, Serena a soltou.
- No so todos os doze dias de Natal - assegurou-lhe Branson. - Mas  um comeo. Ento... Aceitar-me-, Gwendolyn?
O corao de Gwen batia descompassado  medida que ela dava um passo  frente, postando-se entre ele e a famlia. Em seguida, tomou-lhe as mos.
- Disse que no aceitaria ser pressionada.
- Oh, d uma chance ao rapaz, Gwen!
Ignorando o pedido da irm mais nova, continuou a fitar Branson nos olhos.
- E no serei. No posso resistir a ser amada e corresponder. Portanto, vou lhe responder diante das pessoas mais importantes de minha vida. Sim, eu o aceito, Branson.
- Beije a moa - ordenou Daniel.
Branson lanou um olhar por sobre a cabea de Gwen para encontrar os olhos aguados de MacGregor.
- Acho que posso cuidar disso sozinho daqui por diante. E beijou a moa.
Das Memrias Secretas de Daniel Duncan MacGregor

Tenho o prazer de dizer que minha escolha do jovem Branson foi melhor do que esperava. Ele  um irlands inteligente. Estamos orgulhosos de t-lo como parte de nossa 
famlia.
Observei seu rosto enquanto Gwen caminhava em direo ao altar em seu vestido de princesa com o vu herdado. Havia amor para uma vida inteira e mais.
Anna e eu, de mos dadas, os observamos dizer os votos. A vida  um crculo e amor  o que a enfeita. Naquela igreja, com a luz do sol formando um arco-ris atravs 
dos vitrais, minha Gwen e seu Branson iniciaram seu crculo dentro daqueles crculos formados por todas as geraes anteriores.
No reivindico nenhum crdito, pois isso causaria toda sorte de problemas. Quero apenas desfrutar disso.
Ento, outra primavera se inicia. Nossa Gwen est comeando sua nova vida. Nossa Laura est redonda e saudvel com o beb que carrega no ventre. Julia, agora, se 
mantm to ocupada quanto uma colnia de formigas. Aquela  durona. Saiu ao av.
Ela  minha jia e, portanto, delineei minha estratgia mesmo enquanto cuidava das primas dela. Essa vai ser um osso duro de roer. Ah, mas no existe osso duro o 
bastante para Daniel Duncan MacGregor.
Estou planejando recrutar uma ajudazinha neste caso. Estou de olho nesse rapaz h anos - e Julia tambm, apesar de preferir sofrer as torturas do inferno a admitir 
isso. Moa teimosa. Deus a abenoe!
Ambos so perfeitos um para o outro. Um par de cabeas duras que rosnam e se mordem em qualquer oportunidade.
Eles vo produzir adorveis e fortes bebs para mim, minha Anna, quero dizer. A pobre mulher  louca por crianas.
Anna j embalou o vu de casamento dos MacGregors Eu no quero contar-lhe, por enquanto, que ela ter de pendur-lo outra vez antes que passe um ano.
Dou minha palavra de honra.

Vinte e Um

No restava nenhuma dvida na mente de Julia, mas, afinal, raramente se sentia indecisa. Estava decidido, aquela parede teria que ser derrubada. Ela caminhou da 
minscula sala de estar at a tambm minscula biblioteca. E, quando a parede no existisse mais, teria ali, em vez de dois pequenos ambientes, uma generosa e arejada 
sala. Decidida, meneou a cabea com firmeza e continuou a excurso. Seus olhos observavam e avaliavam os detalhes. Todos os vitrais teriam que ser substitudos e 
os adornos e molduras precisariam ser retirados da madeira original. Fosse quem fosse que a pintou de azul deveria ser enforcado.
J gravara o suficiente no minigravador que carregava consigo. Sempre fazia anotaes daquela maneira e seus comentrios eram invariavelmente expressivos. Julia 
MacGregor no tinha apenas sentimentos fortes, acreditava firmemente em express-los. J havia concludo e etiquetado duas fitas na casa de Beacon Hill, casa que 
decidira que seria sua. Faria do lugar um espao s seu. Todos os detalhes, desde a cor das paredes do toucador do primeiro andar, seriam decididos e supervisionados 
por ela.
O empreiteiro e seus subordinados teriam que ser paparicados ou intimidados e se sentia capaz de fazer ambas as coisas para conseguir exatamente o que pretendia. 
Jamais se satisfazia com pouco.
Nunca se considerara uma moa mimada. Sempre batalhava pelo que queria. Planejava e executava. E poderia, se necessrio, fixar uma divisria de gesso, martelar pregos 
e aplicar uma camada de reboco nas janelas. Mas preferia contratar peritos e profissionais e pagar-lhes bem para executarem o servio.
Sabia que devia acatar conselhos, em particular quando estes estavam de acordo com seu ponto de vista. E, ao iniciar um projeto, jamais o abandonava.
Julia aprendera o valor do planejamento, do trabalho c da concluso, com os pais. Alan MacGregor cumprira dois mandatos como presidente, tendo Shelby Campbell MacGregor 
a seu lado como uma primeira dama que fazia bem mais do que bancar a anfitri nas festas e cumprimentar dignitrios.
As mulheres do cl MacGregor no eram e jamais haviam sido reflexos de seus maridos. Uma mulher MacGregor tinha personalidade prpria. E com Julia no era diferente.
Ela subiu os degraus da escada circular bem devagar. Era uma mulher com a pele rosada e cabelos ruivos cacheados. Os olhos, cor de chocolate, buscavam atentos qualquer 
detalhe ou imperfeio que pudesse ter passado despercebido at o momento. Sua boca era carnuda e se movimentava com freqncia. As mos finas e longas quase nunca 
paravam. O corpo curvilneo era abastecido com uma energia interna que parecia no ter fim.
Os que a amavam consideravam-na uma mulher bonita e forte que habitualmente expressava opinies fortes, mas mesmo os que no gostavam dela reconheciam seus atrativos 
sem igual.
Certa vez, um de seus namorados a chamara de "Rainha Guerreira". E, embora no tivesse significado um elogio na ocasio, o termo fora bem adequado. Era vigorosa, 
auto-suficiente e sensual.
E implacvel.
Batendo com o dedo em um ponto sutil do queixo, Julia estudou o quarto que vinha usando durante o ltimo ms. A encantadora lareira Adam precisaria voltar a funcionar. 
O fato de ter sido desativada era outro ponto contra os proprietrios anteriores, na opinio de Julia.
J podia se imaginar enrolada em sua maravilhosa cama-tren de madeira. Travesseiros amontoados a seu redor, um bule de ch de jasmim, um bom livro e o crepitar 
do fogo na lareira.
Estavam no incio de agosto e o vero ainda estava bem quente em Boston, mas a imagem a atraiu. Ento, decidiu que a tornaria uma realidade na poca de Ao de Graas.
A casa brilharia esplendorosamente no Natal, e ela abriria as portas com uma enorme festa de reveillon.
Brindaria o Ano Novo ao som dos sinos, Julia pensou e sorriu.
Nesse instante, a campainha tocou. Devia ser o sr. Murdoch, imaginou. O homem nunca se atrasava. Havia quase seis anos contratava a firma dele para a realizao 
dos seus trabalhos de construo. Aquela no era a primeira propriedade que adquirira, que restaurara, ou a primeira em que vivera. Imveis eram a sua paixo. E 
a sua habilidade de negociar flua naturalmente, estava no sangue.
O av de pobre se transformara em um milionrio graas  habilidade de uma mente astuta, olhos afiados e um corao de jogador. De todos os seus filhos e netos, 
Julia era quem lhe seguia as pegadas mais de perto.
Ela se apressou escada abaixo, ansiosa para comear a discutir sobre planos e oramentos com o astuto escocs. Fora o prprio Daniel MacGregor que lhe recomendara 
a empresa de Michael Murdoch alguns anos antes, e Julia sentia-se eternamente grata ao av por isso. Era como se tivesse encontrado uma alma gmea naquele trabalhador 
de olhos azuis brilhantes e mos extraordinariamente capazes.
Estava sorrindo quando abriu a porta. Mas logo seu sorriso esmaeceu dando lugar a uma carranca.
No era Michael Murdoch, mas o filho. Julia considerava Cullum Murdoch a nica mancha na excelente relao que mantinha com a empreiteira.
- Onde est seu pai? - exigiu ela.
- No est se sentindo bem. - Cullum no desperdiava sorrisos com mulheres que o irritavam. Seus frios olhos verdes e a boca bem esculpida permaneceram srios. 
- Eu o estou substituindo.
- Ele est doente? - A preocupao foi imediata e sincera e ela estendeu-lhe a mo. - O que h de errado com Michael? Ele foi ao mdico?
- No  nada srio, apenas um resfriado de final de vero. Mas o deixou um pouco debilitado. - Os olhos dela pareciam preocupados, seu afeto pelo pai dele era quase 
palpvel. - S precisa ficar na cama e repousar durante alguns dias.
- Oh! - Ambos permaneceram onde estavam, um de cada lado da soleira da porta, com o sol da manh sobre suas cabeas. Julia libertou a mo dele e ponderou. No gostaria 
de trabalhar com Cullum, mas tambm no queria atrasar o projeto.
Ele a contemplou por alguns instantes e um par de sobrancelhas escuras se ergueu sobre os olhos verdes.
- Posso dar andamento ao servio se voc concordar, MacGregor.
Julia o estudou com uma carranca. Homens extremamente bonitos raramente a irritavam. E Cullum, com sua face angulosa e bem esculpida, por certo era bastante bonito. 
Alm disso, ainda havia a beleza daqueles cabelos castanho-dourados, o sorriso breve e torto, no que ele costumasse dispensar-lhe algum, e o corpo alto e esguio 
que se ajustava to bem em um jeans.
Mas ele a irritava. E com muita freqncia. Suas personalidades se chocavam e colidiam como espadas afiadas em um campo de batalha.
Aborrecido ou no, pensou ela, o homem era bom no que fazia. E seria apenas uma substituio temporria.
- Certo, Murdoch, vamos pr mos  obra.
Ele pisou sobre as largas lajotas com nervuras cor-de-rosa do foyer, deu uma olhada na extensa escadaria e verificou o reboco decorado do teto abobadado.
- Como esto as fundaes?
- Slidas como uma rocha.
- Vou conferir.
Pronto, pensou ela, rangendo os dentes. Era por isso. O homem constantemente questionava o julgamento dela, discutia suas opinies e zombava de seus gostos. Julia 
respirou fundo.
- Fiz algumas anotaes - disse ela, pegando o minigravador no bolso das calas de marinheiro que usava.
- Sim, as famosas fitas da MacGregor. - O tom assumiu uma indiscutvel nota de sarcasmo, enquanto ele as pegava e as colocava no bolso de trs da cala jeans.
-  mais eficiente do que fazer anotaes em papel. E dessa forma meus planos e esboos no podem ser mal interpretados.
- Sim, a senhorita  quem manda.
- A casa  minha - rebateu ela. Ele a fitou com um olhar inspido.
- Quem disse que no era? - Cullum passou por ela, entrando na pequena sala de estar e, imediatamente, pensou que quem havia pintado a madeira devia ter sido assassinado 
impiedosamente. - Confortvel.
- Claustrofbica - corrigiu ela. - Quero derrubar a parede da direita. O cmodo contguo tambm  apertado. Dois espaos desperdiados, em minha opinio.
Ela tinha razo, pensou Cullum. Mas ele sentia um irresistvel desejo de contrari-la.
- Casas velhas e tradicionais no gostam de mudanas estruturais.
- A parede sai.
Com passadas largas e vagarosas, Cullum caminhou pela sala examinando-a de cima a baixo.
- Provavelmente este maravilhoso assoalho de pinho ficar danificado.
- Se isso acontecer, ter que consert-lo. - Ela se movimentou pelo cmodo ainda vazio, seus passos provocavam um eco. - Quero que a moldura fique em madeira natural 
h alguns reparos secundrios, como bem pode notar. Apesar da lareira precisa ser argamassada, mas o consolo est e excelente forma. E aqui em cima... - Julia passou 
para o outro cmodo, esperando que ele a seguisse. -Aporta do ptio  muito pequena. Quero a abertura mais larga e um trio instalado. Madeira de nogueira, vidro 
chanfrado e adornos de metal.
Cullum visualizou os resultados na mente e os aprovou, mas encolheu os ombros.
- Isso significa que teremos que cortar os tijolos.
- Estou ciente disso, Murdoch.
- Vai onerar o servio.
Ela o fitou com um ar irnico no olhar.
- Discutiremos o oramento depois do trabalho iniciado. Mas continuando... Naturalmente, todas as paredes precisaro ser repintadas ou receber uma nova camada de 
papel de parede e a lareira aqui... - Ela ergueu a cabea, avaliando a linha e a distncia da lareira no outro cmodo. - Vou querer este consolo substitudo por 
um semelhante ao outro. E o cano da chamin desobstrudo. Precisa ser aberto. E vidros trmicos em todas as janelas,  claro.
- Lgico.
Ignorando o sorriso malicioso nos lbios de Cullum, ela esbarrou nele e continuou. Se fosse com o pai dele, ela teria pedido algumas opinies e discutido as estratgias. 
Teriam; rido de algo engraado ou naquele momento estariam ambos ajoelhados examinando a modelagem do piso.
No faria nenhuma dessas coisas com o filho.
A voz de Julia era to rgida quanto a sua espinha, pensou Cullum, implorando a Deus que ela deixasse de cheirar to bem. Aquele perfume tinha o poder de distra-lo. 
Sentia-se inebriado pela fragrncia de deusa-guerreira sempre que se encontrava a alguns passos dela.
Cullum fez o possvel para se manter a distncia.
Sempre a considerara uma mulher fria, mandona e arrogante. Qualquer coisa, menos o seu tipo. O fato de ocasionalmente desejar saber como seria beij-la, em sua opinio, 
era apenas um reflexo, nada mais.
Ambos caminharam pelo primeiro andar, cmodo aps cmodo. Era uma casa grande, meditou ele. Mas, afinal, jamais ouvira dizer que Julia MacGregor desperdiava dinheiro 
comprando porcarias. A mulher tinha um olho clnico para construes. Isso era forado a admitir. E tambm respeitava o fato de que, do que quer que fosse que comprasse, 
ela cuidava muito bem.
Mas ela nunca se calava e o tratava como se ele no tivesse crebro, explicando-lhe e delineando-lhe todos os pontos e mudanas.
Substituio dos ladrilhos do toucador. Sim, sim. Metais novos para a pia de pedestal. Ser que aquela criatura pensava que ele no era capaz de perceber que a torneira 
atual estava enferrujada e feia?
Os dois passaram quase uma hora na cozinha. L, Julia quis uma completa reviso do projeto. Tudo seria construdo ao redor de dois pontos: o velho forno de tijolos, 
que ela queria que voltasse a funcionar, e a bancada de madeira que ocupava toda uma parede.
Cullum ficou satisfeito ao repudiar algumas das idias dela, tachando-as de antifuncionais, e se sentiu mais satisfeito ainda por substituir os planos de Julia pelos 
seus.
- Voc tem bastante espao aqui - disse ele em p no centro da cozinha, sobre o brilhante piso de linleo. - Por que deseja desperdi-lo?
- Isso no ...
-  um plano estpido colocar o fogo e o refrigerador assim to distantes. Precisa haver circulao, um padro de movimento. Esttica e convenincia.  bvio que 
voc no cozinha.
Julia inclinou a cabea para um lado.
- E em seu pequeno mundo por certo as mulheres costumam preparar fumegantes refeies  noite para seus. homens que chegam cansados do trabalho.
- Em meu pequeno mundo as pessoas que cozinham comem melhor. Voc pode colocar sua pia l sob as janelas duplas. O balco ficaria por aqui. Podemos coloc-lo em 
forma de arco, propiciando uma agradvel aparncia de fluidez. - Os gestos dele eram vivos, econmicos. Gestos de um homem acostumado a mandar e ser obedecido. - 
A lavadora de loua fica aqui, o fogo l, o refrigerador l. Mantenha a despensa sob a escada dos fundos. Livre-se desta porta horrorosa. Agora, se eu fosse voc...
- Mas no ...
- ...colocaria outra bancada aqui, tipo um balco de apoio. Seria bastante til e quebraria um pouco o espao. Ento, transformaria esta varanda em anexo da sala, 
derrubando esta parede.
Ela ergueu uma sobrancelha.
- Pensei que casas velhas e tradicionais no gostassem de mudanas estruturais.
Boa observao, pensou ele, mas encolheu os ombros.
-  tarde para isso. Se pretende derrubar uma, pode derrubar duas. Retiram-se as telas, colocam-se nas janelas e ento usamos aquela parte do L como uma rea de 
descanso. Eu poderia projetar um banco para pr sob as janelas.
Oh, ficaria lindo, pensou Julia.
- Vi um velho e maravilhoso banco de igreja semana passada.
- timo! Do modo como a varanda se encontra agora, no tem nenhuma utilidade. S serve para atravancar o espao. Ento, voc poderia trazer aqueles vasos de planta 
para dentro e acrescentar um pouco de luz ao ambiente.
Julia gostou da idia.
- Bem, vou considerar a possibilidade.
- Certo e voc deve se desfazer do revestimento do piso.
- Mas ele est novssimo!
- Aposto que embaixo desse revestimento existem timas tbuas de pinho.
- Ningum seria to estpido.
Cullum tirou um canivete de bolso, sacudiu a lmina. Os olhos verdes flamejando com um brilho de desafio.
- Aposta?
Ela oscilou entre querer que ele estivesse certo e odiando a idia de estar errada.
- Certo, raspe um dos cantos. Mas, se estiver errado, ter que fazer um desconto de cinco por cento no total do oramento.
- E, se eu estiver certo, voc far a cozinha do meu modo.
Julia assentiu com a cabea.
- Negcio fechado.
Ele caminhou at um canto prximo  porta dos fundos e ajoelhou-se. No demorou mais que dois minutos.
- Voc vai ficar muito contente.
- Apenas um piso falso, hein? - Com um ar presunoso, ela caminhou at o local e olhou para baixo. - Oh! - Ajoelhando-se, Julia se emocionou ao ver as tbuas de 
pinho. - Que idiotas! Raspe mais um pouco.
- Por certo deve estar arranhado e manchado. - Cullum retirou um pouco mais do linleo. - Ento, eles optaram pelo caminho mais fcil, recobrindo-o.
Era como encontrar um tesouro enterrado, pensou Julia e teve que se conter para no continuar retirando a cobertura com as mos nuas.
Eles estavam lado a lado agora, quadril de encontro a quadril, ombro de encontro a ombro. A nuvem macia de cachos avermelhados roou a face de Cullum. O perfume 
agradvel o atraiu e, sem pensar, ele virou a cabea para inal-lo.
Julia sentiu o corao acelerar e o estmago contrair-se. Ento, se endireitou to depressa, que quase bateu com a cabea no nariz dele.
- O que est-fazendo?
- Nada. - Mas que diabos estava acontecendo com ele?, foi tudo que Cullum conseguiu pensar. Estava ficando completamente louco?
- Voc estava me cheirando!
- Ora essa! Eu estava respirando.  algo que costumo lazer com freqncia durante o dia.
O fato de sentir o pulso agitado, a boca seca e a pele quente, a enfureceu
- Bem, ento no faa isso perto de mim - retrucou, erguendo-se depressa. - Vamos subir para o segundo andar e esquecer isso.
- Certo. - Ele fechou o canivete e o recolocou no bolso, porque se sentia tentado a enfi-lo no prprio peito como castigo para o lapso momentneo. - E no se preocupe, 
MacGregor, tentarei controlar minha respirao.
- Idiota - Julia murmurou baixinho ao mesmo tempo em que cruzavam a sala. Mas no tinha certeza a qual dos dois ela se referia.

Daniel MacGregor imaginou-se pitando um charuto. Recostado na pesada cadeira de couro, no espaoso escritrio de sua suntuosa casa, soprou os rolos de fumaa imaginrios 
para o teto, enquanto escutava seu bom e velho amigo Michael Murdoch ao telefone.
- Ento o menino mordeu a isca.
- Sim, de fato - confirmou-lhe Michael. - Tossi um pouco e apertei o nariz quando o chamei. - Michael exemplificou, fazendo a voz soar sufocante e ofegante. - Voc 
ter que cuidar de Julia hoje, eu lhe disse. No estou me sentindo bem. Ele no gostou muito - continuou Michael, agora falando com clareza. - Mas  um bom rapaz 
e gosta de honrar os compromissos da firma.
- O seu Cullum  mesmo um timo rapaz. - Daniel sorriu fitando o teto, trocou o telefone de lado. Conhecia Michael Murdoch havia quinze anos e o respeitava como 
profissional e como pessoa. Preocupara-se com o pobre homem quando ele perdera a esposa uma dcada antes. E, desde essa poca, se tornaram grandes amigos.
- Ento  um trabalho grande - continuou Daniel. - Levar mais ou menos alguns meses e isso os manter se esbarrando um contra o outro durante um bom tempo.
- Ficarei doente por uma ou duas semanas, isso me dar a chance de pr a minha leitura em dia. Ento, ficarei com falta de apetite por mais uma ou duas semanas mais. 
A essa altura, Cullum j deve estar bem integrado no projeto. Poderei convenc-lo a conclu-lo. Ele vai concordar de qualquer maneira.
- No entendo por que esse rapaz ainda no fez nenhuma tentativa de se aproximar de Julia. Eles j se conhecem h alguns anos. So duas pessoas fortes, saudveis 
e atraentes. - Daniel meneou a cabea tristemente, acariciando a barba branca e macia. - Conto com voc, Michael, as crianas hoje em dia precisam ser conduzidas 
pela mo ou no fazem nada por si mesmas.
- Existe uma chama entre eles, Daniel. Voc e eu estamos apenas avivando-a. Est na hora do meu Cullum se estabelecer na vida e encontrar a felicidade.
- Concordo. - Para enfatizar, Daniel bateu com o punho sobre a escrivaninha. - E Julia precisa fazer o mesmo. Porque a menina j est com vinte e cinco anos. Pelo 
que est esperando? - Ele sorriu, reclinando-se outra vez. - Eles nos daro lindos bebs, Michael.


Vinte e Dois

Felizmente alheia ao fato de sua vida estar sendo planejada, Julia sentou-se no centro da cama, concentrando-se nos mostrurios. Papis de parede, tintas, azulejos. 
Havia montanhas de catlogos de dobradias, maanetas e metais para banheiro e cozinha. Ela anotou as possibilidades e registrou suas escolhas finais.
Tinha gasto duas semanas com reunies, negociaes e discusses com Cullum para finalizar o projeto, os prazos finais e o clculo dos custos.
No tivera outra opo seno aceit-lo como empreiteiro chefe. Quando passou no escritrio dos Murdoch e viu como Michael Murdoch parecia desgastado e abatido, abalara 
todas as suas reclamaes.
At que ele recuperasse as energias, ficaria sentado atrs daquela escrivaninha. No queria ser responsvel por faz-lo se sentir obrigado a se arrastar at o local 
para supervisionar as obras.
Deslizando as pernas da esquerda para a direita, procurou uma posio mais confortvel. Gastara a manh com a transferncia de uma propriedade que ela vendera. Ainda 
precisava mudar a saia azul e a jaqueta que usara para o compromisso.
Distrada, Julia tamborilou os dedos sobre uma amostra de papel de parede floral. Tinha uma fraqueza por pedras coloridas e um trio delas cintilava em seus dedos. 
Outras, em suas orelhas e pulso.
No minuto em que pisara em seu quarto, retirara os grampos dos cabelos que agora lhe caam de modo selvagem por sobre os ombros. Ela cantarolou com os lbios fechados, 
desfrutando o barulho de serras e martelos que vinham do primeiro piso.
Homens trabalhando, pensou. Que msica maravilhosa!
Cullum ficou aliviado por ela no ter percebido sua presena quando ele parou na entrada da porta. Julia teria visto a lngua dele deslizar para fora da boca e chegar 
ao cho.
Meu Deus, a mulher tinha umas pernas! Um par de pernas compridas que a minissaia pouco cobria. Parecia mais uma deusa do que uma mulher de negcios. O tipo que fazia 
um homem esquecer que tinha um discurso inteligente e um temperamento afiado. 
Quando ela, distrada, esfregou uma das mos na parte superior da coxa, Cullum revirou os olhos para o teto, implorando clemncia. Ento, respirou duas vezes lenta 
e profundamente, a fim de manter o controle.
- Pode me dar um minuto, MacGregor?
- Hum? - Rosas selvagens em um fundo azul ou as listras suaves e lustrosas tradicionais? Rosas, decidiu. Por que ser to sutil?
- MacGregor? Jules? - Ele deu alguns passos  frente, estalou os dedos sob o nariz dela e teve o prazer de v-la arregalar os olhos em choque.
- O qu? - Surpresa foi o que fez seu corao acelerar, falou Julia a si mesma.
- Sua parede j foi derrubada. Achei que poderia querer ver.
- Oh. Certamente. S um minuto. - Odiava ser pega distrada, sem tempo para engatar todos os controles. - J vou descer.
Um homem seria louco de se afastar daquele maravilhoso par de pernas quando podia se demorar mais alguns instantes, meditou Cullum. Com esse pensamento, sento na 
cama e se divertiu quando a viu estreitar os olhos.
- No est sendo muito precipitada?
- Eu estava a ponto de dizer o mesmo - disse meticulosa.
- No vai precisar de papis de parede por algum tempo. 
- Gosto de planejar com antecedncia. 
Ele se curvou para frente, estudou as listras que ela havia rejeitado.
- Enfadonhas. - Seus olhos viajaram pelas pernas dela.  a nica coisa que voc no .
- Vejamos... Isso foi um elogio ou insulto? - Ela resistiu  vontade de puxar a saia para baixo. Mas no lhe daria aquele gostinho. - Insulto - decidiu. - Suma da 
minha frente!
- Por que est vestida desse jeito? - Ele tocou a lapela dela, sabendo que levaria um tapa na mo. E Julia no o desapontou.
- Tive um compromisso pela manh. A propriedade da Court Street.
- Oh, sim, lugar agradvel, mas tambm muito no centro da cidade. - Ele abriu os mostrurios de tintas e considerou as escolhas dela. - Este  o tipo de tom que 
deve usar neste quarto. Verde-escuro.  rico e tranqilo.
Julia concordava.
- Entende de decorao de interiores, Murdoch?
- Depois de passar tanto tempo reformando casas, acabamos adquirindo idias para os trabalhos. - Os olhos, to ricos, profundos e verdes quanto a amostra de tinta, 
se prenderam aos dela. - E quando se despende tempo, esforo e criatividade restaurando uma casa e os donos estragam tudo com cores e moblias inadequadas, ficamos 
furiosos. 
Droga, concordou ela outra vez. Aquilo estava se tornando perigoso.
- Como est seu pai?
- Recuperando-se. - Mas uma sombra de preocupao cruzou os olhos de Cullum. - Nunca o vi ficar tanto tempo com um resinado. Ele disse que foi ao mdico. O doutor 
lhe deu uma receita e ordens para repousar durante mais uma ou duas semanas.
- Bastante sensato. - Como entendia muito de amor e preocupao com a famlia, Julia pousou uma mo sobre o joelho de Cullum. - Ele vai ficar bem.  um homem resistente.
- Ele vive dizendo que est ficando velho. Droga, e s tem 60 anos.
- Michael est apenas sentindo pena de si mesmo. Fao o mesmo quando eu estou doente. - Ela deu-lhe um aperta reconfortante no joelho. - No se preocupe.
- Ele perguntou por voc e pelo projeto. - Julia o presenteou com um belo sorriso, o que era raro. Cullum se descobriu com vontade de prolong-lo. - Fez alguns comentrios, 
dizendo que viria at aqui para assumir a direo dos servios, mas no est se sentindo capaz.
- No vamos aborrec-lo com isso. Estou certa de que podemos restaurar a casa juntos, sem que um de ns encerre o outro atrs de uma parede no poro.
- Podemos tentar. - Cullum deslizou um dedo sobre a panturrilha de Julia, viu os olhos dela se alargarem e curvou os lbios num sorriso.
- Mantenha suas mos afastadas, demolidor.
- A sua est no meu joelho - observou ele, batendo-lhe de leve na mo.
Irritada, ela a afastou depressa.
- Isso  o que d tentar ser agradvel. Saia da minha cama.
- No estou deitado na sua cama - replicou ele - Estou apenas sentado sobre ela. E, para falar a verdade, at agora isso no havia me ocorrido. Voc acaba de me 
mostrar um mundo novo e cheio de possibilidades.
- Murdoch, o dia em que voc deitar em minha cama ser o dia em que construiro bonecos de neve no inferno.
Cullum no soube o que o fez agir daquela maneira, se ego ou desejo. Talvez fosse uma mistura de ambos. Mas se inclinou at suas faces ficarem bem prximas, o olhar 
preso um no outro e as bocas a milmetros de distncia.
- Quer apostar?
Julia ouviu o sangue rugir como um oceano no alto de sua cabea e seu orgulho estremeceu pelo fato de, mesmo por uma frao de segundos, ter se sentido excitada. 
Tentada.
- Ao contrrio de voc, no fao apostas sobre sexo. E ao contrrio de voc, no posso considerar a hiptese de ficar na horizontal com algum que mal posso tolerar 
quando estamos na vertical.
Cullum se sentiu satisfeito apenas por ter visto aquela chama rpida de interesse nos olhos femininos. Dando de ombros, ergueu-se da cama.
- Gosto de suas pernas, MacGregor. Elas so definitivamente top de linha.
Ele se afastou, deixando-a jurando que cobriria cada centmetro do seu corpo toda vez que aquele homem estivesse por perto.
- E, ento, ele tentou apostar comigo que eu dormiria com ele.
Dois dias depois, Julia ainda estava furiosa com aquilo. Caminhava pelo quarto, enquanto sua prima Laura acalantava o filho de trs meses no colo.
- Ele est apenas tentando irrit-la. Satisfeita pelo pequeno Daniel estar alimentado, seco e dormindo, Laura resolveu coloc-lo no bero porttil que Julia j havia 
montado perto da janela. - Ele sabe como  fcil.
- No me irrito com facilidade - corrigiu Julia. - Exceto com Cullum Murdoch.
- Exatamente. Apenas o ignore, Julia. Voc disse que ele est fazendo um excelente trabalho. Considere os fins, ignore os meios.
- Tem razo. Voc tem toda razo. - Julia fechou os olhos, ordenado-se a ficar calma. O som do trabalho em curso fora amortecido pela porta do quarto fechada. Agora, 
procurava mant-la fechada o tempo todo. - Faz de conta que ele no existe. Pronto. - Ela abriu os olhos novamente e sorriu. - Foi. Eu o enviei no trem da pestilncia 
para o limbo.
- timo. - Laura mordeu o lbio e olhou para o filho que dormia pacificamente. - Tem certeza de que pode fazer isso? Ficarei umas duas horas. Trs no mximo, mas...
- Claro que posso. E estou louca para t-lo s para mim. - Julia roou a ponta dos dedos nos cabelos escuros e macios de Daniel. - Ele est to bonito, Laura, e 
bem crescido.
- Eu sei. Detesto ficar longe dele nem que seja por um minuto. Sei que preciso resolver a questo da bab. Mas c to difcil! No tinha idia de que seria to trabalhoso.
- Voc  uma mame maravilhosa e Royce um excelente pai.
- Daniel ajuda. Ele  o melhor beb do mundo. - A prima suspirou e estremeceu. - Certo, certo, ele ficar bem com a tia Jules. Eu trouxe tudo o que ele precisar. 
No deve acordar com fome, mas h leite de peito em uma mamadeira se for necessrio. Provavelmente, vai dormir at quase a hora de eu voltar. Deixei fraldas, o ursinho, 
o telefone do Palcio da Justia... - Laura se esforou para no roer as unhas. - ...duas mudas de roupa e os nmeros do meu bip e o do Royce. Voc sabe que ele 
gosta de ser embalado quando...
- Laura. - Ela teve que rir. - Prometo que no vou vend-lo aos ciganos enquanto estiver fora.
- Estou obcecada. - Laura esboou um sorriso. - Vou parar com isso. Agradeo sua boa vontade em cuidar dele para mim esta manh.
- Ser um prazer. No tenho nenhum compromisso, logo, Daniel e eu faremos companhia um ao outro at voc voltar.
Passaram-se outros dez minutos, mas Julia, por fim, conseguiu colocar Laura porta afora. Ento, esfregando as mos, caminhou at o bero.
- Enfim ss, meu anjo. Espero que no durma a manh toda.
Duas horas mais tarde, Julia lamentou aquelas palavras amargamente. O anjo estava gritando como uma gralha. Tentara lhe dar a mamadeira, o urso, embal-lo, caminhar, 
cantar. Nada funcionava. A pequena e adorvel face continuava vermelha e furiosa, enquanto a criana exercitava seus pulmes a todo volume.
- O que est fazendo? Batendo no menino?
Com Daniel no colo, ela girou nos calcanhares e rosnou para Cullum quando a porta se abriu.
- Sim,  um dos meus passatempos favoritos, especialmente quando eles so pequenos e indefesos bebs. V embora! Vamos, querido, fique quietinho.
- Ele no est molhado?
- No, ele no est molhado! Pareo alguma idiota? - Com a mo direita, Julia afastou os cabelos dos olhos. - Ele no quer a mamadeira, no quer ser embalado e j 
andei o equivalente daqui at Oklahoma, mas no ajudou.
- Vejamos... - Cullum revirou os olhos quando ela afastou o pequeno Daniel para longe dele, em uma atitude defensiva.
- Ora, Jules, no deixo um beb cair a pelo menos dois meses.
- Venha c, garoto. - Ele retirou a criana dos braos exaustos de Julia. - Qual  o problema, companheirinho?
Julia piscou vrias vezes perante a cena inusitada. Um homem alto, com cabelos castanho-dourados desalinhados, um cinto de ferramentas caindo-lhe pelos quadris estreitos, 
uma camisa de trabalho desbotada com as mangas enroladas at os cotovelos dos braos bem constitudos e um pequeno beb no colo.
- Talvez sejam dentes. 
- Como sabe?
- Porque tenho trs sobrinhas, graas  minha irm, e todas elas tm dentes. Sua prima trouxe algo para ele mastigar?
- Laura trouxe tudo. Vou olhar.
Enquanto Julia procurava, Cullum ofereceu a Daniel a junta do seu dedo. De imediato, o beb comeou a roer.
- Se as suas gengivas estivessem inchadas desse jeito... - disse ele - ...voc estaria chorando, tambm.
- Achei! - Extenuada, ela ofereceu um anel de dentio azul  criana. Quando Cullum colocou o objeto na boca de Daniel, o choro cessou. Com a face molhada pelo 
pranto, o pequeno menino emitia apenas um fraco soluo.
- Est melhor agora, no ? - murmurou Cullum, deslizando a ponta dos dedos atravs da bochecha rosada. Seus olhos profundamente verdes exibiam um brilho caloroso, 
ao mesmo tempo em que ele sorria para o beb. - Deus, como  bonitinho!
- Gosta de bebs?
- E como no gostar? - Ele jogou o beb para alto, fazendo o corao de Julia quase parar. Daniel murmurou o comeo de um risinho. - Voc tem que distrair o pensamento 
dele das gengivas - disse Cullum, conseguindo arrancar risadinhas da criana. - Quer ir l embaixo ver os sujeitos trabalhando, campeo?
- Voc no pode descer com ele. O p e o barulho podem ser prejudiciais.
Ainda sorrindo para o menino, Cullum meneou a cabea.
- Mulheres! Sempre preocupadas com o p. Ele vai gostar. Bebs gostam de movimento e som. Isso os estimula. Ele empoleirou o beb no quadril. - Depois vamos at 
 cozinha almoar. Uma cerveja e um sanduche de almndegas.
Julia no pretendia sorrir, mas no resistiu. Os dois a fitaram, o beb com os olhos arregalados e o homem com os olhos frios.
- Est bem, talvez s por alguns minutos. Mas ele no pode manejar a serra eltrica.
- Garoto danado. - Cullum estalou um beijo no topo da cabea de Daniel.
- Voc vem, ou confia em mim sozinho com ele?
- Confio em voc, mas vou assim mesmo. - Ela prendeu um babador no peito do menino. - Ele baba muito - explicou.
- O que  um pouco de saliva entre homens de verdade?
- Cullum, eu... - Julia hesitou, sem perceber a expresso de surpresa no rosto dele. Jamais o chamara pelo primeiro nome. - Gostaria de lhe agradecer. Estava a ponto 
de arrancar meus cabelos.
- E que belos cabelos! - disse ele varrendo-os com o olhar. - Seria uma pena. Venha - chamou, oferecendo-lhe a mo. - Vamos ver o que a criana acha dos trabalhos.
Antes que ela pudesse pensar, sua mo estava na dele. E, ento, lhe pareceu um gesto muito rude afast-la.
- Est fazendo um excelente progresso. Acha que poderemos comear a sute principal na semana que vem?
- Esse  o plano. - O barulho aumentou  medida que desciam os degraus.
- Vou retirar a moblia durante o fim de semana e guard-la no quarto sob o corredor.
- Ns faremos isso. O rapaz que assenta os azulejos quase terminou o toalete feminino aqui embaixo. Sei que no era prioridade, mas ele estava disponvel e, como 
voc gostou do trabalho dele, quis contrat-lo, antes que ele comeasse outro servio.
- timo. Irei dar uma olhada.
- J decidiu sobre a cor e o material para as bancadas da cozinha?
- Sim, ontem mesmo. A fita com as anotaes est l em cima.
- Eu podia apostar que sim. O que escolheu?
- Ardsia azul, azulejos quatro polegadas, gesso azul-marinho.
- Nada mal. - Ficar formidvel.
- Cullum. - Um dos carpinteiros veio at a sala de estar expandida. - Quer dar uma olhada nisto antes de pregarmos?
- Sim, j vou.
- Agora, deixe-me segur-lo - pediu Julia. Seus braos se roaram ao passarem o beb de um colo para o outro. - V em frente, ficaremos assistindo a uma distncia 
segura.
Cullum deu um pequeno piparote no nariz de Daniel,
- No se esquea da cerveja e das almndegas, camarada! - dizendo isso, se afastou. 
- Bem, isso foi inusitado, no ? - murmurou ela, posicionando a criana para descansar contra seu ombro - Quem imaginaria que um homem to impertinente poderia 
ser to doce com um beb?
Batendo de leve nas costinhas de Daniel, ela se dirigiu  entrada. A parede havia sido derrubada, a sala parecia mais ampla e cheia de luz. E cheia de homens, barulho 
e ferramentas.
Nada a agradava mais do que contemplar as etapas de uma obra. Entrar em uma casa perfeita, que no precisasse de reparos ou uma boa reforma no a agradava. Era muito 
mais gratificante olhar um espao e ponderar as mudanas que poderiam ser feitas para melhor-lo. Colocar mos  obra e assistir ao passo a passo dessas mudanas 
Sendo realizado.
Panos velhos recobrindo o cho, cavaletes segurando as tbuas prontas para serem cortadas, segundo o tamanho especifico. Os pedreiros ajoelhados no piso da lareira, 
aperfeioando a argamassa das pedras.
Cullum estava parado junto  nova abertura, conversando com dois homens. Tinha as mos nos bolsos da parte de trs da cala como se discutissem a posio da arcada 
que ligava as salas.
Ele deu uma risada, um som msculo que reverberou pelo recinto.
Msculo, pensou Julia sentindo uma rpida emoo. Era o modo mais perfeito de descrev-lo. Sua mo era dura, spera, com calos e cheirava a serragem e suor. Os msculos 
dos braos eram esguios, mas bem definidos devido ao uso.
E o modo como o jeans se ajustava queles quadris estreitos era... simplesmente delicioso.
- Oh, meu Deus! - ela deixou escapar. O que estava fazendo? Reparando no modo como o jeans dele lhe ficava bem? E o fato de ele possuir um anel dourado circundando 
as pupilas no centro daquelas ris profundamente verdes tambm no lhe dizia respeito. No estava nem um pouco interessada em Cullum como homem. Ele era apenas um 
trabalhador que ela contratara para executar um servio.
Nesse instante, ele se virou, curvou os lbios num sorriso oblquo e piscou para o beb.
O corao de Julia acelerou dentro do peito.
Ento, ela agradeceu a Deus por no ter aceitado aquela aposta.


Vinte e Trs

O dia de Julia comeara com uma palestra matutina na Associao de Mulheres de Negcios de Boston. Certa vez fora convidada como conferencista em um foro de Cincias 
Polticas em Harvard. Naquela noite, seria a oradora do jantar em uma conveno de bens imobilirios.
No se importava em fazer discursos. Afinal, era apenas falar e emitir opinies. Sempre se considerara boa em ambas as coisas. Os oito anos que passara como primeira 
filha lhe proporcionaram intenso treinamento no trato com pessoas, multides e mdia.
Aceitava tais eventos vrias vezes ao ano e tentava agrup-los em um ou dois dias.
Tinha a agenda lotada, mas, no finalzinho da tarde, encontrava-se pesquisando as lojas de antiguidades  caa de maanetas. No ficara satisfeita com as ferragens 
atualmente disponveis no mercado. Seu novo plano era procurar variedades. Todas as portas da casa teriam um look diferente e sem igual at o trmino da obra.
Embalou algumas peas de metal, madeira, vidro e acrlico. Entre elas, puxadores e maanetas com formas e texturas maravilhosas. Quando terminou, j contava com 
mais de trs dzias de remates de porta diferentes em uma caixa e alguns j estavam rotulados com o local exato onde seriam colocados.
No caminho para casa, passaria pela Murdoch & Sons. Sabia como Michael Murdoch gostava de um bom papo. E poderia entret-lo, ver com seus prprios olhos como ele 
estava se sentindo e deixar as ferragens l. Tudo isso em uma curta visita.
Quando chegou s proximidades do aristocrtico bairro de Beacon Hill, dirigiu atravs do centro industrial, por entre casas, edifcios baixos e enormes caminhes. 
Usava a buzina e acenava ao passar por pessoas conhecidas. Ento, parou em frente  Murdoch e ficou contente ao ver que a velha picape Chevy de Michael se encontrava 
no pequeno estacionamento ao lado da firma.
Suspendeu a caixa, reclamando um pouco do peso. Ainda estava usando o terninho que vestira para o evento pblico, o que deu aos homens do recinto a oportunidade 
de emitir os assovios obrigatrios. Julia levava na esportiva. Conhecia a maioria dos operrios pelo nome, j trabalhara com muitos deles antes.
A recepo era pequena e confortavelmente informada. Comandando a antiga escrivaninha de metal, havia uma mulher que usava um lpis nos cabelos, uma camiseta com 
o logotipo da Murdoch & Sons e que exibia um sorriso ligeiramente afetado nos lbios.
- Julia, do jeito que est vestida, nem parece que estamos em um dia fresco e ensolarado.
- Oi, Meg. Muito trabalho?
Revirando os olhos, Meg atendeu o insistente telefone.
- Murdoch & Sons, um momento por favor. - A mulher deixou escapar um pequeno suspiro enquanto apertava o boto de espera. - O negcio est indo bem. O que significa 
que at sonho com a campainha do telefone. Posso ajud-la? 
- Trouxe algumas coisas e gostaria de mostr-las a seu chefe. - Julia exibiu a caixa. - Ele est livre?
- Para voc? Est brincando? V at os fundos.
- Obrigada. Como ele est passando?
- Ainda se movimentando com certa dificuldade, mas logo estar bom.
V-la o far recuperar-se mais depressa. Vou informar, para dizer a ele que voc est a caminho.
- timo. No vou cans-lo muito - prometeu Julia trocando a caixa de lado novamente e se dirigindo ao curto corredor que conduzia aos escritrios.
Ficou surpresa ao encontrar a porta de Michael fechada. Portas abertas faziam parte do estilo dos Murdoch. Preocupada, conseguiu livrar uma das mos e bateu. A preocupao 
se transformou em aflio quando a porta se abriu. 
Michael estava corado, aparentando estar um pouco frio e mido. Afinal, tivera que se apressar quando Meg interfonou. O cachorro-quente que havia pedido s escondidas 
e estava a ponto de desfrut-lo fora empurrado para dentro de uma gaveta do arquivo, juntamente com uma garrafa de refrigerante. O joguinho eletrnico que pedira 
emprestado  neta, bem como uma generosa fatia de bolo de chocolate, tambm haviam sido escondidos.
Tais coisas no combinavam com a imagem de um homem velho e doente, pensou.
- Julia. - No precisou fazer sua voz soar ofegante e fraca. Os nervos fizeram isso por ele. - Fico feliz que tenha vindo me ver.
- Sr. Murdoch. - Imediatamente preocupada, Julia pousou a caixa na escrivaninha e o segurou pelas mos. Parecia febril e trmulo. - Deveria estar em casa e na cama.
- Oh, estou bem. Muito bem. - Ele acrescentou com uma tosse rpida e ofegante que julgou providencial. - Estou melhorando, querida. Antigamente, essa estpida congesto 
peitoral no teria me deixado assim.
- Pensei que fosse uma congesto nasal. 
Oh, inferno, pensou Michael.
- J passou para o meu trax. Bem, vamos sentar. - Julia segurou-o pelo brao e o conduziu at uma cadeira. Por um momento, teve a impresso de sentir o cheiro de 
cebolas, mas dispersou tal pensamento.
- Mas conte-me. Como o meu garoto est se saindo? - falou Michael aps suspirar profundamente.
Julia tinha algumas queixas, principalmente sobre o fato de Cullum ainda continuar a questionar-lhe todas as escolhas e exigncias. Mas em vez disso, sorriu.
- O projeto est de vento em popa.  claro que eu preferia que voc estivesse  frente das obras, moo bonito.
Michael riu e apertou a mo dela. Um homem no podia desejar uma nora mais perfeita, nem sendo escolhida a dedo, concluiu. E  claro que tinha sido.
- Cullum  um timo profissional.
- Bem, por certo, foi treinado pelo melhor dos mestres. Michael sorriu ao ouvir o elogio.
- Voc vai virar minha cabea. Agora, diga-me, o que tem a dentro dessa caixa?
- Tesouros. Oh, estou to animada, sr. Murdoch! Estive caando maanetas.
- Bem, vamos dar uma olhada. - Michael aproximou-se com os olhos iluminados.
Durante vinte minutos, ambos se divertiram com os brinquedinhos novos, especulando sobre a idade e a histria das peas e discutindo as escolhas das portas que os 
remates adornariam. Julia alegremente trocou as etiquetas de algumas e acrescentou outras.
- A porta do meu quarto  feita de um maravilhoso carvalho antigo. Uma das poucas peas originais que restaram na propriedade, depois que aqueles camponeses que 
moraram l por ltimo se foram. Voc viu como eles pintaram as molduras?
- Um crime, um pecado. - Michael acenou com a cabea tristemente.
- Cullum lhe contou que eles puseram linleo sobre o piso de pinho original da cozinha? - O simples pensamento sobre o assunto a deixou irritada. - Estava pssimo, 
 claro, mas vai ficar timo. Deslumbrante. - Ela acenou uma das mos. - E, por falar nisso, no acha que esta maaneta de vidro com entalhe vertical vai ficar perfeita 
na porta do quarto de dormir?
- Sem dvida!
Julia curvou os lbios num sorriso.
- Adoro combinar as coisas com algum que concorda comigo. Oh, Deus, olhe as horas. Tenho que ir para casa trocar de roupa.
- Vai sair hoje  noite? - Uma leve sondada no fazia mal algum, pensou Michael. - Tem um namorado novo?
- Nenhum namorado novo, mas tenho um jantar s sete e meia.
- Por que no deixa as maanetas aqui e eu entrego a caixa a Cullum? Ele cuidar disso para voc.
- timo! Mal posso esperar para v-las nas portas. - Ela se curvou para beijar-lhe a face. - E voc cuide-se, sr. Murdoch. Eu o quero danando na minha festa de 
fim de ano.
- Estarei l.
Michael sentou-se enquanto ela saa e sorriu. Algo comeou a se delinear em sua mente. Cauteloso, ergueu-se e fechou a porta. Em seguida, se dirigiu ao arquivo e 
retirou o jantar da gaveta. Comeria enquanto combinava com Daniel MacGregor os detalhes do seu mais recente plano.
- Maldio de mulher exigente, impaciente e irritante - murmurou Cullum, enquanto alinhava uma maaneta de vidro na porta. Julia fora inteligente de ir falar com 
o pai dele primeiro, porque, se em vez disso, o tivesse procurado, a teria feito enxergar a realidade.
Que diabos ela estava pensando? Planejar uma festa, com a casa daquele jeito?
At que seria engraado, ver a multido de amigos dela vagando ao redor dos plsticos de proteo contra tinta, comendo canaps e fazendo comentrios sobre o reboco 
inacabado dos tetos.
E ela queria que as malditas maanetas estivessem no lugar.
Nunca se importara de ter que trabalhar at tarde. Tampouco de ter que fazer trabalhos de perfurao aps o horrio de expediente, mas no gostava de se sentir pressionado.
No tivera outra escolha seno concordar em pegar a caixa, vir at a casa de Julia enquanto ela estava fora e colocar as maanetas. No com o pai, aparentando estar 
to debilitado, lhe pedindo que agradasse um de suas melhores clientes.
Se estiver muito ocupado, posso ir at l e cuidar disso pessoalmente, filho.
- Claro - sibilou Cullum entre dentes. - Como se eu fosse mand-lo para c, trabalhar s nove horas da noite para piorar do resfriado.
J eram quase 11 horas e ele j tinha o servio quase concludo. Seu mau humor aumentava a cada porta que checava. No importava que achasse o fato de Julia adquirir 
maanetas antigas para a casa uma excelente idia. Seus mtodos  que o irritavam.
Julia MacGregor era uma mulher mimada, arrogante e egocntrica, pensou ele outra vez. Mas afinal, sempre pensara assim. Fora estpido em imaginar que talvez pudesse 
haver algo mais naquela cabea. O modo como ela segurara o beb, como sorria com seus funcionrios ou trazia caixas de rosquinha e garrafas de caf para lhes oferecer 
o enganaram. Ela aprendera, tambm rapidamente, seus nomes, e sempre encontrava tempo para elogi-los.
Mas tratava-se apenas de politicagem, concluiu.
Nesse instante, ele ouviu a porta da frente se abrir e sorriu. Ento, a moa festeira estava de volta ao lar. Esperava que ela tivesse se divertido, porque agora 
ouviria o que Cullum Murdoch pensava dela.
Mal havia alcanado o topo dos degraus quando ouviu o som de vozes no foyer. Julia estava acompanhada de um homem. Aquilo o fez curvar os lbios num sorriso zombeteiro. 
Trazendo um dos amiguinhos para casa, sups. Ento, se moveu para frente com cautela de modo a no ser visto.
- Tod, estou realmente cansada. Tive um dia longo.
- No vai me mandar embora sem ao menos uma bebida. Julia suspirou e tentou no ser aborrecida. Sara com Tod algumas vezes durante seis meses. E tinha vergonha 
de admitir que suas principais qualidades eram parecer maravilhoso em trajes formais e ter a capacidade de se manter bem-humorado at mesmo na mais enfadonha das 
reunies de negcios.
S por esse fato, Julia se sentiu na obrigao de lhe oferecer uma bebida.
- Certo. - Ela retirou o xale, revelando o sedoso e brilhante vestido de noite preto por baixo. - O que gostaria de beber?
- Na realidade, eu gostaria... - Tod se moveu devagar, deslizou os braos ao redor da cintura dela e beijou-a, antes que ela pudesse deixar clara sua falta de interesse.
Julia no protestou e tampouco correspondeu. J havia descoberto, para sua decepo, que beijar Tod no fazia sua pulsao acelerar. Era at agradvel, mas ler um 
bom livro tambm era.
- Oua, j lhe disse que estou cansada...
- Ento, vou despert-la um pouco. - Tod acariciou-lhe as costas, onde duas tiras finas de tecido se cruzavam sobre a carne. - Tenho pensado muito em voc, Julia, 
querida.
- Sinto muito.  que...
A irritao e alguns sinos de alarme amortecidos tomaram conta do crebro de Julia. O abrao e a boca de Tod se tornaram duros e exigentes. Ela ergueu os braos 
para repeli-lo e, ento, sentiu a palma das mos dele apertando-lhe as ndegas. Irritada, ela o empurrou.
- No.
- Julia. - Ainda sorrindo, o rapaz comeou a brincar com as alas do vestido dela. - Vamos parar de joguinhos.
Ela rangeu os dentes quando as pontas dos dedos de Tod deslizaram ao longo de um dos seus seios.
- Que parte voc no entendeu? Ele parou de sorrir.
- Olhe, voc tem me enrolado ao longo de todos esses meses. Fui paciente, mas agora estou cansado de esperar.
Os olhos dela se estreitaram e flamejaram.
- Oh, bem, nesse caso, devo me deitar e permitir que faa o que est com vontade. Como fui ridcula de pensar que o sexo pudesse fazer duas pessoas ficarem interessadas 
uma na outra.
- Voc sabe muito bem que est interessada. No vai me dizer que usou este vestido hoje  noite para impressionai um grupo de corretores de imveis.
Aquilo bastou. Julia se virou, caminhou at a porta e a abriu.
- No, no foi para impression-los. Usei porque gosto dele. E, pelo que sei, as mulheres so livres para se vestir do jeito que quiserem. Agora, eu o aconselho 
a partir, antes que eu faa o que realmente estou com vontade de fazer, que  lhe dar um murro na cara.
- Voc  mesmo uma cadela fria e insensvel - murmurou Tod ao passar por ela.
Julia bateu a porta e fechou os olhos ao mesmo tempo em que ofegou.
- Que petulante!
- E eu que pensei que ele fosse um sujeito legal.
Os olhos dela se arregalaram e a raiva que sentia s aumentou com o embarao ao ver Cullum descendo os degraus.
- Que diabos est fazendo na minha casa?
- O meu trabalho. - Quando percebeu que ainda tinha o punho fechado, o punho que pretendia desferir na cara de Tod, caso o sujeito no a soltasse, relaxou-o. Julia 
havia controlado a situao como uma campe, pensou ele. Agora que podia ver o quanto estava trmula, admirava ainda mais o seu estilo. - Esse vestido mata um - 
disse ele, esperando acalm-la.
A espinha de Julia enrijeceu.
- V para o inferno!
- Ei. - Cullum pousou uma das mos no brao dela, antes que ela pudesse escapar. A preocupao aprofundou o tom de sua voz e a cor de seus olhos. - Desculpe pela 
brincadeira. Sente-se, Jules. Voc est tremendo.
- Estou furiosa.
- No se culpe. Ele foi um idiota, mas voc controlou tudo muito bem.
A humilhao se aliou  raiva.
- Voc gosta de uma confuso, no , Murdoch?
- Olhe, sinto muito por ter sido a platia nesse pequeno show, mas a culpa foi sua.
- Oh,  mesmo? - Julia no precisava se esforar muito para transferir toda a raiva que sentia de Tod para Cullum. Ela espetou um dedo no trax dele, rijo o bastante 
para faz-lo se desequilibrar para trs. - E suponho que pense que qualquer mulher que se arrume um pouco mais esteja procurando por isso. No minuto em que ela coloca 
perfume, est realmente dizendo "Possua-me, homem selvagem".
- No estou falando sobre a droga do vestido, estou falando sobre as malditas maanetas.
- Maanetas? - Quase perdendo a pacincia, Julia deslizou os dedos por entre os cabelos. - Qual de ns dois est perdendo o juzo? Eu ou voc?
- Foi voc quem quis que eu colocasse as maanetas esta noite. - Os olhos dele exibiam um brilho de raiva. - Voc  que veio das compras e foi se lamentar com meu 
pai sobre uma festa ridcula que pretende dar. Acha que gosto de ficar trabalhando at quase meia-noite?
Julia pressionou as tmporas com os dedos, nem um pouco surpresa pela dor de cabea que se instalara l. Ento, baixou as mos outra vez.
- Espere. Fui ver seu pai hoje  tarde. Queria saber como ele estava passando. Eu tinha comprado algumas antiguidades e levei as maanetas para que pudssemos escolh-las 
e rotul-las, juntos.
- E a conseguiu convenc-lo a adiantar os trabalhos para poder dar a sua festinha.
- Que festinha? - Ela ergueu as mos. - No vou dar festa nenhuma. Como posso dar uma festa com a casa nesta baguna? No sei do que... - Julia deu alguns passos 
lentos e fechou os olhos. - Oh, j sei. Olhe, preciso de uma aspirina.
Sem esperar para ver se ele a seguia, dirigiu-se  cozinha, proporcionando a Cullum a enlouquecedora viso de suas costas nuas e quadris esbeltos. O vestido matava 
um... Certo, pensou, ressentido. Pois ele o estava matando.
Julia achou um vidro de aspirinas no armrio, encheu um copo com gua e engoliu trs comprimidos.
- Certo, houve um engano. Levei as maanetas e disse algo sobre mal poder esperar para ver como ficariam nas portas. Mas no quis dizer que no podia esperar. Voc 
sabe o que eu quero dizer.
Carranqueando, Cullum acenou com a cabea.
- Entendi.
- E mencionei uma festa. Estou planejando inaugurar a casa com uma festa. Mas no at a vspera do ano-novo. No especifiquei uma data. Apenas disse que queria v-lo 
bom na minha festa. Ele deve ter confundido tudo.
No era do feitio de seu pai confundir detalhes. Entretanto, Cullum era forado a admitir que havia um ms o pai no parecia o mesmo.
- Certo, j entendi. Mal-entendidos,  s.
- Sinto muito por t-lo feito vir at aqui hoje  noite.
- At que no deu tanto trabalho assim. Coloquei algumas maanetas no lugar. Quer dar uma olhada? 
Ela esboou um sorriso.
- Claro!
- Que tal aquela l? - Cullum apontou o dedo polegar em direo  porta da cozinha e teve que rir ao ouvir um pequeno suspiro de prazer escapar dos lbios dela.
- Oh, est perfeito! Eu sabia que as maanetas esmaltadas tinham sido feitas para esta porta. - Julia se aproximou para admirar a pintura delicada dos sininhos azuis 
em um fundo branco esmaltado. - Amo esses pequenos detalhes. Isso  o que faz uma casa especial.
- Sim, tenho que admitir que funciona. - Cullum se curvou para estudar a maaneta mais de perto e ela se endireitou. De repente, ambos ficaram face a face, olhos 
nos olhos. Prximos o bastante para Julia ver o fascinante anel dourado ao redor daquelas ris verdes e sentir o sangue correr mais rpido nas veias.
Seu corao disparou.
- Eu... queria lhe agradecer por ter feito o servio.
O perfume feminino estava confundindo o crebro de Cullum.
- Como j lhe disse, no deu tanto trabalho assim. - Cus, como desejava aquela boca e o resto tambm, pensou ele. Ento, tentou se recordar de como ficara enojado 
com episdio de Tod. Mas aquela boca parecia to macia, to generosa, to tentadora! -  melhor eu ir embora.
- Sim. - Julia tinha a garganta quente e seca com o desejo. O que estava havendo de errado com ela? A presso aumentava em seu trax. Ambos continuavam de p, sem 
encostar um no outro, mas ela no conseguia fazer com que o ar lhe chegasse aos pulmes.
- Vou lev-lo at a porta.
- Conheo o caminho.
- Est bem.
Os dois se moveram abruptamente e, de alguma maneira, seus lbios se encontraram e suas bocas se enroscaram. Uma onda de calor os atingiu, espalhando-se como um 
fogo selvagem, enquanto seus dentes e lnguas se tocavam. O fsico rijo e msculo de Cullum pressionou as curvas luxuriantes de Julia contra a porta. Ela arqueou 
o corpo para frente, desejando que o contato entre eles se tornasse ainda mais ntimo.
As mos fortes e vidas de Cullum cariciaram-lhe as laterais dos seios at senti-los excitados.
Julia estava ocupada afagando os fios dourados daqueles cabelos maravilhosos.
- Isso  loucura... - murmurou ela com a respirao acelerada e ofegante.
- Insano - concordou ele deslizando a lngua ao longo do pescoo delicado, desesperado para sentir o gosto daquela pele macia. Julia tinha o cheiro da chama quente 
do pecado, pensou.
- Cullum, no podemos fazer isso.
- Eu sei...
Ela enrascou os dedos nos cabelos dele ao mesmo tempo em que o puxava de encontro  boca a fim de fundir seus lbios uma vez mais. Beijaram-se com avidez at ambos 
ofegarem e se afastarem.
- Isto no est acontecendo e no pode dar certo. - Julia precisou se segurar na porta ou simplesmente cairia no cho completamente sem foras.
- De modo algum pode dar certo. - Cullum desejava, de modo selvagem, tocar aquele corpo feminino sob a maciez da seda preta.
- Isto  apenas um lapso temporrio.
- Certo. - Ele recuou um passo, mas no conseguia tirar os olhos da face de Julia. -- Eu a quero, Jules, quero de verdade.
- Oh, inferno! - Ela levou a mo ao peito, onde seu corao batia acelerado. - Precisamos pensar em outra coisa. Qualquer outra coisa. - Cus, por que no conseguia 
respirar?, perguntou-se - Oua, ns nem mesmo gostamos um do outro, Cullum.
- Isso no est me preocupando no momento. Mas, sim,  verdade. - Julia tinha a face corada, os olhos enevoados. E, ele percebeu com choque e embarao, que seus 
joelhos estavam trmulos. - Se fizermos o que estamos pensando em fazer agora mesmo, de fato amanh estaremos nos odiando.  claro que me sinto na obrigao de realar 
que ainda temos algum tempo at amanh de manh.
Julia ficou grata por ainda poder sorrir.
-  melhor pararmos. Deve ter sido a tenso, os hormnios ou seja l o que for - Sem deixar de fit-lo, ela se afastou da porta, dando-lhe espao para sobreviver. 
- Provavelmente vai passar.
- Podemos esperar. - Cullum comeou a abrir a porta. Deus sabia que ele precisava de ar e espao. - E se no passar, Julia?
- No sei.
Ele a estudou por mais um momento, desejando saber se havia possibilidade de ela estar to confusa e excitada quanto ele.
- Nem eu - decidiu Cullum afastando-se rapidamente.
Vinte e Quatro
Julia arrumou dzias de coisas para se manter ocupada e afastada de Cullum durante as semanas seguintes. O outono havia se instalado na Nova Inglaterra com seu excepcional 
estilo. As rvores exibiam uma exuberante colorao avermelhada e, quando atingiam o apogeu, a brisa adquiria uma temperatura que anunciava a chegada do inverno
Ela procurava propriedades, fazia ofertas. Passava no escritrio do primo, visitava Laura, a tia e o tio e almoava com amigos. Fazia compras, vasculhando as lojas 
em busca de presentes de Natal e artigos para bebs. Sua prima Gwen estava grvida de trs meses. O enorme so bernardo de pelcia era a desculpa perfeita para passar 
pela casa que ela, Gwen e Laura haviam compartilhado.
Ao chegar, encontrou Gwen em casa, concentrada nos livros de receitas.
- O que est fazendo?
A prima sorriu meio sem jeito e deslizou a mo nervosa pelos cabelos ruivos com reflexos dourados. 
- Acho que est na hora de eu aprender a cozinhar. Pelo menos a fazer um ou dois pratos bsicos.
- Dra. Blade... Oops! Dra. Maguire. - Julia se sentou  mesa. - Por qu?
- Bem, terei trs meses de licena-maternidade. Vou ficar em casa. Devo... - ela gesticulou vagamente - ...fazer as tarefas domsticas.
- Branson se importa se voc sabe preparar um bolo de carne?
- No, claro que no. Mas eu me importo.  a coisa mais estranha. - Gwen deslizou uma das mos pelo ventre um pouco estufado. - Suponho que faa parte de todo o 
processo da gestao. Em todo caso, sou uma cirurgi, uma dentista, por certo, posso calcular a frmula bsica para, digamos... fazer um bolo de carne e obter um 
produto comestvel. - Descansando os cotovelos sobre a mesa, ela apoiou o queixo nas mos e sorriu para o enorme cachorro. - Gosto do seu novo animal de estimao.
- Eu tambm. Achei que minha sobrinha ou sobrinho adoraria tomar conta dele.
- Oh, que meigo, Julia! Eu lhe disse que estamos planejando fazer um tema animal no quarto do beb?
- No menos que dez ou quinze vezes. No h necessidade de perguntar como est se sentindo. Voc parece tima.
- Nunca estive mais feliz em toda minha vida e tive uma vida muito feliz.
- O trabalho no hospital no  muito cansativo?
-  o que eu quero. O que me abastece e me satisfaz. Quer um pouco de caf? Estou evitando a cafena, mas... 
- No, no quero nada.
- E voc? Como esto as obras da casa?
- De vento em popa. Meu quarto j ficou pronto. Ficou fabuloso! Ainda temos bastante servio pela frente, mas est fluindo bem. Agora, os homens esto trabalhando 
na cozinha.
Gwen inclinou a cabea, estudando a face de Julia.
- O que ?
- O que  o qu?
- O que est escondendo? Tem algo aborrecendo voc, posso ver. 
- No  nada. - Julia afastou-se da mesa e comeou a caminhar. -  bobagem. 
- No, se a estiver aborrecendo. - Na verdade, no estou aborrecida. Estou apenas surpresa. - Afinal, isso que a trouxera ali, admitiu Julia a si mesma, sentando-se 
outra vez na cadeira. - Voc conhece Cullum Murdoch? 
- Sim, claro.  o filho de um velho amigo do vov Trabalha com construo. A firma dele fez alguns servios aqui quando compramos a casa.
- Certo. Bem, ele agora  o empreiteiro-chefe do meu projeto. Nunca me dei muito bem com ele. Incompatibilidade de gnios, suponho.
- Ento por que o contratou?
- E uma longa histria e no  essa a questo. - Julia fez um gesto com os dedos descartando o assunto. - H duas semanas atrs estvamos sozinhos em casa, j era 
tarde, e... .
- Oh! - Gwen mordiscou os lbios. - Entendi.
- No, no entendeu. - Julia exalou um pesado suspiro. - Foi apenas uma atrao animalesca que no levamos a cabo. Ambos concordamos que seria um terrvel engano.
- Porque voc no quis ir em frente.
- Por isso e porque temos um relacionamento profissional. Adoro o pai dele.  mais um motivo. Se eu e Cullum acabssemos na cama para dar vazo a toda excitao 
que sentamos, no sei como eu enfrentaria o sr. Murdoch depois.
- Pelo que me recordo, o sr. Murdoch  um homem sensato que adora o filho. No posso imagin-lo chocado por vocs dois se sentirem atrados um pelo outro.
- Achar uma pessoa atraente no  uma licena para dividir os lenis com ela. - Julia exalou um suspiro. - Gwen, eu de fato queria dividir os lenis com Cullum.
- Ele  um homem decente?
- Decente? Bem, sim, suponho.
-  bem-humorado, inteligente e bondoso?
- Ele ... - Julia se recordou do modo como ele segurara o pequeno Daniel. - Sim. Mas, vira e mexe, estamos batendo cabeas. Ele  muito arrogante e teimoso.
- Oh... - Gwen no se esforou para disfarar o riso. -  claro. E voc  to flexvel e compreensiva!
- Comparada a ele, sou mesmo - disse Julia na defensiva e ento riu de si mesma. - Certo, isso talvez seja a raiz do problema. Ambos nos conhecemos e no temos nenhuma 
dificuldade em querer fazer valer nossas opinies sobre as dos outros. Ele pode ter razo vez ou outra. Mas na maioria das vezes estou certa. - Ela se curvou para 
frente. - Sabe, ele tem aquelas mos incrveis: grandes, speras e realmente fortes. No consigo parar de pensar nelas.
- E gostaria que elas estivessem presas aos braos de um homem mais cordato.
Julia comeou a concordar e ento argumentou consigo mesma.
- No estou to certa. Eu teria dito isso um ms atrs. Agora estou comeando a achar" abrasividade atraente. Sensual. Acho que preciso sumir por alguns dias,  
isso.
- Bem, no lhe far mal algum. Mas nunca conheci algum mais segura de si como voc. Ou mais disposta a se arriscar para correr atrs do que quer. Se acabar querendo 
ficar com Cullum, eu a aconselharia a tomar cuidado, se proteger e confiar em si mesma.
- Bom conselho. - Julia afastou os cabelos da face. Acho que  uma boa ocasio para eu ir visitar meus pais em Washington por alguns dias. Um pouco de distncia 
ser bom. E, de qualquer maneira, estou interessada em algumas propriedades por l e gostaria de conferi-las.
- Mande um beijo para os meus tios e... - Um sorriso cnico curvou os lbios de Gwen. - ...mantenha-me informada sobre o projeto Murdoch.
Era um bom modo de pensar sobre aquilo, pensou Julia enquanto estacionava em frente  sua casa. O projeto Murdoch. Era uma perita em projetos. Avaliava ngulos, 
lucros, perdas, esforos e tempo.
Era exatamente o que ia fazer, disse a si mesma em pensamento. Avaliaria os ngulos, calcularia o que poderia ganhar ou perder e o efeito que Cullum Murdoch causaria 
em sua vida.
E faria isso a uma distncia agradvel e segura.
Ela entrou, fez um aceno amigvel para alguns dos trabalhadores e subiu as escadas a fim de arrumar as malas.
Seria bom fazer aquela surpresa aos pais e ficar l por alguns dias. Havia quase um ano no passava um tempo com eles. No Natal, estariam, na maior parte do tempo, 
com os parentes ou, para ser exata, com toda a famlia. Seria mais uma algazarra do que uma visita.
Batendo o p no cho, ela contemplou o guarda-roupa. Adorava aquele closet, o espao e a organizao. Parecia-lhe muito mais prtico agora do que quando era um simples 
vestirio. Selecionou algumas roupas casuais, jaquetas esportivas, calas compridas, um vestido de jantar bsico e as estava levando para a cama, onde havia uma 
mala aberta, quando Cullum entrou.
Ele ergueu uma sobrancelha.
- Vai a algum lugar?
- Parece que sim. Acho que no o ouvi bater.
- Voc esqueceu de fechar a porta dessa vez.
- Oh! - Ela ps as roupas sobre a cama e caminhou de volta ao closet.
Cullum jamais imaginara que uma nica mulher pudesse ter tantas roupas. E sapatos... Mas ela no tinha apenas dois ps? Contudo, j havia expressado sua opinio 
sobre aquele assunto umas duas vezes e seria perda de tempo repeti-la.
- Para onde vai?
Dessa vez foi Julia que ergueu uma sobrancelha.
- Viajar.
- Por quanto tempo?
Ela esbarrou nele ao levar os suteres e as blusas para a cama.
- Desculpe-me, mas por que pensa que isso  da sua conta?
- Porque estamos no meio de uma restaurao importante. No quero que volte e se queixe por algo no ter sado como voc queria.
- Eu no me queixo. - Como podia estar atrada por algum to irritante?, ela desejou saber enquanto se dirigia a sua cmoda Duncan Phyfe para pegar algumas lingeries.
- Onde poder ser localizada?
- Ligarei regularmente.
- Oua, MacGregor - Cullum teve que se controlar, recuando um passo. No sabia por que a viso de Julia embalando as roupas o deixava em pnico. Tinha desejado se 
ver livre dela por semanas. - Os armrios da cozinha chegaro na prxima semana. Se no estiver aqui para aprovar a entrega...
- At l j estarei de volta. - Sem o mnimo embarao, ela dobrou sutis e calcinhas e uma camisola de seda. - J que voc tem que saber, estou indo para Washington 
durante alguns dias.
- Algo errado com seus pais?
Ela amoleceu. No havia como negar a nota de preocupao sincera na voz dele.
- No, eles esto bem. Nem sabem que estou indo visit-los.
- Ento por que no pode esperar at que a cozinha fique pronta?  a parte mais importante do projeto. Com certeza, vai querer dar opinies.
- Voc tem as minhas fitas. Deixei bem claro o que quero que seja feito. E se no se lembra, a maioria das idias da reforma da cozinha foi sua.
-  justamente por isso que no quero levar a culpa caso voc mude de idia.
- Uma vez tomada uma deciso no costumo mudar de idia. - Ela colocou uma bolsa de seda na mala. - Saia do meu p, Murdoch. Tenho o direito de ir e vir como bem 
me convier.
Cullum sentiu a repreenso no ar, agora to familiar. Ento, se virou lentamente, dirigiu-se  porta e a fechou.
- O que est fazendo?
- Assegurando um pouco de privacidade. - Ele a estudou por alguns instantes. Objetivamente, disse a si mesmo. Ela estava corada de raiva. Por que aquele olhar ficava-lhe 
to bem e por que o fazia ficar tonto, no sabia explicar. Mas era um fato. Julia tinha as mos nos quadris, como que pronta para uma batalha. Anis bem coloridos 
brilhavam em seus dedos. Os cabelos estavam soltos, caindo-lhe sobre os ombros de uma jaqueta verde escura que lhe acentuava o torso curvilneo.
Ela sempre usava roupas macias, meditou Cullum. O tipo que deixava um homem louco, querendo tocar o que se encontrava por baixo delas. E pronto, j estava desejando 
despi-la, admitiu.
- Por acaso essa viagem improvisada ser um modo de fugir do que aconteceu entre ns algumas semanas atrs?
Julia inclinou a cabea e sua voz soou fria.
- No sei a que est se referindo.
- O que quase acabamos fazendo no cho da cozinha?
- Aquilo foi um deslize - respondeu ela, odiando-se por desejar que tivesse acontecido. S assim aquela tenso em suas entranhas teria se dissipado.
- Fizemos um acordo.
- Sim. Mas  por isso?
- Fizemos um acordo - repetiu obstinada, surpresa consigo mesma por recuar um passo quando ele se aproximou. - Fique longe de mim.
Pela primeira vez em semanas, Cullum sentiu seus lbios se curvarem facilmente num sorriso.
- Por qu? Est nervosa?
- No quero que me toque.
- Quem disse que eu ia toc-la? Estou apenas fazendo uma pergunta. Uma coisa de que nunca fui capaz de acus-la foi falta de honestidade. Voc sempre fala o que 
pensa, ento estou perguntando. Para voc foi apenas um deslize?
- No sei - respondeu Julia quase gritando, ento girou nos calcanhares e comeou a jogar as roupas na mala. - Aquilo no deveria ter acontecido. No estou fugindo 
de nada. Quero apenas um pouco de distncia, ver meus pais, ficar longe de voc antes que faamos algo estpido.
- Certo, est sendo honesta. Ento, agirei da mesma forma. No me importo de ficar longe de voc por algum tempo. V-la todos os dias  difcil.
As mos dela se acalmaram e alisaram o tecido enrugado de uma blusa cuidadosamente. 
- ?
- Sim. Mais difcil do que imaginei que seria. s vezes me pego pensando como seria se tivssemos outro daqueles deslizes.
Como nunca fora covarde ou mentirosa, Julia se virou de frente e o encarou. Cullum tinha uma face to mscula, pensou ela. Todos os ngulos e planos realados por 
aquela boca firme e olhos atraentes.
- Acho que tambm andei imaginando a mesma coisa. - Seus lbios se curvaram num sorriso. - O que est acontecendo conosco?
- Quem me dera saber. - Dessa vez, quando ele caminhou em sua direo, ela ficou onde estava. - Ainda no quer que eu a toque?
Julia deixou escapar um suspiro irregular.
- Bem, estamos no meio do dia, que mal isso poderia causar?
- Descubramos - com essas palavras, Cullum deslizou as mos pelo tecido macio da jaqueta dela e ento desceu at a linha da cintura, puxando-a de modo a promover 
um contato estreito entre seus corpos. - Vamos ficar de olhos bem abertos desta vez, Jules.
Embora ele no quisesse dizer aquilo literalmente, seus olhares se prenderam enquanto suas bocas se encontravam.
Julia notou que os olhos dele escureceram e se viu capturada naquele verde profundo. Experimentalmente, mudou o ngulo do beijo. Seus lbios se tocaram, se testaram, 
hesitaram e, a cada segundo que passava, o corao dela batia mais descompassado.
Cullum sentiu uma pontada forte na plvis. O gosto de Julia despertou-lhe os sentidos, provocando-lhe uma cadeia de reaes no corpo. Ele brincou com os lbios dela, 
sem pressa, apesar do sangue latejar-lhe nas tmporas. Aos poucos, notou que Julia tinha os olhos enevoados e os clios trmulos e ele engoliu o suspiro de prazer 
que escapou dos lbios femininos.
- Preciso toc-la. - Ao mesmo tempo em que proferiu tais palavras, Cullum deslizou as mos, apoderando-se dos seios dela. Nesse momento, percebeu que jamais sentira 
algo mais ertico do que o modo como os mamilos dela se enrijeceram de encontro s palmas de suas mos.
Um gemido estrangulado, uma inundao de desejo. A cabea de Julia pendeu para trs num gesto de rendio que fez ambos cambalearem.
- Voc tem... Oh, Cullum... Voc tem aquelas mos!
Mos que agora lhe tocavam a carne nua. Sua blusa estava desabotoada, os fechos do suti abertos. Com o corao de Julia batendo de encontro s palmas de suas mos, 
Cullum esqueceu dos homens que trabalhavam no andar de baixo, do trabalho que precisava ser feito e das conseqncias do ato que desejava to desesperadamente fazer.
- Agora. - Ele a beijou no pescoo e na boca. - Agora mesmo.
- Sim... No. - Pnico, excitao e desejo, misturavam-se dentro dela.
- Espere! O que estamos fazendo? - Trmula, Julia se afastou e abotoou a blusa. - No podemos fazer isso aqui, assim. Simplesmente no podemos.
Cullum imaginou um balde de gua fria espirrando-lhe na face, a gua fria de uma cachoeira caindo sobre sua cabea, qualquer coisa que o ajudasse a esfriar. O melhor 
que conseguiu fazer foi enfiar as mos nos bolsos, antes que elas comeassem a rasgar as roupas de Julia.
- Certo - proferiu to calmo quanto possvel. - Mas, Jules, voc tem de admitir que isso  mais do que um deslize.
- Tenho que ficar longe de voc. - Julia apertou a blusa com mais fora. Sob o tecido, seus mamilos ainda formigavam. - Precisamos dar um tempo, ento decidiremos 
se isso vai acontecer.
- Acho que j descobrimos a resposta para essa pergunta - disse Cullum num tom seco.
- Certo, vai acontecer. Ento, temos que pensar em como vamos lidar com isso. Vamos para nossos respectivos cantos, por alguns dias. Voc ter tempo para pensar 
sobre o assunto e eu farei o mesmo. Quando eu voltar, podemos...
- Negociar as condies? - concluiu ele.
- De certo modo. Temos que ter uma base para saber como lidaremos com isso... depois.
Julia estava sendo sensata, mas aquilo o aborreceu sobremaneira.
- Certo, MacGregor, pense pelo seu lado e eu pensarei pelo meu. Quando voc voltar teremos um encontro para conversar sobre isso.
- No h motivo para ficar irritado.
Cullum a encarou. L estava ela, com os cabelos desalinhados, a blusa desfeita, os lbios intumescidos pelo beijo que haviam trocado e achando que ele no deveria 
ficar irritado por ela ter transformado o relacionamento deles em uma transao empresarial.
- Tenha uma boa viagem, MacGregor.
- Cullum... - Julia suspirou quando o viu parar junto  porta e lanar-lhe um olhar glido. - Tenho uma relao profissional e pessoal com seu pai e com voc. Para 
mim,  muito importante no compromet-las.
Ele no pde pensar em nada para responder, apenas assentiu com a cabea e saiu.
Sozinha, Julia sentou-se na extremidade da cama e esperou que seu corpo recuperasse o controle. A menos que estivesse muito enganada, o projeto Murdoch tinha sofrido 
uma grande reviravolta e podia muito bem j estar irremediavelmente comprometido.


Vinte e Cinco

Julia amava a elegante casa de Georgetown. Nascera l c, depois de morar oito anos em outro endereo de Washington, voltara e passara os ltimos anos da adolescncia 
nos arejados quartos de tetos altos da manso.
No tinha nenhuma queixa sobre o tempo em que podia brincar no Rose Garden ou entreter os primos em seu teatrinho particular. Seus pais, contra todas as probabilidades, 
haviam feito daquela manso na Pensilvnia uma casa para os filhos. Ela tivera a oportunidade de viajar o mundo todo e fora ensinada a ter senso de responsabilidade 
para com os vizinhos, onde quer que vivessem, na porta ao lado ou do outro lado do oceano.
Ainda podia lembrar o calor do rubor de orgulho que lhe corava as faces toda vez que via o pai sentado  escrivaninha do Escritrio Oval ou quando assistia  me 
levantar uma platia, recebendo calorosos aplausos, aps um de seus milhares de discursos sobre direitos humanos.
Tolerara a onipresena do Servio Secreto, algo que havia se tornado sufocante, particularmente durante a adolescncia. Tinha aceitado as restries, a impossibilidade 
de apenas sair para fazer compras com as amigas ou ir comer uma pizza em qualquer restaurante local. Os pais sempre se esforaram para que ela e o irmo levassem 
uma vida normal. Mas Julia tinha cincia de sua magnificncia. E isso tinha um preo.
Lembrou-se do dia em que eles voltaram a morar na casa de sua infncia. Como a me os abraara e sorrindo dissera que todos sairiam para comer pizza e assistir a 
um filme.
Aquela fora uma das noites mais doces de sua vida.
Agora, se encontrava parada na calada enquanto o txi que a trouxera se afastava. A casa ainda a atraa, ainda aparentava ser bastante confortvel. Julia sabia 
que comprava e vendia casas, tentando resgatar aquele tempo de conforto e repass-lo aos outros.
O amor precisava de uma casa para abrig-lo e ela havia sido to afortunada na sua.
Suspendeu a bolsa, caminhou alguns passos sobre o piso de tijolos e, ento, a pousou no passeio estreito. As flores naquela poca do ano eram escassas e j no possuam 
o brilho habitual devido  proximidade do inverno. Dentro de pouco mais de um ms, a casa cintilaria com luzes coloridas, uma guirlanda pendurada na imensa porta 
da frente e um pinheiro abarrotado de enfeites confeccionados pela famlia que resplandeceria pela graciosa janela da frente.
Recordaes como aquelas eram bem-vindas.
Ela bateu, usando a aldrava de bronze dos MacGregors para golpear a porta. O leo coroado a fitava to ferozmente que a fez pensar no av.
Quando a porta abriu, Julia sorriu para a pequena e asseada mulher que se encontrava de p na entrada.
- Boxy, voc no muda?
- Senhorita Julia! - Elizabeth Boxlieter abriu os braos curtos e a envolveu em um abrao apertado. Boxy servira os MacGregors exercendo mltiplas funes por um 
perodo de quinze anos.
Tinha o cargo de assistente administrativa da sra. MacGregor durante a poca em que viveram na Casa Branca. Mas, na verdade, a mulher gerenciava. Gerenciava tudo.
Boxy se afastou e, embora o prazer brilhasse em seus olhos, abanou um dedo com repreenso.
- No avisou que estava vindo, no nos mandou sequer um telegrama. E se estivssemos viajando?
- Eu teria entrado e ficaria muito chateada comigo mesma. - Com um riso nos lbios, Julia abaixou e estalou um beijo na face de Boxy. - Eu queria fazer uma surpresa 
a todos vocs. Meus pais esto em casa, no estilo?
- Como sempre. - Boxy fechou a porta da frente. - O sr. Alan acaba de voltar de Camp David. Eles no o deixam em paz, juro. Esto sempre lhe pedindo para negociar 
isso, dar conselhos sobre aquilo.
- Bem, algum tem que zelar pela segurana do mundo, no  mesmo?
- Ele j fez mais do que a parte dele. O pobre coitado devia ter direito a umas frias. Sair para pescar durante um ms.
- Papai no pesca.
- Que diferena faz isso? Ele est no escritrio atendendo a uma chamada internacional e sua me est l atrs na oficina.
- Vou interromper a mame primeiro - decidiu Julia. -Ento ns duas iremos interromper o papai. No leve essa mala para cima, Boxy - disse caminhando ao longo do 
corredor. - Eu mesma a levarei daqui a alguns minutos.
Boxy resmungou algo sobre a bagagem atravancando o foyer. E, levantando a mala, subiu os degraus da escada que levava ao andar superior.
O local de trabalho de Shelby MacGregor era uma cozinha de vero convertida, que oferecia espao para sua roda de oleiro, o forno, a mesa de trabalho e materiais. 
Ao longo da administrao do marido, ela continuara a trabalhar com seu artesanato, tanto para satisfazer sua necessidade criativa quanto como uma declarao do 
direito de ter uma carreira.
Naquele momento, a ex-primeira dama se encontrava empoleirada em um tamborete em frente  roda de oleiro modelando um pote. Tinha as mos sujas de barro at os pulsos 
e os antebraos empoeirados. Os cabelos ruivos escuros presos no alto da cabea e uma expresso concentrada no olhar.
Uma msica suave soava ao fundo. Julia apoiou-se no batente e aguardou, observando o barro se mover sob as mos hbeis da me. Uma massa disforme transformando-se 
em um elegante recipiente.
- Nada mal - murmurou Shelby, girando a cabea e relaxando o pescoo ao mesmo tempo em que parava a roda.
- Ficou bonito. Alis, sempre ficam.
- Julia! - exclamou a me e j ia se dirigir  filha para abra-la, mas parou. - Oh, estou uma baguna - disse com um sorriso, contendo as mos sujas de barro. 
- Beije-me aqui. - Julia pressionou os lbios e estalou um beijo na face da me. - Que surpresa!
- Boa, espero.
- Maravilhosa! Vou me lavar para poder abra-la. J foi ver seu pai? - perguntou Shelby apressando-se at a pia para retirar o barro das mos e dos braos.
- No. Boxy disse que ele estava ao telefone, ento vim v-la primeiro.
- Bem, ele precisa mesmo dar uma parada. Vamos subir as duas e surpreend-lo. - Shelby secou-se depressa, virou-se e envolveu a filha nos braos. - Oh, senti tanto 
a sua falta. Conte-me todas as novidades. Como esto suas primas? E o pequeno Daniel? As obras da casa? Quanto tempo pode ficar? Est com fome? Responda uma ou todas 
as perguntas anteriores na ordem que desejar.
Rindo, Julia subiu os degraus da escada dos fundos de braos dados com a me.
- Vejamos... Minhas primas esto timas. Laura parece uma Madonna com o pequeno Daniel e Gwen est entusiasmadssima com a gravidez. Comi algo parecido com comida 
no avio e s posso ficar dois dias. A casa... vai muito bem.
Shelby notou a hesitao da filha ao proferir as ltimas palavras e decidiu sondar a causa. Caminhando em direo ao escritrio do marido, deu uma batidinha na porta, 
antes de abrir.
Alan MacGregor encontrava-se sentado atrs da escrivaninha. Seus cabelos exibiam um rico tom prateado e a luz do sul que penetrava atravs da janela os fazia reluzir. 
Como sempre, Julia achou o pai o homem mais bonito do mundo o percebeu aquelas linhas de preocupao ao redor dos olhos se transformarem em linhas de alegria quando 
ele a filou.
Com o fone ainda no ouvido, Alan ergueu-se e estendeu a mo.
- Vou considerar o assunto. Sim, pode ter certeza. - Passando o brao ao redor da filha, trouxe-a para junto de si. - Sinto muito, senador, voltarei a ligar mais 
tarde. Aconteceu algo imprevisto aqui. Sim, no se preocupe. - Por fim, desligou e se virou para Julia. - Algo irresistvel! - murmurou, beijando-lhe o topo da cabea.
Uma hora depois, Julia estava esticada na frente da lareira da sala de estar, tomando um gole de um excelente vinho branco e relaxada como no se sentia h semanas. 
Seus instintos de vir para a casa dos pais estavam certos, pensou.
- Isto  maravilhoso! - Ela descansou a cabea no brao da cadeira do pai, quase ronronando quando ele afagou-lhe os cabelos. - Boxy est ficando louca? Onde j 
se viu cancelar suas obrigaes de hoje  noite?
- Era apenas um jantar - disse Shelby. - Alis, bem tedioso por sinal.
- Adorei a oportunidade de poder ficar em casa. - Ela cruzou os ps nus. O relance rpido que enviou a Alan era um sinal. Captando o significado, o marido acariciou 
os cabelos da filha mais uma vez.
- Est se acostumando a viver sozinha?
- Sinto falta delas - admitiu Julia. - Laura, Gwen e eu formamos um trio por muito tempo. Ainda as visito o tempo todo.
- Mas no  a mesma coisa - concluiu Alan.
- No, no . Em alguns aspectos  melhor. Elas esto to felizes, que d gosto de ver.
- Voc est feliz?
- Sim. - Ela ergueu a cabea de forma a poder sorrir para o pai. - Sim. Adoro minha casa, as obras que estou fazendo. Agora mesmo estou me divertindo tremendamente 
vendo a casa tomar forma.
Pronto, era a brecha que precisava, pensou Shelby.
- Mal posso esperar para v-la. - Ela sorriu para o marido enquanto a conversa flua suavemente. - Em que p esto as obras?
- Meu quarto est concludo. Era uma prioridade para mim.  claro que tive que bater cabea com Murdoch sobre as cores da pintura e dos papis de parede, mas sou 
eu quem assina o cheque.
- Exatamente - concordou Shelby, notando que a filha no o chamara de "sr. Murdoch", mas apenas Murdoch. Isso significava que era o filho. - Est tendo problemas 
com seu empreiteiro?
- Um pouco. Estou trabalhando com Cullum Murdoch nesse projeto. O pai dele no est muito bem de sade^
- Michael? - Preocupado, Alan endireitou-se na cadeira. -O que h de errado com ele?
- Pegou um terrvel resfriado de final de vero que o deixou de molho por alguns dias. Est melhorando, mas o filho j havia assumido o projeto, ento... - Julia 
encolheu os ombros. - Ele est fazendo um excelente trabalho. Mas quer que as coisas sejam do jeito dele... e eu quero que sejam do meu. Simples, no? - Julia sorveu 
o ltimo gole de vinho e respirou fundo. - Estou pensando em me envolver com ele.
- Oh! - exclamou Shelby, sentindo uma pequena e rpida pontada sob o corao. Instintivamente, esfregou uma mo no local da dor. - Mas se vocs no se entendem...
- Por um lado. - Deixando escapar um pequeno suspiro, Julia esticou as pernas. - Por outro, parecemos nos entender como dois gngsteres.
- O aspecto fsico no  tudo, filha - interps Shelby, lutando para conter o pnico, enquanto Alan exibia um sorriso afetuoso nos lbios e um ar divertido no olhar.
- Parece que sua me est se lembrando de uma outra jovem adorvel que tentou se convencer de que no podia dar certo com um homem em um determinado aspecto. - Os 
olhos escuros chamejaram quando ele sorriu. - Ento, eu a seduzi.
- Alan! - Pega entre o riso e a preocupao, Shelby sacudiu a cabea. - Estamos falando da nossa filhinha e acho que nenhum de ns dois gostaria de v-la seduzida 
por um Murdoch.
- Soa mais como a MacGregor do que o MacGregor - Alan murmurou  filha, e percebeu a luz da guerreira que ele amava brilhar nos olhos da esposa. - Eu diria que isso 
depende do Murdoch - continuou. - E de Julia. Voc  uma mulher inteligente, filha. Sabe o que  certo e errado e o que  melhor para si prpria.
- O que me pareceu certo, no momento, foi me afastar dele por um tempo e vir conversar com vocs. No se preocupe comigo, me. - Julia ps a mo no joelho de Shelby. 
- No se trata de seduo. Se eu me envolver com Murdoch, ser de olhos bem abertos.
Os trs conversaram por mais algum tempo e, quando Julia subiu para desfazer a mala e se trocar, Shelby se virou para o marido.
- Alan, isto  srio.
- Humm. - Ele se ergueu para completar o copo da esposa.
- No use esse "humm" diplomtico comigo. - Ela fez uma carranca sobre a beirada do copo. - No sou to ingnua a ponto de acreditar que Julia ainda no tenha se 
envolvido com um homem antes. Mas nenhum deles foi importante o suficiente para preocup-la ou faz-la vir nos procurar para falar sobre o assunto.
Sentando no brao da cadeira, Alan deslizou um dedo ao longo da testa da esposa.
- Est preocupada que ela esteja apaixonada ou apenas atrada por ele?
- Ambos. - Shelby suspirou. Minha filhinha, pensou ela. Meu beb. No tivera tempo suficiente para se preparar. - Acho que seria sbio se nos inteirssemos mais 
um pouco acerca desse rapaz.
- Meu pai conhece os Murdoch h muitos anos. - Os lbios de Alan se contraram enquanto ele levava o copo  boca. - Acho que ele vai ficar muito contente com essa 
novidade.
Bastou apenas alguns segundos para a perspiccia de Shelby aflorar. Ela pousou uma das mos sobre o brao do marido.
- No acha que ele pode estar por trs de tudo isso?
- No. - Alan se curvou, beijou os lbios contrados da esposa at amolec-los e acrescentou: - Tenho absoluta certeza de que est.


Vinte e Seis

Cullum tomou um gole de cerveja enquanto a jukebox entoava uma melosa cano de amor. Mas no fora sempre assim?, desejou saber. Nada durava para sempre, se durasse, 
no seria ele. Quase todas as suas relaes se deterioravam, fosse pelo tempo ou pela simples monotonia.
As construes no eram muito diferentes das pessoas, meditou. E algumas exigiam uma cara manuteno.
Julia MacGregor definitivamente era desse tipo.
Aqueles dois dias tinham sido providenciais para recuar, esfriar um pouco a cabea e colocar as idias no lugar. Envolver-se com Julia custaria caro e, particularmente, 
era um sujeito bastante cuidadoso quando se tratava de investimentos amorosos.
A mulher desejava negociar sexo. Pelo amor de Deus! Delinear contingncias e clusulas, com a cama como mesa de barganha. Bem, para o inferno com aquilo, decidiu, 
levando o gargalo da garrafa aos lbios. Sempre fora de opinio que se um homem e uma mulher fossem solteiros, saudveis e desejassem um ao outro, as negociaes 
j estariam concludas.
Ento, ela que fosse arrumar outro para negociar.
Por certo arrumaria mesmo, pensou ele, com os lbios retorcidos numa carranca. Uma mulher daquelas no teria dificuldades em encontrar um scio para tais "transaes".
Mas o que estava querendo dizer com "uma mulher daquelas", Cullum desejou saber, sem dar ouvidos ao prprio suspiro. Analisada ponto a ponto, ela nem era to bonita 
assim. Mas, de alguma maneira, o conjunto era de deixar qualquer homem com gua na boca.
Julia tinha cincia disso e tirava vantagem do fato. Bem, mas aquilo no funcionaria com ele. A impulsividade ficara para trs e agora voltara ao seu juzo normal.
Um de seus homens se dirigiu ao balco do bar e ordenou uma bebida, dando um tapinha amigvel nas costas dele.
- Como est indo, chefe?
Sua resposta foi apenas um grunhido. No sabia por que se deixara convencer pela equipe a ir at o bar tomar uma cerveja depois do horrio de trabalho. No estava 
com humor para socializar. Mas tambm no estava com vontade de ir para casa. O fato era, que parecia no estar com humor para fazer coisa alguma.
- Estou certo de que a senhorita MacGregor volta logo. - O carpinteiro empurrou a aba do bon de beisebol que usava e sorriu. - Os rapazes esto sentindo falta de 
v-la passear pela casa, especialmente quando ela est usando uma daquelas minissaias... Vou lhe contar, aquela mulher tem umas pernas de tirar o flego. Sem se 
dar conta da nvoa vermelha que comeou a embaar a viso do chefe, o homem se apoiou no balco para tomar um gole da bebida.
- E cheira to bem que d vontade de...
Enquanto ouvia, Cullum pousou a cerveja com cuidado ao sentir de repente uma imensa vontade de quebrar a garrafa na extremidade do balco e arremess-la no carpinteiro. 
Teve certeza de haver decidido sabiamente ao interromp-lo. .
- Concentre-se em seu trabalho, Jamison, e deixe as pernas da cliente em paz.
- Mas que inferno... - comeou o rapaz, mas, ao notar o brilho afiado nos os olhos de Cullum, clareou a garganta e falou: - Est certo, chefe, vamos mudar de assunto.
Sem dizer nada, Cullum lanou algumas notas sobre o balco e se ergueu. Antes que pudesse causar algum dano a algum membro de sua equipe, caminhou em direo  porta 
e saiu.
Jamison exalou um suspiro, riu e chamou outro companheiro.
- Ei, Jo, parece que o chefe est de olho na mocinha MacGregor. O homem de imediato se aproximou e soltou-se no assento recentemente desocupado para discutir a nova 
informao.
Cullum teria ficado furioso se soubesse que sua equipe de trabalho passara uma hora rindo e fofocando sobre ele e Julia. Teria ficado mortificado se soubesse que 
aqueles risos e fofocas haviam se espalhado como fogo entre os operrios. Antes do meio-dia do dia seguinte, no havia um homem ou uma mulher trabalhando na casa 
que no soubesse o que estava acontecendo com o chefe e a cliente.
A bolsa de apostas foi inevitvel.
Cullum entrou na hora em que uma nota de vinte dlares era passada de um dos homens para o outro. Mas a Murdoch & Sons no costumava contratar obtusos.
- Obrigado pelo emprstimo, Mike - disfarou um deles, embolsando o dinheiro com um leve sorriso. - Devolvo-lhe no dia do pagamento. Ei, chefe, estamos quase prontos 
para pr as bordas de madeira aqui em cima.
- Ento, mos  obra.
A sala de jantar seria o ambiente mais formal da casa. Os lambris, as bordas de madeira elaboradamente esculpidas, o trio de janelas altas e elegantes e o bonito 
teto decorado mereciam o melhor. Esperava que Julia no a mobiliasse com toques muitos femininos. O recinto exigia peas grandes, cadeiras com espaldares altos, 
uma mesa antiga e pesada. Havia uma pequena sala de estar nos fundos do andar superior onde ela poderia usar uma decorao mais delicada.
- Talvez ela queira colocar amores-perfeitos na parede - murmurou ele e, aps conferir a primeira fieira de borda de madeira, dirigiu-se  cozinha.
L, os trabalhos haviam progredido bastante. Atento aos detalhes, Cullum no percebeu os olhares astutos e sorrisos especulativos que lhe eram dirigidos. O linleo 
teria que ser retirado e o piso de pinho protegido com panos velhos. Fazer o novo acabamento seria um dos ltimos passos. Para que os armrios fossem colocados em 
seus devidos lugares, s paredes deveriam ser pintadas antes. Fora forado a aprovar o amarelo que Julia escolhera. Era um tom aconchegante, quente e combinava com 
a madeira. Uma das paredes havia sido derrubada, transformando a varanda lateral em uma parte do ambiente.
Naquele momento, as janelas estavam sendo instaladas. Ia ficar muito bom, pensou, enquanto combinava os detalhes com os homens e considerava o espao. Seu projeto 
estava tomando forma. Tais coisas sempre o faziam sentir uma pontada de satisfao. Mas, dessa vez, sentiu algo mais profundo, mais luminoso. S podia se dever ao 
fato de achar aquela casa to especial, convenceu a si mesmo.  claro que no tinha nada a ver com a dona.
Mas, ainda assim, imaginou-se entrando naquela cozinha de manh cedo. Nos parapeitos das janelas, cultivaria uma espcie de horta em vasos inundada pelo sol. Gostava 
de colher suas prprias ervas quando cozinhava. Ento, viu-se moendo gros frescos para fazer um caf sobre a bancada que estava construindo. O recinto estava inundado 
com o cheirinho de alecrim, caf e das flores sobre a velha mesa de carvalho na rea de descanso.
Beberia a primeira xcara e colocaria a segunda sobre a mesinha de ferro forjado em um dos cantos.
Quando Julia acordasse, amarrotada e sensual, a luz do sol j estaria se infiltrando pelo quarto. Ela lhe daria um sorriso, se apoiaria nele e esfregaria a face 
de encontro  sua, roubando-lhe o gostinho de caf.
Cullum estava to envolvido com a cena que, quando Julia entrou, amarrotada e sensual da viagem, ele bocejou.
- O qu? Onde?
- Quem, por qu? - concluiu ela com um sorriso nos lbios. - Deve ter sido uma viagem e tanto, Murdoch. - Colocando as mos nos bolsos do blazer doe casimira, ela 
inspecionou o ambiente. - Nossa! Que progresso. Terei que passar a me ausentar com mais freqncia. Voc tinha razo. Est fabuloso! Eu sabia que este tom de tinta 
ficaria timo. E, oh, as janelas esto ficando maravilhosas! Tenho que lhe dar os parabns. J vi as portas laterais do terrao. Esto simplesmente perfeitas!
Cullum s podia agradecer ao fato de ela no parar de falar. Naquele momento, precisava mais do que um minuto para recuperar o equilbrio. Tinha decidido esquec-la, 
no  mesmo? Ento, por que lutava desesperadamente contra o desejo de tom-a nos braos naquele exato segundo e beij-la at deix-la tonta?
Ele a encarava como se ela tivesse surgido atravs da parede, pensou Julia, sentindo o pulso acelerar. Tinha ponderado bastante sobre a relao dos dois enquanto 
estivera em Georgetown. Todas as exigncias e detalhes, todas as exigncias e regras haviam sido cuidadosamente delineadas em sua mente.
E agora no conseguia se lembrar de nenhuma. 
- Acho que vou... - Gaguejar, se voc continuar me olhando dessa maneira, pensou ela. - Ah, levar minhas coisas l para cima e depois dar uma circulada pela casa 
para ver como esto indo os trabalhos. Os armrios chegaram?
- Chegaro depois de amanh.
- Muito bem. Mal posso esperar para v-los. Vou... - Ela acenou com uma das mos vagamente. - ...subir agora.
Julia se virou e se afastou apressada. Ento, conteve um suspiro quando ele a alcanou, segurou-a pelo brao e caminhou a seu lado.
- Eu a ajudarei a levar as malas para cima. Precisamos finalizar alguns detalhes no quarto de hspedes.
No agora, pensou ela. Definitivamente no agora, quando no se sentia capaz de concatenar os pensamentos.
- No quero interromper seu trabalho. E tenho algumas chamadas a fazer, e...
- No se demore muito. - Cullum ergueu as sobrancelhas ao fitar a pilha de bagagem ao p da escada. - Cus! Voc s ficou fora trs dias.
- Eu sabia que iria fazer compras, ento levei algumas bolsas extras. - Julia ergueu uma sacola para manter as mos ocupadas. - J estou bem adiantada com os presentes 
de Natal.
- Bom para voc. - Ele comeou a erguer as outras duas bolsas, sacudiu a cabea e distribuiu o peso da bagagem na parte de trs das costas. - Onde quer que as coloque, 
Mame Noel?
- No meu quarto. Tenho que organizar tudo antes de embrulhar. Como est o seu pai?
- Bem melhor, suponho. - Confuso, ele olhou para baixo onde meia dzia de trabalhadores o observava subir a escada com Julia. - O que foi? Terminaram o servio enquanto 
eu no estava olhando, rapazes? - Aquilo dispersou os homens. Cullum encolheu os ombros e riu ao mesmo tempo em que subia os degraus. - Eles tm que se lembrar de 
manter as janelas abertas enquanto aplicam a cola. O cheiro os deve estar deixando meio idiotas.
- Deixe-as sobre a cama - disse Julia ao chegarem ao quarto. Desse modo, a cama ficaria ocupada para evitar qualquer tipo de tentao da parte de ambos. - Estou 
realmente ansiosa para ver...
A frase terminou de encontro  boca de Cullum. Ele a havia enlaado pela cintura e a puxado de encontro ao corpo. Com uma das mos, segurou-lhe os cabelos e capturou-lhe 
os lbios num beijo selvagem, no lhe dando tempo sequer de respirar.
Bem, mas respirar no parecia to importante assim, pensou Julia. A bolsa que segurava escorregou-lhe das mos, caindo no cho com um baque.
- Precisamos conversar sobre isso - ela conseguiu administrar.
- Cale-se, Jules.
- Est bem... - Com um gemido submisso, Julia correu as mos pelas costas dele acariciando-as at alcanar-lhe os ombros fortes que ofereciam suporte e se amoldou 
ao corpo msculo. Nesse instante, algo a espetou no quadril e nas coxas.
- Maldio! O cinto de ferramentas - murmurou Cullum, abrindo o fecho e retirando o utenslio. - Sinto muito.
- Tudo bem. - Com a mo vacilante, Julia esfregou o local afetado - Temos pouqussimo tempo. Oua, no sei se voc teve tempo para pensar, mas eu pensei bastante 
sobre ns dois. Precisamos discutir o assunto.
- Eu a quero. Essa  a minha contribuio na discusso. 
Com um sorriso meio trmulo, ela contornou a beirada da cama at deix-la entre eles.
- Tenho um pouco mais a acrescentar do que isso.
- Que surpresa! Vamos terminar os servios s quatro e meia. Voltarei s seis. Se quiser, posso trazer o jantar.
- O jantar. - Sensato, decidiu ela. - Talvez devssemos sair.
O brilho ardente nos olhos verdes de Cullum atingiu os dela.
- Fica para uma outra ocasio, Jules. No estou com a mnima vontade de ficar lendo cardpios, fazer pedidos a garons ou ouvir conversa fiada esta noite.
Ela assentiu devagar com a cabea.
- Ento comeremos aqui mesmo. Mas vamos conversar. 
Ele sorriu. Um sorriso lento e sensual que a fez sentir um arrepio na espinha.
- Quer apostar?
- Estou falando srio, Murdoch.
- Eu tambm, MacGregor. Seis horas - repetiu ele, antes de se dirigir  porta.
- Seis e meia - lembrou-o Julia. Era arbitrrio, ela sabia, mas precisava dizer algo.
Entendendo-a perfeitamente, Cullum sacudiu a cabea.
- Est certo. - Ento, erguendo uma sobrancelha, ele perguntou: - Voc vem?
- Onde?
- At o quarto de hspedes, lembra?
- Oh! - Agitada, ela escovou os cabelos desalinhados. - Pensei que tivesse dito aquilo por causa dos homens.
- No. Venha, vamos dar uma olhada. O esboo foi inspecionado e aprovado.
Julia se esforou para passar de amante em potencial a cliente. O fato de ele parecer muito mais integrado no projeto do que ela a aborreceu.
- Certo. Ento, eu gostaria de dar uma olhada no restante dos trabalhos, se estiver com tempo.
Cullum segurou a porta aberta para que ela sasse.
- Estou  sua inteira disposio. Pelo menos, at as 16h30.
Os olhos dela se estreitaram enquanto passava por ele.
- Por que isso soa como uma ameaa, Murdoch? Um sorriso suave curvou os lbios msculos.
- No sei dizer. Mas  um fato, MacGregor.
s 16h45, Julia viu o ltimo caminho, o de Cullum naturalmente, partir. Tinha menos de duas horas, pensou, mas at l estaria preparada. Dessa vez, ele no lhe 
confundiria as emoes, antes que ela pudesse falar. Discutiriam a situao racionalmente. Negociariam as condies de ambos os lados.
Quando o romance terminasse, o que, sem dvida, aconteceria, ambos iriam separar-se com o mnimo de espalhafato e dor. Eram parecidos demais para se darem bem, pensou. 
E a chama da luxria que estavam experienciando era forte e quente demais para se manter acesa por muito tempo. 
No queria sair machucada no final e no queria feri-lo, tambm. Logo, era melhor fixarem regras e segui-las. Desfrutariam da companhia um do outro enquanto durasse.
Julia afastou-se da janela, desejando saber por que se sentira to deprimida de repente. Talvez fosse porque convivera to de perto com Laura e Gwen ambas as primas 
haviam se apaixonado to rpido, sem parar para pensar, planejar ou se preocupar com regras.
Mas o que estava acontecendo entre ela e Cullum no era amor. Era apenas qumica. Lembrava-se bem daquela cincia em particular para saber que experincias volteis 
podiam explodir se no fossem cuidadosamente planejadas e executadas.
E no queria terminar chamuscada.
Ainda assim, no via nenhuma razo para no deix-lo louco. Tinha quase duas horas, meditou. Tempo mais que suficiente para uma amante preparar o ritual que antecede 
o amor.
Quando tivesse concludo o sujeito duro, Cullum Murdoch, estaria em suas mos.


Vinte e Sete

Julia se derreteria como uma manteiga. Cuidaria para que isso acontecesse.
Embora ficasse tentado a usar sua prpria chave para irrit-la, Cullum bateu  porta s 18h30. Tinha vestido um suter azul-marinho e cala jeans. Desse modo, no 
lhe daria a chance de pensar que ele estava dando muita importncia quela noite. Se ela soubesse o quanto ele estava nervoso e ansioso, isso a deixaria em vantagem.
Gostava do fato de Julia lanar mo de seu poder de seduo e a respeitava ainda mais por isso. Mas no estava disposto a deix-la levar vantagem com ele.
Trocou a bolsa que trazia de um brao para o outro e j estava reconsiderando a possibilidade de usar a chave, quando Julia abriu a porta.
Ela tambm no parecia ter exagerado muito no visual, o que no justificava o fato de seu pulso acelerar daquela maneira. Ela deixara os cabelos soltos, enrolando 
nas pontas de modo selvagem, do jeito que ele mais gostava. Caam-lhe sobre os ombros de um suter preto, que lhe delineava as curvas com uma preciso de dar gua 
na boca. Na cintura usava um tipo de cinto prateado com uma fivela grande e seus ps estavam descalos.
Parecia uma espcie de bomia da alta sociedade, com aqueles olhos cor de chocolate orlados por clios espessos e a boca generosa sem batom.
- Voc  pontual. - Os lbios sem pintura se encurvaram lentamente. - Gosto dessa qualidade em um homem.
- Voc tem classe - Cullum sorriu com a mesma frieza. - Gosto dessa qualidade em uma mulher.
- No somos afortunados? Entre. - Ela fechou a porta atrs dele e ordenou a si mesma que ignorasse a agitao no estmago. - Ento, o que trouxe para o jantar?
- Frango empanado com batatas fritas. - Um brilho apreciativo iluminou os olhos de Julia, o que o fez sorrir em resposta. - E um maravilhoso Bordeaux branco para 
incrementar em vez de aniquilar o gostinho daqueles famosos temperos secretos.
- Quem diria que temos gostos semelhantes na comida? Vamos levar isso l para cima. - Ela inclinou a cabea antes que ele pudesse reparar no rubor que lhe tingiu 
a face. - No momento, o meu quarto  o nico lugar da casa com o ambiente propcio para um jantar. A menos que prefira se sentar em um balde de argamassa e comer 
sobre um cavalete de madeira.
- No seu quarto est timo.
- V subindo, que eu vou ver se consigo encontrar duas taas de vinho.
- Tudo de que precisamos est aqui. - Ele bateu de leve na bolsa. - Plstico e papel. No h necessidade de sujar loua enquanto a cozinha estiver em reforma.
- Excelente idia! - Muito bem pensado, percebeu ela enquanto se virava para comear a subir. - O trabalho est progredindo sem sobressaltos.
-  s fazer um bom planejamento. E ter um pouco de sorte.
- Estou de olho em um edifcio no centro da cidade com seis apartamentos de dois quartos muito bons. Com um pouco de sorte e muito planejamento... - Ela parou ao 
chegarem  porta do quarto e olhou para ele. - Voc e seu pai estariam interessados em pegar o servio?
- Se no precisar comear as obras antes do incio do ano.
- Ainda nem o comprei, logo ter bastante tempo pela frente.
Ela havia acendido a lareira, para aquecer e criar um clima de seduo no ambiente. As chamas crepitavam atrs de uma tela de metal adornado.  consolo da lareira 
estava abarrotado com castiais de tamanhos variados e outros materiais. Mas as velas ainda no haviam sido acesas.
Apenas uma larga coluna de cera branca no centro de uma pequena mesa iluminava a rea de descanso.
- Muito agradvel. - O quarto cheirava a seduo, assim como ela. Cullum pousou a bolsa vermelha e branca sobre a mesa, desejando saber se aquele seria o plano de 
Julia. Seduzi-lo, antes que ele pudesse tomar a iniciativa. Ia ser uma noite interessante. Retirando o vinho da sacola, abriu a garrafa com um saca-rolhas, sem deixar 
de fit-la. - J que estamos sendo sociveis, vou lhe dizer que est fazendo um tremendo trabalho nesta casa. Voc se move rapidamente, mas no  afobada. Escolhe 
muito bem as peas que compra. O ambiente est ficando requintado, mas sem perder o ar de aconchego. Nem todo mundo  capaz de tal feito.
Ela tentou no ficar boquiaberta. Aquilo era um elogio elaborado para lisonjear uma mulher como ela. Um elogio que tocava a mente, o ego e o corao ao mesmo tempo.
- Obrigada, isso significa muito para mim. Cresci em um ambiente requintado, mas muito aconchegante.
- Voc cresceu na Casa Branca - ele a lembrou, oferecendo-lhe um copo de plstico cheio de vinho.
-  verdade, mas estava me referindo  nossa casa em Georgetown. Embora meus pais tenham feito o possvel para fazer da Casa Branca um lar. i
- Devia se sentir como se estivesse vivendo em um aqurio.
- s vezes. Em geral, era surpreendentemente confortvel e ntimo. Se eu vivesse l outra vez, faria tudo para proporcionar o mesmo  minha famlia.
As sobrancelhas dele se ergueram.
- Est pensando em se casar com algum futuro presidente?
- No, estou pensando em me candidatar  presidente no futuro.
Julia esperava que ele se entalasse com o vinho, risse ou fizesse algum comentrio sarcstico. Mas, em vez disso, os olhos verdes de Cullum se estreitaram com uma 
expresso especulativa. Ele assentiu com a cabea. - Se fizer metade do que o seu pai fez, ser uma excelente chefe de Estado.
- Voc me surpreendeu novamente.
- Por qu? Acha que sou algum homem das cavernas?
- Confesso que algumas vezes achei. - Julia sentou-se e abriu a bolsa para cheirar. - Estou pronta se voc tambm estiver... - Dessa vez ele curvou os lbios num 
sorriso maroto. - Para comer e conversar depois - especificou Julia num tom suave.
- No me importo em conversar durante o jantar. Eles dividiram a galinha e as batatas fritas nos pratos de papel. Cullum estremeceu ao v-la salpicar uma boa quantidade 
de sal sobre a comida.
- J sei... - disse ela sorrindo. - Faz mal. Gwen fechava os olhos para no ver quando comamos juntas. - Ela deu uma boa mordida na coxa de frango e suspirou com 
prazer. - Mas  to bom! As coisas que parecem fazer mal geralmente so... Cullum, acha que poderamos fazer mal um ao outro?
- Pode ser. A vida  um jogo arriscado.
- Concordo. Gosto de jogar, mas sempre pondero as vantagens, as opes e sempre sei o quanto posso dispor para perder e continuar confortvel antes de comear a 
jogar. Ento, devo lhe dizer que estamos nos sentindo atrados um pelo o outro por alguma razo possivelmente insana e adversa.
Cullum sorveu um gole do vinho, apreciando-a tanto quanto apreciava o gosto agradvel e seco.
- Concordo.
- No que se refere a mim, no costumo me envolver com uma pessoa apenas porque me sinto atrada por ela. Tem que existir algo mais. Respeito mtuo, entendimento 
e afeto. Tambm prefiro comear um relacionamento com o acordo prvio de que, se as coisas no derem certo, ambas as partes aceitaro o fato  cada qual seguir 
o seu caminho. E a relao tem que ser monogmica enquanto durar. Se qualquer uma das partes se sentir insatisfeita, a relao termina. Sem danos ou prejuzos.
Um brilho divertido iluminou o sorriso de Cullum.
- Ento, se eu ou voc tivermos vontade de variar um pouco, o contrato ser anulado.
- Exatamente. E sem ressentimentos. Isso acaba com a tentao de mentir e enganar. No tolero isso em nenhum setor da minha vida e por certo no vou tolerar na cama.
- Eu no minto. - Dessa vez, um brilho de indignao surgiu nos olhos verdes. - E no engano.
- Eu no disse que voc fazia isso - ela devolveu num tom uniforme. - Mas as pessoas costumam fazer e a desculpa mais freqente para esse tipo de comportamento  
"poupar os sentimentos do outro". No preciso e no quero que meus sentimentos sejam poupados.
- timo. A primeira vez que eu quiser tentar a sorte com outra mulher, eu a aviso. - Deliberadamente, ele esfregou os dedos num guardanapo de papel. - E a primeira 
vez que voc decidir tentar a sorte com outro sujeito... Bem, terei que quebrar a cara dele.
O fato do seu pulso acelerar de prazer enfureceu Julia.
- Esse  exatamente o tipo de atitude que no funciona.
- Funciona comigo. Entendi tudo at aqui, Jules. Voc quer respeito. Respeito sua mente e sua integridade. Tambm j a conheo o suficiente. Sei que est acostumada 
a agir  sua prpria maneira. Gosta de dirigir o espetculo.  boa nisso. E na maioria das vezes gosto disso em voc. Essa  a sua base. Agora deixe-me acrescentar 
alguns ornamentos. - Ele encheu os copos mais uma vez e se sentou novamente. - Se quer fazer transaes e contratos, tente com algum como aquele Tod que trouxe 
aqui na outra noite. No estornou tratando de negcios e nenhum de ns dois podo planejar nossas aes durante o tempo em que ficarmos juntos. Sentimos desejo um 
pelo outro. Talvez depois desta noite percamos esse sentimento, mas nada se podo fazer.
- E se um perder e o outro no?
- Azar do outro. - Ele se ergueu e a puxou pela mo. Vamos descobrir.
Ela no havia terminado. No ainda, mas Cullum j a estava fazendo perder o controle. A boca firme e possessiva no lhe deu outra escolha seno abrir os lbios com 
um gemido do mais puro prazer.
Julia queria acender as velas e conduzi-lo lentamente, deix-lo louco at que ele concordasse com tudo o que ela propusera. Mas o desejo pulsava dentro dela, primitivo 
e selvagem.
A seduo de ambas as partes teria que esperar.
Com movimentos lentos, ela introduziu as mos por baixo do suter dele, explorando a robustez daquelas costas largas. A rigidez dos msculos a excitou e a fascinou 
ao mesmo tempo. Seus braos se moveram com agilidade para livr-lo da pea, tirando-o por sobre a cabea e jogando-o descuidadamente de lado. A necessidade de toc-lo 
era desesperadora.
- Adoro o seu corpo - murmurou.
Cullum deslizou os ombros do suter dela para baixo e beijou-a no pescoo.
- Tambm adoro o seu. - Comum movimento sensual, ele desatou a fivela que mantinha o cinto dela fechado, deixando-o cair no cho. Suas mos vaguearam sobre o tecido 
liso, depois sobre a carne, num roar spero de calos contra a pele macia. Suas bocas se encontraram novamente, quentes e midas, uma confuso de lnguas, dentes 
e gemidos roucos.
Julia prendeu o flego quando ele a ergueu nos braos. Por um instante, se sentiu totalmente desamparada, dominada e conquistada. Um arrepio de prazer percorreu-lhe 
o corpo. Cullum a colocou sobre o grosso edredom e, sem parar de fit-la, comeou a despi-la. Um tremor rpido a pegou de surpresa. Tinha se preparado para ele, 
sabia que a noite terminaria daquele jeito. Mas o que no imaginara, o que jamais poderia ter imaginado,  que um longo e intenso olhar daqueles olhos verdes pudesse 
desatar os ns do seu controle to depressa.
Com um murmrio sfrego, se contorceu, entrelaando braos e pernas ao redor dele.
Julia era to ertica, to sedutora, to perigosa quanto uma sereia. Cullum sentiu o sangue correr mais rpido nas veias. O doce sabor feminino o impregnava como 
uma droga. Estava perdido, no podia se conter. Ela j havia conseguido faz-lo romper a tnue conexo com o mundo civilizado.
Cravando os dedos nos quadris delicados, o que certamente deixaria marcas, esmagou-lhe a boca num beijo impetuoso at faz-la gemer de prazer. A seguir, segurando-lhe 
os cabelos sedosos, puxou-os para trs e beijou-a no pescoo, ardente e voraz.
A pele de Julia estava mida de calor quando as mos e a boca de Cullum tocaram-lhe os seios. O ar parecia denso, difcil de respirar e cada inalada fazia o seu 
crebro rodopiar. Era como se tivesse chamas dentro de si, aquecendo-lhe o corpo alm do limite suportvel. To desesperada quanto ele por tocar, provar e sentir, 
rolou com ele sobre a cama.
Suas pernas se enrascaram enquanto ela o ajudava a se livrar da cala jeans. Cada segundo era uma deliciosa tortura, todo movimento uma emoo selvagem.
Cullum sentiu os prprios msculos tremerem quando sua pele roou a dela. Jamais desejara algo ou algum do modo como a desejava. Todos os centmetros daquele corpo, 
todas as curvas, todos os tremores, todos os gemidos. O desejo o consumia como dedos comprimindo-lhe a garganta, o corao e os quadris.
Ele a penetrou com um movimento firme, sentindo a carne mida ao seu redor como um punho cerrado e quente. Quando Julia gemeu, sentimentos como triunfo, impetuosidade 
e ternura se misturaram dentro dele. Ento, aquelas pernas longas e flexveis o envolveram.
Julia pressionou as mos na colcha ao sentir o primeiro espasmo do violento orgasmo que se seguiu. A deliciosa presso dentro de si aumentava e diminua, forando-a 
a soluar alto. Sem se dar conta, cravou as unhas nas costas dele, arqueou o corpo e se entregou s sensaes.
Cullum lutou contra a nvoa que lhe toldava a viso. Queria v-la, tinha que v-la, enquanto seus corpos se contorciam de prazer. Julia tinha a face corada e umedecida, 
os olhos fechados, os lbios trmulos e os cabelos pareciam uma confuso selvagem cor de fogo sobre as roupas de cama amarrotadas.
Algo dentro dele clamava por liberdade, algo mais complexo e mais exigente do que simples desejo. Ele tentou se conter e prolongar a sensao.
Mas foi o nome dela que lhe escapou dos lbios quando a inundou com a seiva da sua paixo.
Os dois ficaram em silncio. Julia desejou saber se suas cordas vocais haviam sido chamuscadas, pelo calor que ambos geraram juntos. Jamais sentira algo parecido. 
Algo to poderoso e vulnervel, to feminino. Estava contente por poder pegar no sono daquela maneira, nua, deitada na cama, com o corpo unido ao de Cullum, que 
a pressionava pesadamente sobre o colcho.
Quando ele se moveu, ela suspirou e desejou saber se aquele era o nico som que seria capaz de emitir pelas prximas dcadas.
Julia parecia satisfeita, pensou Cullum, enquanto erguia a cabea para estudar-lhe a face.  medida que sua mente clareava, ficou preocupado que a tivesse ferido. 
Sabia que tinha mos grandes e speras e, embora, duvidasse que fosse considerado um amante gentil, nunca se sentira to desenfreado na vida. Receava ter beirado 
as raias da brutalidade.
Mas a julgar pela expresso de gata contente na face de Julia, um pedido de desculpas no lhe pareceu conveniente. Ficou grato por isso.
Odiava ter que se desculpar.
Nesse instante, os olhos dela se abriram e encontraram os dele. Os lbios sensuais se curvaram num sorriso largo.
- Mmmm... - murmurou ela.
- Digo o mesmo - O fato de querer, ou melhor, necessitar correr um dedo ao longo do queixo de Julia o surpreendeu. A pele lhe parecia macia, apesar da arrogncia 
do contorno. Cedendo ante ao desejo, Cullum baixou a cabea e roou os lbios no queixo dela.
O gesto fez o corao de Julia disparar. Assustada, ela disse a si mesma que era uma reao tola, at mesmo perigosa. Seu corao teria que se manter a uma distncia 
segura. Apesar do calor do corpo, ela estremeceu.
- Est com frio? - Ele queria abra-la e mant-la aquecida. Queria mant-la junto dele. E aquele pensamento estranho lhe causou um desconforto no estmago.
O calafrio nada tinha a ver com frio, mas Julia o usou como desculpa.
- Um pouco. - No pde evitar erguer a mo e desliz-la pelos cabelos desalinhados de Cullum. -Acho que precisamos colocar mais lenha na lareira.
- Vou buscar. - Ele se curvou, pretendendo beij-la ligeira e casualmente, mas se demorou mais do que o previsto e ambos comearam a se acariciar.
A chama do desejo se avivou mais a vez, depressa demais para qualquer um dos dois ter tempo de construir uma defesa. Juntos, estenderam as mos, puxaram o edredom 
para cima deles e se entregaram  paixo.


Vinte e Oito

Julia decidiu que novembro era o ms mais interessante do ano. Por ser de transio, com um ar esfumaado e estimulante. O vento soprava frio anunciando o inverno, 
com todas as aventuras e surpresas que acompanhavam os feriados da estao.
Era triste v-lo chegar ao fim. Nunca tivera um ms mais fascinante ou excitante.
Acreditava que ela e Cullum estivessem sendo bem discretos.
Procuravam manter uma distncia profissional durante a jornada de trabalho. A maior parte do tempo, reconheceu Julia, repassando na mente o sumrio e trrido encontro 
que tiveram na despensa recm-reformada. E, era obrigada a admitir, por culpa sua. Algo no modo como ele se encontrava de p no interior daquela rea limpa e acolhedora, 
com o cinto de ferramentas caindo-lhe pelos quadris e a pele cheirando a serragem, fritara-lhe os circuitos o suficiente para ela empurr-lo contra a porta e atac-lo.
No que ele mostrasse algum tipo de resistncia.
A verdade era que sentiam uma enorme dificuldade de manter as mos afastadas um do outro. O fato de terem que fazer isso durante oito horas por dia, cinco dias por 
semana, fazia com que seus encontros aps o horrio de servio se tornassem ainda mais ardentes.
Seu quarto e a despensa no eram os nicos cmodos que ambos haviam desfrutado. Julia relembrou como tinham acabado rolando ao redor dos panos que protegiam o piso 
no interior da biblioteca inacabada, rindo tal qual mergulhes e lutando com botes e zperes.
Pareciam longe de se cansar um do outro.
- Voc est mesmo com uma aparncia feliz... - comentou Laura. Ela e Gwen tinham reservado a primeira tarde de sbado de dezembro para ajud-la a decorar a rvore 
de Natal. Embora cada uma tivesse sua prpria casa agora, nenhuma delas esquecera dos anos que viveram juntas, ou o lao que haviam formado.
- E por que no deveria estar? - Julia procurou o local ideal para pendurar um enfeite de madeira, um Papai Noel montado em seu tren sob uma lua crescente. -A casa 
est quase pronta e ficando exatamente como eu queria.
Agora, com as mos nos quadris ela se virou para estudar a sala de estar concluda. O espao flua com a luz do sol que se esparramava pelo piso de pinho altamente 
polido. Um fogo aconchegante crepitava na lareira de pedra. As molduras de madeira escuras e brilhantes, curvavam-se suavemente sobre as portas e janelas. O revestimento 
de alvenaria ficara formidvel.
Nem lembrava mais aqueles dois escuros e pequenos cmodos. No lugar havia agora um enorme e airoso espao, onde ela colocara suas peas de moblia favoritas. O sof 
com encosto curvo e assentos bordados era perfeito para um cochilo do meio-dia. Duas aquarelas originais do irmo estavam penduradas na parede sobre uma mesa de 
canto, onde repousava uma pea da me, um prato largo pintado em tons pastel.
Um bero de boneca antigo abrigava revistas. Dois ps de fcus flanqueavam a arcada que unia os cmodos. Todas as peas, todos os detalhes, tinham seu toque pessoal.
- Ficou uma sala maravilhosa! - exclamou Gwen.
- Eu sabia que ficaria, ms o resultado foi ainda melhor do que imaginei. Tenho que agradecer a Cullum por ter me sugerido uma arcada larga em vez de um espao completamente 
aberto. Deu uma certa personalidade ao ambiente,
Gwen e Laura trocaram olhares nas costas dela, apontando uma para outra, sacudindo as cabea, revirando os olhos. Laura encolheu os ombros concordando.
- Ento... - disse ela escolhendo um sino prateado minsculo para por em um dos galhos. ...suponho que fique pronta dentro de umas duas semanas.
- Acho que sim. De acordo com o fluxograma de Cullum, estamos quase concluindo os trabalhos.
-  isso que vocs dois fazem... Estudam fluxogramas na cama?
- s vezes, mas... - Piscando vrias vezes, Julia voltou atrs. - O qu?
- Ora, pelo amor de Deus!  bvio que vocs dois esto envolvidos. - Gwen caminhou at um bule de porcelana sobre um sorridente elefante e se serviu de um pouco 
mais de chocolate quente. -  isso?
Com um leve sorriso, Laura pendurou o anjo de pano na rvore.
- Toda vez que a visitamos, temos que voltar correndo para os braos de nossos maridos. O ar aqui anda crepitante. Certo, estamos curiosas. - Ela se virou. - Mas 
tambm preocupadas. Sempre conversamos sobre esse tipo de coisa, mas com Cullum voc est mantendo um silncio atpico.
- No sei o que dizer. Suponho que tenhamos descoberto que a maior parte do antagonismo que havia entre ns era apenas tenso sexual. Quando comeamos a trabalhar 
juntos... - Julia encolheu os ombros. - ...apenas aconteceu.- Seus lbios se abriram num sorriso quando ela encarou as duas primas. -  maravilhoso! Ele  maravilhoso! 
Eu no fazia a mnima idia de que podamos nos dar to bem juntos. E no  s na cama. Fomos para o litoral no fim de semana passado fazer um piquenique na praia. 
Estava frio, congelante. - Ela riu. - Foi o mximo! Cullum adora procurar antigidades. D para acreditar em uma coisa dessas? Ele consegue cada pea maravilhosa 
e pechincha como um campeo. Vejam. - Dirigindo-se s prateleiras suspensas, Julia pegou algo. - Ele conseguiu isto para mim algumas semanas atrs. O negociante 
praticamente a deixou de graa quando Murdoch terminou de falar.
As sobrancelhas de Gwen se reuniram enquanto estudava a pea de metal e o mecanismo que a prendia a um quadrado de madeira velha.
- O que  isto?
- Uma velha chave de telgrafo. - Julia virou o objeto para mostr-la, sem se dar conta de que seu corao se espelhava em seus olhos. --Amo essas coisas! No imaginei 
que Cullum tivesse reparado. E ele tambm faz um macarro incrvel. Quem podia imaginar que algum como ele sabia cozinhar? Ele est me ajudando a escolher as coisas 
para o quarto de recreao que estou fazendo para o pequeno Daniel e todos os outros sobrinhos ou sobrinhas que viro. Estamos procurando mquinas de pinball antigas. 
Ele  bom com esses mecanismos e acha que ser divertido recuperar uma. E eu... - Julia sentiu dificuldade de respirar e foi obrigada a pressionar uma das mos sobre 
o corao. - Oh, Deus. Oh, no! -Com as pernas trmulas deixou-se afundar em uma cadeira e encarou as primas, horrorizada. - O que foi que eu fiz?
- Pelo jeito, caiu do salto.
Gwen tomou outra xcara de chocolate e a ofereceu a Julia.
- Acalme-se e respire fundo.
- Esse no era o plano, no era a idia inicial. No foi esse o acordo - concluiu, projetando a voz uma oitava acima do normal.
- Deixe-me ser a primeira a lhe dizer, voc no pode planejar essas coisas.
- Mas eu nem gosto dele. - Julia fechou os olhos enquanto Gwen sorria - Bem, eu no gostava... Pensei que no gostasse.
- Se isso ajuda, acho que vocs dois foram feito" um para o outro.
- No, no ajuda. - Ela segurou a xcara com ambas as mos e sorveu um longo gole. - No ajuda em nada. O que vou fazer? - Cullum ficaria furioso ou histrico se 
soubesse.
Laura sentou-se no brao da cadeira,
- Diga-me, um homem que cozinha macarro para voc, que lhe compra presentes estranhos e deseja reformar uma mquina de pinball para lhe agradar,  insano a ponto 
de agir dessa maneira?
- No, no . Voc acha? No. - Aborrecida consigo mesma, Julia se ergueu. - Oh, como isto pde acontecer comigo? Dez minutos atrs eu estava nas nuvens. Ele chegar 
dentro de algumas horas para reparar um abajur dco que achamos ontem  noite.
- Ele conserta abajures! - disse Gwen com um suspiro.
- Que doce!
- No  doce,  impossvel. No quero me apaixonar por ele.
- Por qu? - Laura inclinou a cabea.
- Porque ... Porque ele ...
- Vejo que a testemunha est tendo dificuldades para responder a pergunta - disse Laura num tom sbrio. - Deixe-me reformular a... - Oh, droga - acrescentou ao ouvir 
o som de um beb alvoroado soar atravs da bab eletrnica.
- O tribunal entrar em breve recesso, mas logo estaremos de volta.
- Julia... - comeou Gwen enquanto Laura subia a escada apressada. - Gostaria de lhe dizer algo.
- V em frente.
- Voc nunca aparentou mais felicidade do que quando estava falando sobre Cullum e do tempo que passam juntos. E j presenciei o suficiente para perceber o modo 
como ele a olha. No creio que esteja mais apaixonada por ele do que ele est por voc.
- Se isso  verdade... - Julia respirou trs vezes, fundo e cautelosamente. - Poderia dar certo. No acha?
- Nunca a vi desistir de algo que deseja. Sei que  assustador. s vezes, o que sinto por Branson e agora pelo beb... - murmurou tocando o ventre proeminente. - 
... to intenso, que ainda me assusta. Mas eu no ia querer que fosse diferente.
- Ento, preciso convenc-lo de que ele est loucamente apaixonado por mim.
- Eu diria que voc tem de persuadi-lo a admitir isso. O modo voc j sabe.
- Em voz alta. - Ela quase riu novamente, quando Laura entrou com Daniel nos braos. - No posso imaginar Murdoch dizendo isso em voz alta. - Mordendo o lbio inferior, 
Julia ponderou. - A menos que eu lhe pregue uma pea.
- A velha Julia de sempre - comentou Laura, sentando na cadeira de balano e desabotoando a blusa para amamentar o beb.
- Eu no quis dizer pregar uma pea, exatamente.  mais como... arrancar isso dele.
Julia estava pronta para Cullum. Ao abrir a porta, presenteou-o com um sorriso fervoroso. A seguir, deslizou os braos e o enlaou pelo pescoo, pressionando-lhe 
um longo e profundo beijo nos lbios.
- Estou feliz em v-la - disse ele, empurrando-a para dentro e fechando a porta com um chute para manter o frio e a neve do lado de fora. - O que deu em voc, MacGregor?
- Estou feliz. - Julia correu a ponta da lngua ao longo do queixo dele. - Cheia de afeto para dar. Que humor  esse, Murdoch?
- Estou admirado.
- No viu nada ainda. - Ela relaxou o abrao e sorriu. -Preparei o jantar.
- Isso no  perigoso?
- Pois saiba que sou uma cozinheira muito competente. - Quase, ela emendou em silncio. - O que acha de carne de porco recheada e pur de batata?
- Muito bom.
- timo! - Julia envolveu-o pelo brao o com estrelas nos olhos, caminhou com ele at a cozinha.
Tinha a mesa posta com pratos coloridos e velas. Uma msica baixa soava atravs dos alto-falantes ocultos e dentro de um balde antigo cheio de gelo havia uma garrafa 
de champanhe resfriando.
Confuso, Cullum meneou a cabea.
- O que estamos celebrando?
- Nada. Trata-se apenas de uma refeio caseira, ao estilo MacGregor.
Por que no abre a garrafa agora? O jantar ser servido daqui a aproximadamente vinte minutos.
- Que cheirinho maravilhoso... - Ele se ocupou com a garrafa, desejando saber que diabos Julia estava pretendendo. Se aquilo no fosse uma jogada de uma mulher que 
pretendia algo, ficaria surpreso. - Est querendo que eu reerga uma parede que derrubei? Mudou de idia quanto  cor do piso no quarto de hspedes?
- No. Apenas tive vontade de cozinhar. Deve ser a proximidade dos feriados. Oh, eu deveria ter-lhe mostrado! Armamos a rvore de Natal hoje.
- Eu vi pela janela quando estava estacionando o carro. Parece bonita.
- Podemos comer a sobremesa na sala de estar e apreci-la um pouco, que tal?
Agora cauteloso, Cullum serviu o champanhe em duas taas altas.
- Voc fez sobremesa?
- Bolinhos folhados de nata. - Uma velha receita da famlia. - Julia pegou a taa e sorriu. - Levei um bocado de tempo preparando-os.
Trs horas, pensou, suprimindo um suspiro. Nas primeiras duas tentativas, os bolinhos tinham queimado e ido parar no lixo. - Ento, como foi o seu dia?
- Produtivo. Quase terminei os trenzinhos de madeira que estou construindo para as minhas sobrinhas.
- Eu adoraria v-los. Poderia ajud-lo com a pintura. No sou nenhuma Shelby MacGregor, mas no sou ruim com os pincis.
- Claro. - Cullum a fitou. - Isso seria timo!
- Bem, vou inspecionar a carne e preparar a salada.
- Vou ajud-la.
- No, a produo  minha. Apenas sente-se e relaxe.
Quando Julia colocou um avental, ele decidiu que sentar seria uma excelente idia. Que diabos estava havendo com aquela mulher?, desejou saber.
Ela era inteligente, solcita, tudo menos servil. Mas estava usando um avental.
Aquela no era a sua Julia.
Sua Julia? Cullum ingeriu um longo gole de champanhe enquanto as implicaes daquele pensamento explodiam em sua mente. Desde quando a considerava sua?
Desde... sempre, percebeu. Desde sempre. Durante anos disfarara seu interesse sob a mscara do sarcasmo e do mau humor. Mas seu desejo por Julia estava l, profundamente 
enterrado, crescendo e criando razes. Agora que haviam se tornado amantes, era impossvel negar que estava apaixonado por ela.
E, mesmo se conseguisse desenrolar a lngua e proferir tais palavras, seria posto pela porta afora antes de completar a frase.
Bem, dane-se, pensou, enquanto Julia continuava atarefada e tagarelando na cozinha, estava apaixonado e pronto. Cuidaria para faz-la apaixonar-se por ele tambm. 
E ela seria a primeira a admitir isso.
Ps de lado o copo, ergueu-se e foi at a cozinha. Abraando-a por trs, enlaou-a pela cintura e roou os lbios no pescoo delicado.
- Est mais cheirosa do que o jantar. Os joelhos de Julia bambearam.
-  mesmo?
- Estou ficando mais interessado em sabore-la... e ser saboreado. - Ele se curvou, alcanou o fogo e diminuiu temperatura do forno e dos queimadores.
Julia estava sorrindo quando ele a virou, Mas o sorriso enfraqueceu e seus nervos se agitaram quando os olhos verdes a fitaram como se a estivessem absorvendo
- O que ?
- As vezes... - disse Cullum num tom lento, como se aquela nova compreenso sobre o amor o inundasse - ...voc  to linda... E esta  uma dessas vezes.
Ele nunca lhe dissera que ela era bonita, nunca a tocara com aquela suavidade e a beijara to devagar, to profundamente e com tanta concentrao. Todas as emoes 
dentro dela nadaram e chegaram  superfcie, iluminando-lhe o corao e os olhos.
- Cullum...
- Por que estamos sempre com pressa? - murmurou ele de encontro  sua boca. Por que no se detinham a saborear um ao outro para sempre?
- No sei. - Mas Julia sabia que queria que ele continuasse a beij-la e a toc-la daquela maneira.
- No vamos nos apressar desta vez. - Ele a puxou para si. - E veremos o que acontece.


Vinte e Nove

Algo estava errado com Julia, concluiu Cullum. Ela no estava agindo normalmente e isso j vinha acontecendo h dias. A mulher sorria o tempo todo, perguntava a 
opinio dele e lhe pedia conselhos sobre tudo, desde a gradao do abajur a apetrechos para a lareira. E no estava sendo sarcstica ou divergente.
Tinha at assado um bolo.
Sabia que estava perdido quando se forara a comer dois pedaos. O que quer que ela tivesse usado para o glac assemelhava-se a cola de carpinteiro. J estava comeando 
a imaginar se alguma espcie de aliengena havia se apossado do corpo dela.
No lhe restara outra alternativa seno cooperar, meditou, parado em frente a Murdoch & Sons aps o horrio de expediente. O que mais poderia fazer? Como um homem 
podia discutir com uma mulher que concordava com tudo que ele dizia?
Sentia falta de suas discusses.
Cullum avistou a picape do pai ainda estacionada ao lado da entrada. Como todo o pessoal j tinha ido embora, teriam a chance de conversar sobre os trabalhos e analisar 
os horrios dos feriados. Ento, decidiu tomar uma ducha rpida antes de ir  casa de Julia para outra sesso de refeio caseira.
Que Deus o ajudasse!
Assim que conseguisse persuadi-la a confessar que o amava, anunciaria que iriam se casar. Tinha tudo cronometrado. Ficaria por cima. Colocaria um anel no dedo dela 
e a arrastaria para o altar, antes que Julia tivesse a chance de saber que ele havia planejado tudo.
No minuto em que estivessem casados, acharia um modo diplomtico de bani-la da cozinha pelos prximos cinqenta anos.
Enquanto isso, arriscar-se a ter uma pequena intoxicao gastrointestinal no era um preo to alto a pagar. No quando Julia era o prmio. E que prmio, pensou 
enquanto descia da caminhonete aoitado por um vento gelado. Levara quase cinco anos para compreender que ela era a nica mulher no mundo que ele queria, mas agora 
reconhecia esse fato.
Nada, nem mesmo a ameaa da canja de galinha surpresa de Julia, o impediria de faz-la sua esposa.
Um golpe de inspirao o atingiu quando ele destrancou a porta da loja. Ligaria para ela, decidiu. Iria lhe dizer que fizera reservas para um jantar de comemorao 
pr-Natal, j que, em breve, ela estaria partindo para Hyannis a fim de passar o feriado com a famlia.
Graas ao humor que Julia vinha tendo nos ltimos dias, no teria muito problema em mudar os planos no ltimo momento.
Satisfeito, entrou no interior da loja. Diria ao pai que teria que fazer algumas ligaes antes de discutirem os negcios.
Enquanto caminhava ao longo do curto corredor, Cullum ouviu o estrondo da risada de Michael. Isso o fez sorrir. H meses vinha se preocupando com a sade do velho. 
Mas, nos ltimos dias, Michael Murdoch vinha exibindo uma considervel melhora. O velho brilho nos olhos voltara e seus passos se mostravam firmes outra vez. Ainda 
mantinha repouso, mas estava se recuperando.
Comeou a caminhar em direo  porta do escritrio do pai, apenas para avis-lo de sua chegada. Ento, ouviu o que Michael dizia e estacou mortificado.
- Estou lhe dizendo, Daniel. Cullum vai pedi-la em casamento antes do fim do ano. Nenhum plano poderia ter dado mais certo. - No cho, ao lado da escrivaninha, Michael 
continuou sua srie de abdominais, enquanto a voz de Daniel soava atravs do viva-voz.
- O que esses dois esto esperando? - exigiu Daniel. -Afinal j esto juntos h quase trs meses.
- Bem, Deus sabe que ambos so mais lentos que duas tartarugas mancas, mas estamos chegando l. Afinados como gaitas, Michael trocou de brao para fazer outros vinte 
abdominais. - Minhas fontes me disseram que ela est cozinhando para ele.
- Julia? Cozinhando? Deus tenha piedade, Michael. No me diga que o rapaz tem comido.
Quase sem flego, Michael riu novamente.
- Sim, tem. E como comi um pedao do bolo que ela assou para ele, posso lhe garantir que um homem que consegue engolir mais de uma bocada do que ela faz na cozinha 
s pode estar muito apaixonado.
- Ah, que belo casal eles formam! Foram feitos um para o outro. Embora no nos agradeam por t-los feito descobrir isso, vamos lhes proporcionar um grande um casamento, 
Michael.
- Ora se vamos, Daniel. E ser um grande alvio para mim ter recuperado completamente a sade.
- Mas tome cuidado para no recuper-la cedo demais. Se os dois empacarem, pode precisar ter uma recada. Julia vir para o feriado de Natal. Se ela ainda no estiver 
usando o anel de noivado, terei que dar um pequeno empurrozinho final.
- E eu ficarei atento a esse empurrozinho.
- Feliz Natal para voc, Michael.
- Igualmente, Daniel. Michael ergueu-se ligeiramente e abriu a fivela que lhe prendia os alteres aos ps. O sorriso iluminado congelou e o rubor saudvel que lhe 
coloria o rosto desapareceu. O filho estava de p junto  entrada, com um brilho afiado no olhar e a boca curvada numa carranca.
- Cullum! - Sua voz soou normal e no fingiu que seus membros estavam fracos. - Eu, ah... no o ouvi entrar. H quanto tempo est parado a?
- Tempo suficiente. - Fria e humilhao se misturavam no peito de Cullum, at ele no poder separar uma da outra - Voc no estava doente.
- Doente? Claro que estava doente - disse Michael ponderando desesperadamente. - Gripe - administrou ofegante, afundando na cadeira atrs da escrivaninha. - Estou 
me sentindo bem melhor. Bem melhor mesmo. O mdico disse que exerccios podiam...
- Ora, poupe-me dessa conversa fiada - rosnou Cullum caminhando devagar at a escrivaninha. - Est to forte e saudvel quanto um touro. Voc mentiu para mim. - 
Ele bateu com as palmas da mo no tampo da mesa e se apoiou. - Fiquei terrivelmente preocupado com a sua sade. Os homens se juntaram para lhe enviar uma cesta de 
frutas.
- Foi muita considerao da parte deles. Fiquei muito grato. As frutas...
- J lhe disse para me poupar dessa conversa.
Os olhos de Michael se estreitaram. Ele se ergueu a fim de encarar o filho nos olhos.
- Cuidado com o tom com que se refere a mim, Cullum Murdoch. Eu ainda sou seu pai.
-  isso que o salva de eu o erguer e jog-lo pela janela. Voc e Daniel MacGregor arquitetaram um plano para me unir  Julia. Os dois pensaram que, se trabalhssemos 
juntos e batssemos cabea com freqncia, perceberamos que fomos feitos um para o outro e nos apaixonaramos.
Michael contraiu a mandbula.
- Isso resume bem as coisas. E deu certo, no ? Ento qual  o problema?
- Qual ... - Cullum foi obrigado a recuar um passo e se virar. Nunca na vida considerara a possibilidade de dar um soco no prprio pai. - Eu gostaria de pegar vocs 
dois e bater suas cabeas uma contra a outra.
- Voc est de olho em Julia MacGregor h anos. No adianta negar.
- Isso era problema meu - murmurou Cullum.
- E ela tambm no era indiferente a voc. O que eu e Daniel fizemos foi dar um empurro na direo certa.
- Sua direo. Pensa que vou lhe agradecer por isso?
- Bem, acho que deveria. - Tentar aplacar a raiva do filho era bobagem, pensou Michael. Discutir no mesmo tom daria mais certo - At um bobo cego montado em um cavalo 
perceberia que vocs dois esto apaixonados. Ela o faz feliz e voc a faz feliz. E quer saiba ou no, j que  o homem mais teimoso que j vi na vida, os dois j 
construram uma casa juntos.
- A casa  dela.
- Sim . E sua da mesma maneira. Seu corao est nela. Cullum no pde contestar. Mas aquela no era a questo.
- Julia e eu fizemos um acordo antes de iniciarmos nosso relacionamento. - No importava que ele no tivesse aceitado as condies dela, ou que as considerasse ridculas. 
Agora teria que us-las. - A relao no  permanente. No  permanente - repetiu entre dentes quando seu pai bufou. - E se pensa que vou pedi-la em casamento, est 
muito enganado.
- Voc est apaixonado por ela, no est?
Cullum abriu a boca para negar, mas enfiou as mos nos bolsos e ficou em silncio.
- Pronto, j respondeu, j que no consegue mover a lngua para falar sobre isso. Seu tolo. - Suspirando, Michael sentou-se outra vez. - Ela  uma mulher brilhante 
e adorvel.  preo para voc em fora de vontade.  inteligente, bem-humorada e descende de uma excelente famlia.
- Ento, case-se com ela. Michael apenas sorriu.
- Se eu fosse vinte anos mais jovem, meu rapaz, eu u roubaria bem debaixo do seu nariz. E se no andar ligeiro, outro far isso.
- Ela no est saindo com ningum.
- Claro que no - disse Michael num tom suave. - Por que estaria, se est apaixonada por voc?
Derrotado, Cullum tirou as mos dos bolsos e esfregou os olhos.
- Isso no leva a lugar algum. Voc e o velho MacGregor decidem brincar de teatro de marionetes, mexem os fios e esperam que eu e Jules dancemos. Vou lhe dizer uma 
coisa - continuou, deixando os braos carem ao longo do corpo - Se ela descobrir que vocs dois armaram isso tudo, vai me expulsar da vida dela.
- Mas voc no vai contar nada, no ? - perguntou Michael com um sorriso vitorioso nos lbios.
- No, no vou contar. Mas de agora em diante vocs dois ficam fora disso. - Cullum apontou um dedo para o pai.
- Completamente fora, entendeu? Julia e eu nos viramos do nosso modo. Se e quando decidirmos nos casar, ser porque ns dois decidimos, no porque meu pai e o av 
dela acham que  a coisa mais certa a fazer.
- Claro, a deciso ser sua. - O sorriso de Michael nunca vacilava. - Oh, o rapaz estava no lao e nem mesmo sabia, pensou. -  a deciso mais importante que um 
homem toma na vida. Sua felicidade  o que importa para mim, mais do que qualquer outra coisa no mundo, filho.
Cullum se sentiu fraquejar.
- Olhe, sei que suas intenes so as melhores, mas...
- As melhores - repetiu o pai, abrindo uma gaveta da escrivaninha. - Gostaria de lhe dar uma coisa. Se decidir que Julia  a mulher que voc quer para construir 
uma famlia, espero que lhe d isto. - Michael abriu uma caixinha branca acetinada. - Era da sua me. - Uma avalanche de sentimentos e recordaes o inundou ao pass-la 
s mos do filho. - No pude comprar um diamante quando pedi a ela que passasse o resto da vida a meu lado.  um topzio. Ela sempre o comparou a um pequeno raio 
de sol e no quis substitu-lo mais tarde, quando o dinheiro comeou a entrar.
- Pai...
- No o estou pressionando. Sempre quis dizer isso quando chegasse a hora certa. Sua me queria que eu o passasse adiante. Ela teria adorado a sua Julia, filho.
- Sim... ela teria - impotente ante a tal gesto, Cullum pegou a caixa e a colocou no bolso.
O que teria acontecido? Julia tirou a mala do armrio. Precisava embalar seus pertences para a viagem a Hyannis e de algo que a fizesse parar de pensar em Cullum 
e seu estranho comportamento.
Ele insistira em sarem todas as noites durante uma semana. Levava-a para jantar, danar, iam ao teatro e a festas. Sabia muito bem que ele preferia ficar em casa, 
mas, de repente, Cullum se transformara em um animal social. Aquilo a estava deixando louca: compreender e ter que se ajustar quelas mudanas de humor.
Com um pequeno suspiro, Julia dobrou os suteres e os colocou na mala. No saiba, at quando poderia manter aquela rotina de mulher agradvel. O nico benefcio 
real era que no precisava ficar zanzando pela cozinha. Arte culinria definitivamente no era o seu forte. Mas, para seu azar, Cullum adorava a comida dela.
Por certo o homem devia ter um estmago de ferro, pensou. Ela mal conseguia provar seus prprios preparados, mas ele sempre esvaziava o prato.
Devia ter havido algum erro de clculo da sua parte. Agora, ele ia esperar que ela cozinhasse com alguma regularidade. Detestava se ver em meio a receitas culinrias 
quase tanto quanto o amava.
O amor a estava transformando em uma tola, percebeu Julia.
E ele estava sendo to amvel, to terno! Aquele novo modo de fazerem amor a deixava com as pernas bambas e lhe arruinava a capacidade de raciocnio. Ansiava por 
ouvi-lo dizer aquelas palavras. Toda vez em que ele a tomava nos braos, achava que seria o momento que ele diria que a amava.
Mas isso nunca acontecia.
No diria primeiro, decidiu, jogando as roupas na mala. No podia. J fizera dzias de concesses, j lhe dera muitas oportunidades para que falasse. Pelo menos 
naquele ponto precisava se manter firme.
E onde diabos ele se enfiara? Fez uma carranca ao conferir o relgio, lanando mais roupas na mala. Cullum sabia que ela partiria naquele dia, que aquela era a ltima 
chance de se verem antes do Natal. Tinha que pegar a estrada dentro da uma hora se quisesse chegar em casa dos avs antes de anoitecer.
Mas o que estava fazendo?, perguntou-se. Perdendo tempo como uma idiota apaixonada. Mais uma vez, submetendo os prprios planos para ajust-los aos dele.
Ia parar com aquilo. Com um aceno decisivo, fechou a mala. Estar apaixonada no significava ser um capacho. Partiria no horrio certo, dando seqncia ao que planejara. 
E, se Cullum Murdoch no gostasse, problema dele.
Levando a mala para o carro, comeou a laboriosa tarefa de arrastar as bolsas de compras carregadas com presentes. Quando Cullum estacionou a caminhonete atrs do 
carro dela, o humor de Julia no estava repleto da alegria que a proximidade do feriado proporcionava.
Tampouco o dele. Um problema de trabalho no centro da cidade o mantivera ocupado a maior parte da manh. E ainda precisava voltar para concluir o servio at a noite, 
a despeito do fato de ser vspera de Natal.
O trnsito estava horrvel, at mesmo para uma cidade como Boston, e ele recebera uma multa por excesso de velocidade. Tudo porque estava apressado para ver Julia
E agora ela estava partindo.
Cullum fez o possvel para manter o controle, lembrando a si mesmo de que era Natal, que aquela era a mulher que ele amava e que lhe confessaria isso to logo ela 
tivesse o bom senso de lhe confessar primeiro.
- Estou com uma pressa louca - disse ele, pegando uma das bolsas para coloc-la junto s outras no assento traseiro do carro.
- Eu tambm.
- O trnsito est uma loucura. Vai ter que correr um bocado se quiser chegar na hora.
- Obrigada pelo boletim - falou Julia num tom suave. - Mas eu me viro.
Claro que, se voc tivesse chegado antes, a essa hora eu j estaria na estrada.
- Tive um chamado urgente. - Cullum lutou para manter a voz moderada, mas no foi capaz de esconder o brilho de irritao no olhar. - Tem mais bolsas?
- Sim. - Ela se virou, entrou na casa, fervendo de raiva. E, fervendo de raiva, ele a seguiu. - Estas so as trs ltimas.
- No acha que  um pouco de exagero?
- Gosto de dar presentes. - Julia pegou uma caixa solitria debaixo da rvore de Natal e a colocou na mo dele.
- Aqui est o seu.
Fitando-a, Cullum enfiou a caixa no bolso de modo a poder carregar o restante das bolsas.
- Qual  o seu problema, MacGregor?
- Se ainda no percebeu, certamente no vou lhe falar.
- Julia se virou e deixou a casa na frente dele.
- Olhe, no dirigi pela cidade nesse trnsito miservel s para receber uma multa e chegar aqui e ser tratado dessa maneira.
- No tenho culpa se resolveu dirigir como um irresponsvel e recebeu uma multa, mas isso explica seu mau humor.
- Meu mau humor? Voc estava rosnando para mim antes mesmo de eu descer da caminhonete.
Julia ergueu o queixo.
- No tenho tempo para discusses. J me atrasou o suficiente.
- Muito bem, madame. - Cullum tirou do bolso uma caixa elegante com um lao de fita. - Aqui est o seu presente. At breve. - Ele caminhou em direo  caminhonete, 
praguejando. Ento, voltou, tomou-a nos braos com impetuosidade e esmagou-lhe os lbios num beijo - Feliz Natal! - vociferou, afastando-se em seguida,
- Igualmente! - gritou Julia, entrando no carro e batendo a porta com fora.
Ento, ela o esperou partir, antes de permitir que uma avalanche de pesadas lgrimas escorresse de seus olhos.


Trinta

Estava tudo terminado. Tudo terminado. Seu engano, concluiu Julia, foi se iludir, achando que estava apaixonada e que o amor poderia faz-la ajustar-se s necessidades 
e aos desejos de Cullum.
Por esse motivo, passara as ltimas duas semanas andando p ante p sobre cascas de ovos e colecionando receitas.
Isso era mortificante.
Graas a Deus voltara ao juzo normal. Era uma mulher independente, que tomava as prprias decises, vivia a prpria vida e traava as prprias metas. Quando falasse 
com Cullum novamente, explicaria calma e claramente que o relacionamento deles no a interessava mais e ponto final.
Mas nunca se sentira to deprimida em toda a vida.
Fizera o possvel para exibir uma fisionomia alegre para a famlia. E, quando falhava vez ou outra, sempre apresentava um leque de variadas desculpas. Estava com 
uma pequena dor de cabea ou distrada ou com algum negcio importante em mente.
No que acreditasse, nem por um momento sequer, que os tivesse enganado. Mas no teve outro jeito e agora estava em casa novamente, na sua casa. As luzes da rvore 
de Natal piscavam to brilhantes e coloridas que lhe feriam os olhos. Mesmo assim, recusava-se a desvi-los. Cullum Murdoch no arruinaria seus feriados.
Havia os detalhes finais da festa para mant-la ocupada. No instante em que tudo estivesse sob controle, entraria em contato com ele. Por certo faria isso antes 
do fim do ano.
Adeus ano velho, feliz ano novo, disse a si mesma, olhando para o telefone mais uma vez.
Por que ele no ligava?
Sem perceber, Julia ergueu uma das mos para tocar o colar antigo que usava no pescoo. O presente de Natal que Cullum lhe dera era um adorvel colar em forma de 
lao de prolas minsculas, rubis e citrinos. Ao v-lo, ficara surpresa, lembrando-se de que vira aquela jia em uma das lojas onde costumava comprar.
Se no estivesse em uma poca em que precisava comprar tantos presentes, o teria arrematado para si. Embora no lhe tivesse dispensado mais que um olhar de relance, 
Cullum havia notado, lembrado e o comprado para presente-la.
Aquilo a fez sentir vontade de chorar novamente.
Repelindo a depresso, sentou-se atrs da escrivaninha mvel a fim de revisar a lista da festa. O servio de buf fora contratado, o cardpio aprovado, as flores 
e a msica escolhidas.
No havia mais nada a fazer, percebeu Julia, sentindo os olhos umedecerem. Furiosa consigo mesma, empurrou a escrivaninha para longe. Tinha que sair de casa. Ir 
a algum lugar, qualquer lugar.
Cullum discutia consigo mesmo enquanto dirigia a caminho da casa de Julia. Estava se comportando como um cachorrinho que levava um pontap e voltava para receber 
outro. Odiava-se por isso. Ela poderia ter lhe ligado quando retornara de Boston. Afinal, tinha lhe dado dois dias para tal, no ?
Fora ela quem partira em viagem, ento era ela quem deveria ter lhe telefonado ao chegar.
Pretendia lhe dizer aquilo com poucas palavras. Ento anunciaria que algumas mudanas deveriam ser feitas. Ou as coisas voltavam a ser como um ms atrs ou ela podia 
esquec-lo.
Ao estacionar na frente da casa de Julia e perceber que o carro dela no estava l, ficou profundamente decepcionada. At mesmo a raiva, que ele podia tentar controlar, 
no era nada comparada ao desejo de v-la, de falar com ela e toc-la.
- Tpico - murmurou Cullum, fazendo uma carranca em direo s luzes alegres da rvore de Natal que piscavam atravs da graciosa janela. - Ela consegue me fazer 
sofrer mesmo sem estar perto.
Arrasado, enfiou a mo no bolso, tirou o velho relgio de bolso de ouro escovado que ela lhe dera de Natal. Como Julia podia conhec-lo to bem a ponto de presente-lo 
com algo to perfeito e no saber que o estava magoando?
O que ia fazer?
Cullum fechou os olhos e reclinou a cabea no encosto do assento. No podia viver sem aquela mulher. Pensou que pudesse. Passara vrios dias tentando se convencer 
disso. Mas, ao chegar ali e ver a casa em que haviam trabalhado juntos, vazia, sem ela, percebeu que no era possvel.
No queria Julia fora da sua vida.
Ele havia sido vencido no final das contas.
- Ento o que acha? Est tudo timo, no ? - Julia exagerava no batom, quase no dando  av a oportunidade de falar. - Estou to feliz por voc e o vov terem 
vindo mais cedo. No tem mais nada para fazer, mas mesmo assim estou um pouco nervosa.  a minha primeira festa nesta casa.
- Julia...
- E de fato quero que tudo saia perfeito. Como estou? Estou bem?
Anna estudou a neta calmamente. Julia havia escolhido um minivestido de veludo verde com mangas longas e colado ao corpo. Tinha os cabelos presos num coque leve, 
de onde escapavam estrategicamente algumas mechas. E seus olhos, pensou a av, possuam um brilho exagerado.
- Est adorvel, querida. Por que no nos sentamos?
- No posso. Preciso ir conferir o servio de buf. As pessoas logo comearo a chegar...
- Julia. - Com seu modo suave e indiscutvel, Anna segurou a mo de Julia. - Sente-se e me conte o que a est incomodando.
- No sei. - Julia ofegou antes que pudesse controlar a respirao. - No sei o que fazer, o que sentir, no sei... Est tudo muito confuso na minha cabea. Estou 
apaixonada por Cullum Murdoch e no consigo continuar nosso relacionamento.
- Estou vendo. -Anna a conduziu at a sala de estar. - Por que no consegue continuar o relacionamento?
- Ele no me ama. Acho que nem gosta mais de mim. Arruinei tudo e no sei como. Eu tentei... Parei de contrari-lo, mesmo quando ele estava errado. At cozinhei 
para ele, mas no deu certo e acabamos brigando. Ele foi embora. Eu fui embora. No sei... Ele nem mesmo me ligou desde que cheguei.
- Voc ligou para ele?
- No. No vou ligar para ele at que ele me ligue. Foi ele quem se atrasou e ainda chegou de mau humor. Droga. - Julia deu algumas pancadinhas de leve sob os olhos. 
- Estou arruinando meu rimei.
- Depois voc repara isso. Est me dizendo que teve uma briga com Cullum e ainda no o procurou para fazerem as pazes.
- No. - Julia soluou. - Ns sempre brigamos, gostvamos de implicar um com o outro. - Sentindo-se tola, ela deixou escapar um longo suspiro. - Ento, percebi que 
estava apaixonada por ele. No pretendia estar, mas estava. Logo, pensei que, se eu tentasse ser um pouco menos... eu. Se tentasse ser mais agradvel, se cozinhasse 
alguns pratos para ele, Cullum se apaixonaria por mim, se declararia e eu faria o mesmo. E isso soa to tolo que mal posso acreditar que est saindo da minha boca.
- Nem eu. Mas a paixo geralmente destri 08 neurnios, Tentar ser uma pessoa diferente foi um grande erro.
- Provavelmente.  que eu queria tanto que ele me amasse! Pensei que pudssemos contornar as diferenas quando chegssemos a esse ponto. Mas ele no me ama. E eu 
tambm no o quero. Ele  arrogante, contraditrio e mando.
Paciente, Anna abriu sua bolsa de noite e retirou um leno para enxugar as lgrimas que escorriam pela face de Julia.
- Claro que ele . Caso contrrio, teria passado por cima dele, e voc menospreza homens que a deixam fazer isso. Quer um que resista, que a enfrente.
- Pensei que eu pudesse fazer isso tudo acontecer. Mas no se pode fazer os sentimentos acontecerem, assim como no se pode faz-los parar. Eles apenas surgem.
- Ento aprendeu uma boa lio. Vai confessar os seus sentimentos ao Cullum?
- Para ele zombar de mim?
- Acha, de fato, que ele faria isso?
- Talvez no, mas poderia sentir pena de mim. O que seria pior. - Julia meneou a cabea e se ergueu. - Eu ficarei bem. Acho que preciso esquecer tudo isso. Sinto 
muito por ficar choramingando.
- Querida, desde o dia em que nasceu, jamais a vi choramingar.
- E no comearei agora. - Determinada, Julia se dirigiu ao espelho para retocar a maquiagem. - Quero que esta festa seja especial. E o comeo da minha casa nova, 
de um novo ano e de uma vida nova.
- Onde esto as minhas meninas? - perguntou Daniel num tom elevado ao mesmo tempo em que entrava na sala equilibrando uma bandeja com trs taas repletas de champanhe. 
- L esto elas e mais bonitas do que deveriam estar. Vamos brindar a elas. Ele pousou a bandeja e ento seu sorriso largo enfraqueceu ao avistar a face chorosa 
da neta. - O que h de errado, minha menina? O que  est havendo aqui?
- Nada. Estava me sentindo um pouco triste. - Julia enxugou o rosto cuidadosamente. - Homens. Por que no podem ser todos como voc, vov?
- O que o rapaz fez? - exigiu Daniel. - Porque, se ele fez algo que a fez chorar, vai ter que se ver comigo.
Julia comeou a rir, entretanto um estranho pensamento comeou a circular em seu crebro.
- Que rapaz?
- O Murdoch,  claro. - Lgrimas femininas sempre o terrificavam. Daniel atravessou a sala, gesticulando com os braos. - Ele  um bom rapaz, no comete erros, mas 
no quero que ele a faa infeliz. Diga o que foi que ele fez que eu consertarei as coisas.
Lentamente, Julia se virou do espelho.
- Quantas vezes fez isso antes?
- Fazer minha menina chorar quando ela deveria estar se sentindo nas nuvens. Vou ter uma conversa com Cullum Murdoch, ora se vou. E quando terminar... - Ele se calou 
de repente ao perceber o brilho sagaz nos olhos de Julia. - O que disse?
- Como soube que eu estava chorando por Cullum?
- Bem, voc disse. - No tinha dito? Um pouco perdido, Daniel olhou para a esposa em busca de apoio, mas s encontrou um olhar duro como uma rocha. - No vamos mais 
falar sobre esse assunto - emendou depressa. - Vamos fazer um brinde.
- Como voc pde estar por trs de tudo isso? - Julia desejou saber. - No estava aqui, no planejou comprar a casa para mim ou contrat-lo para trabalhar nela.
-  verdade. - Agarrando-se a qualquer coisa, Daniel pegou um copo e o ofereceu  neta. Seus olhos azuis tinham um brilho suave e inocente. - Vamos fazer um brinde 
 sua nova e bela casa. O rapaz fez um trabalho de respeito.
- Mas eu havia contratado o sr. Murdoch - murmurou Julia, - Voc  muito amigo de Michael Murdoch, no , vov?
- Conheo-o h anos. Descende de uma excelente famlia. - Julia respirou fundo, pronta para se enfurecer. Ainda ativo no alto de seus 91 anos, Daniel deu salto para 
trs quando a aldrava de metal bateu contra a porta da frente
- Convidados chegando. No se preocupe, eu os receberei. Anna, ajude a menina a refazer a maquiagem. Toma rei conta de tudo - dizendo isso Daniel abandonou o campo 
enquanto ainda tinha a cabea.
- No sei como o vov conseguiu isso - comeou Julia.
- Mas ele conseguiu. 
- Concordo com voc. - Anna disfarou o sorriso indulgente que queria lhe curvar os lbios. - Mas no h como det-lo.
No tinha importncia, disse Julia a si mesma. O que quer que o av tivesse planejado no tinha dado certo. Ela e Cullum se incumbiram de arruinar. A obras haviam 
terminado e eles tambm.
O som de msica, vozes e risadas se misturavam pelos cmodos. A famlia e os amigos espalhados pela casa, exatamente como ela planejara, exatamente como desejara 
v-los. O fogo crepitando na lareira e as luzes piscando.
- A casa ficou linda! - disse Shelby deslizando um brao ao redor do ombro da filha. - Est perfeita para voc.
- Sim,  verdade. Mas a estou colocando  venda na prxima semana.
- O qu? 
- No  um lugar para se viver sozinha. - Seu olhar varreu a espaosa sala de visitas, o acabamento fino, o brilho da madeira. - H muito de Cullum aqui. 
- Querida, no se precipite. 
- No estou me precipitando.  necessrio. Ficarei bem.
- Julia apoiou a cabea de encontro  da me. - Sempre fico. Acho que vou para Washington por algum tempo. Preciso me mudar. 
- Sabe que seu pai e eu adoraramos t-la por perto, mas...
- No se preocupe comigo. Vou pensar muito bem antes de fazer qualquer coisa. Agora me diga, quem  a mulher que est rondando D.C.?
- Seu irmo a conheceu no Maine. Ela  poetisa. Cita poesias de Elizabeth Barrett Browning incessantemente. Sempre fui apaixonada por Browning.
Com um riso, Julia sorveu um gole de champanhe.
- Ela  daquelas irritantes?
- Oh, demais. Acredite. Se por um minuto eu imaginar que o namoro dos dois  srio, eu... -As palavras morreram na boca de Shelby e seu corao se iluminou consideravelmente. 
- Julia, voc tem outro convidado.
- Oh? Quem? - Ela se virou e viu Cullum entrando na sala.
Ele trajava um terno e a maldita gravata parecia estrangul-lo. Mas lhe pareceu certo se vestir a carter. Afinal, no se podia vir a uma festa de reveillon usando 
roupas de flanela e brim.
E a festa era elegante, sedas e veludos, jias reluzentes, comida requintada e vinho em taas de cristal. Julia tinha combinado tudo, exatamente do modo como deveria 
ser, decidiu. Ele teria feito o mesmo.
Nesse momento, avistou-a e seu corao acelerou. Sabia que ela seria capaz de fazer o mesmo com pizza e cerveja.
Julia fixou um sorriso nos lbios e assumindo a mscara de anfitri, caminhou at ele para cumpriment-lo.
- Fico feliz que tenha vindo. O que quer beber? Cullum a ouviu se referir a ele como se fosse um conhecido qualquer em vez de seu namorado.
- Uma cerveja?
- Certo. - Ela sinalizou a um garom. - O sr. Murdoch vai querer uma cerveja. Acho que j conhece quase todos, mas ficarei feliz em apresent-lo aos convidados.
- Posso fazer isso sozinho.
- Sem dvida. Como foi o seu Natal?
- Bem. E o seu?
- Maravilhoso! Tivemos uma nevasca leve e agradvel na vspera do Natal.
- Ns tivemos granizo.
- Ah...
Cullum pegou a cerveja que o garom lhe trouxe, agradeceu e tomou um gole. A seguir, notou que Julia estava usando o colar que ele lhe dera de encontro  pele cremosa 
exposta pelo decote do vestido.
- Ficou bem em voc.
- O qu? Oh! - Julia se amaldioou por ceder ante o desejo to sentimental de usar o presente dele. - Sim, foi feito para ser usado com este vestido.  adorvel, 
Cullum. Obrigada por ter se lembrado de compr-lo. E espero que tenha gostado do seu relgio.
O relgio estava pendurado no bolso dele.
- Funciona muito bem. Obrigado.
- Seja bem-vindo. Bem, experimente o buf, bem como os canaps que esto circulando ao redor. Agora, se me der licena...
Nesse instante, a mo dele a segurou pelo pulso.
- Onde diabos est querendo chegar falando comigo dessa maneira?
- No fao a mnima idia do que est querendo dizer.
- No fale nesse tom esnobe, MacGregor. Isso no combina com voc.
-  melhor largar o meu brao, Murdoch.
- No vou largar coisa nenhuma. Quero respostas. Esperei que voc me procurasse, mas j que no o fez, vim aqui para exigi-las.
- Ah, quer respostas, ? - O calor da raiva estava comeando embaar-lhe a viso. - Voc estava esperado por respostas. Certo, que tal esta aqui. - Erguendo a mo, 
ela pegou o copo de cerveja dele e o derramou sobre o seu terno.
Julia arrependeu-se de imediato. Tinha sido uma atitude tola e infantil. Ainda mais que se encontravam em pblico. De repente, percebeu que vrios dos convidados 
que conversavam ao redor pararam e os fitaram. E percebeu tambm, pelo brilho afiado nos olhos de Cullum, que no podia recuar.
- Agora que j tem sua resposta, pode partir.
Julia pretendia se virar, caminhar com dignidade e rir do incidente. Poderia at vir a se lamentar mais tarde, mas, por ora, tinha que manter a pose.
Ela gritou quando Cullum a ergueu e a colocou sobre o ombro. Xingou-o de todos os nomes de que se lembrou enquanto ele a carregava pela escada acima.
No andar inferior, Daniel deslizou um brao ao redor dos ombros de Michael Murdoch, num gesto amigvel. Ento, suspirou e enxugou uma lgrima dos olhos.
- Eles nos daro belos bebs, Michael. Brindemos a isso! - Com um sorrisinho nos lbios, Daniel observou a neta desaparecer no topo dos degraus. - Eu pago a primeira 
rodada.
Cullum marchou direto para o quarto de Julia, ignorando os protestos, os pontaps, o terno molhado e o odor fermentado da cerveja derramada. Ao entrar, fechou a 
porta com um chute, virou a chave na fechadura e a lanou sem cerimnia sobre a cama.
Julia continuou a xing-lo, enquanto ele tirava o palet. Durante todos aqueles anos em que se conheciam e discutiam com freqncia, jamais imaginara que ela podia 
ser to criativa com o idioma. Quando ela comeou a se erguer na cama, ele apenas pousou uma das mos na cabea dela e a empurrou para trs.
- Fique onde est.
- Acha que pode me dar ordens, aps aquela cena horrorosa e revoltante?
- Voc comeou. - E, afinal, aquilo lhe dera uma desculpa para se ver livre da gravata. - No sei o que se passa com voc. Um dia est alegre, no outro est triste. 
Em um minuto faz tudo por mim, no prximo fala como se mal me conhecesse. Nem ao menos se deu ao trabalho de entrar em contato comigo em uma semana.
- No me dei ao trabalho? Eu? Por acaso seu dedo est quebrado, impossibilitando-o de discar um maldito nmero de telefone? - Nesse instante, para o horror de Cullum 
e humilhao de Julia, ela enterrou a face nas mos o desabou num pranto profundo.
- No faa isso. Quero dizer, e com isso agora mesmo.
- Com a pacincia no limite, ele deslizou ambas as mos pelos cabelos. - Certo, sinto muito. Sinto muito de verdade.
- Por qu? - ela perguntou, ainda soluando.
- Por qualquer coisa que queira, desde que pare de chorar.
- Voc nem mesmo sabe por qu. - Querendo acabar com aquilo, Julia limpou as lgrimas que insistiam em lhe escorrer pela face. - Voc nem mesmo sabe. Oh, v embora. 
No o quero aqui enquanto eu fico bancando a idiota.
- Eu j a vi bancar a idiota antes. No me importo. Ora, Jules. - Ele se curvou, pretendendo bater-lhe de leve na cabea ou o ombro. E, de repente, viu sua boca 
procurando a dela. Antes de perceber o que estava fazendo, j havia se sentado na cama e a puxado sobre os joelhos. - Deus, como senti a sua falta!
Julia afagou-lhe os cabelos.
-  verdade?
- Sim,  verdade. - Ele apoiou a testa de encontro  dela.
- E voc sentiu saudades?
- O tempo todo. Acho que lhe devo um pedido de desculpas por ter derramado cerveja no seu terno.
Cullum desejou saber o que havia entre eles para que Julia pudesse faz-lo sorrir naquele momento.
- Voc acha?
- Bem, voc me deixou furiosa. Ento, em parte, tem tanta culpa quanto eu. - Ela retribuiu o sorriso dele com um aguado curvar de lbios. - Mas cuidarei para deixar 
seu terno impecvel outra vez.
- Quer que eu tire as calas agora? - Surpreso, ele percebeu o tremor nos lbios de Julia. - Eu estava apenas brincando.
- Eu sei. Tudo bem. No sei o que h de errado comigo.
- Ela esfregou os olhos com as pontas dos dedos, ergueu-se e se dirigiu ao espelho. - Cenas pblicas e lgrimas no faziam parte do acordo - disse claramente e comeou, 
uma vez mais, a reparar a maquiagem. - Temos um bom relacionamento fsico e uma amizade agradvel. No h motivo para estragar isso, bancando a sentimentalide.
Cullum enfiou as mos nos bolsos, observando-a colocar blush sobre as faces.
- O que quer dizer com bancando a sentimentalide?
- Deixar-se dominar por excesso de sentimentalismo barato. Tenho estado um pouco instvel nos ltimos dias. Devem ser os feriados.
- Fale-me mais sobre isso - murmurou ele. Os olhos de Julia se estreitaram.
- O que isso significa?
- Oua, estamos na vspera do ano-novo, No quero terminar o ano brigando com voc.
- Por que no? Somos peritos nisso.
- Ento por que parou por tanto tempo? Nas ltimas semanas, com exceo do dia em que partiu para Hyannis, no conseguia irrit-la nem se a xingasse. De repente, 
comeou a concordar com tudo o que eu dizia, cozinhava para mim, s faltava acender meu cachimbo e calar-me os chinelos.
- E est contestando? - Insultada, Julia girou ao redor. - Esforcei-me para ser agradvel e agora voc me atira isso na cara. Bem, no se preocupe, porque no o 
aborrecerei mais tentando agrad-lo.
- Graas a Deus!
- E tambm no vou mais procur-lo, porque vou vender a casa e me mudar para Washington - concluiu apressada.
- De jeito nenhum!
- No pode me impedir. No quero viver aqui. No sei por que permiti que voc me persuadisse a fazer as mudanas que me sugeriu. No sei por que o deixei fazer as 
coisas do seu modo.
- Porque era o jeito certo e o modo como fiz ora exatamente como voc queria as coisas. E quero ser mico de circo se a deixarei vender esta casa.
- Pode compr-la j que significa tanto para voc.
- Muito bem, diga o preo. Mas se est pensando que vai se mudar...
- No vou ficar aqui. No posso.
- Voc no vai.
Ambos se encontravam de frente um para o outro, nariz de encontro a nariz, apavorados e furiosos. Tinham as vozes alteradas, mas, ainda assim, levaram vrios minutos, 
antes de qualquer um dos dois ouvir o outro dizer trs palavras especficas, que proferiram quase simultaneamente.
- Eu te amo e no vou ficar aqui e ser infeliz.
- Eu te amo e voc no vai a lugar nenhum sem mim. Julia piscou. Cullum recuou.
- O que disse? - exigiu ele.
- Eu no disse nada. E voc?
- Voc disse que me amava.
Ela tentou engolir, mas seu corao parecia preso na garganta.
- Tambm tive a impresso de ouvi-lo dizer isso. Voc disse?
- E se tivesse dito? - Ele girou nos calcanhares e comeou a caminhar. - Maldio! As mulheres falam tanto que no sabemos o que estamos dizendo quando lhes respondemos. 
E se eu a amasse? - perguntou exasperado. - O que voc faria?
Ele era o homem perfeito para ela, pensou Julia. Absolutamente perfeito.
- Pediria que se casasse comigo.
Ele estacou e a encarou.  primeira vista, Julia parecia notavelmente fria e serena. Mas ele a conhecia, sabia para onde olhar e os olhos dela estavam escuros e 
midos.
- O qu?
- Voc me ouviu, Murdoch. Quer ou no?
Cullum caminhou novamente at ela e por um momento, no silncio, ambos comearam a rir.
- Tenho um anel no meu bolso.
- No.
- Aposta?
Julia inclinou a cabea para um lado.
- Deixe-me ver.
- Era de minha me. - Ele tirou a caixa e abriu a tampa.
- No  um diamante, mas voc gosta de pedras coloridas.
- Oh, Cullum! - Julia ergueu a face e seus olhares se encontraram. - Voc me ama de verdade?
- Eu disse que amava e amo. Se voc tivesse dito isso semanas atrs, como desejava, no teramos desperdiado tanto tempo.
- Eu queria que voc dissesse primeiro. Por que diabos achava que eu lhe preparava o jantar tantas vezes?
- Jules, acredite em mim. S algum loucamente apaixonado comeria aquelas refeies.
Ela tentou parecer insultada mas acabou rindo.
- Se me pedir em casamento, nunca mais lhe farei outro assado.
- Voc j me pediu, mas, dadas as circunstncias, negcio fechado.
Quando Cullum alcanou o relgio no bolso, ela se remexeu impacientemente.
- O que est fazendo? No pode fazer as coisas direito?
- Estou fazendo direito. So onze horas e quarenta e cinco minutos. Faltam quinze minutos para a virada. Vou dar um jeito nisso. - Cullum girou o boto at o ponteiro 
marcar meia-noite.
- Isso  enrolao - disse Julia sorrindo. - Eu te amo, Cullum.
- Voc era tudo que eu queria mesmo sem saber. - Ele afagou-lhe os cachos soltos. - Fizemos esta casa juntos.
- No. - Julia envolveu a mo dele na sua. - Fizemos este lar juntos. Eu no poderia viver aqui sem voc.
- Quero terminar o ano e comear o prximo ao seu lado.
- Cullum levou os dedos dela aos lbios c beijou-os. Formaremos um time e tanto.
- Estou contando com isso.
- Quer se casar comigo, Julia?
- Pensei que jamais pediria. Ela sorriu e o beijou.


Das Memrias Secretas de Daniel Duncan MacGregor

Tenho boa cabea para os negcios. Uma habilidade natural para a arte de negociar. Minha vida tem sido bastante rica. Trabalhei com afinco e joguei. Umas vezes perdi, 
outras ganhei. Negcios - fazer dinheiro  um prazer para mim.
Mas a famlia  a recompensa divina.
Tire at o ltimo tosto de meu bolso, mas deixe-me minha famlia e morrerei como um homem rico.
Quando iniciei estas memrias, tinha esperanas e planos, esquemas, alguns diriam, mas que diabos me importo com o que os outros dizem para minha famlia.
Bem, fiz aquilo que me propus a fazer. Laura  uma mulher casada e feliz, uma linda me. Ela e Royce esto construindo uma boa vida para eles e para meu precioso 
Daniel MacGregor Cameron. Oh,  um menino! Um brilhante e vigoroso garoto. Sangue bom. Linhagem forte.
Nada me d mais prazer do que ver como Royce  louco pela criana ou como Caine tem prazer em ser seu av. E Royce e Caine esto como unha e carne. Eles desenvolveram 
uma bela amizade originada pelo amor que ambos sentem por Laura.
 claro que nunca duvidei disso.
Gwen e seu Branson esto aguardando a chegada de um beb a qualquer momento. Ela est um pouco inquieta, eu sei, por ter que se afastar do hospital. Mas Anna  a 
primeira a dizer-lhe que ela pode conciliar a carreira e a famlia e sair-se muito bem em ambas.
Branson no sai de perto dela - nem para fazer o tour para o lanamento de seu livro. Fiquei tentado a dar-lhe uma surra de correia caso ele tentasse. E tono fez 
alguma diferena? Ah! O livro tornou-se um best seller no minuto em que saiu do prelo. Esse rapaz  um bom contador de histrias. Mantm-me acordado at tarde da 
noite lendo suas histrias sobre a doutora assassina e seu cauteloso detetive brincando de gato e rato e se apaixonando. Quem poderia imaginar que ela iria se matar 
no final em vez de viver a vida com o nico homem que tocou seu corao negro e problemtico?
Ah, bem, o amor  que importa afinal.
Agora, minha Julia e seu Cullum esto tocando a vida na casa que construram juntos em Beacon Hill. Eles ainda se arranham e eu ficaria preocupado se isso no acontecesse. 
Existe tanta paixo entre aqueles dois! Um casal perfeito, no me importo em dizer. Espero ouvir a notcia de que um beb est a caminho em breve.
E, se isso no acontecer, vou querer saber o motivo.
Ela estava uma noiva magnfica. Alta, linda, elegante. E houve um momento, quando estava ao lado de Cullum, pegou sua mo e seus olhos se encontraram. Eles sorriram 
um para o outro. A felicidade saindo por todos os poros. Um momento em que eu pude sentir meu corao encher-se de alegria e de orgulho por ter contribudo para 
isso.
Agora, o vu dos MacGregors vai ser outra vez embalado e aguardar. Mas no tenho inteno de deix-lo l por muito tempo.
J est na hora de meus netos comearem a fazer a parte deles. Dei-lhes tempo para se divertirem um pouco. Afinal, um homem precisa de alguns anos de experincia 
da cintura para baixo antes de tomar uma esposa e formar uma famlia.
Mas vamos encarar os fatos. No vou viver para sempre. At agora fui sutil com Mac. Ele  o mais velho dos meus netos. Mas ser que ele entendeu a dica? Bem, precisamos 
dar-lhe um empurrozinho.
Eu me sa bem com minhas trs netas, mas no sou homem de ficar sentado sobre os louros da vitria. Vou ver o resto deles casado e o crculo completo antes que chegue 
a hora de partir.
Isto  uma promessa. Palavra de Daniel MacGregor.
Nora Roberts - Instinto do Amor
(Destinos 66)





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Projeto Revisoras
